sexta-feira, 17 de abril de 2026

O mão-santa


O basquete brasileiro, o esporte nacional como um todo, o Brasil, perderam hoje uma lenda. Uma pessoa que, na minha cabeça, é tão gigantesco quanto Pelé, Ayrton Senna, Zico, a geração olímpica do vôlei, nossos ginastas, judocas, nadadores, velocistas e tudo de mais genial que nós já tivemos na história do desporto. Falo de Oscar Schmidt, que nos deixou aos míseros 68 anos. O mão-santa, como a mídia gostava de se referir a ele, vai deixar saudade - e muita!

A história de Oscar é como a de muitos garotos que só querem uma oportunidade para mostrar o seu valor e, com isso, poder mudar de vida. Encontrou sua chance na adolescência com Zezão, no colégio salesiano e, consequentemente, com Laurindo Miura, no Clube Unidade da Vizinhança. Mas, como todo gênio que se preze, isso ainda era pouco, quase nada, para alguém com um talento como o dele. Palmeiras, Sírio, América-RJ, Juvecaserta (Itália), Pavia (Itália), Valladolid (Espanha), Corinthians, Bandeirantes, Mackenzie e Flamengo também conheceriam seu talento e - claro - suas cestas milagrosas.

Sempre que eu lembrar dele, me lembrarei de 1987. Eu, com apenas 11 anos de idade, em frente a tv, vendo a seleção brasileira desbancar a toda poderosa seleção norte-americana no Pan-americano de Indianápolis (detalhe: na terra dos caras). 120 a 115 para a nossa seleção que, a partir dali, revolucionou o nosso basquete e o jeito de jogar aquele esporte daí em diante. Não à toa os EUA, anos depois, passaram a chamar os profissionais para as competições. Ou seja: o jogo não seria mais o mesmo. 

Enquanto muitos atletas sonham com a NBA, Oscar decidiu seguir seu coração e dizer não. Ao saber que indo para a liga profissional americana não poderia representar mais a sua seleção, preferiu recusar (algo hoje, visto por muitos como inimaginável). Ele decidiu acreditar na sua própria história, no legado que poderia produzir. 

Era mágico vê-lo em quadra. Mesmo que o jogo em questão fosse de madrugada, eu parava tudo o que estava fazendo para assisti-lo. Ele personificava o nosso basquete. Bons tempos em que dava orgulho acordar cedo para ver um gigante performando. 

Quando ele foi reconhecido pelo Hall da fama do basquete fui correndo assistir seu pronunciamento. Ele relembrou do começo da carreira, das dificuldades, os treinamentos exóticos, das derrotas não esquecidas e, principalmente, do legado que o basquete lhe entregou. Parei de assistir a modalidade nos últimos anos, pois sinto falta dessa entrega, dessa dedicação total à carreira (crítica que eu também faço a outros esportes, como a seleção brasileira de futebol, por exemplo). Se eu não puder acompanhar e torcer desse jeito, prefiro não ver. Oscar me ensinou isso. 

E é com enorme tristeza que hoje preciso dizer adeus a um capítulo extraordinário da nossa história. Oscar, nunca te vi, nunca cruzei com você na rua, mas sempre te admirei e acompanhei sua jornada, e isso ficará gravado em mim para o resto da vida. Onde quer que você esteja, meu irmão, fica em paz. Você era foda. E nada vai mudar isso. E que o basquete brasileiro reencontre seu caminho de glória para poder homenageá-lo como você merece.  


quarta-feira, 15 de abril de 2026

A maternidade também é um campo de batalha


Se tem uma coisa que eu não entendo, nunca entendi, na humanidade, é essa mania que certos jovens têm de casar, construir família cedo demais, às vezes antes de chegar à maioridade. Abrem mão do próprio ato de viver, de enfrentar os obstáculos diários para acreditar na eterna ilusão do "encontrei a pessoa da minha vida". No final da experiência, o que sobra é aquele sentimento de "meti os pés pelas mãos" ou o famoso "Eu era feliz e não sabia".

Essa semana assisti (atrasado) à Morra, amor, filme da diretora Lynne Ramsay - que já havia chamado a minha atenção de forma impactante com o seu extraordinário Precisamos falar sobre o Kevin - e vivenciei uma interessante desconstrução sobre isso, essa obsessão da nova geração em querer amadurecer cedo em demasia. E o resultado é ainda melhor do que aquilo que eu via nos trailers.

Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) são o estereótipo vivo - seja em que país for - do casal prematuro, que quer antecipar passos importantíssimos antes de sequer viver a própria vida. Casam-se cedo demais e, consequentemente, tem um filho quando na verdade deveriam estar tentando, antes de tudo, entender o que é o mundo. A relação entre o casal parece um atirar-se aleatoriamente de para-quedas rumo a lugar nenhum. Mas com a responsabilidade de criar um filho tudo muda, na verdade, tudo piora. E a consequência disso é o desespero, o delírio, por vezes a psicose.

Jackson, como a grande maioria dos homens, encontra um novo estilo de vida ao perceber que as dificuldades de assumir a paternidade. Esconde-se atrás do trabalho e, claro, amantes. Já Grace precisa lidar com a parte mais difícil do casal: dar conta praticamente sozinha da criação da prole. O resultado? Ela pira, perde completamente a noção de realidade, e nem sua própria família é capaz de lhe apontar um norte, um porto seguro mínimo que seja.

Sim, meus caros leitores! Por mais que eu seja homem e não tenha filhos, nunca deixei de acreditar que a maternidade também é um campo de batalha - e dos mais terríveis. É preciso ter uma cabeça muito boa para ser mãe, ainda mais num mundo cada vez mais complexo e desigual como este no qual vivemos. A frustração e posterior desespero de Grace é totalmente justificável. Ela precisa dar conta das duas partes da relação e ainda por cima aparentar para os demais que tudo vai às mil maravilhas. Tarefa extremamente hercúlea para qualquer ser humano que se preze.

A diretora Lynne Ramsay é excelente ao mostrar em sua cinematografia esse lado perdido, sem chão, da sociedade contemporânea. Seus filmes sempre parecem nos mostrar o quanto o ser humano parece mais fodido do que realmente aparenta diante das convenções sociais. É como se perdêssemos nosso teor de civilidade e nos transformássemos em meros organismos vivos, sintéticos, sem alma. Sim, é triste e niilista ao extremo!

No caso de Grace ainda há o agravante de "mesmo que o meu casamento acabe eu não me liberto da responsabilidade de ser mãe. Eu simplesmente a assumo, dessa vez de forma oficial, sozinha, sem a ajuda do parceiro". E o desfecho dessa descoberta é ainda mais aterrador do que o próprio duelo que vem travando com a maternidade.

Para quem curte assistir longas sobre casamentos em crise ou falidos - como Foi apenas um sonho, Kramer vs. Kramer ou História de um casamento - este aqui é uma grande pedida. Com um ingrediente a mais: trata do que chamam de relacionamento as novas gerações, que tem mania de confundir casamento com diversão ou um mero hobby. E quando a verdade bate à porta não dão conta de lidar com o mais simples dos desafios, que dirá com a rotina angustiante e opressiva.

P.S: Que a atriz Jennifer Lawrence invista em mais projetos na carreira como esse (ela está ótima!) e não em franquias distópicas como Jogos vorazes, que nada mais são do que fábricas de bilheteria que depois que saem de cartaz e ninguém mais lembra.


sábado, 11 de abril de 2026

Lixo também é cultura


Eu considero lixeiro um das profissões mais complicadas do mundo. Imagine recolher todos os resíduos, toda a imundície produzida por uma sociedade cada dia mais imediatista e consumista e ainda ouvir desaforos na rua. É triste. Mais do que isso: um trabalho para corajosos. Eu sei que muita gente diz que só pega esse tipo de serviço que não tem melhores oportunidades trabalhistas, mas na boa... Com tanta gente trabalhando em casa, fazendo seu próprio horário, não, não dá.

Contudo, é preciso também entender a história por trás do lixo e como deixamos que as coisas chegassem a essa ponto. E foi exatamente com isso que me deparei enquanto lia a graphic novel Eu, lixeiro, do quadrinista Derf Backderf (da também ótima - e também postada aqui nesse blog - Meu amigo Dahmer).

Backderf nos apresenta ao cotidiano de uma das profissões mais difíceis e subvalorizadas dos Estados Unidos e acompanhamos a rotina frenética e repleta de desafios de um grupo de lixeiros, porém com mais frequência a da dupla J.B (alter-ego do autor) e Mike. E desde já adianto: ao fim da leitura, vocês ficarão perplexos não só com a quantidade de informação produzida como também com o cenário autodestrutivo que essa realidade apresenta. 

J.B, Mike e seus colegas de trabalho encaram o duro dia-a-dia de quem recolhe a sujeira do país. E bota sujeira nisso! De mudanças abandonadas pelo meio do caminho por conta de ordens de despejo até garrafas de urina jogadas por motoristas no meio do trânsito, camisinhas usadas, eletrônicos descartados sem o menor critério, moradores insuportáveis que ainda querem dar lição de moral e um idoso carrancudo responsável pelo recolhimento de cães por parte da carrocinha, o que vislumbramos é o retrato do verdadeiro EUA, que adora se vender como "a grande nação". 

Paralelamente a isso, o autor ainda oferece uma parte documental onde registra informações e estatísticas acerca da forma como o lixo é recolhido, reciclado e principalmente, como ele já era um problema social desde priscas eras. Detalhe importante: atentem para a questão dos aterros sanitários que vêm diminuindo com o passar dos anos, podendo levar a novos problemas futuros. 

Talvez a nova geração de leitores não tenha paciência para lidar com essa segunda parte da obra (refiro-me a parte de pesquisa sobre o tema "lixo"). Entretanto, achei que ela agregou um valor ainda mais importante ao conteúdo produzido na parte ficcional, tirando a narrativa do âmbito da mera ficção. Chegou a me lembrar, em alguns momentos, a mescla de quadrinhos com jornalismo do Joe Sacco, outro grande mestre contemporâneo da nona arte. 

O maior legado da HQ, com certeza, é o sentimento de preocupação sobre como lidaremos com esse problema num futuro próximo, tendo em vista que a própria sociedade não demonstra sinais de que se tornará menos consumista daqui pra frente. Pelo contrário. Nunca imaginei que fosse dizer isso aqui, num post, mas... Sim, lixo também pode ser cultura, se soubermos contextualizá-lo de forma contundente e com embasamento. E isso Eu, lixeiro, faz com maestria.  

Para quem procura uma opção menos óbvia (leia-se: menos heroica ou sobrenatural) no formato quadrinhos, eis uma excelente opção. E o trabalho de Derf Backderf é magnífico e chama cada vez mais a minha atenção à medida que vou lendo mais coisas dele. Procurem! Aposto que vão devorar tudo numa sentada. Foi o que eu fiz, e nem senti o tempo passar.  


quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Maracanã dos cinemas


O Cinema Odeon completou 100 em 2026. Não, é serio! Parece louco pensar que um lugar que eu frequentei tão repleto de boas lembranças e momentos marcantes já tem todo esse tempo de vida. Mas, ao mesmo tempo, é triste pensar no que ele se tornou: um lugar de resistência dentro do circuito exibidor brasileiro cada dia mais voltado aos cinemas de shopping centers e à sombra dos serviços de streaming. Sim, o Odeon merecia um posicionamento melhor em seu centenário.

Mas não é disso que se trata este post e sim relembrar do grande "templo cinematográfico" que ele é. Vejo numa matéria na internet comentando o centenário da sala o autor do texto se referindo ao local como "o Maracanã dos cinemas". Sim, é muito por aí. Mais do que uma mera sala de exibição, o Odeon é um fenômeno cultural por si só. Por ali passou o melhor da sétima arte ao redor do mundo. 

Assim como foi possível assistir clássicos de Godard, Fellini, Antonioni, Glauber, Billy Wilder, Nelson Pereira dos Santos e tantas outras feras, o Odeon também foi lugar de controvérsias e sessões pautadas por polêmicas ou desafetos. Caso, por exemplo, de A serbian film, do diretor Srdjan Spasojevic (eu estava lá no dia). Acusado de incitar pedofilia, o longa quase foi boicotado, envolvendo na polêmica inclusive figuras políticas. Lembro da exata reação de alguns espectadores na sessão, meio enojados com o que viam na tela. Acho até que foram no dia para tentar impedir a projeção. 

Outro diretor, que é a cara do controverso, cuja cinematografia marcou presença no cinema foi Lars Von Trier. Tanto O anticristo quanto A casa que Jack construiu, dois longas cheios de incômodos e amarguras (um deles, durante um Festival na Europa, viu seus espectadores se retirarem da sala durante a sessão) fizeram a alegria dos fãs do cinema sem barreiras, mais afeitos à liberdade de expressão. 

É preciso também destacar como marco do cinema Odeon suas inúmeras mostras e programações especiais que fizeram história com o passar dos anos. O Festival do Rio, o Anima Mundi (mais famoso festival de animação da cidade do Rio de Janeiro), o Festival Varilux de cinema francês e as nostálgicas sessões da Maratona Odeon (evento que virava noite adentro, com o DJ André Luís entretendo a galera entre as sessões, e com filmes que podiam variar entre os clássicos do terror até filmes recém indicados ao Oscar. Quem frequentou não esquece!).

Assim como o (hoje extinto) Cine Paissandu, o cinema Odeon é uma instituição cinematográfica que marcou época na história da cidade maravilhosa. Acho quase impossível que algum cinéfilo raiz deixe de citar ambos ao se referir à sétima arte, quando questionado sobre o que é cinema aqui no Rio de Janeiro. 

Se por um lado é triste percebermos que a sala hoje não tem mais a mesma projeção de outros tempos (fora em eventos específicos e sessões especiais), por outro é de uma extrema coragem e grandeza acompanharmos a luta do espaço para permanecer de pé em tempos de digital e serviços que fazem de tudo para que os espectadores permaneçam dentro de casa. Um adendo, entretanto, se faz necessário: é bem verdade também que os preços praticados muitas vezes não ajudam, contribuindo para a evasão com a qual o circuito exibidor tem de lidar nos últimos anos. 

Amores e desafios à parte, considero extremamente simbólico o centenário do cinema. Outras casas tão antigas quanto ele, como o Roxy, por exemplo, não resistiram e tiveram que se transformar num outro tipo de negócio para não fechar as portas de vez. O Caso Odeon é a prova viva de que ainda é possível manter o tradicional mesmo em tempos de tecnologia e delivery dominando o mercado. Que ele continue persistindo!


segunda-feira, 30 de março de 2026

O Brasileiro na Calçada da Fama


Nunca disse isso esses anos todos que escrevo nesse blog, mas é preciso: eu sou fascinado por música instrumental, e principalmente por percussão. Desde que ouvi pela primeira vez o gênio Naná Vasconcelos, fiquei encantado pela capacidade de certos artistas tirarem sonoridade de onde parece, muitas vezes, impossível. Outro caso claro desses é Hermeto Paschoal, mestre dos mestres quando o assunto era produzir música.

Contudo, hoje é dia de falar de outro mestre, este menos conhecido de quem não faz parte do mercado fonográfico. E que agora, após o anúncio de que ele será o primeiro brasileiro nato a ganhar uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, certamente será pesquisado - e muito! - por quem é fã de boa música (como eu). Refiro-me, logicamente, ao magistral Paulinho da Costa.

Imagine um indivíduo extremamente talentoso cuja primeira impressão que se tem dele é de que trabalhou com todo mundo do meio musical que tenha algum tipo de relevância. Esse é o caso do Mestre Paulinho. Ele excursionou ao redor do mundo fazendo shows com grandes nomes do pop, rock e jazz. E a lista é tão gigantesca, que é melhor lembrarmos do óbvio, para que este post não se transforme numa monografia. De Michael Jackson à Prince, de Madonna à Elton John, de Earth, Wind & Fire à Lionel Ritchie, de Celine Dion à Barry White, de Aretha Franklin à Ray Charles... Sim, meus caros leitores! O homem é uma lenda.

Nascido em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, Paulinho da Costa descobriu que percussão era o seu caminho através da ala jovem da bateria da escola de samba Portela. Em 1972, se mudou para Los Angeles para fazer parte da Banda de Sergio Mendes, por muitos anos considerado o artista brasileiro mais famoso e reconhecido em terras americanas. Foi ali, em meio àquele cenário e aquela convulsão sonora, que Paulo tocou em quase 7000 músicas, de mais de 900 artistas.

E seu currículo, quando lembramos das músicas nas quais participou tocando, é devastador. É possível ouvi-lo em hits como "Don't stop 'til get enough", "La isla bonita", "Purple Rain", "All night long", "I will survive", "September" e, até mesmo, no clássico dos clássicos "We are the world", no projeto USA for África (a maior reunião de artistas para a gravação de um clipe até hoje).

Recentemente, a Netflix lançou o documentário The Groove under the groove, dirigido por Oscar Rodrigues Alves, sobre a vida do músico, e a impressão que se tem de todos que trabalharam com Paulinho falando sobre ele, é de que se trata de um monstro sagrado da música instrumental, capaz de encontrar melodia e ritmo onde até mesmo parece que ele nunca existirá. Expressões como "assombroso", "de outro planeta", "fenomenal" e "único em seu estilo" povoam o longa, que merece ser assistido por qualquer um que se diga fã de música.

Faltou dizer alguma coisa mais? Mas é claro! Faltou eu, mais uma vez, dizer que precisamos valorizar mais nosso produto nacional, que muitas vezes está lá fora, fazendo história, e nem nos damos conta, preferimos cultuar artistas meia-boca com algum "selo internacional de qualidade". Já passou da hora de entendermos que se tem uma coisa fora de série que nós sabemos fazer, isso é a nossa música. O problema: o interesse constante pelo pior e pela mediocridade artística, que não nos deixa enxergar o melhor do nosso catálogo musical.

Fica a dica para os que estão começando a se inteirar sobre o assunto e não sabem por onde começar.


terça-feira, 24 de março de 2026

Marilyn, 100


E se ela ainda estivesse entre nós, o mito teria resistido com o passar dos anos ou seria substituída por alguém mais nova? Sempre me pergunto isso quando penso em Marilyn Monroe e na forma como ela nos deixou. Ainda a considero o maior mito sexual que hollywood já foi capaz de produzir, embora não possa dizer o mesmo dela como atriz. Marilyn era uma figura muito mais imagética do que necessariamente uma grande artista, e isso fica bem claro quando lemos grande parte da bibliografia existente sobre ela. 

A moça jovem, Norma Jean, que precisava - quase que de forma obsessiva - da fama e do status social, pois somente assim seria legitimada pelo star system da época. Acabou, isso sim, sendo usada até dizer chega numa era repleta de predadores sexuais e profissionais canalhas (principalmente: leia-se os malditos paparazzis).

Se estivesse viva ainda, Marilyn teria chegado em 2026 aos 100 anos. E acredito piamente que, das atuais divas presentes na indústria de cinema norte-americano, praticamente ninguém faria frente a ela. Se na época em que hollywood era sinônimo de mulheres como Ava Gardner, Elizabeth Taylor, Natalie Wood e Audrey Hepburn, elas já cortavam um dobrado, imagine agora...

Vê-la em clássicos como Quanto mais quente melhor, Os homens preferem as loiras, O pecado mora ao lado e Como agarrar um milionário (que eu rezo, todo santo dia, para que nunca façam remakes!) é a prova viva de que certos artistas são eternos, independente do talento que possuam. Marilyn, embora limitada dramaticamente, era uma força da natureza. Sabia vender seu sex appeal como nenhuma outra dentro da indústria e por isso foi criada pela mídia sua persona atemporal, ímpar, nunca superada. 

Seu caso com o presidente John Kennedy, o casamento com o dramaturgo Arthur Miller, a malfadada história do ensaio erótico para a Playboy... A vida de Marilyn é pautada por grandes polêmicas e transgressões. É até aí nenhum problema: ela é fruto de uma época - a chamada era de ouro do cinema americano - repleta de lendas urbanas, pin-ups, pulp fictions, teorias da conspiração, Macartismo, etc. Logo, parecia até meio natural que sua carreira se confundisse um pouco com tudo isso.

Ela faleceu em 1962, em pleno ápice da hollywood clássica, e nunca teve (acho que nunca terá) alguém que sequer chegasse perto de sua história. Quem conviveu com ela, disse em entrevistas que Marilyn era ingênua, carente, acreditava muito fácil nos outros e isso lhe custou a vida. Contudo, ela representou, quase que sozinha, uma espécie de estabilishment cinematográfico que é lembrado até hoje e, cá entre nós, acho que dificilmente será superado por essa geração atual que só pensa em recordes de bilheteria e verdades inventadas de internet. 

São mais de 6 décadas sem a musa definitiva do cinema made in USA e, ainda assim, do ponto de vista de quem curte e escreve sobre cinema, parece que foi ontem, ou no máximo anteontem. O que mostra o simbolismo dessa mulher à frente do seu tempo. Aliás... De todos os tempos. Saudades, Marilyn. E olha que eu nem pertenço a sua geração e estou dizendo isso tudo, hein! Imagine se fosse o meu pai escrevendo isso aqui.


sexta-feira, 20 de março de 2026

A lenda


O título desse post parece, no mínimo, irônico, mas em se tratando do ator e mestre das artes marciais Chuck Norris, que faleceu ontem, aos 86 anos, não é nenhuma novidade. Foi assim que ele acabou se tornando conhecido entre os fãs mais ardorosos depois que virou meme de internet, anos depois de ter se aposentado das telas. O homem que nada destruiria, inatingível. 

Carlos Ray "Chuck" Norris foi, antes de ator de filmes de ação em hollywood, membro da força aérea dos Estados Unidos. Mas a grande maioria do público fã de cinema o conhece mesmo como pupilo de Bruce Lee e astro de grandes franquias. 

Impossível se lembrar de seu legado cinematográfico e não citar o extraordinário Braddock e também os dois longas da série Comando delta (longa que eu tinha um enorme fetiche e vivia reassistindo nos tempos de videolocadoras). Em ambos ele vivia um herói de guerra acionado para lidar com tensões envolvendo terroristas e ditadores. Tudo isso numa época em que expressões como cinema brucutu e "exército de um homem só" eram vastamente difundidas entre cinéfilos os mais apaixonados. 

Outro personagem dele que repercutiu por anos foi o de Texas ranger, o patrulheiro das ruas, tanto no filme McQuade: o lobo solitário como na série de mesmo nome que, de certa forma, encerrou sua carreira nas telas. 

O curioso é que passado os tempos de sopapos e bilheteria, Chuck Norris se reencontrou como religioso (uma faceta que ele havia abandonado na adolescência). Tornou-se pastor da igreja batista norte-americana, chegando a liderar um ministério. Para muitos fãs que o acompanharam em produções como Comboio da carga pesada, Octagon - escola de assassinos, Vingança forçada e tantos outros hits, talvez tal informação possa parecer um delírio ou invenção, mas na verdade Chuck disse ter se reencontrado de fato como homem e cidadão somente quando fez as pazes com sua fé.

Nos últimos tempos muita gente que acompanhou sua carreira de forma fervorosa, seja no cinema, seja em vídeo, ficou decepcionado com ele ao saber que aderiu ao MAGA, mentalidade proposta pelo presidente Donald Trump, que defende a América (no caso, os Estados Unidos) em primeiro lugar. Chegaram a dizer na internet que ele havia vendido a sua alma e estragado a sua história. 

Honestamente... Não cabe a mim discutir as convicções políticas do autor, independente de eu concordar ou discordar delas. Meu interesse por Chuck Norris sempre foi o artístico e continuo defendendo o seu papel e legado na sétima arte. O resto me parece disputa por território que nunca leva a lugar nenhum. 

Recomendo aos que não conhecem sua obra que procurem entre os quase 50 créditos nos quais ele atuou. Aposto que encontrarão muita coisa boa. E o mais importante: o cinema de ação da época em que Norris estava em evidência - bem como Stallone, Van Damme e cia. - é completamente diferente do de hoje, baseado em narrativas repetidas criadas em IA e falta de originalidade. Logo, apreciem! É um tempo que não volta mais, infelizmente. 

De resto, fica a lembrança de mais um nome forte da indústria de cinema norte-americano que nos deixa (e, de novo, sem substituto à altura). 


terça-feira, 17 de março de 2026

Monólogo da intolerância nacional


Ouvi - de novo, e já deve ser a centésima vez que o faço - Cabeça dinossauro, álbum mítico do Titãs que completa 40 anos em 2026, e mais uma vez sou vencido pelo deslumbre da obra. Mais do que isso: sinto um gosto amargo na boca só de pensar que o rock nacional era isso tocando nas rádios todo dia, e hoje em dia ele nem está mais presente na dial (as próprias rádios perderam seu encanto, a sua razão de existir).

Na página do you tube onde reouço as faixas muitos comentários exaltam a obra, a força das letras, a coragem daqueles artistas de se posicionarem diante de um país que não é muito diferente desse que vemos hoje. Logo, qual o segredo desse disco? Como ele consegue permanecer tão relevante sem precisar mudar uma vírgula sequer? Cabeça dinossauro é, mais do que um simples álbum musical, um acontecimento político seríssimo na história da música brasileira. 

Ou poderia simplesmente dizer: é uma pedrada, dessas que você não sabe nem de onde vêm e te atingem de forma devastadora nos seus órgãos internos. Pareço exagerar? Então, pelo amor de deus, ouçam o disco (de preferência mais de uma vez, para captar a mensagem). 

É inegável o poder de demolição de canções como "AAUU", "Bichos escrotos" (foi a primeira vez na vida que eu cantei com gosto um palavrão contra o sistema, o status quo), "Família", "Homem primata", "Polícia" e a última - e enigmática - "O quê" (que durante anos virou uma espécie de mantra pessoal meu enquanto assistia clipes na MTV e programas de auditório na linha Perdidos na noite, com Fausto Silva). 

E olha que nem falei nada da faixa título, "Estado violência", "Porrada" e "Igreja". O repertório como um todo é altamente ácido, crítico, mordaz, à frente e, principalmente, ciente do seu tempo, ou seja: de uma sociedade fragmentada, abusiva, divisiva ao extremo, e que não dá a mínima para quem pensa diferente da bolha. Anos depois, quando a banda gravou o Acústico MTV, deparei-me novamente com essas mesmas músicas dentro de um outro contexto.

O resultado disso: ter a certeza de que as gravações originais são eternas, imutáveis, e resistem ao tempo como a muralha da China. Se por um lado o Titãs que apresentará um show-homenagem do álbum não é mais o mesmo, e sim apenas um fragmento daquela era, por outro é extraordinário continuar convivendo com essas pequenas joias desaforadas, cheias de denúncias, quase monólogos sobre a intolerância nacional que continua reinando nesse país controverso. 

É por causa de exemplares magníficos como Cabeça dinossauro dentro da discografia brasileira que eu sempre vou achar um abuso a nova geração ter trocado o rock pela breguice insuportável do sertanejo, um gênero que em nada reflete a fúria cotidiana com a qual convivemos dia sim, outro também. Soa-me tão contraditório quanto ex-roqueiros famosos de bandas fundamentais trocando o rock pela chatice da música folk. Fica parecendo um mundo paralelo, insólito, sem sentido. 

Em nome desse eterno que não pode morrer, convido todos que leram até aqui a conhecer (ou ouvir de novo, e de novo, e de novo) essa obra-prima ainda incompreendida por quem não entende nada de música, mas adora dar palpite em site furreca sobre mercado fonográfico e podcast de quinta categoria. Aposto que não irão se arrepender!


terça-feira, 10 de março de 2026

A matriarca do samba


Na ultima semana não vi, nem li, muito menos ouvi nada que merecesse de fato a minha atenção, que dirá minha modesta opinião crítica. Em muitos aspectos, março acabou se tornando o oposto do que foram os dois primeiros meses do ano. Em suma: uma monotonia. Até que leio em alguns sites e perfis em redes sociais que a escola de samba Paraíso do Tuiuti escolheu o seu enredo para 2027. E ele será sobre a extraordinária Tia Ciata.

Empolguei-me na hora (além de lembrar da escola municipal que recebeu o nome dela, lá na Avenida Presidente Vargas, bem pertinho do Sambódromo).

Tia Ciata - ou mais especificamente Hilária Batista de Almeida (1854-1924)- foi uma mãe de santo e quituteira de mão cheia, que marcou época na cidade do Rio de Janeiro, além de ter um papel essencial na criação e difusão do samba no estado da Guanabara. 

Hilária nasceu no Recôncavo Baiano e se mudou para a cidade do Rio de Janeiro em 1876, aos 22 anos. Moradora da Cidade Nova - reduto de negros e negras alforriadas, além de imigrantes de diversas localidades -, exatamente na Rua Visconde de Itaúna, localizada na Praça Onze (a então Pequena África), ela abriu espaço para o que veio a ser o "berço do samba". 

Em sua residência ela reuniu os primeiros grandes nomes do gênero musical para que cantassem e tocassem livremente, num momento do país em que o ritmo era proibido por lei, visto como ocupação de marginais e delinquentes.

Ela fazia e vendia doces no tabuleiro nas ruas do Rio de Janeiro, sendo uma das primeiras baianas paramentadas com saias e turbantes a realizar tal comércio (ou seja: aquela imagem clássica que vemos das alas das baianas nas agremiações do samba tiveram ela como referência direta!)

Por sua casa passaram artistas de grande importância como Heitor dos Prazeres, Donga, Pixinguinha, João da Baiana, entre outros. Há, inclusive, fortes indícios de que foi em sua casa que "Pelo Telefone" - canção de Donga e Mário de Almeida (1916) -, o primeiro samba gravado, foi criado. Atualmente, é preciso dizer que tudo isso é questionado e investigado por historiadores, incluindo nesse debate se "Pelo telefone" foi realmente o primeiro samba da história.

Mas, em se tratando de Tia Ciata, deixemos de lado discussões e polêmicas. O verdadeiramente importante é reconhecermos ela como a grande matriarca do samba que foi (mais do que isso: pioneira). Pois assim como Dona Ivone Lara ela também merece todos os holofotes possíveis e imagináveis. Não fosse sua visão de mundo, talvez o samba - como gênero - não fosse o que é. 

P.S: que grande escolha da Paraíso do Tuiuti... valerá a minha torcida ano que vem!


sábado, 28 de fevereiro de 2026

A guerra nunca acaba

 


A guerra, como sempre, nunca acaba

não

nem pensar!

ela se sofistica

se reorganiza

mas acabar, nunca acaba

e não acaba porque os homens

- também os mesmos de sempre -

não abandonam seus objetivos escusos

seus fascínios deturpados 

seus ternos bem cortados

sua eterna mania de conquistar

ou de simplesmente não respeitar o outro

que outro?

qualquer outro

porque nessas horas

não importa etnia, status social, sexualidade

se o outro pensa (ou defende) 

algo minimamente diferente

precisa ser executado, exterminado, fulminado

mais que isso:

ele não pode sequer constar dos livros de história.


Os mísseis partem

de lá e de cá

atingem casas, prédios

destroem vidas

tudo feito por um reles joystick 

idêntico ao do Playstation do seu filho

em meros segundos

bum!

tudo acabou

tudo vira pó

tudo vira cinza

tudo vira passado. 


Enquanto isso

enquanto toda essa desgraça midiática acontece

tarifas impõem sanções

destroem reputações de países

crianças engravidam crianças

adultos traficam crianças 

jovens são destruídos pelas drogas

desemprego 

renda per capita baixíssima

populações consumidas pela indústria farmacêutica

quando mal sobra grana para pagarem seus aluguéis e hipotecas

e idiotas se divertem em resorts e festivais de música 

ao som de alguma cançoneta pop ou techno fraudulenta

e dançam

e gritam a plenos pulmões

e achincalham quem não pertence à classe privilegiada

e entopem suas redes sociais 

de seus fanatismos frustrados

tudo a troco de... de quê?

do nada existencial 

do niilismo já cansativo 

desse dia-a-dia cada vez mais monocromático 

e sem graça

- e bota sem graça nisso!


Até quando? 

- perguntam os devotos, os cristãos, os profetas -

até quando teremos de aturar mais um dia D

mais um conflito bélico 

mais um desajuste político 

provocado por meninos inseguros brincando de Deus

com seus dedos acusadores contra tudo que lhes pareça errado

enquanto seus próprios erros 

são varridos para debaixo do mesmo carpete imundo?


Esqueçam o dia seguinte

e os outros que vierem depois deste

são todos iguais em suas intenções malévolas

o objetivo oficial: a reconstrução do mundo

o real objetivo: a covardia disfarçada de valentia

o mundo anda cheio de bullies e imbecis

passeamos 30 minutos pela internet 

e nos deparamos com a legitimação do grotesco

a ignorância ganhou um status nunca antes visto

a guerra passou de televisionada 

à fracionada em vídeos verticais no melhor estilo tik tok

com o único intuito de entreter os anormais.


O show business virou sinônimo de morte e alienação

crianças são bombardeadas em colégios 

na verdade, são esterelizadas

mas o principal fator de preocupação 

de 9 em cada 10 especialistas em catástrofe

comentando no NYT, BBC, CNN, etc

é a quantas anda a Bolsa de Valores

está tudo bem em Wall Street?

então continuemos 

o resto... 

é narrativa

é fake News.


Vejo pela tela do celular os destroços

os gritos

o desespero 

o sentimento de impotência 

os semblantes derrotados 

de quem já conhece aquela cena

de quem já a viu antes, inúmeras vezes

aquela mesma expressão:

"é, acabou"

e ter de levantar a cabeça 

e recomeçar 

pela milionésima vez

sem saber se uma nova cena, idêntica,

está programada para daqui a uma ou duas horas 

(de repente, menos).


Destruímos o bom senso 

destruímos o direito de ir-e-vir

destruímos a possibilidade do diálogo

destruímos o viver coletivamente

destruímos até o prêmio nobel da paz

- que nunca foi essa coisa toda, diga-se de passagem! -

tudo em nome da ingratidão 

e do desejo dos mesmos prepotentes de sempre 

se acharem os "donos do mundo".


A seguir: 

as cenas dos próximos (mesmos) capítulos.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A mulher mais relevante do país hoje


É tempo de carnaval, de mulatas e influenciadoras saradas, exibindo seus físicos impecáveis, construídos metodicamente ao longo do ano somente para aquele momento derradeiro do desfile. Entretanto, essa é uma época em que também se diz (e se promove) muito conteúdo inútil. Como, por exemplo, a declaração dada pelo presidente alienado da LIESA ao dizer que não havia mulher mais relevante no país hoje do que a influenciadora Virgínia Fonseca, uma prova cabal da grande ignorância que sempre ganha status no Brasil.

Do outro lado dessa discussão medíocre, a professora - e doutora - Tatiana Sampaio, formada pela UFRJ, que devotou a própria vida a pesquisar a medula, e desenvolveu uma proteína experimental chamada polilaminina, capaz de estimular a reconexão de neurônios danificados, levando pacientes que não conseguiam andar há anos a recuperar os movimentos. Uma descoberta científica histórica dentro do nosso país. 

Se por um lado Tatiana não se enquadra no parâmetro de beleza proposto por aqueles que existem única e exclusivamente para viver da própria imagem e nada mais além disso, de outro ela é o retrato de um país que, para mim, é o que realmente vale a pena: o das pessoas que pautaram sua vida além de famas, reconhecimentos fúteis e o mundo midiático de uma forma geral. 

Tatiana deveria ser um modelo dentro de um Brasil que, infelizmente, prefere se ater à futilidades, festas e celebrações em excesso, notícias enganosas e fraudulentas sendo vendidas à luz do dia como meras laranjas e uma população que cada dia mais nutre admiração pela própria ignorância. E, infelizmente, ela sai perdendo nessa equação. Seu trabalho passa quase em branco para a grande maioria da população. 

Em alguns sites e portais, várias pessoas já comentam a possibilidade de que ela possa ser considerada para o Nobel de Medicina, o que também seria um feito gigantesco - além de inédito para a nossa classe científica. Torço para que aconteça, embora saiba por a mais b o quanto a instituição que promove o Nobel é contraditória por excelência (vide a última vencedora do Nobel da Paz e para quem ela "deu" o prêmio).

Ao fim, o que realmente vale a pena ser comentado é o fato de mais uma brasileira ser reconhecida por um grande feito, algo que tem acontecido com certa frequência nos últimos anos, seja no Oscar, no Grammy, no Globo de Ouro, nas Olimpíadas de inverno, etc. E o Brasil merece mais reconhecimentos como esse. Precisamos reagir a nossa eterna síndrome de vira-latas e valorizar o produto nacional. 

P.S: e voltando ao carnaval, pergunte àquelas mulheres, destaques, rainhas de bateria, passistas, o que elas farão de relevante, de produtivo, no restante do ano. Aposto como se entediarão com a resposta. Mas essas, por algum motivo inexplicável, merecem a alcunha de relevantes. 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Assim falou Benito


Entre 1883 e 1885 o filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu sua obra máxima, Assim falou Zaratustra, onde nos apresenta um profeta que desce das montanhas para encarar e rediscutir o mundo como nós o conhecemos. Ele era totalmente avesso ao sistema tradicional e acreditava que os seres humanos são uma forma transicional entre macacos. Na verdade, certo estava ele, se levarmos em consideração no que a sociedade se transformou na virada para o século XXI.

Contudo, de tempos em tempos, assim como Zaratustra, outros homens também se decidiram a levantar contra um sistema arbitrário de ideias, contra uma mentalidade cafona de enxergar o mundo a partir de etnias, territórios e, principalmente, poder aquisitivo. Ontem, durante o intervalo do Super Bowl, da NFL, o mais americano dos esportes norte-americanos (o país misógino e racista por excelência), foi a vez de Benito Antonio Martinez Ocasio, ou simplesmente Bad Bunny, como se popularizou na indústria fonográfica nos últimos anos, falar o que pensa. 

Ele, porto riquenho de nascença, cansou de Donald Trump e seu governo facínora e perverso, e defensor dos imigrantes e latinos que vivem na terra do tio sam, fez de sua apresentação no intervalo de uma das maiores competições dos EUA, um ato político muito mais autêntico do que o de muita gente que se diz agente político. E o principal: sem levantar a voz, sem agredir, sem xingar seu adversário. 

Vamos da floresta e seus cultivadores às tradições da América Latina, com toda sua verve, seu delírio, suas cores, sua dança potente, seu jeito de olhar, de pensar, de simplesmente ser. Benito convida Ricky Martin - provavelmente o nome mais bem sucedido de Porto Rico na história da música - e Lady Gaga (que canta sua "Die with a smile" em tom de salsa) para a festa. 

Pedro Pascal, Jessica Alba, Cardi B também estão lá, vislumbrando de tudo e dançando ao ritmo latino. Benito se veste em tons de Zara, uma marca famosa e elitizada (na verdade: uma provocação, como tantas), sobe no teto de uma casa, que desaba e depois age como os agentes da ICE, com a mesma truculência, metendo o pé na porta, afrontando seus moradores. Ele também entrega seu Grammy recém ganho à um menino que parece fisionomicamente com uma das crianças deportadas pelo governo Trump. 

Não satisfeito com tudo isso, ele sobe em postes telefônicos, convida os demais países a um manifesto e quando diz "God bless America" corrige aquilo que os americanos não querem que seja corrigido: a América não se resume a um país, trata-se de um continente, vasto, rico, múltiplo em suas inúmeras culturas. Ele vem acompanhado das bandeiras de todos os países membros do continente, incluindo a nossa, traz sua bola, desfere um touchdown, avisa aos detratores: "seguimos aqui". Ou seja: não iremos a lugar nenhum. E tudo isso dito em espanhol, na língua natal do cantor, para repúdio ainda maior dos americanos moralistas. 

E pensar que o protagonista da festa deveria ter sido o embate entre Patriots e Seahawks (que teve o segundo como vencedor). Na boa... Para muita gente foi o que menos importou na noite de ontem. 

Como Zaratustra, Benito (ou Bunny, fica a seu critério como chamá-lo) decide peitar uma ideia enfadonha de mundo, baseada em classes sociais e objetivos escusos. Ele avisa aos latinos que não é hora de se acovardar e sim bater de frente com os ditos "donos do mundo". Se o Império Romano, que durou 5 séculos e destruiu tantas civilizações caiu por terra, não é o país do chamado "sonho americano" que atingirá o zênite da imortalidade. 

Termino a apresentação - são meros 13 minutos, mas de um impacto colossal - realizado, feliz de pertencer a este continente, de ser latino também, e de não querer mais ditadores e fascistas impondo suas regras nefastas. Valeu, Benito! Você fez do meu domingo um dia melhor. 


domingo, 8 de fevereiro de 2026

O submundo ainda é aqui


EUA: a terra dos bravos, dos homens livres, do sonho americano, a verdadeira democracia. Assim, pelo menos, eles dizem. Já na prática a história é bem outra, bem mais amarga. Que bom que inúmeros artistas norte-americanos ao longo de sua história nunca se renderam ao discurso vazio da "grande nação" que não sobrevive fora da teoria. Dentre eles, o cineasta Martin Scorsese. 

50 anos atrás ele produziu Taxi Driver, um verdadeiro ensaio sobre o caos e o exagero que são, na prática, os Estados Unidos da América. Como tantos outros grandes realizadores do país que fizeram longas seminais ele não ganhou o Oscar (e quem perdeu com isso foi o próprio prêmio), mas entrou para a história mesmo assim. E a história do país - cinematograficamente falando - nunca mais foi a mesma depois desse filme. 

Seguimos a trajetória de Travis Bickle (Robert de Niro), um ex-veterano da Guerra do Vietnã que trabalha como motorista de táxi atravessando as ruas imundas de Nova York e testemunhando a degradação da sociedade dia-a-dia. Ele vê o homem como lobo do homem ser transformado numa grande ironia diante de seus olhos e tem vontade de aniquilar com tudo isso. Pessoas o veem como anti-herói de um tempo fúnebre, outros como sobrevivente de uma era. Eu o vejo como o apogeu de uma violência desenfreada que se recusa a desaparecer. 

Ao conhecer Betsy (Cybil Shepperd), um mulher de status social completamente diferente do dele, Travis se transforma e começa a se enxergar como uma espécie de messias da nova era, o único capaz de dar fim àquela barbárie. Sua intenção: matar um candidato à presidência da república, pois acredita que tal ato possa ser o estopim de futuras transformações mais do que necessárias para o país. Além disso, ele fica indignado com a maneira como vive a prostituta Iris (Jodie Foster), uma menina de reles 12 anos explorada por seu cafetão, Sport (Harvey Keitel). 

E é naquele exato momento de insatisfação total com tudo, o mundo, a população, que ele surta e ultrapassa todos os limites do considerado ético. Nasce ali o revolucionário diante do niilismo do país. 

Até hoje fico perplexo quando me lembro que, no ano seguinte do seu lançamento, Taxi Driver perdeu o Oscar de melhor filme para Rocky, de John G. Avildsen. Chego, às vezes, a chamar tal escolha de insana (nada contra Stallone e seu projeto, que é bem produzido, mas... não dá). O longa de Scorsese, escrito pelo mestre Paul Schrader, é dos dramas mais contundentes e definitivos que eu já assisti em toda a minha vida como cinéfilo. 

E ainda falando em Oscar: a participação de Taxi Driver no prêmio é um festival de frustrações: teve quatro indicações (filme, ator, atriz coadjuvante e trilha sonora, esta produzida pelo extraordinário Bernard Herrmann, de longa parceria com Hitchcock) e não ganhou nenhuma estatueta, sendo que Scorsese e Schrader sequer foram indicados. Ainda bem que o Festival de Cannes reconheceu a genialidade da produção e lhe concedeu a Palma de Ouro. Mas mesmo assim.... considero um dos maiores esnobes da história dos Academy Awards. 

O longa, de certa forma, é um retrato vivo do que era a cidade de Nova York naquele exato momento, pois ela vivia uma gestão sofrível, quase às portas da falência, e equilibrava as contas para sobreviver minimamente. O resultado disso: drogas e criminalidade por todos os cantos. E vejo o segmento em que Travis vai ao cinema pornô como uma grande alegoria para explicar esse abandono social e financeiro. Todos pareciam presos ao ritual da devassidão moral. 

Em todas as ocasiões que revi o filme, saí da experiência com a certeza de que o submundo, como eu o entendo, ainda é aqui, neste lugar ao léu, vendido para o resto do mundo como terra da liberdade e das oportunidades (resta saber para quem exatamente).   

Quem não conhece essa pequena obra-prima, aconselho a procurá-la o quanto antes, principalmente se levarmos em consideração o atual momento que os EUA vive, uma cópia quase xerográfica do que aqui está (na verdade, até piorada em muitos sentidos). Esse é daqueles filmes de cinema que deveriam figurar na lista obrigatória de qualquer um, seja qual for a sua geração. 

Agora vão lá, assistam essa joia e tirem suas próprias conclusões!


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

50 anos sem a Rainha do crime


Vi a notícia na internet sobre os 50 anos da morte da escritora Agatha Christie (a eterna Rainha do crime) e passou literalmente um filme na minha cabeça. 

Embora nos últimos anos eu venha lendo mais obras de não-ficção, eu fui um leitor forjado no gênero romance policial, com Agatha, Arthur Conan Doyle, os autores da Black Mask, George Simenon e cia. Adorava a possibilidade de decifrar crimes e mistérios e, muito por conta disso, foi delicioso descobrir Agatha meio que por acidente num saldão de livraria. Ela conseguia prender a minha atenção com o simples. 

Fosse quem fosse o investigador da trama - Hercule Poirot ou Miss Marple - eu devorava seus livros sem medo. Isso quando não os relia por não acreditar totalmente no final proposto (achava que havia lido errado alguma coisa, mas não! era exatamente aquilo que ela queria dizer). Assassinato no Expresso do Oriente, provavelmente seu romance mais famoso, virou cult, fetiche nas mãos de leitores alucinados. 

Houve um tempo em que as bancas de jornal aqui no Brasil decidiram vender toda a coleção de Agatha e eu comprei diversos deles: A mansão hollow, Morte no Nilo, Os crimes do ABC, O segredo dos Chimneys, O caso dos 10 negrinhos (que tempos depois, por conta de uma polêmica envolvendo racismo, teve seu título alterado para E não sobrou nenhum), Um corpo na biblioteca, Assassinato no campo de golfe, o homem do terno marrom, etc etc e hajam etcs, a lista de obras é imensa.

No final das contas, posso dizer com folga que ela foi a inicializadora de um processo na minha vida: o de me tornar leitor numa família que quase não lia nada. E sou eternamente grato a ela por isso. 

O maior mistério envolvendo a autora, entretanto, nunca foi decifrado: o desaparecimento dela por 11 dias ocorrido em dezembro de 1926, após uma briga entre ela e o marido. E mais do que isso: um mistério que ela nunca transformou em obra literária, para a tristeza dos leitores. 

Agatha Christie morreu no ano em que eu nasci e vejo nisso mais do que mera ironia, e sim um convite para conhecer sua obra. É verdade que há tempos não a leio por ter feito outras escolhas literárias, mas tenho pensado muito em retomar contato com sua obra (já passou da hora, na verdade, e ela tem muita coisa que figura na minha lista de inéditos). Quem sabe com essa notícia que caiu de para-quedas diante de mim eu não tome coragem e procure por material dela, sempre acessível nas grandes livrarias ou sebos.

E quem nunca leu? Olha, vocês não sabem o que estão perdendo. Essa senhora deveria ser tão obrigatória quanto Machado Assis para qualquer leitor que se preze. Se acham que eu exagero, procurem seus textos... 


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Streets of Minneapolis é a canção dos EUA em 2026?


O mês de janeiro chega ao fim com Bruce Springsteen largando o aço em Donald Trump e companhia. Não é à toa que o cantor e compositor é conhecido como "The Boss" em seu país. Todo meu respeito a ele, cuja carreira acompanho desde os tempos de "Born in the USA" e ele nunca fugiu da raia em momentos como esse.

Os motivos, porém, são mais cruéis agora. A música chama-se "Streets of Minneapolis", canção de protesto denunciando as vítimas da barbárie ocorrida na cidade pelas mãos da terrível ICE, que vem sendo chamada na internet a todo momento de "a Gestapo de Trump". Duas dessas vítimas, Alex Pretti e Renee Good, são citadas literalmente na letra e merecem tal honraria, são símbolos dessa tragédia. 

A canção fala sobre uma batalha cruel, covarde, não simplesmente um conflito bélico ou mais uma guerra como tantas outras. Não, senhor! O que vemos aqui são homens completamente despreparados para lidar com uma situação de confronto abusando de sua autoridade e tirando vidas, como se elas não valessem absolutamente nada (e acreditem: ainda tem gente que defende isso). E tudo com a autorização máxima do presidente da república, um elitista insano brincando de Deus. 

Se em "This is America", do cantor Childish Gambino (aka Donald Glover), já presenciávamos com grande horror a ironia que é viver num país que se vende como uma grande sociedade do espetáculo, enquanto esconde suas práticas escusas e desumanas, o caso se agrava ainda mais aqui por se tratar de uma violência gratuita com aparato oficial. E ai de quem se posicionar contra, pois será deportado ou executado de forma sumária. 

O filme recente de Alex Garland, Guerra Civil (que traz o ator Wagner Moura no elenco), começa a se mostrar cada dia mais real, dessa vez não nas telas, mas nas ruas banhadas de sangue. Bruce fala em pegadas e lágrimas de sangue, mentiras sujas, direitos pisoteados, mas também propõe um levante e convida os cidadãos do país a enfrentar o inimigo de frente. 

Seus versos parecem dizer a todo momento: "desistir não é uma opção, não nesse momento" e parece que o povo começa a ouvir. A resistência se posiciona, os Panteras negras voltaram às ruas, governadores de vários estados já repudiam e desobedecem o atual governo. O que virá a seguir? Aguardemos. E não esqueçam: esse ano tem Copa do Mundo, e os EUA é uma das sedes. Imagine você, turista, viajando para um lugar desses, só para assistir uma partida de futebol. Você irá? 

O que o amanhã promete na terra do Tio Sam? Não sei. Mais não parece que será bonito. Quanto à música... Valeu, Boss! a população precisava de uma sacolejada dessas. E Fora ICE! O quanto antes!


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A língua que falamos (quer dizer: quase)


O título do post é uma provocação, pois quando falamos do povo brasileiro como falante da língua portuguesa - na verdade, de qualquer idioma - a primeira impressão que se tem é de grande ironia (tendo em vista que o próprio povo esnoba a ideia de conhecimento com a mesma facilidade com que arrota status, principalmente os que nem têm). Somos o país das gírias, dos memes, que inventa uma língua fictícia para não precisar falar a própria. Uma pena, eu sei...

Logo, qualquer livro que mostre a formação do nosso idioma e exponha a grande complexidade que é aprendê-lo me interessa - e muito. E nesse sentido Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português, de Caetano Galindo, acerta em cheio. Se eu já era fã do nosso idioma e tudo o que versa sobre o tema, fiquei ainda mais admirador depois da leitura dessa pequena joia. 

Caetano esmiúça as raízes de nossa variante da língua portuguesa, mostrando o quanto ela tem do colonizador, mas principalmente, de referências externas, de imigrantes, de bárbaros (estrangeiros) e, lógico, da África. Ele chega a se utilizar da expressão Pretoguês para nos mostrar o quanto a nossa modalidade de língua portuguesa é mestiça e única, só encontrada aqui.

Mais do que isso: ela, até hoje, não foi completamente entendida ou assimilada por nossos irmãos patrícios ou africanos. O que me fez lembrar de uma antiga colega angolana com quem estudei na faculdade que achava um tanto curioso as escolhas de palavras que fazíamos aqui no Brasil (muitas delas, causando um enorme estranhamento para ela e seus amigos).

O autor se utiliza inclusive de um paralelo com a canção "Língua", do cantor e compositor Caetano Veloso, no intuito de vasculhar os inúmeros sentidos e acepções do nosso idioma, que é múltiplo desde sua origem. 

Já quase no final do livro Galindo nos oferece uma lista de leituras complementares e, dentre elas, vejo O que é preconceito linguístico?, de Marcos Bagno, que marcou minha formação universitária uma década atrás e dialoga de forma frontal com o estudo aqui proposto. Saio, sim, com a sensação de que o título desse texto vem bem a calhar. "Falamos" (desse jeito mesmo, com aspas) o idioma português, pois não procuramos entender o que ele tem de mais rico e complexo.   

Latim em pó deveria ser leitura obrigatória nos colégios. Quem sabe não tivéssemos tanta dificuldade em interpretação de texto como costumamos observar nos resultados do ENEM e dos concursos públicos. Faz-se urgente que o povo brasileiro descubra a sua própria língua, e considero o estudo de Galindo defendido aqui uma boa porta de entrada para quem ainda pretende dar uma chance ao seu próprio idioma. Fica a dica. 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Autran Dourado, 100 anos


Falam muito de Machado de Assis no Brasil quando o assunto é literatura. Falam tanto que até esquecem - na maior parte do tempo - de lembrar de um sem número de autores nacionais fabulosos que também merecem o tempo (e a dedicação) dos leitores, sempre à procura de boas narrativas. E isso é uma pena! Sempre detestei essa mentalidade nacional do "só se pode evidenciar um como gigante das letras". É um erro grotesco.

Somos um país de dimensões continentais e sotaques e estilos de escrita completamente diferentes e isso deve ser conhecido por qualquer leitor que se preze. E toda vez que um autor - que não Machado - é celebrado em algum prêmio literário ou por seu centenário (em vida ou póstumo), eu volto a essa baila e reafirmo sua necessidade de ser lembrado. Dessa vez, é Autran Dourado, que chegou ao seu centenário agora em 2026.

Linguagem simples, estrutura complexa (ou, para os entendidos e intelectuais da crítica especializada, a "carpintaria literária").

Construção meticulosa e racional de narrativas as mais diversas que configuram uma espécie de alma mineira. Solidão, loucura, desejo, condição humana... tudo mesclado de forma realista e lógica, mas sem esquecer de elementos míticos, barrocos, por vezes até sobrenaturais. Se García Márquez teve sua Macondo, Autran se debruçou sobre o interior de Minas Gerais, onde expôs seus conflitos e decadência.

A incomunicabilidade é também um tema presente em suas obras. Que o diga seus personagens atormentados, praticamente surrealistas, tentando falar, sem interlocutor que os entenda... Sim, deve ter sido difícil produzir tal obra, mas acreditem: é produto de um gênio. Assim como Raduan Nassar, Erico  Veríssimo e Guimarães Rosa, outros gênios incontestes.

Há dois livros de sua lavra que nunca saem de minha cabeça e olha que eu já os li faz tempo (lá pelos anos 1990) e ainda não me sobrou tempo livre para revisitá-los: Ópera dos mortos e Os sinos da agonia. Seus contos também são inebriantes, repletos de desejo e violência, e volta e meia nos mostrando um homem acuado diante do mundo.

Não ter mais nada inédito para ler de Autran é quase um crime. Sempre gosto de dizer que ele e Lúcio Cardoso (do belíssimo A Crônica da casa assassinada) foram duas pisadas de bola da Academia Brasileira de Letras - entre tantas outras ao longo de sua história. Se houve autores magníficos que mereciam tais honrarias, eram eles dois. Enfim...

Dedico este breve e nostálgico post a todo grande leitor brasileiro que, como eu, sabe garimpar o melhor dentro de nossas letras e sente falta de dias um pouco melhores no mercado editorial. E me refiro à novas vozes, mais gigantescas, mais poderosas. Não sei porquê, mas tenho achado nossos autores, nos últimos anos, um tanto quanto incompletos. Falta algo ali, eu sei que falta, só não sei explicar exatamente o quê. É um detalhe.

Na dúvida, perguntem aos críticos literários (eles certamente entendem mais do que eu).


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Nostalgia musical plena


A primeira quinzena de janeiro se vai e as homenagens e novidades culturais continuam surgindo mais cedo do que eu imaginava, ainda mais num país onde praticamente tudo só começa em tese depois do carnaval. Descubro que o álbum Invisible touch, da banda Genesis, está comemorando 40 anos de existência em 2026. Amo Genesis com todas as minhas forças e ele teve um papel fundamental na minha adolescência.

Lembrar de Peter Gabriel, Phil Collins e companhia me faz lembrar de uma época que era pura - e plena - nostalgia. E o mais triste: uma época que, infelizmente, não volta mais, graças a uma civilização cada vez mais burra, egoísta e inconveniente (principalmente no que se refere à opinião alheia) que sequer sabe reconhecer o que de melhor surgiu na cultura pop antes deles, imediatistas, virem ao mundo. 

Invisible touch é repleto de momentos memoráveis, únicos, desses que você ouve (e ouve, e ouve novamente) até o antigo vinil quase arranhar depois de tantas repetições nada desnecessárias. É como passear em meio a um mundo mágico, paralelo, quase um shangri-lá - para pegar de empréstimo uma expressão do escritor James Hilton - e se dar conta de que você, ouvinte, está anos-luz do que chamamos hoje de realidade. 

Seja pela faixa título, que chegou a ser - por um bom tempo - o ringtone do meu celular, seja por "In too deep", "Throwing it all away" (meu momento mágico especial do disco) ou "Land of confusion", a banda entrega magia em doses cavalares, algo que o atual cenário da música pop não é capaz de entender, pelo menos na maior parte do tempo. 

Já disse em outras postagens nesse blog uma frase que sempre me acompanha quando escrevo sobre mercado fonográfico: existem músicas e músicas. Existem aquelas que são tão insignificantes do ponto de vista da qualidade, que sobram apenas como fenômeno de vendas e status (e muitas delas atingem seu tão sonhado celebritismo, embora continuem não me dizendo nada). E existem outras que são atemporais, mesmo que definidoras básicas de uma época, de uma forma de pensar. 

Invisible touch, do Genesis, com certeza faz parte desse segundo grupo. E é por demais melancólico ver o estado de saúde no qual o Phil Collins, um de seus membros, se encontra nos últimos anos. Ele era gigante! Ouçam também seus discos solo, suas trilhas sonoras para animações da Disney. Nada disso seria possível não houvesse o Genesis surgido (e virado tudo de ponta a cabeça) antes. 

Faltou dizer algo? Como sempre, faltou mandar os leitores desavisados, não conhecedores do grupo (se é que isso é possível em pleno século XXI) ouvirem essa pequena joia. P.S: procurem no Google a história por trás da canção "The Brazilian". Só a pesquisa já vale a menção a este trabalho aqui nesse breve texto. No mais, Genesis eterno.