domingo, 19 de julho de 2026

Deusa? Hummmm...


Quadrinhos é provocação (e certamente não é literatura). Levo sempre isso em consideração quando leio mais uma graphic novel. E gosto de ler um pouco de tudo: de turma da Mônica, do Maurício de Sousa à Moebius e Milo Manara. Mas nada, absolutamente nada, é mais importante para mim no formato do que um autor que subverta qualquer remota possibilidade de expectativa. É preciso transgredir para entender de fato o que é a nona arte. E foi exatamente isso que Rafael Campos Rocha fez ao produzir sua HQ Deus, essa gostosa

Falar de Deus já é, por natureza, procurar sarna para se coçar. Os haters estão logo ali, na esquina, esperando você dizer isso aqui dele, e bum! atacam como chacais. Imagine então Deus como uma mulher negra, no apogeu da sua sexualidade, dona de uma sex shop (isso mesmo que você leu) e, ainda por cima, trocando altas ideias num bar com Satã. Pronto! A terceira guerra mundial está instaurada. 

Ao longo de toda a leitura fiquei pensando em Je vous salue, Marie, do cineasta Jean-Luc Godard, outro marco da transgressão (esse da sétima arte). HQ e filme certamente incomodam pelos mesmos motivos, embora sejam narrativas completamente diferentes. O Deus de Rafael Campos ao mesmo tempo que tenta entender a humanidade, sabe que muito do que aí está, do que chamamos de civilização, já é um caso perdido. E, claro, por culpa do próprio bicho-homem.

A Deusa em voga aqui não cria delírios, teorias conspiratórias ou mesmo teses motivacionais para justificar a decadência do mundo. Ela simplesmente segue o fluxo (o que, aliás, é o mais certo a fazer, tendo em vista a existência do livre arbítrio. Cada um que lide com as consequências de suas próprias - e errôneas - escolhas).

Na grande conversa de botequim entre Deus e Satã, me soou em alguns momentos um clima de O sétimo selo, clássico atemporal do cinema mundial dirigido por Ingmar Bergman. A única diferença? Sai o tabuleiro de xadrez, entram os copos de cerveja. Com direito à punguista roubando carro à luz do dia, na cara dura, e tudo. Mais outsider do que isso, impossível. 

A graphic novel é curta, poucas páginas e diálogos, em preto-e-branco, com traços primários (chego até a avisar aos desavisados: o roteiro é bastante superior a arte - tendo em vista que o autor da obra é um artista plástico e não um quadrinista de carreira). Contudo, é justamente nessa simplicidade que reside a grande força do trabalho. Rafael não se esmerou por produzir um espetáculo em arte sequencial. O que ele quer, realmente, é provocar uma discussão sobre os rumos da fé na atual sociedade. 

E nesse quesito, ele mata no peito e chuta pro gol, indefensável para o goleiro. Em tempos de fanatismo religioso extremo e bitolados pela própria crença convertendo pelas ruas impunemente, vale a pena refletir sobre os malefícios da cegueira espiritual (um tema que merece ser mais debatido nesse século XXI espinhoso e confuso). Recomendo o álbum para os interessados em se abrir para novas posturas, cansados de totalitarismo e opressão. Já os eternos inquisidores da manipulação, na boa... deixem isso aqui em paz. Não é para vocês. 

Uma das grandes surpresas arrebatadoras que eu tive nesse ano de 2026 no segmento cultura pop. Procurem, antes que o mercado editorial dê um sumiço nela por conveniência!


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