terça-feira, 5 de maio de 2026

O produtor musical da era inesquecível da tv


Já faz tempo que não assisto tv aberta, canal nenhum, e por culpa da própria televisão, que se colocou a serviço do gratuito, do vulgar, do chulo, da falta de talento e desse mundo vazio produzido por influenciadores e canastrões midiáticos. Sou de uma época em que televisão era sinônimo de grandes realizadores e produtores (que o diga a era do Boni na Rede Globo!). Sentava em frente ao aparelho para me encantar ou flertar com o absurdo e não para aplaudir isso que hoje é vendido como show de realidade. 

Logo, ver a notícia do falecimento do produtor Guto Graça Mello, aos 78 anos, me traz a certeza de que a tv vai desaparecendo de vez, e aos poucos. Ele fez parte de uma era inesquecível da telinha. Como ouvir o seu nome e não se lembrar da trilha sonora do fantástico, que ele criou numa época em que o veículo vendia nostalgia? Seu legado para o meio televisivo é muito mais do que a criação de produtos que se perpetuaram. Ele está no âmbito do imaginário coletivo.

Lembrar de Guto é lembrar de mim ainda novo assistindo aos especiais Pirlimpimpim e Plunct, Plact, Zuuum (que sempre me traz à mente a lembrança do eterno Raul Seixas, o maluco beleza, na pele do carimbador maluco). Meu pai chegou, na época, a comprar os vinis com a trilha, que eu ouvia e reouvia a perder de vista. Víamos na tela Baby Consuelo - hoje do Brasil - como Emília, Jorge Ben (hoje Benjor) como Saci, entre outras figuras eternas da MPB desfilando canções que ecoavam na mente de inúmeras crianças e jovens. 

E por falar em MPB, Guto também é um capítulo à parte na história da discografia nacional. Produziu mais de 500 álbuns icônicos entre as décadas de 1970 e 1980, tanto na gravadora Som Livre como para a própria Rede Globo. 

Dentre os artistas com quem colaborou, grandes nomes do nosso cancioneiro como Rita Lee, Moraes Moreira, Guilherme Arantes, Sandra de Sá, Alceu Valença, Elba Ramalho e Gilberto Gil. Uma tia minha possuía em vinil (sim, eram outros tempos!) um exemplar de Trem azul, da cantora Elis Regina, que eu sempre ouvia quando a visitava. Acredito que foi uma das primeiras experiências musicais que eu tive fora da minha zona de conforto habitual (eu era fã de Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho) e após a primeira audição fui querer saber mais sobre música popular brasileira e não parei mais. 

Entre as trilhas sonoras de novelas que marcaram época pelas mãos dele vale a pena citar as de Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia, Estúpido Cupido, Pai herói e Cavalo de Aço (esta última foi alvo de uma curiosidade minha por quase toda a adolescência, pois ficava intrigado com o título). Ele conseguiu transformar até a apresentadora Xuxa num fenômeno de vendas do mercado fonográfico, chegando a produzir mais de 3 milhões de cópias. 

Embora uma figura multimídia, Graça Mello foi muito conhecido dentro do setor como um "caça-talentos silencioso". Entre seus assistentes dentro da Som Livre, dois nomes que viraram pilares do rock nacional: Cazuza (como assessor de imprensa) e Lulu Santos (responsável por ouvir as fitas demo dos chamados "novos artistas"). Ele também assinou a trilha sonora de mais de 30 longas-metragens cinematográficos, dentre eles produções como Cazuza - o tempo não para, Se eu fosse você e o filme espírita Nosso lar.

Sua partida não só empobrece ainda mais a cultura brasileira como alimenta ainda mais a decadência televisiva vigente. Uma pena! Precisamos de mais homens de visão como ele nas telas - e não essa geleia rançosa atual. Fica com Deus, mestre!

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Sganzerla, 80


Se vivo ainda fosse, Rogerio Sganzerla estaria comemorando hoje seus 80 anos. Oito décadas de uma das trajetórias mais fascinantes e extraordinárias da história do cinema brasileiro. E quem diz que eu exagero é porque não conhece a cinematografia e, principalmente, a personalidade do diretor e produtor de cinema que era a cara (e a alma) do cinema marginal. De crítico de cinema do Estado de SP (por 4 anos) à realizador de filmes bombásticos, ele aprontou das melhores peripécias que eu já tive o prazer de assistir na tela.

Sganzerla fez parte de uma geração que decidiu questionar os rumos tomados pelo cinema novo. Queria outra proposta, outra maneira de pensar a sétima arte, longe da espetacularização que vinha acompanhando o segmento liderado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cia. O caminho encontrado foi aquele que ficou conhecido em São Paulo como Cinema da boca do lixo. Logo, baseado numa estética mais bruta, mais suja, em contato com a realidade urbana. 

Seus longas eram uma mistura de sátira, subversão, colagens as mais diversas, irreverência para dar e vender, trilhas radiofônicas, humor ácido, linguagem fragmentada e muita crítica social. Alguns críticos e especialistas em cinema gostam de dividir sua obra fílmica em dois grandes segmentos: as ficções caóticas e os filmes-ensaio. Entretanto, ah quem dera fosse fácil explicar em poucas palavras o que foi o seu trabalho audiovisual. 

E ele chega mostrando a que veio logo no segundo filme, o extraordinário O bandido da luz vermelha, retrato de um país que em nada difere deste, controverso, no qual vivemos hoje. A história da caçada ao famoso ladrão de residências ganha contornos épicos com uma montagem e um roteiro frenético, cheio de melindres, e temáticas como manipulação da mídia, poder político e uma violência urbana com fundo anárquico e experimental. Aliás, experimental é um adjetivo que explica bem Rogerio, em todas as suas vertentes e provocações. 

Deixo aqui, inclusive, uma dica: procure no you tube um vídeo chamado "Rogerio Sganzerla manda recado ao Brasil". Em pouco mais de 30 segundos ele mostra toda sua malícia e postura antenada diante do país e do mundo, incitando o público a acordar para a realidade. Aposto que quem nunca viu nada dele, depois que conferir esse breve "teaser" vai procurar por toda a sua filmografia!

Uma das paixões dele era o diretor americano Orson Welles (também um transgressor por excelência). Tanto que Sganzerla realizou a trinca Nem tudo é verdade, A linguagem de Orson Welles e Tudo é Brasil, uma trilogia inspirada no cineasta americano e suas inúmeras intervenções e propostas estéticas. 

Em 1970 fundou, junto com seu parceiro Júlio Bressane, a Belair e em pleno período militar entregaram sete filmes em quatro meses, uma façanha até hoje alardeada aos quatro ventos por qualquer cinéfilo de bom gosto que se preze. E ali, em meio àquela tentativa de virar a estética cinematográfica de cabeça para baixo, podemos perceber o melhor do seu cinema. Seus filmes: a) desafiaram a narrativa considerada linear; b) tiveram influência do cinema noir, da chanchada, do tropicalismo; c) e tiveram diálogos rápidos, irônicos e cheios de citações. 

Mesmo nos anos 2000, com seus trabalhos experimentais, feitos à base de poucos recursos, mas muita ousadia visual, Sganzerla deu provas de que era um exemplar raro dentro do audiovisual brasileiro. E hoje, mais do que nunca, faltam mentes brilhantes como ele no mercado exibidor, um visionário nato na arte de produzir narrativas em formato película (e acredito, sem duvidar, que ele guardaria o digital no bolso também). 

Recomendo de olhos fechados a qualquer leitor deste post que assistam (e reassistam), além do já citado O bandido da luz vermelha, os também magníficos A mulher de todos; Sem essa, aranha; Copacabana mon amour; O abismo; O signo do caos e todos os curtas que vocês conseguirem encontrar na internet. Aposto a grana que for como não vão se arrepender!

Se houve um camaleão do cinema tupiniquim, esse cara foi o Rogerio Sganzerla e ninguém vai conseguir me provar do contrário. Saudades, mestre!