quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O surreal Tim Curry


Por que nos lembramos de certos artistas só de mencionar o sobrenome, enquanto outros precisamos pesquisar no google por mais informações? Digo isso, pois toda vez que lia o nome do ator Tim Curry - que faleceu hoje, aos 80 anos - e não via a sua imagem junto da matéria eu precisava fuçar em algum site de busca para ligar o nome à pessoa. E acreditem: acho isso uma sacanagem, porque ele era um puta artista. Marcou minha adolescência como poucos. 

Acho praticamente impossível dissociá-lo da imagem que ele próprio construiu com o Dr. Frank-N-Furter, personagem síntese do antológico musical The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman. Mais do que isso: ele era a "alma" do filme, que foi dos Midnight movies à peça cult para milhões de cinéfilos enlouquecidos. 

Outro trabalho marcante do ator, com certeza, foi o Pennywise da minissérie It: a obra-prima do medo, de Tommy Lee Wallace, feita para a HBO. Eu, que sempre fui fã de palhaços descontruídos como serial killers e psicopatas, nunca mais encontrei nada que chegasse sequer perto dessa versão aqui.

Contudo, se iludem aqueles que acreditam que a sua carreira se resumiu apenas a esses dois grandes papéis. Tim Curry, como disse em parágrafo anterior, marcou profundamente minha juventude, bem como de toda a minha geração (leia-se: a galera que vivia entrando e saindo das videolocadoras de bairro, um fenômeno que vem sendo trazido de volta, aos poucos, por uma legião de nostálgicos cada dia mais irritados com os serviços de streaming, o fim da mídia física e outras escolhas terríveis de mercado quando o assunto é distribuição e home vídeo). 

Se você hoje está próximo dos 50 (como eu), certamente se deparou com Curry em produções como Annie (de John Huston), A lenda (de Ridley Scott), A caçada ao outubro vermelho (de John McTiernan, do clássico de ação Duro de matar), Minha filha quer casar (de John Landis), Esqueceram de mim 2: perdido em Nova York (de Chris Columbus), Máquina quase mortífera (de Gene Quintano), Os 3 mosqueteiros (de Stephen Herek), O sombra (de Russell Mulcahy, uma adaptação em quadrinhos precursora de muita coisa feita pela DC anos depois) e Congo (de Frank Marshall). 

Já no departamento dublagem (e também narrações), eu poderia passar o resto da vida aqui e sequer arranharia a estrutura de tudo o que ele fez em termos de voz: de Batman à Eek, o gato; de A família dinossauro à Alladin; de A pequena sereia à Sonic; de Tom e Jerry aos Muppets; de O máskara à Carmen San Diego; de Scooby-doo à Johnny Bravo...

O garoto inglês que se formou em Teatro e Inglês na Universidade de Birmingham e estreou nos palcos numa versão londrina do musical Hair teve mais de 200 créditos ao longo da carreira (procurem no IMDb por mais detalhes, fanáticos de plantão!) e certamente deixará - muitas - saudades. Deixo aqui minhas condolências à amigos e familiares. Ele era foda (vou mais além: era surreal, na forma como conduziu sua vida e carreira). E seu olhar cínico, debochado, cheio de sarcasmo quando a câmera focava nele, nunca se apagará de minha mente. Vai com Deus e descanse em paz, mestre!


domingo, 23 de agosto de 2026

30 anos sem Gene Kelly


Parece piada (de humor negro), mas não é. Hoje vi no x - antigo twitter - um post sobre o aniversário do ator, cantor e dançarino Gene Kelly que nos deixou há... Três décadas! Engoli em seco. Como assim Gene Kelly já nos deixou há 30 anos? Os deuses do cinema, certamente, estão rindo sarcasticamente neste exato momento. E imediatamente eu sinto vontade de reassistir mais uma vez um clássico desse eterno mestre da dança.

Eugene Curran Kelly era descendente de irlandeses e oriundo de Pittsburgh, Pensilvânia. Veio para hollywood em 1941 quando a Metro-Goldwyn-Mayer era O estúdio e ditava tendências na arte cinematográfica. Ele era competitivo e exigente ao extremo com o seu trabalho (como deveria ser!) e, ainda assim, exibia um otimismo e uma energia típica dos grandes do seu meio. 

Ao lado de outro mestre, Fred Astaire, dividiu as atenções sobre quem seria o melhor no quesito dança e teve até crítico de cinema que perdeu tempo debatendo sobre o tema. Na boa... Que pergunta indigesta e sem sentido! Tanto quanto quem foi melhor no futebol: Pelé ou Maradona? Só imbecis perdem tempo com isso.

Entre seus inúmeros sucessos, gosto sempre de citar Marujos do amor (1945), do trio George Sidney, William Hanna e Joseph Barbera (sim, aquela dupla das animações); O pirata (1948), de Vincente Minnelli; Um dia em Nova York (1949), que dirigiu com Stanley Donen; Sinfonia de Paris (1951), de Vincente Minnelli (vencedor de 6 oscars); Cantando na chuva (1952), nova parceria com Stanley Donen; e Xanadu (1980), de Robert Greenwald, que curiosamente é o primeiro dele que assisti, ainda adolescente, ao lado da atriz e cantora Olivia Newton-John (que era uma crush minha dos tempos de VHS).

E mais do que a cena que o eternizou, dançando na chuva numa rua vazia, era um deleite aos olhos vê-lo exercitar seu ofício. E tenho um fetiche pessoal quando se trata de Kelly: sua parceira com o também inacreditável Donald O'Connor em Cantando na chuva é a prova viva do brilhantismo que eram os musicais nessa época. Tínhamos, às vezes, a sensação de que eles seriam capazes de voar ou dançar até de cabeça para baixo. Simplesmente sublime!

Sucessivos derrames cerebrais o tiraram de nós em fevereiro de 1996. Nunca mais vê-lo andando de patins no clube Xanadu ou dividindo seu talento com Debbie Reynolds ou Judy Garland. A vida no showbiz é realmente injusta! Em 1952 ele ganhou um Oscar honorário. Em 1996, ano de sua morte, a Academia lhe prestou uma singela homenagem com o tap dancer Savion Glover reeditando sua cena famosa na chuva. Foi, aliás, a partir desse dia que eu passei a procurar com mais afinco por seus longas nas locadoras de vídeo. 

Hoje? Não há mais Kelly, nem Astaire, Garland, Cyd Charisse (as mais belas pernas de hollywood), Donald O'Connor, Ray Bolger (o eterno espantalho de O mágico de Oz) e a broadway virou um pastiche de si mesma. Logo, restou ao cinema americano sobreviver de superheróis vazios e personagens sobrenaturais babacas. Que triste sina! Ah, mestre... Se você pudesse ver o que fizeram com a meca do cinema, certamente estaria chorando agora. Eu estou. E um dos motivos é por saber que já são 30 anos sem o seu carisma e talento. Fazer o quê.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

As duas damas


Olha... Que porrada! Duas de uma vez, não tem fã que aguente. A dramaturgia e a arte brasileira em geral perdem duas de suas maiores damas. Nesta terça-feira nos despedimos de Laura Cardoso e Glória Menezes, e aumentamos ainda mais aquela lista que já ficou famosa aqui neste blog de artistas insubstituíveis que partiram. 

Alguns artistas são magistrais, tanto que os seguimos apaixonados para onde quer que eles vão. Contudo, existem aqueles que nasceram para ser lendas. São inigualáveis naquilo que fazem. E por isso, nunca ficamos esperando que eles tenham sucessores (até porque dificilmente isso realmente acontecerá - e, na boa, está tudo bem, eu já entendi essa parte). Laura e Glória fazem parte desse seleto grupo. 

E basta ouvir seus colegas de profissão e, principalmente, de geração, para entendermos que não fomos os únicos a entender isso. Vejo um depoimento do ator Tony Ramos, emocionado, para o jornal da Globonews, e aquilo simboliza tudo o que eu penso sobre Laura e Glorinha. Fico imaginando gigantes da TV - como Suzana Vieira, Lima Duarte, Ary Fontoura, etc -, sabendo da notícia e refletindo sobre a perda que isso acarretará para a nossa cultura. 

Sim, elas eram sublimes e nada do que digam ao contrário me fará mudar de opinião.

Descobri a força de Laura antes, por causa dos desenhos animados. E vocês me perguntam o porquê. Ela era a voz da Betty, a esposa de Barney Rubble na animação Os Flintstones, que os programas infantis adoravam exibir. Já Glória, eu vi pela primeira vez como a Roberta Leone da inesquecível Guerra dos sexos, e ela me ganhou logo de cara. Ela não era só a esposa de Tarcísio Meira, o João Coragem. Não, senhor! Tinha luz própria - e muita.  

Entretanto, levando-se em consideração toda a carreira de ambas, eu sempre me lembrarei de Laura por causa de Dona Guiomar, a sogra possuída pelo espírito do filho morto, que infernizava a vida do genro (vivido por Miguel Falabella) na novela A viagem, e também por sua cena magistral como Manuela no filme Terra estrangeira, de Walter Salles, no qual ela enfarta e morre em frente à tv após a notícia do confisco da poupança durante o governo Collor. E Glória... Como esquecer da eterna Laurinha Figueroa, de Rainha da Sucata, e da Rosa - esposa de Zé Burro - em O pagador de promessas, Palma de Ouro em Cannes em 1962?

Ao fim, sobram as homenagens, as lembranças, revemos trabalhos antigos no you tube, certamente o Canal Brasil as homenagearão (elas fizeram muita coisa também no cinema), rememoramos seus sorrisos, suas gargalhadas, suas facetas mais sérias. Ambas fizeram rir e chorar como ninguém. Como poucos. Uma pena. A tv e o país ficam bem mais tristes hoje, duplamente. 

Onde quer que estejam, que fiquem em paz. Pois pela vida que tiveram, vocês certamente merecem. 


domingo, 16 de agosto de 2026

Bichos não tão escrotos assim


A presença do cover na indústria fonográfica é muito bem vinda, não tem nada de mais em exaltá-lo. Trata-se de uma nova performance ou regravação de uma música feita por um artista que não é o autor ou o intérprete original da faixa. Já houve, inclusive, casos em que o cover é infinitamente melhor do que a canção original. Lembro de ouvir Whitney Houston cantando "I will always love you" na trilha sonora do filme O guarda-costas e depois conhecer a faixa original, e pensar: "sim, ela não só reinventou... ela salvou a música". Logo, não demonizemos o formato. 

Nos últimos dias andaram falando bastante sobre o cover de "Bichos escrotos", hit da banda Titãs, do álbum histórico Cabeça dinossauro (fase áurea da banda). Fui correndo ao you tube e encontrei o clipe rapidamente. Ao fim da audição, uma tremenda decepção, broxante mesmo. Sim, também é preciso dizer: às vezes o cover destrói toda a história de uma música, muito pelo fato dela estar ligada de forma quase mediúnica com um período da história. 

Vi algumas pessoas da crítica especializada e, especificamente, um colunista da Rolling Stone, dizendo se tratar mais de um viral, uma forçada de barra, do que propriamente um registro digno de nota. E ele está certo. Não tenho nada contra Anitta, a cantora da versão que tomou a internet (nem sou fã do estilo musical dela, é bom ir logo deixando claro!), mas não me parece que ela seja a pessoa mais adequada para assumir uma responsa dessas. 

Sim, é uma responsa. 

"Bichos escrotos" é daqueles momentos do rock brasileiro (e também da MPB) em que você sente prazer em ouvir um sonoro esculacho, um gigantesco desabafo. Assim como na canção Que país é esse?, da banda Legião Urbana, aguardamos o momento em que a frase que dá título à música é proferida para dizer "é a porra do Brasil", em Bichos também esperamos ansiosos por aquele momento foda-se, em que podemos colocar toda a nossa revolta para fora. 

E por mais que Anitta seja um expoente do funk (embora bem mais Kondzilla do que Furacão 2000 e, sim, há um enorme diferença!), ela não possui a coragem e o "culhão" necessários para vender a verve que a música almeja. "Bichos escrotos" é, praticamente, um hino oficial daquelas pessoas putas, que não aguentam mais os mandos e desmandos de um sistema podre, falho, corrupto, e veem na letra seu último resquício de enfrentamento à ordem social. 

E do outro lado dessa equação vemos uma geração - da qual Anitta faz parte - que não está antenada com esse desejo de rebelar-se. Parece mais afeita ao mundo dos negócios, do status, do glamour, tudo o que a música em questão não prega. Pelo contrário. Sei que vou ser detonado de tudo quanto é lado pela imensa legião da fãs da cantora (e eles sabem ser cegos e persistentes o quanto podem!), mas acreditem: a cantora e a canção não deram match, sorry! E às vezes isso também acontece, mais até do que vocês imaginam. Quem sabe no próximo. 

Não será a primeira, nem a última vez, que rainha do baile das poderosas e a girl from rio, passará por isso na carreira. E ela já está até calejada nesse sentido. E, sim, eu precisava fazer esse post, pois não dá pra gostar de tudo só porque os outros gostaram. Os bichos, dessa vez, não eram tão escrotos assim... 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Mulher de todos e de ninguém


Algumas atrizes sacramentaram o conceito de musa no cinema mundial. Assim foi Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Claudia Cardinale, Elizabeth Taylor, Judy Garland, Sônia Braga, Diane Keaton e tantas outras. Eu poderia incluir Helena Ignez nessa lista (com folga), mas cá entre nós: isso não explicaria, sequer arranharia, a superfície do que ela é. E como é bom ver isso tudo muito bem representado na Ocupação Helena Ignez, que ocorre no Itaú Cultural, em SP, até 18 de outubro.

Eu me tornei fã de Helena por acidente (acidente, não; e sim porque, lá atrás, ela foi parceira de dois dos maiores nomes da história do nosso cinema: Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. E isso, por si só, era para mim um puta cartão de visitas). Ao vê-la como Sonia Silk em Copacabana Mon Amour, eu tive uma certeza: estava diante de uma artista incomum, e nenhum rótulo conseguiria defini-la. De jeito nenhum. 

Helena trabalhou em 77 longas (obras seminais como Assalto ao trem pagador, O padre e a moça, O bandido da luz vermelha, A mulher de todos, Sem essa, aranha, Nem tudo é verdade, O signo do caos, etc), dirigiu outros 11 (dentre os quais, recomendo com força A miss e o dinossauro, Luz nas trevas: a volta do bandido da luz vermelha e A moça do calendário) e interagiu no teatro, na política, na sexualidade, na espiritualidade, na vida como um todo. E, ainda assim, parece quase impossível dar-lhe uma definição derradeira. Ela é múltipla no melhor sentido da palavra. 

Vejo essa senhora como um estupendo exemplo do que deveria ser todo artista. Como bem diria Raul Seixas: uma metamorfose ambulante. Sem papas na língua, ácida, sabendo de antemão o que quer - e principalmente: o que não quer -, ela construiu uma carreira sólida e cheia de nuances. Junto com Sganzerla e Bressane foi além e nos entregou a Belair, sinônimo de radicalismo e autoralidade cinematográfica numa época em que simplesmente emitir uma reles opinião já era o maior pecado. Helena causou (e muito). Graças a Deus!

A exposição no Itaú cultural reúne fotografias, documentos, trechos de filmes e materiais inéditos que revelam a atuação de Helena diante e atrás das câmeras, além de uma publicação virtual e um site cheio de conteúdo, para dar e vender. Quem quiser saber mais, muito mais, acesse: https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/helena-ignez/.

Seu sobrenome? Com certeza, deveria ser liberdade. Criativa, de pensamento, de viver sem freios. Eu poderia passar o resto do dia, da semana, do mês, do ano, aqui, escrevendo, falando exclusivamente sobre ela, e ainda assim faltaria muita coisa para dizer. Ela era a mulher de todos, e de ninguém. Parte indecifrável; parte mágica, ímpar, única. Grande Helena. Fantástica Ignez. Longa vida a você, antimusa!

E quanto a vocês, que leram esse mísero post que tenta homenageá-la, pelo amor de Deus, vão conhecer a Ocupação. Aquilo ali é a história do audiovisual brasileiro, que merece ser exaltado, lembrado, relembrado. Não importa o quanto queiram difamá-lo. Não desperdicem essa chance. Talvez vocês não tenham outra. 


terça-feira, 4 de agosto de 2026

O mundo é uma pista de dança


Quase esqueço de comentar Confessions II, novo álbum da Madonna que vem despertando o interesse do público no último mês. Andei lendo, ouvindo e vendo tanta coisa (boa e também descartável) que deixei o time disso aqui passar. Mas quer saber? Melhor assim. Fujo das opiniões tanto dos detratores da diva pop quanto dos elogios vazios dos fanáticos admiradores sem critério. Acreditem: o ideal hoje, do jeito que o mundo está, é ficar no meio-termo. Sobre tudo. 

Confessions II é a melhor coisa que a material girl produziu nos últimos anos - e com folga. Não deve nada ao álbum original, lançado em 2005 e que já trazia uma Madonna bastante à vontade, despudorada como só ela. Aqui, em alguns momentos, achei as letras até mais diretas, incisivas, sobre os temas que a cantora tanto gosta de martelar (e incomodar) os incautos por natureza. 

Madonna correlaciona o mundo com uma pista de dança, chegando a chamá-la até de um ritual (como fica expresso na canção "One step away"). Ela diz, sem rodeios e firulas, estar aberta a uma nova persona, livre, repaginada. Portanto, esqueçam sua versão antiga. O que a diva deseja mesmo é recomeçar do zero, antenada com este novo mundo que vai se mutilando dia a dia, ano a ano, nos forçando por vezes a tomar atitudes radicais. 

Consciência é uma palavra que povoa muito seu novo trabalho. E mais: ela não quer saber da opinião que as outras pessoas têm sobre ela e mais do que certa ela está. A humanidade anda por demais cretina para que nós a levemos a sério. Ela deseja o seu amor e não suas críticas (e canta isso em alta voz, ao lado de Sabrina Carpenter na ótima "Bring your love").

Há um momento metralhadora anti-sistema no álbum, quando ela acusa os falsos modelos de ética da sociedade, pessoas que só sabem mentir e desejar o pior ao outro. E é nesse momento que a pista de dança é fundamental, para exorcizar esse pensamento. Somente nela, vivenciamos o território da liberdade (trata-se de "Danceteria", que é praticamente a Vogue desse novo álbum).

Entre os mantras propostos por Madonna nesse novo disco estão premissas como "viva de olhos abertos", "encontre a luz para a sua vida", "fuja da escuridão cotidiana". E o principal: o papel do amor nessa equação pra lá de louca e exuberante. Ela diz em "Bizarre" - no qual menciona o casamento com o ator Sean Penn - que "o amor é a coisa mais estranha do mundo". Já em "Love without words", convida o ouvinte a ouvir o amor que vem de dentro, que paremos de aprender com o que vem de fora. E em "Love sensation" explicita o amor como uma droga da qual não consegue se libertar.

Ao fim, ela enaltece que não estava perdida esses anos todos, e sim apenas despedaçada por aqueles que tentaram colocá-la no chão, submissa (mas não conseguiram). E na música que encerra essa experiência quase psicodélica, "L.E.S girl", ela constrói uma crônica sobre uma garota independente que vive intensamente, um dia de cada vez. Tudo que ela vem mostrando ao mundo desde os anos 1980. E ela conseguiu de novo!

Ouçam. Quantas vezes forem necessárias. Saber que ela ainda está entre nós é um alento em meio a tanta mesmice, tanta mediocridade musical. Logo, não pode ser desperdiçado. De jeito nenhum. 


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Purgatório da beleza e do caos


Muito antes do diretor hollywoodiano Quentin Tarantino nos entregar sua obra-prima Pulp Fiction (vencedora da Palma de Ouro em Cannes), um mineiro de Belo Horizonte nos apresentou sua versão tupiniquim e desaforada do mesmo universo - guardadas as devidas proporções e culturas de ambos os países. Seu nome? Neville D'Almeida. E o filme? Matou a família e foi ao cinema

E é bom ir logo deixando claro que o longa (que completa 35 anos de existência em 2026) é um remake do clássico dirigido por Júlio Bressane em 1969. Contudo, aqui ele parece bem mais turbinado e ousado, para os padrões de qualquer época (mas principalmente no início dos anos 1990)

Quando Fausto Fawcett, na canção Rio 40 graus, se refere à expressão "purgatório da beleza e do caos" para mencionar a cidade maravilhosa, é exatamente sobre essa metáfora que o diretor aponta seu holofote ao mostrar a degradação da sociedade e dos costumes naquele período. Matou a família e foi ao cinema é o retrato da falência moral, que só faz crescer de forma galopante com a chegada das novas gerações (leia-se: a geração advinda da internet e das redes sociais). 

Bebeto (Alexandre Frota) é o estereótipo do vagabundo por vocação. Não estuda, nem trabalha, e vive tomando esporro dos pais, que o consideram um peso morto na família. Cansado de ser massacrado pelas críticas e a verdade dolorosa, ele os assassina a facadas. E logo a seguir, tranquilamente, adentra uma sessão de cinema. Lá se depara com vinhetas e microfilmes que expõem a nu a realidade atroz da sociedade brasileira. 

Os filmes que Bebeto assiste no cinema são como a enciclopédia das taras humanas proposta por Tarantino em seu longa. A diferença? Enquanto na produção hollywoodiana, máfia, violência e jogos de poder ditam a trama frenética, aqui o que vemos é um desmascaramento do convívio humano em meio à sexualidade aflorada, o eterno niilismo de uma população que vivia em meio à recessão e o eterno falso moralismo das elites. 

As socialites Márcia (Cláudia Raia) e Renata (Louise Cardoso), reféns de casamentos monótonos e uma rotina preguiçosa, quando o que desejam de fato é viver sem rédeas, num "delírio eterno". Levam seu libertarismo a tal extremo que acabam por provocar a própria tragédia que as consumirá. O abominável ladrão de calcinhas (Guará Rodrigues), figura mítica e torpe que atacava mulheres lindíssimas, no meio da rua, requisitando suas roupas íntimas. E as colegiais lésbicas, vivendo um amor proibido e censurado pela mãe de uma delas, eterna defensora da moral e dos bons costumes. A trinca de narrativas compõe um grande ensaio sobre o desespero e a eterna hipocrisia que sempre reinou nesse país, e só fez crescer em tempos de liberalismo fajuto. 

Ao fim dessa tragédia urbana, regada à citações ao poeta Paul Verlaine e até mesmo a pequena notável, Carmem Miranda, e cenas sexuais estilosas, o que se percebe é que o cinema brasileiro daquela época (tempos de Embrafilme indo pro ralo no Governo Collor e falta de perspectivas) mostra um Rio de Janeiro decadente que não é muito diferente do de hoje e, provavelmente, o de amanhã também.

Logo, só nos resta rezar - e muito! - por dias melhores. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

O eterno Barretão


Leio a matéria no G1 e na mesma hora fico triste. É... O Barretão partiu. O quê? Você se diz cinéfilo de carteirinha e não sabe quem é o Barretão? Putz! Tá mal então... Luiz Carlos Barreto - que nos deixou órfãos de bom cinema aos 98 anos - é, nada mais nada menos, do que o produtor de cinema mais famoso do Brasil. Digo mais: sua história se confunde com a do audiovisual brasileiro, mais ainda: com a da cultura popular do nosso país. Através dos filmes que produziu ele nos contou histórias que perfazem um grande mosaico do que é a nossa sociedade. 

Antes disso, contudo, não se pode esquecer do fato de que ele também foi um fotógrafo de mão cheia (da revista O cruzeiro, onde fotografou de estrelas de hollywood ao ditador Fidel Castro), de olhar apurado, atento às mazelas dessa nação e do mundo. E isso em muito contribuiu para a carreira que ele viria a consolidar depois. Descobriu o cinema aos 12 anos, quando viu Orson Welles no Ceará filmando Jangadeiros para um documentário, durante o governo Vargas. Costumava dizer sempre que "O cinema é uma coisa útil, e não uma coisa fútil", frase que virou sua marca registrada (e deveria ser melhor interpretada por parte da geração que faz cinema hoje em dia). 

Falar de sua carreira daria uma grande tese de doutorado ou livro de referência, tantos foram os sucessos de bilheteria e crítica no qual esteve envolvido. Começou de cara com dois filmes emblemáticos: Garrincha - alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade e Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos. E se somente por esses dois medalhões você acha que ele não precisaria apresentar mais nada, é porque não conhece o restante do trabalho dele. 

A hora e a vez de Augusto Matraga, A grande cidade, O padre e a moça, Terra em Transe, Capitu, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, Como era gostoso o meu francês, Dona flor e seus dois maridos (por muitos anos, a maior bilheteria da história do cinema nacional), A dama do lotação, Bye Bye Brasil, O beijo no asfalto, Menino do rio, Memórias do cárcere, Ele, o boto, Luzia homem, O quatrilho e O que é isso, companheiro? (ambos indicados ao Oscar de melhor filme internacional), Bossa nova, A paixão de Jacobina, O caminho das nuvens... Ufa! Ele era uma lenda. 

Lembro de quando assisti um documentário sobre a vida dele, exibido no Canal Brasil não faz muito tempo. Tive a certeza de estar diante de um homem do seu tempo (e também à frente do seu próprio tempo). 

Barreto viveu a glória do cinema novo, bem como os anos do governo Collor (que extinguiu a Embrafilme). Conviveu de perto com a ditadura e toda a repressão, mas também teve a honra de ver o renascimento da sétima arte brasileira com a retomada, iniciada com Carlota Joaquina: princesa do Brasil, de Carla Camurati. Chorou, sorriu, venceu, perdeu, insistiu, tentou de novo, reiniciou tantas vezes e não abandonou a luta. Por isso seu nome estará sempre nos anais da nossa cinematografia. 

E, infelizmente, é mais um capítulo da série "não deixou um sucessor à altura" na história da cultura popular brasileira. Vai fazer falta - e muito! -, principalmente no momento atual que o nosso cinema vive, reconhecido no exterior com premiações inéditas, e precisando de um legado. Vai em paz, Mestre! Certamente tem alguma coisa magistral pra você produzir lá em cima...


domingo, 19 de julho de 2026

Deusa? Hummmm...


Quadrinhos é provocação (e certamente não é literatura). Levo sempre isso em consideração quando leio mais uma graphic novel. E gosto de ler um pouco de tudo: de turma da Mônica, do Maurício de Sousa à Moebius e Milo Manara. Mas nada, absolutamente nada, é mais importante para mim no formato do que um autor que subverta qualquer remota possibilidade de expectativa. É preciso transgredir para entender de fato o que é a nona arte. E foi exatamente isso que Rafael Campos Rocha fez ao produzir sua HQ Deus, essa gostosa

Falar de Deus já é, por natureza, procurar sarna para se coçar. Os haters estão logo ali, na esquina, esperando você dizer isso aqui dele, e bum! atacam como chacais. Imagine então Deus como uma mulher negra, no apogeu da sua sexualidade, dona de uma sex shop (isso mesmo que você leu) e, ainda por cima, trocando altas ideias num bar com Satã. Pronto! A terceira guerra mundial está instaurada. 

Ao longo de toda a leitura fiquei pensando em Je vous salue, Marie, do cineasta Jean-Luc Godard, outro marco da transgressão (esse da sétima arte). HQ e filme certamente incomodam pelos mesmos motivos, embora sejam narrativas completamente diferentes. O Deus de Rafael Campos ao mesmo tempo que tenta entender a humanidade, sabe que muito do que aí está, do que chamamos de civilização, já é um caso perdido. E, claro, por culpa do próprio bicho-homem.

A Deusa em voga aqui não cria delírios, teorias conspiratórias ou mesmo teses motivacionais para justificar a decadência do mundo. Ela simplesmente segue o fluxo (o que, aliás, é o mais certo a fazer, tendo em vista a existência do livre arbítrio. Cada um que lide com as consequências de suas próprias - e errôneas - escolhas).

Na grande conversa de botequim entre Deus e Satã, me soou em alguns momentos um clima de O sétimo selo, clássico atemporal do cinema mundial dirigido por Ingmar Bergman. A única diferença? Sai o tabuleiro de xadrez, entram os copos de cerveja. Com direito à punguista roubando carro à luz do dia, na cara dura, e tudo. Mais outsider do que isso, impossível. 

A graphic novel é curta, poucas páginas e diálogos, em preto-e-branco, com traços primários (chego até a avisar aos desavisados: o roteiro é bastante superior a arte - tendo em vista que o autor da obra é um artista plástico e não um quadrinista de carreira). Contudo, é justamente nessa simplicidade que reside a grande força do trabalho. Rafael não se esmerou por produzir um espetáculo em arte sequencial. O que ele quer, realmente, é provocar uma discussão sobre os rumos da fé na atual sociedade. 

E nesse quesito, ele mata no peito e chuta pro gol, indefensável para o goleiro. Em tempos de fanatismo religioso extremo e bitolados pela própria crença convertendo pelas ruas impunemente, vale a pena refletir sobre os malefícios da cegueira espiritual (um tema que merece ser mais debatido nesse século XXI espinhoso e confuso). Recomendo o álbum para os interessados em se abrir para novas posturas, cansados de totalitarismo e opressão. Já os eternos inquisidores da manipulação, na boa... deixem isso aqui em paz. Não é para vocês. 

Uma das grandes surpresas arrebatadoras que eu tive nesse ano de 2026 no segmento cultura pop. Procurem, antes que o mercado editorial dê um sumiço nela por conveniência!


domingo, 12 de julho de 2026

Eles estão mais rock do que nunca!


Por mais que o gênero não esteja mais tão presente nas rádios como em outros tempos, nunca duvide do rock n' roll. E principalmente: nunca - sob hipótese alguma - duvide dos Rolling Stones. Não é à toa que eles são a maior banda de rock em atividade. Prova disso é o seu novo álbum, Foreign Tongues (O vigésimo quinto de estúdio e segundo nessa última década, ao lado de Hackney Diadmonds), que traz de volta o espírito do ex-quarteto, agora um trio, após o falecimento do baterista Charlie Watts. 

Vou mais além: desde Voodoo Lounge - cuja turnê passou aqui pelo Brasil, inclusive - eu não saía tão empolgado de uma audição dos Stones. Eles reencontraram a velha fórmula, a acidez sonora necessária e souberam procurar parceiros musicais também interessantíssimos e pra lá de afinados.

Aqui, é possível ouvir um pouco do eterno Beatle Paul McCartney (no baixo), de Robert Smith (vocalista do The Cure), de Chad Smith (baterista do Red Hot Chili Peppers) e até do astro pop Bruno Mars (que toca uma campana em "Never wanna lose you"). Isso sem contar o cover cereja do bolo de "You know I'm no good", de Amy Winehouse, do extraordinário álbum Back to Black.  

Há tanto do que gostar nessa nova empreitada do grupo que eu chego a ficar perdido. Da provocação à Elon Musk em 'Mr. Charm' à excelente "Rough and Twisted" abrindo os trabalhos com todo o suingue que é o que lhes consagrou após tantas décadas. De "Jealous Lover" (e um falsete que parecia impossível, se pararmos para pensar que Mick Jagger já chegou aos 82 anos, mesmo sem perder o rebolado) à "In the stars", "divine intervention" e a melódica "Covered in you". 

E o álbum ainda nos presenteia com uma versão crua de "Beautiful Delilah", do indefectível - e indispensável - Chuck Berry, que remete aos mais puro sentimento de nostalgia, nos fazendo lembrar daqueles jovens britânicos viciados em rebeldia e guitarras distorcidas. E paro por aqui (é lógico), pois quero que os leitores desse mísero post ouçam o trabalho de cabo a rabo, de preferência mais de uma vez. 

O maior legado de Foreign Tongues, certamente, é o dos ouvintes se reencontrarem com a banda (o que, no meu caso particular, é algo que eu já almejava há quase duas décadas, pois vinha achando seus últimos álbuns bem a quem do que os caras são capazes de fazer). E mais do que isso: é a prova viva de que, não importa a idade dos integrantes, nunca é tarde para calar a boca dos críticos e haters e provar por a mais b que você ainda pode ocupar o lugar mais alto do show business. 

Agora resta esperar que a nova turnê venha (e na boa... certamente virá, eles são incansáveis, workaholics). Aguardemos, ansiosos, as apresentações ao vivo, que são sempre um capítulo à parte na carreira da banda. Resultado final dessa experiência sonora e musical: sim, eles estão mais rock do que nunca. Se permitam ouvi-los ainda mais uma vez!


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Acabou o sonho... de novo!


Embora não tenha assistido a nenhum jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo pelo SBT, já imagino o eterno Galvão Bueno proferindo a sua clássica frase "Acabou o sonho!" depois da desclassificação do Brasil para a seleção da Noruega ontem, num jogo onde faltou tudo: garra, entrega, tesão, habilidade, coragem, culhões. Resultado: nossa seleção fez sua pior campanha na competição desde 1990, na Itália, quando foi vencida pela Argentina também nas Oitavas-de-final. 

Contudo, o mais triste dessa desclassificação é aquele sentimento de que "já vimos esse filme outras vezes e nenhum sinal de mudança parece à caminho". Já começa, inclusive, a surgir na internet e nas redes sociais uma definição para este grupo que vem representando o Brasil na Copa nos últimos anos: geração tik tok (muito mais interessada em status, engajamentos, publis e fama efêmera, deixando o futebol em segundo plano). 

Infelizmente, definição melhor não há para esses "jogadores"(as aspas são intencionais). O Brasil foi pentacampeão mundial, sim, no passado... Continuar escondendo-se atrás desse rótulo é de uma temeridade - e de um arrogância - sem tamanho. Chega a ser até vil, dependendo do ponto de vista que se olhe. A própria expressão "o país do futebol" tão alardeada nessa época do ano precisa ser revista urgentemente, principalmente pela geração que nunca viu nossa seleção ser campeã de nada. 

A Copa encerra para o Brasil e dá lugar aos especuladores, especialistas, aspones, oportunistas de plantão e outras figuras que são notórias em nosso país na arte de fazer o nome em cima da tragédia alheia, cada um com uma solução na ponta da língua. "Precisamos mudar tudo", "Temos que voltar a jogar como brasileiros", "Não dá mais para copiar o modelo europeu de futebol". O treinador, que neste último ciclo foi estrangeiro (e, em tese, permanecerá até 2030) entrará na linha de tiro dos revoltados (principalmente os técnicos brazucas que estavam à espera do fracasso), bem como a geração fracassada que nada fez nas quatro linhas de 2014 pra cá. 

Pior: no próximo ciclo completaremos 28 anos sem sequer chegar à uma final, quiçá uma conquista. Some-se a isso o vexame secular do 7X1 contra a Alemanha aqui no país e ser eliminado por seleções de segunda prateleira da Europa (Bélgica, Croácia, agora Noruega...) e um fascínio notório pelo glamour e os escândalos envolvendo corrupção entre os dirigentes da CBF e pronto: o caos está definitivamente criado e mantido. 

O que fazer para mudar esse cenário dantesco? Se eles, que são os responsáveis pela gestão do dito esporte mais querido do país não sabem, que dirá eu ,mero blogueiro e colunista que nem considero o futebol minha paixão nacional. 

De concreto mesmo: 1) precisamos zerar o jogo, dar um fim de ciclo a muitos que aí estão e nada fazem além de enriquecer mais e mais e exibir mulheres, carros de luxo e patrimônios vultosos; 2) Haaland, o homem que matou o jogo no 2x1 que nos mandou para casa, entra para a gloriosa galeria de algozes que marcaram a história da seleção brasileira em Copas do Mundo (junto com Ghiggia, Caniggia, Paolo Rossi, Zidane, etc); 3) O país (leia-se: a sociedade) precisa enxergar o esporte com outros olhos, e entender que a competição tomou outro caminho com o passar dos anos e não somos mais a figura mais importante dentro desse universo.

É preciso - para ontem - que passemos a limpo a estrutura vigente, que viremos a página das subcelebridades que se dizem atletas com sua cultura da mediocridade e do ostentacionismo, que paremos de fabricar falsos heróis, salvadores da pátria que nem sequer conhecem o próprio país e, principalmente, "jogadores imaginários", que no final das contas só funcionam como memes e deboches rotineiros em discussões imbeciloides envolvendo gente que nem curte o esporte e a competição tanto assim... Só quer mesmo é engajar em cima do assunto. 

Parece muita coisa - e é. E que comecem o quanto antes, pois já estamos mais do que atrasados no cenário futebolístico. O problema é: será feito, realmente? Mais uma vez (e parece até sina dizer isso): aguardemos. De novo. Estamos sempre aguardando, não é mesmo? É o que nos restou como legado dessa desgraça esportiva. Até 2030. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Não estamos sós (e faz tempo isso)


Na adolescência eu fui um exemplar repleto de curiosidades sobre os mais diversos assuntos: de romances policiais e a era da lei seca à biologia marinha, de sociologia urbana à psicanálise, da beat generation (com um capítulo à parte para O uivo e Junky) às enciclopédias Abril e Larousse (precursoras do Google para qualquer estudante que se prezasse no século passado) e, como bem diria Buzz Lightyear, de Toy Story: "ao infinito e além". 

Contudo, nada nesse período me intrigou tanto quanto ufologia. Eu era um obcecado sobre o tema (independentemente de quem acreditasse - ou não - nos alienígenas quando conversasse comigo). J. J. Benitez era um autor de cabeceira que me acompanhou por um longo tempo, que o digam suas obras Ovnis: S.O.S. à humanidade, 100.000 Km em busca de ovnis e O ovni de Belém. E quando encontrei O caso Roswell numa videolocadora de bairro perto de casa foi um Deus nos acuda... Revi aquele filme por volta de umas dez vezes em pouco mais de uma semana! Tempos depois, inclusive, cheguei a comprar um vhs para mim. 

E a cereja no bolo dessa equação foi Mr. Steven Spielberg com seus eternamente nostálgicos Contatos imediatos do terceiro grau e E.T. Até hoje não me deparei com nenhum outro diretor que conseguisse falar sobre o assunto da mesma forma que ele (ou, pelo menos, com a mesma paixão). E acreditem: eu vi MUITA coisa!

Eis que, 49 anos depois daquela experiência sensorial que mudou a minha vida (e a de Roy Neary, personagem do ator Richard Dreyfuss, também!), Spielberg regressa às origens com O dia D. Entretanto, é preciso avisar aos fãs da minha faixa etária, mais nostálgicos: o tempo passou, Spielberg venceu Oscars, tomou novos caminhos, fez escolhas de carreira completamente diferentes, e me parece injusto da parte do público esperar dele aquele cineasta de 5 décadas atrás. Ele é outro indivíduo agora (e não significa que isso seja ruim). 

O dia D abre seus trabalhos deixando claro se tratar de uma conspiração envolvendo o alto escalão do governo e a necessidade de um grupo de dissidentes dessa organização, cansados de manter o segredo acerca dessa descoberta, mostrar tudo o que foi escondido da população até hoje. Sinais vão sendo mostrados pouco a pouco, abduções vão sendo desmembradas bem como o uso da tecnologia extraterrestre à serviço de uns poucos que acreditam que a verdade só gerará caos em meio à população. 

Mais do que isso: em determinado momento é mencionada a palavra divindade para se referir à tão polêmica descoberta, e isso certamente gerará incômodo num mundo contemporâneo onde dogmas vem querendo ser muito mais do que mero rito de fé. Na verdade, o eterno projeto de poder envolvendo os religiosos deste século talvez seja um problema para muitos "devotos" que irão assistir o filme. É preciso ter mente aberta para acompanhar a proposta aqui; portanto, não há espaço para alienados ou fanáticos.  

No quesito estética, O dia D não deixa nada a dever - agora sim - ao cinema mais nostálgico de Spielberg. Fiquei encantado com a paleta de cores e com a fotografia de Janusz Kaminski, colaborador de longa data do diretor (e também responsável pela luz de Contatos imediatos. Um mestre!). A música de John Williams também está presente, mexendo com meus sentimentos de novo, e o elenco é um caso à parte. Não saberia eleger uma má escolha aqui. Embora tenha ficado preso, quase mesmerizado, às atuações de Emily Blunt e Colin Firth, o restante do grupo também entrega tudo dentro do que lhe foi exigido. 

Ao fim da sessão - e sem querer entregar spoilers, mas sabendo da difícil tarefa que é isso -, o longa nos deixa claro que a vida fora do planeta terra está aqui há mais tempo do que supomos acreditar. E até hoje não sabemos o que fazer com essa informação, seja por ganância ou pela eterna mania de tratar o outro como idiota ou prisioneiro de discursos falaciosos. 

P.S: para quem espera por nostalgia ao extremo (anos 80 na veia), esse não será o seu filme. Já os que (como eu) gostam de olhar para frente e se deparar com novas perspectivas, o longa é sublime. E, claro, mais Spielberg do que nunca.    


domingo, 28 de junho de 2026

Mel Brooks, um século de humor


Hoje Mel Brooks comemora 100 anos de idade (e em plena atividade). Ele está em vias de lançar a continuação de seu clássico da ficção-científica S.O.S - tem um louco à solta no espaço, um clara sátira ao arrasa-quarteirão Star Wars, de George Lucas. E o mais importante dessa data comemorativa: ele sempre entregou ao público o que ele prometeu, nunca ficou em cima do muro no que tange ao teor de suas piadas. 

Melvin James Kaminsky (seu nome de batismo) provavelmente seria cancelado pela geração pão com ovo de hoje em dia - e muito! E quer saber? Quem perde com isso é a própria geração, que coloca defeito em tudo, moraliza qualquer piada. Quem acompanhou sua carreira de perto sabe bem o quão gratificante foi rir de suas piadas, se escangalhar com o seu estilo. Definitivamente ele faz um tipo humor que dificilmente existirá novamente, se levarmos em consideração no que a sociedade está se transformando por puro moralismo ou exibicionismo. 

A primeira vez que vi um de seus longas (em VHS, faz tempo!) foi O jovem Frankenstein, com Gene Wilder na pele do clássico personagem criado por Mary Shelley, e fiquei mais de uma semana relembrando das cenas e rindo sozinho no sofá da sala. Pensei na hora: "preciso encontrar mais coisas dele, o cara é ótimo". E, para minha felicidade, encontrei. 

Acompanhava seu trabalho paralelamente ao de outras duas lendas do humor: Blake Edwards (da série de filmes da Pantera cor-de-rosa, com Peter Sellers) e o papa do trash, John Waters (da parceria insólita com a eterna Divine). eles foram uma trinca que me acompanhou na - hoje saudosa - época das videolocadoras. 

Tornei-me fã de carteirinha, do tipo "eu assisto até pornografia se ele dirigir" depois do clássico Primavera para Hitler. A dupla Max Bialystock e Leopold Bloom me perseguiu adolescência adentro e serviu de porta de entrada para outros personagens também totalmente fora da curva surgidos em sua obra cinematográfica anos depois. Seus A louca! louca história de Robin Hood e A história do mundo - parte I (que os fãs aguardam a continuação até hoje) estão entre os filmes que eu mais reloquei e reassisti naquela época. 

Em A última loucura de Mel Brooks ele brincou com o conceito de filme mudo, levando a piada simples para outro nível. Já em Drácula: morto, mas feliz, ele entregou a tarefa de interpretar o vampiro das trevas de Bram Stoker para o impagável Leslie Nielsen, da consagrada trilogia Corra que a polícia vem aí. Só imaginem a cena! E ainda teve os dois longas da série Banzé (na Rússia e no Oeste). 

Mel Brooks podia transformar um mendigo na figura mais hilária que você já testemunhou na face da terra. Não havia tema do qual ele não debochasse (até a inquisição espanhola virou motivo de sacanagem em um de seus monólogos). Ele podia ser um Van Helsing anárquico ou um Yoda completamente surtado. Em suma: ele é a essência do riso, naquilo que ele tem de mais puro e sem pré-conceitos. 

E vê-lo chegar à um século de existência ainda em vida (como acontece com o também magistral Dick Van Dyke, de Mary Poppins, outra lenda da era de ouro do cinema) me faz pensar que a sétima arte não morreu totalmente, que ainda há motivos para acreditarmos nela, no que ela tem para nos oferecer, mesmo com tanta bobajada sendo produzida e tantos canastrões fazendo sucesso meteórico. 

Desejo à Mel Brooks muito anos mais de vida (por mais que a tarefa pareça impossível), pois é de artistas como ele que a indústria cultural precisa. E acreditem: o cara é gigante. 

sábado, 20 de junho de 2026

O maior filme brasileiro de todos os tempos


A notícia recentemente divulgada de que o filme Central do Brasil, do diretor Walter Salles, foi escolhido como o "melhor filme brasileiro de todos os tempos" (rótulo que é sempre um exagero, seja qual longa tenha sido escolhido para tal), me fez rever a produção cinematográfica, com o intuito de desconstruir minha própria visão sobre ele. E acreditem: minha opinião sobre o filme do Waltinho melhorou ainda mais depois de tantos anos sem revê-lo. 

Central do Brasil tem toda uma história de sucesso dentro e também fora do Brasil, onde foi vencedor do Globo de Ouro, do Urso de Ouro em Berlim, do Bafta, entre outras premiações. E por mais que eu considere grandes obras-primas do cinema brasileiro (como Cidade de Deus, Terra em transe, Os fuzis, São Paulo: sociedade anônima, Bye Bye Brasil, entre outros), acredito que a escolha de Central faz jus ao reconhecimento. 

Acompanhamos a saga de Dora (personagem da extraordinária Fernanda Montenegro) como quem acompanhamos a trajetória do próprio país. A mulher que escreve cartas na Central do Brasil para pessoas analfabetas, que desejam se comunicar com seus parentes distantes, e cuja vida se esbarra com a do jovem Josué que deseja reencontra com o pai nos cafundós do nordeste, após a morte da mãe num acidente de ônibus, diz muito sobre esse nosso país de extremos e inconstâncias. 

E o que há no filme de Walter para despertar tanto fascínio e comoção? Justamente essa capacidade de mostrar o país sem rodeios, favoritismos ou privilégios. Um país cheio de fé, mas também de dificuldades extremas, onde a realidade da grande maioria da população é um grande desafio diário e nada mais do que isso. 

Já conversei com inúmeras pessoas - até de outros estados do país - e é simplesmente incrível a quantidade de pessoas que ainda não entenderam completamente a mensagem do filme. Tem até quem desdenhe de sua capacidade de encantar ou refletir sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos ao fim de cada jornada complexa. E isso é uma pena! Mais do que o cartão postal da carreira do diretor Walter Salles (que com o passar dos anos, nos entregou outras grandes narrativas, como Diários de motocicleta e o recente vencedor do Oscar Ainda estou aqui), Central do Brasil - como os filmes Rio, zona norte e Rio, zona sul, do diretor Nelson Pereira dos Santos - é um grande cartão postal sobre o Brasil de uma época. 

Digo mais: em suas entrelinhas, é quase um estudo sociológico sobre uma sociedade dúbia, fragmentada, que não perde a esperança mesmo em meio às maiores dificuldades e dilemas. E isso é grandioso por si só, daí sua representação como "o melhor filme brasileiro de todos os tempos" (mas as aspas continuam indispensáveis, tamanha a riqueza de nosso cinema e a necessidade de escolhermos um melhor, em detrimento dos demais). 

E o pior: sua escolha - infelizmente - será debatida sob a ótica de bobalhões especialistas da internet e seus eternos revisionismos de quinta categoria, o que é sempre um mau negócio. Já para os verdadeiros fãs da sétima arte, acho muito difícil que condenem a escolha. Central do Brasil, Walter Salles, Fernanda Montenegro e cia, conquistaram esse lugar por mérito próprio e acho justo o título. Mais uma prova de que o nosso cinema é bem mais interessante do que acredita a própria população, que adora desdenhar dele sempre que pode, favorecendo enlatados hollywoodianos. 

Meus parabéns aos envolvidos na escolha. E viva o cinema nacional!       


quinta-feira, 11 de junho de 2026

É tempo de Copa do Mundo


É, minha gente... A copa do mundo de 2026 começou hoje. E, infelizmente, repleta (também) de más notícias por parte de uma das sedes, acreditando que o maior evento esportivo do mundo deva se submeter ou ser marionete daquela dita nação outrora "a mais poderosa do mundo". Mas não quero falar disso e sim do futebol, que é o que realmente interessa durante os meses de junho e julho. México, EUA e Canadá se dividem entre os anfitriões e é visível, logo de cara, nesses primeiros dias, quem realmente parece o mais animado dos três. Eles realizaram essa mesma festa em 1970 e 1986 e mostraram porque suas edições estão entre as mais animadas da história. 

Nossa seleção? Confesso que poderia pular este parágrafo, mas decidi mantê-lo. Nossa geração não é, nem de longe, boa. Fora uma ou duas surpresas aleatórias que podem surpreender, não descarto uma eliminação antes da final. Mas aguardemos. Em 1994 (também nos EUA) eu também não botava fé - e olha que tinha Romário e Bebeto no ataque - e deu no que deu. De certo mesmo é que houve muita polêmica (envolvendo a escalação de um certo atacante que não mostra a que veio a mais de 2 anos, e mesmo assim permanece o queridinho de um grande contingente) e também espetacularização e midiatismo em demasia na escolha de nosso escrete. 

Favoritas desse ano? Eu poderia jogar minhas fichas em França, Espanha, na atual campeã - a Argentina, com Messi -, muita gente falando de Portugal e Cristiano Ronaldo (que eu não vejo com essa força toda!), mas... Depois que Camarões venceu da Argentina no jogo de estreia em 1990 e Senegal calou a torcida francesa em 2002 eu acredito em qualquer coisa fora do óbvio. Embora o óbvio, nessa competição, em 90% dos casos sempre vença. Portanto, não sei o que esperar. Mesmo. 

Tenho uma relação quase doentia com zebras em Copas do mundo. Adoro ver o que vi ano passado com a seleção do Marrocos (e esse ano eles são o nosso jogo de estreia, logo...). E há também aquelas seleções por quem nutro grande simpatia, embora sempre saiba que perto da final elas voltarão para casa. São os casos de Holanda, Croácia, Inglaterra. Enfim... Eu sou um torcedor fora da bolha. Estou sempre na expectativa de que o inusitado aconteça. 

Infelizmente, é preciso também dizer isso, o mundo - pelo que está passando nesse exato momento - não deveria estar promovendo eventos como esse. Não vejo a realidade cotidiana nesse século XXI, repleta de terroristas e extremismos, como aberta à festividades e celebrações de qualquer tipo. E o fato (como já citei no primeiro parágrafo) de uma das sedes ter se tornado um grande problema nesse mundial, por conta de seu presidente déspota e sua eterna mentalidade de se achar insubstituível ou "dono do mundo", contribui ainda mais para esse sentimento de niilismo que se apossou de mim este ano. 

Sim, não estou em clima de Copa nem muito interessado em torcer, mas fiz questão de escrever esse post para deixar claro o quanto essa festa (sim, o show business se apossou dessa competição e faz tempo), ocorrida de quatro em quatro anos, diz muito sobre os "interesses" que povoam a humanidade e os chamados agentes do poder. A diferença em relação às edições anteriores? Não me parece - mesmo! - que há muita empolgação com o torneio esse ano, a começar pelos habitantes dos países sedes (excetuando, é claro, México).

Novos tempos? Descaracterização? O mundo passou a dar valor a outros temas, questões, eventos? O esporte virou reles negócio lucrativo? Eu poderia ficar aqui escrevendo o dia inteiro e não conseguiria chegar à uma conclusão realmente válida. Então, como diria o vilão Jigsaw do filme Jogos Mortais: que comecem os jogos! E que vença quem estiver destinado a vencer. 


sábado, 6 de junho de 2026

Um magnífico ensaio sobre o fim dos tempos


Vejo num canal nerd sobre quadrinhos no youtube a informação de que a graphic novel O cavaleiro das trevas, do trio Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley, completou 40 anos em 2026 e imediatamente viajo no tempo para meus exatos 19 anos (primeira vez que eu li a HQ). Ao mesmo tempo em que o tempo viaja na velocidade da luz - junto com minhas lembranças -, me pego procurando novamente a obra gráfica para ler. E, claro, me surpreender. 

O cavaleiro das trevas é uma obra-prima inquestionável do formato quadrinhos. Merece seu lugar de destaque junto à outras obras seminais como Maus (de Art Spiegelman), Akira (de Katsuhiro Otomo), Avenida Dropsie (de Will Eisner) e tantas outras pérolas da arte sequencial. Só que, mais do que isso, relê-la mais de duas décadas depois, me fez repensar esse trabalho magistral, à luz desse século XXI repleto de déspotas e outros seres degradantes que somos obrigados a aturar. 

Na HQ de Miller e cia, Batman não é mais um mero vigilante ou herói incompreendido. Pelo contrário. Após seu sumiço de Gotham City por uma década, ele se tornou uma figura estranha, soturna, que vê no aumento da criminalidade na cidade o estopim para se encontrar com seu lado dark e justiceiro. O problema: o estado (ou as autoridades, como preferir) agora o veem como um pária. Pior: um problema a ser combatido, assim como os seus arqui-inimigos.

Dick Grayson (o eterno Robin) rompeu relações com ele e o último a vestir o uniforme, Jason Todd, foi morto pelo Coringa. O que abre espaço para uma versão feminina da personagem entrar em ação e formar dupla com o cavaleiro das trevas. Contudo, vilões do passado - Duas Caras, Coringa - estão de volta, remodelados, prontos para novos crimes a serem perpetrados. E, além disso, há uma seita que pretende ocupar o lugar de Batman como força-motriz da cidade. 

Seu companheiro de combate, o Comissário Gordon, está se aposentando e quem assume o seu lugar como chefe é uma mulher que não acredita no papel do herói como combatente da violência. Ela vê nele, isso sim, mais um inimigo a ser destruído - custe o que custar. E o cenário de caos prolifera de forma dantesca, lembrando (e muito!) o atual Estados Unidos, rodeado de ICE e polícia corrupta por todos os lados.

Lembro de quando o diretor Christopher Nolan realizou sua versão da história para os cinemas com Christian Bale e Heath Ledger e hoje, após ler o volume de novo, fica aqui um elogio de minha parte. Ele soube reinventar de forma extremamente eficaz as principais temáticas da HQ, fazendo uma releitura bastante atualizada sobre esse grande "ensaio sobre o fim dos tempos".

As quase 200 páginas da obra mostram um painel inviolável do que se tornou a humanidade nessas últimas décadas, criada pela falta de empatia e eterna ganância do ser humano. O Cavaleiro das trevas é profético em todos os níveis que você puder imaginar e mostra de forma pontual o quanto seu roteirista já vislumbrava a decadência do sistema e a eterna predileção da sociedade pela mentalidade "o homem é o lobo do homem".

Resultado: um trabalho devastador, apocalíptico em n formas possíveis e imagináveis e que mostra o quanto o universo quadrinístico assumiu uma postura errada ao preferir a cultura cinematográfica à nona arte como forma de expressão. Ler O Cavaleiro das trevas novamente me fez pensar no quanto ver essa história no atual cinema estará sujeito à produtores e realizadores moralistas, comprometidos unicamente com o negócio lucrativo e nada mais.

Fica aqui, portanto, a recomendação para quem nunca leu essa joia. Isso aqui é ouro puro (algo raro na indústria cultural contemporânea).   


segunda-feira, 1 de junho de 2026

O mago da inventividade


Terminei o sábado em estado de graça e consciente de que a cultura e a arte são, de fato, libertadoras num patamar impossível de ser explicado. E ninguém na face da terra conseguirá destruir isso. Explico-me. 

Conheci o trabalho do artista plástico paulista Vik Muniz através do documentário de 2010 indicado ao Oscar Lixo extraordinário, dirigido pelo trio Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim, e na mesma hora fiquei encantado. Muito pelo fato de ele utilizar materiais inusitados em meio às suas telas. Ao invés de tintas, o artista usa como matéria-prima muito lixo, açúcar, geleia, macarrão, até mesmo cinzas do incêndio recente do Museu Nacional.

E o mais importante: ver os quadros de Muniz é um gigantesco exercício do olhar. Você tem diferentes leituras ao se aproximar ou se distanciar de uma tela, o que promove um efeito por vezes bi ou tridimensional. 

Dando continuidade a minha paixão (e também curiosidade) sobre o seu trabalho, fui essa semana ao Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, para ver a exposição Vik Muniz: a olho nu, a maior retrospectiva da sua carreira até hoje. São mais de 220 obras que compõem um vasto cenário sobre a sua trajetória. E quem é fã de história da arte, artes plásticas (como eu) vai, certamente, ficar encantado.

Passeio pelos corredores amarelos e fico perdido em meio a tantas referências. Perco mais de meia hora só na parte dos retratos de celebridades. É, no mínimo, uma afronta um artista desse tamanho ser mais reconhecido no exterior do que no próprio país natal. Vik é tão inventivo, tão cheio de ideias, que me parece um desserviço à cultura não divulgá-lo ou sequer reconhecê-lo. 

Numa mistura de processos, materiais e escalas as mais diversas, o artista constrói uma nova forma de poética, transformando o olhar numa tarefa múltipla e não mais tradicional. Estamos a todo momento revendo suas ideias na tela, pois a cada momento elas parecem reproduzir novos significados. Não se surpreenda se, ao sair da exposição, você desejar vê-la de novo na semana seguinte, pois teve a sensação de ter perdido alguma coisa, algum detalhe. 

Pois a intenção da mostra, entre tantas outras, é exatamente essa: expandir leituras e interpretações. 

trabalhos tridimensionais do início de sua trajetória, séries fotográficas emblemáticas que marcaram sua produção ao longo dos anos e obras recentes, reunidas, acabam por configurar um imenso painel de um mago da inventividade. Acho que essa é a melhor maneira de classificar Vik Muniz (pelo menos, nesse exato momento; resta saber o que ele ainda irá nos entregar nos próximos anos - o que sempre é uma incógnita deliciosa).   

Ao fim, apenas uma certeza: seu trabalho é uma grande obra aberta, propensa a novos - e desafiadores - caminhos, e isso para qualquer fã de arte que se preze, é uma excelente notícia. Vejam! Fica em cartaz até 7 de setembro.  


quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Picasso do jazz


Eu lembro da primeira vez em que vi Miles Davis na tela e não foi necessariamente tocando. Tratava-se do quarto episódio da segunda temporada de Miami Vice - um série icônica que marcou minha adolescência profundamente - e fiquei impressionado com sua presença de cena. Contudo, eu nunca o tinha ouvido tocando jazz e foi meu pai que me abordou naquele exato momento e me disse: "Esse cara é um artista extraordinário. Quando tiver tempo, ouça-o!". Como ele já havia me apresentado anteriormente a duas divas da música, Aretha Franklin e Nina Simone, corri atrás de seu trabalho como louco.

E o que descobri após fuçar em lojas de discos (sim, naquela época elas existiam em profusão!) foi que não só estava diante de um artista talentoso, mas de uma lenda, de uma figura inigualável para a história da música. Quem nunca ouviu Miles Davis, não faz a menor ideia do que está perdendo. Seu disco mais famoso e mais badalado da carreira, o monumental Kind of blue (1959), é dessas experiências que você ouve quase rezando, de joelhos, aproveitando cada faixa, cada toque, cada momento. Mais do que isso: ele é uma excelente porta de entrada para conhecer toda a obra gigantesca de Davis. 

Miles foi do Hard bop ao jazz fusion, passando por orquestrações e psicodelias as mais diversas, e eu acho praticamente impossível escolher um gênero ou um momento específico no qual ele tenha sido melhor. Foi um artista completo, complexo, rebelde, à frente do seu tempo em todos os níveis. Atuou ao lado de lendas como Charlie Parker, John Coltrane e Bill Evans e, ainda assim, imprimiu seu estilo próprio, se destacando dos demais. 

Dentre as características que mais o marcaram ao longo da carreira, vale destacar sua assinatura sonora (você sabia de antemão quando estava ouvindo o trompete de Miles e não de outro artista), sua capacidade camaleônica de se reinventar em diversos estilos (seja o Bebop, o jazz modal, o cool jazz, etc), o fato de ser um vanguardista eternamente insatisfeito com a própria criação (odiava rótulos que o limitassem como músico, ou seja, que o levassem a se repetir) e foi um revelador de novos talentos (lançou músicos sublimes como Herbie Hancock, Wayne Shorter e Chick Corea)

Para quem não sabe por onde começar a ouvi-lo (e a lista de coisas impressionantes que ele fez é grande), recomendo brevemente a trinca Round About Midnight (1956), Sketches of Spain (1960) e Bitches Brew (1969), este último uma mistura eletrizante de rock e funk. Mas faço um pedido: ouçam atentos, sejam gentis com a música. Aposto como se surpreenderão -e muito!

Em 2011 fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para ver a inacreditável exposição Queremos Miles – Miles Davis, lenda do jazz, repleta de fotos, documentos, discos, desenhos do próprio artista e, claro, seus trompetes. Foi lá, aliás, que descobri o interesse de Miles pelo boxe. Saí da experiência ainda mais fã do músico e com a cabeça repleta de informação valiosa, que me acompanha até hoje quando escrevo sobre cultura pop. 

Há quem o chame, entre a grande mídia, de o Picasso do jazz, e eu não vejo o menor exagero nisso. Ele realmente parecia pintar as notas musicais com a sua genialidade ímpar. E poder relembrar dele em seu centenário, que foi celebrado ontem, me deixou duas certezas: a) ele se foi cedo demais (morreu em 1991, aos 65 anos); e b) assim como Frank Sinatra e Jimi Hendrix, nunca mais haverá outro como ele. É daquelas figuras eternas que só passam pelo planeta terra uma única vez e o seu papel depois disso é relembrar do quanto ele foi único. 

Grande Miles, você foi uma aula de música!


domingo, 24 de maio de 2026

Muito mais que uma playlist para salvar um domingo cinza


Que a poesia está em todos os lugares, em todos os sentimentos, nas pequenas (e grandes) coisas do mundo, disso nunca tive a menor dúvida. Não importa o quão tenebrosa seja a realidade atualmente. É possível continuar sonhando em meio às adversidades diárias. O que importa: é continuar tentando, nadando contra a maré, insistindo, não desistindo. 

E por que digo isso? Vejo o domingo melancólico que foi hoje, praticamente cinza, sem viço. Parecia completamente estragado. Um dia improdutivo a mais para esse 2026 esquisito até aqui. E então, como num passe de mágica, aparece no comecinho da tarde Paulo Miklos, o ex-titã, músico e compositor estupendo, e me apresenta no youtube ao adorável Coisas da vida. Que eu até poderia resumir como "uma playlist para salvar o meu dia". Porém, seu quinto álbum solo de estúdio, é bem mais do que isso. Ele é necessário, em tempos tão amargos. 

É uma alegria tremenda conviver com o Miklos pós-Titãs, disposto a novos caminhos, novos voos, ou mesmo reeditando clássicos. E aqui há covers de canções inesquecíveis. 

Ele abre seu disco se mostrando preocupado com o que estamos fazendo com o planeta terra, cita Jonas e baleia da bíblia sagrada, mostra que precisamos acreditar mais em nós mesmos, seres humanos. Enfim: deixa claro que a batalha (ainda) não está perdida. Insatisfeito, não se basta com essa breve mensagem que bem poderia soar aos ouvidos dos execráveis moralistas de plantão como um panfleto autoajuda chato, repetitivo. 

E eis que ele enfileira uma trinca de respeito com as ótimas "Quero voltar pra Bahia", "Saudosa Maloca" (de Adoniran Barbosa, que o próprio Miklos já deixou claro em sua carreira ser um notório fã) e "Xibom bombom" (com seu toque de denúncia aos tempos atuais e ao eterno capitalismo selvagem que nos persegue). "Cachorro babucho" é apenas um tira-gosto para o prato principal, que vem em dobro com "Não existe amor em SP" e a eterna hit parade "Evidências" (clássico na voz da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó).

Mas acham que acabou, assim, desse jeito? Ah quem dera! O eterno roqueiro que habita dentro de Paulo não poderia terminar esse álbum de outra forma, que não fosse apresentando uma nova versão para um clássico. O escolhido é "O tempo não para", música síntese de Cazuza, o poeta do rock. Agora sim, posso fechar a tampa e eu a fecho, mas já saudoso, sabendo de antemão que certamente ouvirei o disco novamente nos próximos dias, para que fique fixado em minha mente sua mensagem.

Muito mais do que uma reles playlist para salvar um domingo acinzentado, sem sentido, Coisas da vida me ganhou por mostrar que o simples, mas bem feito, anda em falta na MPB, mais que isso: no mercado fonográfico atual. E ele pode ser bem mais poderoso do que muita bobagem estilosa que anda em voga atualmente. É apenas uma questão de se comprometer. O problema: quem é que se compromete com alguma coisa em meio a essa realidade louca proposta pela contemporaneidade? Pois é... O Paulo fez exatamente isso! e fica aqui o meu muito obrigado a ele.   

sábado, 16 de maio de 2026

A epopeia linguística da literatura brasileira


A expressão "há livros e livros" nunca foi tão verdadeira. Principalmente depois que você lê (e, de preferência, relê) uma obra-prima como Grande sertão: veredas, do escritor João Guimarães Rosa, que completa inacreditáveis 70 anos de existência em 2026 sem perder um milímetro de sua ternura e sua capacidade de se reinventar. E depois de ler esse registro literário colossal, eu passei a ter uma certeza: Guimarães merece seu lugar no olimpo da literatura brasileira ao lado do também magistral Machado de Assis - sim, os críticos sempre ficam putos quando eu repito essa frase...

Acompanhamos a trajetória de Riobaldo como acompanhamos uma canção amarga, porém necessária para entendermos os rumos desse país contraditório. E ao longo dessa jornada ele enfrentará não só percalços e inimigos os mais diversos, como um amor fora da curva e principalmente a dureza do sertão, que praticamente fala aqui, como um personagem contraditório e raivoso. 

E por falar em personagens - Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes (o algoz derradeiro desse quase anti-herói diferente de tudo que já se viu em nossas letras), Zé Bebelo, Ricardão, etc - eles compõem um grande ensaio sobre a dor, o interesse, a ganância, o eterno maniqueísmo que move o nordeste brasileiro, dentre outras temáticas tão ardilosas quanto. Chamar Grande sertão: veredas de mero romance ou saga não explica sequer a superfície do que é esse relato gigantesco, um dos maiores de toda a nossa bibliografia. 

Um dado triste: às vezes eu tenho a sensação de que Guimarães Rosa só será lembrado, citado e reconhecido como merece de fato no exterior. Há quem, inclusive, chame o livro de "o monte Everest" da tradução, pelo trabalho de quase recriar a obra ao traduzi-la para outros idiomas. Desde sua primeira publicação, em 1964, na Alemanha, o códex linguístico proposto por Rosa passou a gerar um imenso fascínio internacional. E por mais que existam aquelas pessoas que reclamem da necessidade de qualquer obra ou artista brasileiro ser reconhecido no exterior para ter real valor dentro do país, nesse caso específico acho uma honra o reconhecimento e admiração. 

Tive uma professora de língua portuguesa na universidade que dizia ser Grande sertão: veredas um dos maiores desafios de leitura da história da literatura mundial, mas que quando você insistia no duelo com o autor e pegava no tranco não queria mais saber de outra vida, muito menos experiências literárias fáceis e gratuitas novamente. E ela estava coberta de razão. Penei para compreender a mente e a narrativa de Rosa, abandonei a obra umas seis ou sete vezes ao longo da vida, mas quando finalmente captei seu espírito livre e compreendi suas intenções foi um deleite à parte. 

Uma certeza é preciso ser dita ao fim desse post: não se fazem mais (e, provavelmente, nunca mais se farão) obras literárias como Grande sertão: veredas. Primeiro, porque a sociedade brasileira se mostra cada dia mais iletrada e desinteressada pelo conhecimento. E segundo, por fazer parte de um mundo que parece cada dia mais distante e chamado de ilusório por uma geração que se esmera dia a dia por desmentir o passado, a utopia, a denúncia, e mesmo o recomeçar.  

Dito isto, para quem ainda não leu a maior epopeia linguística da história da literatura nacional, aproveite a chance (e a data comemorativa). Vocês não fazem a menor ideia do que estão perdendo. Não mesmo. Ah! um rápido P.S (praticamente um aviso de um leitor apaixonado): fujam dessa adaptação cinematográfica recente que o diretor Guel Arraes fez do romance. Ela diminui - e muito! - a grandeza e a importância da obra.