domingo, 12 de julho de 2026

Eles estão mais rock do que nunca!


Por mais que o gênero não esteja mais tão presente nas rádios como em outros tempos, nunca duvide do rock n' roll. E principalmente: nunca - sob hipótese alguma - duvide dos Rolling Stones. Não é à toa que eles são a maior banda de rock em atividade. Prova disso é o seu novo álbum, Foreign Tongues (O vigésimo quinto de estúdio e segundo nessa última década, ao lado de Hackney Diadmonds), que traz de volta o espírito do ex-quarteto, agora um trio, após o falecimento do baterista Charlie Watts. 

Vou mais além: desde Voodoo Lounge - cuja turnê passou aqui pelo Brasil, inclusive - eu não saía tão empolgado de uma audição dos Stones. Eles reencontraram a velha fórmula, a acidez sonora necessária e souberam procurar parceiros musicais também interessantíssimos e pra lá de afinados.

Aqui, é possível ouvir um pouco do eterno Beatle Paul McCartney (no baixo), de Robert Smith (vocalista do The Cure), de Chad Smith (baterista do Red Hot Chili Peppers) e até do astro pop Bruno Mars (que toca uma campana em "Never wanna lose you"). Isso sem contar o cover cereja do bolo de "You know I'm no good", de Amy Winehouse, do extraordinário álbum Back to Black.  

Há tanto do que gostar nessa nova empreitada do grupo que eu chego a ficar perdido. Da provocação à Elon Musk em 'Mr. Charm' à excelente "Rough and Twisted" abrindo os trabalhos com todo o suingue que é o que lhes consagrou após tantas décadas. De "Jealous Lover" (e um falsete que parecia impossível, se pararmos para pensar que Mick Jagger já chegou aos 82 anos, mesmo sem perder o rebolado) à "In the stars", "divine intervention" e a melódica "Covered in you". 

E o álbum ainda nos presenteia com uma versão crua de "Beautiful Delilah", do indefectível - e indispensável - Chuck Berry, que remete aos mais puro sentimento de nostalgia, nos fazendo lembrar daqueles jovens britânicos viciados em rebeldia e guitarras distorcidas. E paro por aqui (é lógico), pois quero que os leitores desse mísero post ouçam o trabalho de cabo a rabo, de preferência mais de uma vez. 

O maior legado de Foreign Tongues, certamente, é o dos ouvintes se reencontrarem com a banda (o que, no meu caso particular, é algo que eu já almejava há quase duas décadas, pois vinha achando seus últimos álbuns bem a quem do que os caras são capazes de fazer). E mais do que isso: é a prova viva de que, não importa a idade dos integrantes, nunca é tarde para calar a boca dos críticos e haters e provar por a mais b que você ainda pode ocupar o lugar mais alto do show business. 

Agora resta esperar que a nova turnê venha (e na boa... certamente virá, eles são incansáveis, workaholics). Aguardemos, ansiosos, as apresentações ao vivo, que são sempre um capítulo à parte na carreira da banda. Resultado final dessa experiência sonora e musical: sim, eles estão mais rock do que nunca. Se permitam ouvi-los ainda mais uma vez!


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Acabou o sonho... de novo!


Embora não tenha assistido a nenhum jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo pelo SBT, já imagino o eterno Galvão Bueno proferindo a sua clássica frase "Acabou o sonho!" depois da desclassificação do Brasil para a seleção da Noruega ontem, num jogo onde faltou tudo: garra, entrega, tesão, habilidade, coragem, culhões. Resultado: nossa seleção fez sua pior campanha na competição desde 1990, na Itália, quando foi vencida pela Argentina também nas Oitavas-de-final. 

Contudo, o mais triste dessa desclassificação é aquele sentimento de que "já vimos esse filme outras vezes e nenhum sinal de mudança parece à caminho". Já começa, inclusive, a surgir na internet e nas redes sociais uma definição para este grupo que vem representando o Brasil na Copa nos últimos anos: geração tik tok (muito mais interessada em status, engajamentos, publis e fama efêmera, deixando o futebol em segundo plano). 

Infelizmente, definição melhor não há para esses "jogadores"(as aspas são intencionais). O Brasil foi pentacampeão mundial, sim, no passado... Continuar escondendo-se atrás desse rótulo é de uma temeridade - e de um arrogância - sem tamanho. Chega a ser até vil, dependendo do ponto de vista que se olhe. A própria expressão "o país do futebol" tão alardeada nessa época do ano precisa ser revista urgentemente, principalmente pela geração que nunca viu nossa seleção ser campeã de nada. 

A Copa encerra para o Brasil e dá lugar aos especuladores, especialistas, aspones, oportunistas de plantão e outras figuras que são notórias em nosso país na arte de fazer o nome em cima da tragédia alheia, cada um com uma solução na ponta da língua. "Precisamos mudar tudo", "Temos que voltar a jogar como brasileiros", "Não dá mais para copiar o modelo europeu de futebol". O treinador, que neste último ciclo foi estrangeiro (e, em tese, permanecerá até 2030) entrará na linha de tiro dos revoltados (principalmente os técnicos brazucas que estavam à espera do fracasso), bem como a geração fracassada que nada fez nas quatro linhas de 2014 pra cá. 

Pior: no próximo ciclo completaremos 28 anos sem sequer chegar à uma final, quiçá uma conquista. Some-se a isso o vexame secular do 7X1 contra a Alemanha aqui no país e ser eliminado por seleções de segunda prateleira da Europa (Bélgica, Croácia, agora Noruega...) e um fascínio notório pelo glamour e os escândalos envolvendo corrupção entre os dirigentes da CBF e pronto: o caos está definitivamente criado e mantido. 

O que fazer para mudar esse cenário dantesco? Se eles, que são os responsáveis pela gestão do dito esporte mais querido do país não sabem, que dirá eu ,mero blogueiro e colunista que nem considero o futebol minha paixão nacional. 

De concreto mesmo: 1) precisamos zerar o jogo, dar um fim de ciclo a muitos que aí estão e nada fazem além de enriquecer mais e mais e exibir mulheres, carros de luxo e patrimônios vultosos; 2) Haaland, o homem que matou o jogo no 2x1 que nos mandou para casa, entra para a gloriosa galeria de algozes que marcaram a história da seleção brasileira em Copas do Mundo (junto com Ghiggia, Caniggia, Paolo Rossi, Zidane, etc); 3) O país (leia-se: a sociedade) precisa enxergar o esporte com outros olhos, e entender que a competição tomou outro caminho com o passar dos anos e não somos mais a figura mais importante dentro desse universo.

É preciso - para ontem - que passemos a limpo a estrutura vigente, que viremos a página das subcelebridades que se dizem atletas com sua cultura da mediocridade e do ostentacionismo, que paremos de fabricar falsos heróis, salvadores da pátria que nem sequer conhecem o próprio país e, principalmente, "jogadores imaginários", que no final das contas só funcionam como memes e deboches rotineiros em discussões imbeciloides envolvendo gente que nem curte o esporte e a competição tanto assim... Só quer mesmo é engajar em cima do assunto. 

Parece muita coisa - e é. E que comecem o quanto antes, pois já estamos mais do que atrasados no cenário futebolístico. O problema é: será feito, realmente? Mais uma vez (e parece até sina dizer isso): aguardemos. De novo. Estamos sempre aguardando, não é mesmo? É o que nos restou como legado dessa desgraça esportiva. Até 2030. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Não estamos sós (e faz tempo isso)


Na adolescência eu fui um exemplar repleto de curiosidades sobre os mais diversos assuntos: de romances policiais e a era da lei seca à biologia marinha, de sociologia urbana à psicanálise, da beat generation (com um capítulo à parte para O uivo e Junky) às enciclopédias Abril e Larousse (precursoras do Google para qualquer estudante que se prezasse no século passado) e, como bem diria Buzz Lightyear, de Toy Story: "ao infinito e além". 

Contudo, nada nesse período me intrigou tanto quanto ufologia. Eu era um obcecado sobre o tema (independentemente de quem acreditasse - ou não - nos alienígenas quando conversasse comigo). J. J. Benitez era um autor de cabeceira que me acompanhou por um longo tempo, que o digam suas obras Ovnis: S.O.S. à humanidade, 100.000 Km em busca de ovnis e O ovni de Belém. E quando encontrei O caso Roswell numa videolocadora de bairro perto de casa foi um Deus nos acuda... Revi aquele filme por volta de umas dez vezes em pouco mais de uma semana! Tempos depois, inclusive, cheguei a comprar um vhs para mim. 

E a cereja no bolo dessa equação foi Mr. Steven Spielberg com seus eternamente nostálgicos Contatos imediatos do terceiro grau e E.T. Até hoje não me deparei com nenhum outro diretor que conseguisse falar sobre o assunto da mesma forma que ele (ou, pelo menos, com a mesma paixão). E acreditem: eu vi MUITA coisa!

Eis que, 49 anos depois daquela experiência sensorial que mudou a minha vida (e a de Roy Neary, personagem do ator Richard Dreyfuss, também!), Spielberg regressa às origens com O dia D. Entretanto, é preciso avisar aos fãs da minha faixa etária, mais nostálgicos: o tempo passou, Spielberg venceu Oscars, tomou novos caminhos, fez escolhas de carreira completamente diferentes, e me parece injusto da parte do público esperar dele aquele cineasta de 5 décadas atrás. Ele é outro indivíduo agora (e não significa que isso seja ruim). 

O dia D abre seus trabalhos deixando claro se tratar de uma conspiração envolvendo o alto escalão do governo e a necessidade de um grupo de dissidentes dessa organização, cansados de manter o segredo acerca dessa descoberta, mostrar tudo o que foi escondido da população até hoje. Sinais vão sendo mostrados pouco a pouco, abduções vão sendo desmembradas bem como o uso da tecnologia extraterrestre à serviço de uns poucos que acreditam que a verdade só gerará caos em meio à população. 

Mais do que isso: em determinado momento é mencionada a palavra divindade para se referir à tão polêmica descoberta, e isso certamente gerará incômodo num mundo contemporâneo onde dogmas vem querendo ser muito mais do que mero rito de fé. Na verdade, o eterno projeto de poder envolvendo os religiosos deste século talvez seja um problema para muitos "devotos" que irão assistir o filme. É preciso ter mente aberta para acompanhar a proposta aqui; portanto, não há espaço para alienados ou fanáticos.  

No quesito estética, O dia D não deixa nada a dever - agora sim - ao cinema mais nostálgico de Spielberg. Fiquei encantado com a paleta de cores e com a fotografia de Janusz Kaminski, colaborador de longa data do diretor (e também responsável pela luz de Contatos imediatos. Um mestre!). A música de John Williams também está presente, mexendo com meus sentimentos de novo, e o elenco é um caso à parte. Não saberia eleger uma má escolha aqui. Embora tenha ficado preso, quase mesmerizado, às atuações de Emily Blunt e Colin Firth, o restante do grupo também entrega tudo dentro do que lhe foi exigido. 

Ao fim da sessão - e sem querer entregar spoilers, mas sabendo da difícil tarefa que é isso -, o longa nos deixa claro que a vida fora do planeta terra está aqui há mais tempo do que supomos acreditar. E até hoje não sabemos o que fazer com essa informação, seja por ganância ou pela eterna mania de tratar o outro como idiota ou prisioneiro de discursos falaciosos. 

P.S: para quem espera por nostalgia ao extremo (anos 80 na veia), esse não será o seu filme. Já os que (como eu) gostam de olhar para frente e se deparar com novas perspectivas, o longa é sublime. E, claro, mais Spielberg do que nunca.    


domingo, 28 de junho de 2026

Mel Brooks, um século de humor


Hoje Mel Brooks comemora 100 anos de idade (e em plena atividade). Ele está em vias de lançar a continuação de seu clássico da ficção-científica S.O.S - tem um louco à solta no espaço, um clara sátira ao arrasa-quarteirão Star Wars, de George Lucas. E o mais importante dessa data comemorativa: ele sempre entregou ao público o que ele prometeu, nunca ficou em cima do muro no que tange ao teor de suas piadas. 

Melvin James Kaminsky (seu nome de batismo) provavelmente seria cancelado pela geração pão com ovo de hoje em dia - e muito! E quer saber? Quem perde com isso é a própria geração, que coloca defeito em tudo, moraliza qualquer piada. Quem acompanhou sua carreira de perto sabe bem o quão gratificante foi rir de suas piadas, se escangalhar com o seu estilo. Definitivamente ele faz um tipo humor que dificilmente existirá novamente, se levarmos em consideração no que a sociedade está se transformando por puro moralismo ou exibicionismo. 

A primeira vez que vi um de seus longas (em VHS, faz tempo!) foi O jovem Frankenstein, com Gene Wilder na pele do clássico personagem criado por Mary Shelley, e fiquei mais de uma semana relembrando das cenas e rindo sozinho no sofá da sala. Pensei na hora: "preciso encontrar mais coisas dele, o cara é ótimo". E, para minha felicidade, encontrei. 

Acompanhava seu trabalho paralelamente ao de outras duas lendas do humor: Blake Edwards (da série de filmes da Pantera cor-de-rosa, com Peter Sellers) e o papa do trash, John Waters (da parceria insólita com a eterna Divine). eles foram uma trinca que me acompanhou na - hoje saudosa - época das videolocadoras. 

Tornei-me fã de carteirinha, do tipo "eu assisto até pornografia se ele dirigir" depois do clássico Primavera para Hitler. A dupla Max Bialystock e Leopold Bloom me perseguiu adolescência adentro e serviu de porta de entrada para outros personagens também totalmente fora da curva surgidos em sua obra cinematográfica anos depois. Seus A louca! louca história de Robin Hood e A história do mundo - parte I (que os fãs aguardam a continuação até hoje) estão entre os filmes que eu mais reloquei e reassisti naquela época. 

Em A última loucura de Mel Brooks ele brincou com o conceito de filme mudo, levando a piada simples para outro nível. Já em Drácula: morto, mas feliz, ele entregou a tarefa de interpretar o vampiro das trevas de Bram Stoker para o impagável Leslie Nielsen, da consagrada trilogia Corra que a polícia vem aí. Só imaginem a cena! E ainda teve os dois longas da série Banzé (na Rússia e no Oeste). 

Mel Brooks podia transformar um mendigo na figura mais hilária que você já testemunhou na face da terra. Não havia tema do qual ele não debochasse (até a inquisição espanhola virou motivo de sacanagem em um de seus monólogos). Ele podia ser um Van Helsing anárquico ou um Yoda completamente surtado. Em suma: ele é a essência do riso, naquilo que ele tem de mais puro e sem pré-conceitos. 

E vê-lo chegar à um século de existência ainda em vida (como acontece com o também magistral Dick Van Dyke, de Mary Poppins, outra lenda da era de ouro do cinema) me faz pensar que a sétima arte não morreu totalmente, que ainda há motivos para acreditarmos nela, no que ela tem para nos oferecer, mesmo com tanta bobajada sendo produzida e tantos canastrões fazendo sucesso meteórico. 

Desejo à Mel Brooks muito anos mais de vida (por mais que a tarefa pareça impossível), pois é de artistas como ele que a indústria cultural precisa. E acreditem: o cara é gigante. 

sábado, 20 de junho de 2026

O maior filme brasileiro de todos os tempos


A notícia recentemente divulgada de que o filme Central do Brasil, do diretor Walter Salles, foi escolhido como o "melhor filme brasileiro de todos os tempos" (rótulo que é sempre um exagero, seja qual longa tenha sido escolhido para tal), me fez rever a produção cinematográfica, com o intuito de desconstruir minha própria visão sobre ele. E acreditem: minha opinião sobre o filme do Waltinho melhorou ainda mais depois de tantos anos sem revê-lo. 

Central do Brasil tem toda uma história de sucesso dentro e também fora do Brasil, onde foi vencedor do Globo de Ouro, do Urso de Ouro em Berlim, do Bafta, entre outras premiações. E por mais que eu considere grandes obras-primas do cinema brasileiro (como Cidade de Deus, Terra em transe, Os fuzis, São Paulo: sociedade anônima, Bye Bye Brasil, entre outros), acredito que a escolha de Central faz jus ao reconhecimento. 

Acompanhamos a saga de Dora (personagem da extraordinária Fernanda Montenegro) como quem acompanhamos a trajetória do próprio país. A mulher que escreve cartas na Central do Brasil para pessoas analfabetas, que desejam se comunicar com seus parentes distantes, e cuja vida se esbarra com a do jovem Josué que deseja reencontra com o pai nos cafundós do nordeste, após a morte da mãe num acidente de ônibus, diz muito sobre esse nosso país de extremos e inconstâncias. 

E o que há no filme de Walter para despertar tanto fascínio e comoção? Justamente essa capacidade de mostrar o país sem rodeios, favoritismos ou privilégios. Um país cheio de fé, mas também de dificuldades extremas, onde a realidade da grande maioria da população é um grande desafio diário e nada mais do que isso. 

Já conversei com inúmeras pessoas - até de outros estados do país - e é simplesmente incrível a quantidade de pessoas que ainda não entenderam completamente a mensagem do filme. Tem até quem desdenhe de sua capacidade de encantar ou refletir sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos ao fim de cada jornada complexa. E isso é uma pena! Mais do que o cartão postal da carreira do diretor Walter Salles (que com o passar dos anos, nos entregou outras grandes narrativas, como Diários de motocicleta e o recente vencedor do Oscar Ainda estou aqui), Central do Brasil - como os filmes Rio, zona norte e Rio, zona sul, do diretor Nelson Pereira dos Santos - é um grande cartão postal sobre o Brasil de uma época. 

Digo mais: em suas entrelinhas, é quase um estudo sociológico sobre uma sociedade dúbia, fragmentada, que não perde a esperança mesmo em meio às maiores dificuldades e dilemas. E isso é grandioso por si só, daí sua representação como "o melhor filme brasileiro de todos os tempos" (mas as aspas continuam indispensáveis, tamanha a riqueza de nosso cinema e a necessidade de escolhermos um melhor, em detrimento dos demais). 

E o pior: sua escolha - infelizmente - será debatida sob a ótica de bobalhões especialistas da internet e seus eternos revisionismos de quinta categoria, o que é sempre um mau negócio. Já para os verdadeiros fãs da sétima arte, acho muito difícil que condenem a escolha. Central do Brasil, Walter Salles, Fernanda Montenegro e cia, conquistaram esse lugar por mérito próprio e acho justo o título. Mais uma prova de que o nosso cinema é bem mais interessante do que acredita a própria população, que adora desdenhar dele sempre que pode, favorecendo enlatados hollywoodianos. 

Meus parabéns aos envolvidos na escolha. E viva o cinema nacional!       


quinta-feira, 11 de junho de 2026

É tempo de Copa do Mundo


É, minha gente... A copa do mundo de 2026 começou hoje. E, infelizmente, repleta (também) de más notícias por parte de uma das sedes, acreditando que o maior evento esportivo do mundo deva se submeter ou ser marionete daquela dita nação outrora "a mais poderosa do mundo". Mas não quero falar disso e sim do futebol, que é o que realmente interessa durante os meses de junho e julho. México, EUA e Canadá se dividem entre os anfitriões e é visível, logo de cara, nesses primeiros dias, quem realmente parece o mais animado dos três. Eles realizaram essa mesma festa em 1970 e 1986 e mostraram porque suas edições estão entre as mais animadas da história. 

Nossa seleção? Confesso que poderia pular este parágrafo, mas decidi mantê-lo. Nossa geração não é, nem de longe, boa. Fora uma ou duas surpresas aleatórias que podem surpreender, não descarto uma eliminação antes da final. Mas aguardemos. Em 1994 (também nos EUA) eu também não botava fé - e olha que tinha Romário e Bebeto no ataque - e deu no que deu. De certo mesmo é que houve muita polêmica (envolvendo a escalação de um certo atacante que não mostra a que veio a mais de 2 anos, e mesmo assim permanece o queridinho de um grande contingente) e também espetacularização e midiatismo em demasia na escolha de nosso escrete. 

Favoritas desse ano? Eu poderia jogar minhas fichas em França, Espanha, na atual campeã - a Argentina, com Messi -, muita gente falando de Portugal e Cristiano Ronaldo (que eu não vejo com essa força toda!), mas... Depois que Camarões venceu da Argentina no jogo de estreia em 1990 e Senegal calou a torcida francesa em 2002 eu acredito em qualquer coisa fora do óbvio. Embora o óbvio, nessa competição, em 90% dos casos sempre vença. Portanto, não sei o que esperar. Mesmo. 

Tenho uma relação quase doentia com zebras em Copas do mundo. Adoro ver o que vi ano passado com a seleção do Marrocos (e esse ano eles são o nosso jogo de estreia, logo...). E há também aquelas seleções por quem nutro grande simpatia, embora sempre saiba que perto da final elas voltarão para casa. São os casos de Holanda, Croácia, Inglaterra. Enfim... Eu sou um torcedor fora da bolha. Estou sempre na expectativa de que o inusitado aconteça. 

Infelizmente, é preciso também dizer isso, o mundo - pelo que está passando nesse exato momento - não deveria estar promovendo eventos como esse. Não vejo a realidade cotidiana nesse século XXI, repleta de terroristas e extremismos, como aberta à festividades e celebrações de qualquer tipo. E o fato (como já citei no primeiro parágrafo) de uma das sedes ter se tornado um grande problema nesse mundial, por conta de seu presidente déspota e sua eterna mentalidade de se achar insubstituível ou "dono do mundo", contribui ainda mais para esse sentimento de niilismo que se apossou de mim este ano. 

Sim, não estou em clima de Copa nem muito interessado em torcer, mas fiz questão de escrever esse post para deixar claro o quanto essa festa (sim, o show business se apossou dessa competição e faz tempo), ocorrida de quatro em quatro anos, diz muito sobre os "interesses" que povoam a humanidade e os chamados agentes do poder. A diferença em relação às edições anteriores? Não me parece - mesmo! - que há muita empolgação com o torneio esse ano, a começar pelos habitantes dos países sedes (excetuando, é claro, México).

Novos tempos? Descaracterização? O mundo passou a dar valor a outros temas, questões, eventos? O esporte virou reles negócio lucrativo? Eu poderia ficar aqui escrevendo o dia inteiro e não conseguiria chegar à uma conclusão realmente válida. Então, como diria o vilão Jigsaw do filme Jogos Mortais: que comecem os jogos! E que vença quem estiver destinado a vencer. 


sábado, 6 de junho de 2026

Um magnífico ensaio sobre o fim dos tempos


Vejo num canal nerd sobre quadrinhos no youtube a informação de que a graphic novel O cavaleiro das trevas, do trio Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley, completou 40 anos em 2026 e imediatamente viajo no tempo para meus exatos 19 anos (primeira vez que eu li a HQ). Ao mesmo tempo em que o tempo viaja na velocidade da luz - junto com minhas lembranças -, me pego procurando novamente a obra gráfica para ler. E, claro, me surpreender. 

O cavaleiro das trevas é uma obra-prima inquestionável do formato quadrinhos. Merece seu lugar de destaque junto à outras obras seminais como Maus (de Art Spiegelman), Akira (de Katsuhiro Otomo), Avenida Dropsie (de Will Eisner) e tantas outras pérolas da arte sequencial. Só que, mais do que isso, relê-la mais de duas décadas depois, me fez repensar esse trabalho magistral, à luz desse século XXI repleto de déspotas e outros seres degradantes que somos obrigados a aturar. 

Na HQ de Miller e cia, Batman não é mais um mero vigilante ou herói incompreendido. Pelo contrário. Após seu sumiço de Gotham City por uma década, ele se tornou uma figura estranha, soturna, que vê no aumento da criminalidade na cidade o estopim para se encontrar com seu lado dark e justiceiro. O problema: o estado (ou as autoridades, como preferir) agora o veem como um pária. Pior: um problema a ser combatido, assim como os seus arqui-inimigos.

Dick Grayson (o eterno Robin) rompeu relações com ele e o último a vestir o uniforme, Jason Todd, foi morto pelo Coringa. O que abre espaço para uma versão feminina da personagem entrar em ação e formar dupla com o cavaleiro das trevas. Contudo, vilões do passado - Duas Caras, Coringa - estão de volta, remodelados, prontos para novos crimes a serem perpetrados. E, além disso, há uma seita que pretende ocupar o lugar de Batman como força-motriz da cidade. 

Seu companheiro de combate, o Comissário Gordon, está se aposentando e quem assume o seu lugar como chefe é uma mulher que não acredita no papel do herói como combatente da violência. Ela vê nele, isso sim, mais um inimigo a ser destruído - custe o que custar. E o cenário de caos prolifera de forma dantesca, lembrando (e muito!) o atual Estados Unidos, rodeado de ICE e polícia corrupta por todos os lados.

Lembro de quando o diretor Christopher Nolan realizou sua versão da história para os cinemas com Christian Bale e Heath Ledger e hoje, após ler o volume de novo, fica aqui um elogio de minha parte. Ele soube reinventar de forma extremamente eficaz as principais temáticas da HQ, fazendo uma releitura bastante atualizada sobre esse grande "ensaio sobre o fim dos tempos".

As quase 200 páginas da obra mostram um painel inviolável do que se tornou a humanidade nessas últimas décadas, criada pela falta de empatia e eterna ganância do ser humano. O Cavaleiro das trevas é profético em todos os níveis que você puder imaginar e mostra de forma pontual o quanto seu roteirista já vislumbrava a decadência do sistema e a eterna predileção da sociedade pela mentalidade "o homem é o lobo do homem".

Resultado: um trabalho devastador, apocalíptico em n formas possíveis e imagináveis e que mostra o quanto o universo quadrinístico assumiu uma postura errada ao preferir a cultura cinematográfica à nona arte como forma de expressão. Ler O Cavaleiro das trevas novamente me fez pensar no quanto ver essa história no atual cinema estará sujeito à produtores e realizadores moralistas, comprometidos unicamente com o negócio lucrativo e nada mais.

Fica aqui, portanto, a recomendação para quem nunca leu essa joia. Isso aqui é ouro puro (algo raro na indústria cultural contemporânea).   


segunda-feira, 1 de junho de 2026

O mago da inventividade


Terminei o sábado em estado de graça e consciente de que a cultura e a arte são, de fato, libertadoras num patamar impossível de ser explicado. E ninguém na face da terra conseguirá destruir isso. Explico-me. 

Conheci o trabalho do artista plástico paulista Vik Muniz através do documentário de 2010 indicado ao Oscar Lixo extraordinário, dirigido pelo trio Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim, e na mesma hora fiquei encantado. Muito pelo fato de ele utilizar materiais inusitados em meio às suas telas. Ao invés de tintas, o artista usa como matéria-prima muito lixo, açúcar, geleia, macarrão, até mesmo cinzas do incêndio recente do Museu Nacional.

E o mais importante: ver os quadros de Muniz é um gigantesco exercício do olhar. Você tem diferentes leituras ao se aproximar ou se distanciar de uma tela, o que promove um efeito por vezes bi ou tridimensional. 

Dando continuidade a minha paixão (e também curiosidade) sobre o seu trabalho, fui essa semana ao Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, para ver a exposição Vik Muniz: a olho nu, a maior retrospectiva da sua carreira até hoje. São mais de 220 obras que compõem um vasto cenário sobre a sua trajetória. E quem é fã de história da arte, artes plásticas (como eu) vai, certamente, ficar encantado.

Passeio pelos corredores amarelos e fico perdido em meio a tantas referências. Perco mais de meia hora só na parte dos retratos de celebridades. É, no mínimo, uma afronta um artista desse tamanho ser mais reconhecido no exterior do que no próprio país natal. Vik é tão inventivo, tão cheio de ideias, que me parece um desserviço à cultura não divulgá-lo ou sequer reconhecê-lo. 

Numa mistura de processos, materiais e escalas as mais diversas, o artista constrói uma nova forma de poética, transformando o olhar numa tarefa múltipla e não mais tradicional. Estamos a todo momento revendo suas ideias na tela, pois a cada momento elas parecem reproduzir novos significados. Não se surpreenda se, ao sair da exposição, você desejar vê-la de novo na semana seguinte, pois teve a sensação de ter perdido alguma coisa, algum detalhe. 

Pois a intenção da mostra, entre tantas outras, é exatamente essa: expandir leituras e interpretações. 

trabalhos tridimensionais do início de sua trajetória, séries fotográficas emblemáticas que marcaram sua produção ao longo dos anos e obras recentes, reunidas, acabam por configurar um imenso painel de um mago da inventividade. Acho que essa é a melhor maneira de classificar Vik Muniz (pelo menos, nesse exato momento; resta saber o que ele ainda irá nos entregar nos próximos anos - o que sempre é uma incógnita deliciosa).   

Ao fim, apenas uma certeza: seu trabalho é uma grande obra aberta, propensa a novos - e desafiadores - caminhos, e isso para qualquer fã de arte que se preze, é uma excelente notícia. Vejam! Fica em cartaz até 7 de setembro.  


quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Picasso do jazz


Eu lembro da primeira vez em que vi Miles Davis na tela e não foi necessariamente tocando. Tratava-se do quarto episódio da segunda temporada de Miami Vice - um série icônica que marcou minha adolescência profundamente - e fiquei impressionado com sua presença de cena. Contudo, eu nunca o tinha ouvido tocando jazz e foi meu pai que me abordou naquele exato momento e me disse: "Esse cara é um artista extraordinário. Quando tiver tempo, ouça-o!". Como ele já havia me apresentado anteriormente a duas divas da música, Aretha Franklin e Nina Simone, corri atrás de seu trabalho como louco.

E o que descobri após fuçar em lojas de discos (sim, naquela época elas existiam em profusão!) foi que não só estava diante de um artista talentoso, mas de uma lenda, de uma figura inigualável para a história da música. Quem nunca ouviu Miles Davis, não faz a menor ideia do que está perdendo. Seu disco mais famoso e mais badalado da carreira, o monumental Kind of blue (1959), é dessas experiências que você ouve quase rezando, de joelhos, aproveitando cada faixa, cada toque, cada momento. Mais do que isso: ele é uma excelente porta de entrada para conhecer toda a obra gigantesca de Davis. 

Miles foi do Hard bop ao jazz fusion, passando por orquestrações e psicodelias as mais diversas, e eu acho praticamente impossível escolher um gênero ou um momento específico no qual ele tenha sido melhor. Foi um artista completo, complexo, rebelde, à frente do seu tempo em todos os níveis. Atuou ao lado de lendas como Charlie Parker, John Coltrane e Bill Evans e, ainda assim, imprimiu seu estilo próprio, se destacando dos demais. 

Dentre as características que mais o marcaram ao longo da carreira, vale destacar sua assinatura sonora (você sabia de antemão quando estava ouvindo o trompete de Miles e não de outro artista), sua capacidade camaleônica de se reinventar em diversos estilos (seja o Bebop, o jazz modal, o cool jazz, etc), o fato de ser um vanguardista eternamente insatisfeito com a própria criação (odiava rótulos que o limitassem como músico, ou seja, que o levassem a se repetir) e foi um revelador de novos talentos (lançou músicos sublimes como Herbie Hancock, Wayne Shorter e Chick Corea)

Para quem não sabe por onde começar a ouvi-lo (e a lista de coisas impressionantes que ele fez é grande), recomendo brevemente a trinca Round About Midnight (1956), Sketches of Spain (1960) e Bitches Brew (1969), este último uma mistura eletrizante de rock e funk. Mas faço um pedido: ouçam atentos, sejam gentis com a música. Aposto como se surpreenderão -e muito!

Em 2011 fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para ver a inacreditável exposição Queremos Miles – Miles Davis, lenda do jazz, repleta de fotos, documentos, discos, desenhos do próprio artista e, claro, seus trompetes. Foi lá, aliás, que descobri o interesse de Miles pelo boxe. Saí da experiência ainda mais fã do músico e com a cabeça repleta de informação valiosa, que me acompanha até hoje quando escrevo sobre cultura pop. 

Há quem o chame, entre a grande mídia, de o Picasso do jazz, e eu não vejo o menor exagero nisso. Ele realmente parecia pintar as notas musicais com a sua genialidade ímpar. E poder relembrar dele em seu centenário, que foi celebrado ontem, me deixou duas certezas: a) ele se foi cedo demais (morreu em 1991, aos 65 anos); e b) assim como Frank Sinatra e Jimi Hendrix, nunca mais haverá outro como ele. É daquelas figuras eternas que só passam pelo planeta terra uma única vez e o seu papel depois disso é relembrar do quanto ele foi único. 

Grande Miles, você foi uma aula de música!


domingo, 24 de maio de 2026

Muito mais que uma playlist para salvar um domingo cinza


Que a poesia está em todos os lugares, em todos os sentimentos, nas pequenas (e grandes) coisas do mundo, disso nunca tive a menor dúvida. Não importa o quão tenebrosa seja a realidade atualmente. É possível continuar sonhando em meio às adversidades diárias. O que importa: é continuar tentando, nadando contra a maré, insistindo, não desistindo. 

E por que digo isso? Vejo o domingo melancólico que foi hoje, praticamente cinza, sem viço. Parecia completamente estragado. Um dia improdutivo a mais para esse 2026 esquisito até aqui. E então, como num passe de mágica, aparece no comecinho da tarde Paulo Miklos, o ex-titã, músico e compositor estupendo, e me apresenta no youtube ao adorável Coisas da vida. Que eu até poderia resumir como "uma playlist para salvar o meu dia". Porém, seu quinto álbum solo de estúdio, é bem mais do que isso. Ele é necessário, em tempos tão amargos. 

É uma alegria tremenda conviver com o Miklos pós-Titãs, disposto a novos caminhos, novos voos, ou mesmo reeditando clássicos. E aqui há covers de canções inesquecíveis. 

Ele abre seu disco se mostrando preocupado com o que estamos fazendo com o planeta terra, cita Jonas e baleia da bíblia sagrada, mostra que precisamos acreditar mais em nós mesmos, seres humanos. Enfim: deixa claro que a batalha (ainda) não está perdida. Insatisfeito, não se basta com essa breve mensagem que bem poderia soar aos ouvidos dos execráveis moralistas de plantão como um panfleto autoajuda chato, repetitivo. 

E eis que ele enfileira uma trinca de respeito com as ótimas "Quero voltar pra Bahia", "Saudosa Maloca" (de Adoniran Barbosa, que o próprio Miklos já deixou claro em sua carreira ser um notório fã) e "Xibom bombom" (com seu toque de denúncia aos tempos atuais e ao eterno capitalismo selvagem que nos persegue). "Cachorro babucho" é apenas um tira-gosto para o prato principal, que vem em dobro com "Não existe amor em SP" e a eterna hit parade "Evidências" (clássico na voz da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó).

Mas acham que acabou, assim, desse jeito? Ah quem dera! O eterno roqueiro que habita dentro de Paulo não poderia terminar esse álbum de outra forma, que não fosse apresentando uma nova versão para um clássico. O escolhido é "O tempo não para", música síntese de Cazuza, o poeta do rock. Agora sim, posso fechar a tampa e eu a fecho, mas já saudoso, sabendo de antemão que certamente ouvirei o disco novamente nos próximos dias, para que fique fixado em minha mente sua mensagem.

Muito mais do que uma reles playlist para salvar um domingo acinzentado, sem sentido, Coisas da vida me ganhou por mostrar que o simples, mas bem feito, anda em falta na MPB, mais que isso: no mercado fonográfico atual. E ele pode ser bem mais poderoso do que muita bobagem estilosa que anda em voga atualmente. É apenas uma questão de se comprometer. O problema: quem é que se compromete com alguma coisa em meio a essa realidade louca proposta pela contemporaneidade? Pois é... O Paulo fez exatamente isso! e fica aqui o meu muito obrigado a ele.   

sábado, 16 de maio de 2026

A epopeia linguística da literatura brasileira


A expressão "há livros e livros" nunca foi tão verdadeira. Principalmente depois que você lê (e, de preferência, relê) uma obra-prima como Grande sertão: veredas, do escritor João Guimarães Rosa, que completa inacreditáveis 70 anos de existência em 2026 sem perder um milímetro de sua ternura e sua capacidade de se reinventar. E depois de ler esse registro literário colossal, eu passei a ter uma certeza: Guimarães merece seu lugar no olimpo da literatura brasileira ao lado do também magistral Machado de Assis - sim, os críticos sempre ficam putos quando eu repito essa frase...

Acompanhamos a trajetória de Riobaldo como acompanhamos uma canção amarga, porém necessária para entendermos os rumos desse país contraditório. E ao longo dessa jornada ele enfrentará não só percalços e inimigos os mais diversos, como um amor fora da curva e principalmente a dureza do sertão, que praticamente fala aqui, como um personagem contraditório e raivoso. 

E por falar em personagens - Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes (o algoz derradeiro desse quase anti-herói diferente de tudo que já se viu em nossas letras), Zé Bebelo, Ricardão, etc - eles compõem um grande ensaio sobre a dor, o interesse, a ganância, o eterno maniqueísmo que move o nordeste brasileiro, dentre outras temáticas tão ardilosas quanto. Chamar Grande sertão: veredas de mero romance ou saga não explica sequer a superfície do que é esse relato gigantesco, um dos maiores de toda a nossa bibliografia. 

Um dado triste: às vezes eu tenho a sensação de que Guimarães Rosa só será lembrado, citado e reconhecido como merece de fato no exterior. Há quem, inclusive, chame o livro de "o monte Everest" da tradução, pelo trabalho de quase recriar a obra ao traduzi-la para outros idiomas. Desde sua primeira publicação, em 1964, na Alemanha, o códex linguístico proposto por Rosa passou a gerar um imenso fascínio internacional. E por mais que existam aquelas pessoas que reclamem da necessidade de qualquer obra ou artista brasileiro ser reconhecido no exterior para ter real valor dentro do país, nesse caso específico acho uma honra o reconhecimento e admiração. 

Tive uma professora de língua portuguesa na universidade que dizia ser Grande sertão: veredas um dos maiores desafios de leitura da história da literatura mundial, mas que quando você insistia no duelo com o autor e pegava no tranco não queria mais saber de outra vida, muito menos experiências literárias fáceis e gratuitas novamente. E ela estava coberta de razão. Penei para compreender a mente e a narrativa de Rosa, abandonei a obra umas seis ou sete vezes ao longo da vida, mas quando finalmente captei seu espírito livre e compreendi suas intenções foi um deleite à parte. 

Uma certeza é preciso ser dita ao fim desse post: não se fazem mais (e, provavelmente, nunca mais se farão) obras literárias como Grande sertão: veredas. Primeiro, porque a sociedade brasileira se mostra cada dia mais iletrada e desinteressada pelo conhecimento. E segundo, por fazer parte de um mundo que parece cada dia mais distante e chamado de ilusório por uma geração que se esmera dia a dia por desmentir o passado, a utopia, a denúncia, e mesmo o recomeçar.  

Dito isto, para quem ainda não leu a maior epopeia linguística da história da literatura nacional, aproveite a chance (e a data comemorativa). Vocês não fazem a menor ideia do que estão perdendo. Não mesmo. Ah! um rápido P.S (praticamente um aviso de um leitor apaixonado): fujam dessa adaptação cinematográfica recente que o diretor Guel Arraes fez do romance. Ela diminui - e muito! - a grandeza e a importância da obra. 


terça-feira, 5 de maio de 2026

O produtor musical da era inesquecível da tv


Já faz tempo que não assisto tv aberta, canal nenhum, e por culpa da própria televisão, que se colocou a serviço do gratuito, do vulgar, do chulo, da falta de talento e desse mundo vazio produzido por influenciadores e canastrões midiáticos. Sou de uma época em que televisão era sinônimo de grandes realizadores e produtores (que o diga a era do Boni na Rede Globo!). Sentava em frente ao aparelho para me encantar ou flertar com o absurdo e não para aplaudir isso que hoje é vendido como show de realidade. 

Logo, ver a notícia do falecimento do produtor Guto Graça Mello, aos 78 anos, me traz a certeza de que a tv vai desaparecendo de vez, e aos poucos. Ele fez parte de uma era inesquecível da telinha. Como ouvir o seu nome e não se lembrar da trilha sonora do fantástico, que ele criou numa época em que o veículo vendia nostalgia? Seu legado para o meio televisivo é muito mais do que a criação de produtos que se perpetuaram. Ele está no âmbito do imaginário coletivo.

Lembrar de Guto é lembrar de mim ainda novo assistindo aos especiais Pirlimpimpim e Plunct, Plact, Zuuum (que sempre me traz à mente a lembrança do eterno Raul Seixas, o maluco beleza, na pele do carimbador maluco). Meu pai chegou, na época, a comprar os vinis com a trilha, que eu ouvia e reouvia a perder de vista. Víamos na tela Baby Consuelo - hoje do Brasil - como Emília, Jorge Ben (hoje Benjor) como Saci, entre outras figuras eternas da MPB desfilando canções que ecoavam na mente de inúmeras crianças e jovens. 

E por falar em MPB, Guto também é um capítulo à parte na história da discografia nacional. Produziu mais de 500 álbuns icônicos entre as décadas de 1970 e 1980, tanto na gravadora Som Livre como para a própria Rede Globo. 

Dentre os artistas com quem colaborou, grandes nomes do nosso cancioneiro como Rita Lee, Moraes Moreira, Guilherme Arantes, Sandra de Sá, Alceu Valença, Elba Ramalho e Gilberto Gil. Uma tia minha possuía em vinil (sim, eram outros tempos!) um exemplar de Trem azul, da cantora Elis Regina, que eu sempre ouvia quando a visitava. Acredito que foi uma das primeiras experiências musicais que eu tive fora da minha zona de conforto habitual (eu era fã de Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho) e após a primeira audição fui querer saber mais sobre música popular brasileira e não parei mais. 

Entre as trilhas sonoras de novelas que marcaram época pelas mãos dele vale a pena citar as de Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia, Estúpido Cupido, Pai herói e Cavalo de Aço (esta última foi alvo de uma curiosidade minha por quase toda a adolescência, pois ficava intrigado com o título). Ele conseguiu transformar até a apresentadora Xuxa num fenômeno de vendas do mercado fonográfico, chegando a produzir mais de 3 milhões de cópias. 

Embora uma figura multimídia, Graça Mello foi muito conhecido dentro do setor como um "caça-talentos silencioso". Entre seus assistentes dentro da Som Livre, dois nomes que viraram pilares do rock nacional: Cazuza (como assessor de imprensa) e Lulu Santos (responsável por ouvir as fitas demo dos chamados "novos artistas"). Ele também assinou a trilha sonora de mais de 30 longas-metragens cinematográficos, dentre eles produções como Cazuza - o tempo não para, Se eu fosse você e o filme espírita Nosso lar.

Sua partida não só empobrece ainda mais a cultura brasileira como alimenta ainda mais a decadência televisiva vigente. Uma pena! Precisamos de mais homens de visão como ele nas telas - e não essa geleia rançosa atual. Fica com Deus, mestre!

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Sganzerla, 80


Se vivo ainda fosse, Rogerio Sganzerla estaria comemorando hoje seus 80 anos. Oito décadas de uma das trajetórias mais fascinantes e extraordinárias da história do cinema brasileiro. E quem diz que eu exagero é porque não conhece a cinematografia e, principalmente, a personalidade do diretor e produtor de cinema que era a cara (e a alma) do cinema marginal. De crítico de cinema do Estado de SP (por 4 anos) à realizador de filmes bombásticos, ele aprontou das melhores peripécias que eu já tive o prazer de assistir na tela.

Sganzerla fez parte de uma geração que decidiu questionar os rumos tomados pelo cinema novo. Queria outra proposta, outra maneira de pensar a sétima arte, longe da espetacularização que vinha acompanhando o segmento liderado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cia. O caminho encontrado foi aquele que ficou conhecido em São Paulo como Cinema da boca do lixo. Logo, baseado numa estética mais bruta, mais suja, em contato com a realidade urbana. 

Seus longas eram uma mistura de sátira, subversão, colagens as mais diversas, irreverência para dar e vender, trilhas radiofônicas, humor ácido, linguagem fragmentada e muita crítica social. Alguns críticos e especialistas em cinema gostam de dividir sua obra fílmica em dois grandes segmentos: as ficções caóticas e os filmes-ensaio. Entretanto, ah quem dera fosse fácil explicar em poucas palavras o que foi o seu trabalho audiovisual. 

E ele chega mostrando a que veio logo no segundo filme, o extraordinário O bandido da luz vermelha, retrato de um país que em nada difere deste, controverso, no qual vivemos hoje. A história da caçada ao famoso ladrão de residências ganha contornos épicos com uma montagem e um roteiro frenético, cheio de melindres, e temáticas como manipulação da mídia, poder político e uma violência urbana com fundo anárquico e experimental. Aliás, experimental é um adjetivo que explica bem Rogerio, em todas as suas vertentes e provocações. 

Deixo aqui, inclusive, uma dica: procure no you tube um vídeo chamado "Rogerio Sganzerla manda recado ao Brasil". Em pouco mais de 30 segundos ele mostra toda sua malícia e postura antenada diante do país e do mundo, incitando o público a acordar para a realidade. Aposto que quem nunca viu nada dele, depois que conferir esse breve "teaser" vai procurar por toda a sua filmografia!

Uma das paixões dele era o diretor americano Orson Welles (também um transgressor por excelência). Tanto que Sganzerla realizou a trinca Nem tudo é verdade, A linguagem de Orson Welles e Tudo é Brasil, uma trilogia inspirada no cineasta americano e suas inúmeras intervenções e propostas estéticas. 

Em 1970 fundou, junto com seu parceiro Júlio Bressane, a Belair e em pleno período militar entregaram sete filmes em quatro meses, uma façanha até hoje alardeada aos quatro ventos por qualquer cinéfilo de bom gosto que se preze. E ali, em meio àquela tentativa de virar a estética cinematográfica de cabeça para baixo, podemos perceber o melhor do seu cinema. Seus filmes: a) desafiaram a narrativa considerada linear; b) tiveram influência do cinema noir, da chanchada, do tropicalismo; c) e tiveram diálogos rápidos, irônicos e cheios de citações. 

Mesmo nos anos 2000, com seus trabalhos experimentais, feitos à base de poucos recursos, mas muita ousadia visual, Sganzerla deu provas de que era um exemplar raro dentro do audiovisual brasileiro. E hoje, mais do que nunca, faltam mentes brilhantes como ele no mercado exibidor, um visionário nato na arte de produzir narrativas em formato película (e acredito, sem duvidar, que ele guardaria o digital no bolso também). 

Recomendo de olhos fechados a qualquer leitor deste post que assistam (e reassistam), além do já citado O bandido da luz vermelha, os também magníficos A mulher de todos; Sem essa, aranha; Copacabana mon amour; O abismo; O signo do caos e todos os curtas que vocês conseguirem encontrar na internet. Aposto a grana que for como não vão se arrepender!

Se houve um camaleão do cinema tupiniquim, esse cara foi o Rogerio Sganzerla e ninguém vai conseguir me provar do contrário. Saudades, mestre!


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Roger Corman, 100 anos


Abril chegando ao fim e quase me esqueço de comentar aqui acerca do centenário do extraordinário diretor e produtor de cinema Roger Corman. Talvez pelo fato de que ele tenha vivido quase 100 anos (o artista faleceu em 2024), eu tenha pensado: "já falei sobre ele não faz muito tempo, então...". Mas estava completamente enganado e por pouco não deixei passar a data em branco - o que seria uma vergonha da minha parte. 

Roger Corman era engenheiro de formação (assim como seu pai), mas sua maior característica, com certeza, foi a capacidade de unir seu intelecto a um mundo visto por muitos como mórbido. Ninguém realizou o macabro antes dele da mesma forma. Ver seus filmes - tanto os que ele dirigiu quanto aqueles em que atuou nos bastidores - era se deparar com um grande ensaio sobre o insólito. 

Passeou dos clássicos (seu Frankenstein: o monstro das trevas, de 1990, com Raul Julia e William Hurt, que não sai da minha mente até hoje, é um deleite para qualquer cinéfilo que se preze) à modernidade e conseguiu tirar leite de pedra, muitas vezes com orçamentos irrisórios. Foi o responsável por dar as primeiras oportunidades de trabalho a gigantes do cinema como Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, e brincou com estilos e referências até dizer chega, numa época em que hollywood não sobrevivia de megalançamentos e projetos caríssimos. 

Entre os longas que dirigiu adoro sempre citar O corvo - adaptação do poema clássico de Edgar Allan Poe -, O solar maldito (o filme que me apresentou ao mestre do horror Vincent Price), A loja dos horrores (com um jovem Jack Nicholson em início de carreira), O emissário do outro mundo e, claro, o mais do que cult Mercenários das galáxias (uma espécie de contrapartida ao gigantesco Star Wars, de George Lucas).

Entretanto sua carreira cinematográfica está repleta de criaturas dantescas, seres sobrenaturais, fábulas amedrontadoras, bichos pré-históricos, sagas medievais e outras invencionices que ele ia bolando ao sabor dos acontecimentos. Se hoje temos figuras dentro da indústria como Guillermo del Toro e, mais recentemente, Robert Eggers (para ficar em dois realizadores mais afeitos ao universo fantástico), acredito que eles não seriam possíveis antes do pioneirismo proposto por Corman. 

Seu maior legado para a história do cinema, não tenho a menor dúvida, foi ter provado por a mais b que sucesso não é sinônimo de orçamento ou produção estratosférica. Assim como aconteceu quando conheci o cinema de John Cassavetes (outro baluarte do cinema como arte, muito mais do que negócio), Corman me mostrou que sétima arte e desejo andam de mãos dadas, muito mais do que ter um estúdio todo-poderoso por trás para realizar os seus sonhos. E que nem sempre design de produção se traduz em bilheteria. 

E que, onde quer que ele esteja nesse exato momento, que ele saiba que sua história - e carreira de sucesso - jamais serão esquecidas pelos verdadeiros cinéfilos de plantão (como eu). P.S: A hollywood contemporânea nunca precisou tanto de alguém como ele, de seu deboche, de sua postura anárquica diante do mercado exibidor, quanto agora. Porém, onde encontrar outro mestre desses num cinema que agora se esconde atrás de tecnologias de última geração e o "mundo mágico" proposto pela inteligência artificial? Eis a questão.


sexta-feira, 17 de abril de 2026

O mão-santa


O basquete brasileiro, o esporte nacional como um todo, o Brasil, perderam hoje uma lenda. Uma pessoa que, na minha cabeça, é tão gigantesco quanto Pelé, Ayrton Senna, Zico, a geração olímpica do vôlei, nossos ginastas, judocas, nadadores, velocistas e tudo de mais genial que nós já tivemos na história do desporto. Falo de Oscar Schmidt, que nos deixou aos míseros 68 anos. O mão-santa, como a mídia gostava de se referir a ele, vai deixar saudade - e muita!

A história de Oscar é como a de muitos garotos que só querem uma oportunidade para mostrar o seu valor e, com isso, poder mudar de vida. Encontrou sua chance na adolescência com Zezão, no colégio salesiano e, consequentemente, com Laurindo Miura, no Clube Unidade da Vizinhança. Mas, como todo gênio que se preze, isso ainda era pouco, quase nada, para alguém com um talento como o dele. Palmeiras, Sírio, América-RJ, Juvecaserta (Itália), Pavia (Itália), Valladolid (Espanha), Corinthians, Bandeirantes, Mackenzie e Flamengo também conheceriam seu talento e - claro - suas cestas milagrosas.

Sempre que eu lembrar dele, me lembrarei de 1987. Eu, com apenas 11 anos de idade, em frente a tv, vendo a seleção brasileira desbancar a toda poderosa seleção norte-americana no Pan-americano de Indianápolis (detalhe: na terra dos caras). 120 a 115 para a nossa seleção que, a partir dali, revolucionou o nosso basquete e o jeito de jogar aquele esporte daí em diante. Não à toa os EUA, anos depois, passaram a chamar os profissionais para as competições. Ou seja: o jogo não seria mais o mesmo. 

Enquanto muitos atletas sonham com a NBA, Oscar decidiu seguir seu coração e dizer não. Ao saber que indo para a liga profissional americana não poderia representar mais a sua seleção, preferiu recusar (algo hoje, visto por muitos como inimaginável). Ele decidiu acreditar na sua própria história, no legado que poderia produzir. 

Era mágico vê-lo em quadra. Mesmo que o jogo em questão fosse de madrugada, eu parava tudo o que estava fazendo para assisti-lo. Ele personificava o nosso basquete. Bons tempos em que dava orgulho acordar cedo para ver um gigante performando. 

Quando ele foi reconhecido pelo Hall da fama do basquete fui correndo assistir seu pronunciamento. Ele relembrou do começo da carreira, das dificuldades, os treinamentos exóticos, das derrotas não esquecidas e, principalmente, do legado que o basquete lhe entregou. Parei de assistir a modalidade nos últimos anos, pois sinto falta dessa entrega, dessa dedicação total à carreira (crítica que eu também faço a outros esportes, como a seleção brasileira de futebol, por exemplo). Se eu não puder acompanhar e torcer desse jeito, prefiro não ver. Oscar me ensinou isso. 

E é com enorme tristeza que hoje preciso dizer adeus a um capítulo extraordinário da nossa história. Oscar, nunca te vi, nunca cruzei com você na rua, mas sempre te admirei e acompanhei sua jornada, e isso ficará gravado em mim para o resto da vida. Onde quer que você esteja, meu irmão, fica em paz. Você era foda. E nada vai mudar isso. E que o basquete brasileiro reencontre seu caminho de glória para poder homenageá-lo como você merece.  


quarta-feira, 15 de abril de 2026

A maternidade também é um campo de batalha


Se tem uma coisa que eu não entendo, nunca entendi, na humanidade, é essa mania que certos jovens têm de casar, construir família cedo demais, às vezes antes de chegar à maioridade. Abrem mão do próprio ato de viver, de enfrentar os obstáculos diários para acreditar na eterna ilusão do "encontrei a pessoa da minha vida". No final da experiência, o que sobra é aquele sentimento de "meti os pés pelas mãos" ou o famoso "Eu era feliz e não sabia".

Essa semana assisti (atrasado) à Morra, amor, filme da diretora Lynne Ramsay - que já havia chamado a minha atenção de forma impactante com o seu extraordinário Precisamos falar sobre o Kevin - e vivenciei uma interessante desconstrução sobre isso, essa obsessão da nova geração em querer amadurecer cedo em demasia. E o resultado é ainda melhor do que aquilo que eu via nos trailers.

Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) são o estereótipo vivo - seja em que país for - do casal prematuro, que quer antecipar passos importantíssimos antes de sequer viver a própria vida. Casam-se cedo demais e, consequentemente, tem um filho quando na verdade deveriam estar tentando, antes de tudo, entender o que é o mundo. A relação entre o casal parece um atirar-se aleatoriamente de para-quedas rumo a lugar nenhum. Mas com a responsabilidade de criar um filho tudo muda, na verdade, tudo piora. E a consequência disso é o desespero, o delírio, por vezes a psicose.

Jackson, como a grande maioria dos homens, encontra um novo estilo de vida ao perceber que as dificuldades de assumir a paternidade. Esconde-se atrás do trabalho e, claro, amantes. Já Grace precisa lidar com a parte mais difícil do casal: dar conta praticamente sozinha da criação da prole. O resultado? Ela pira, perde completamente a noção de realidade, e nem sua própria família é capaz de lhe apontar um norte, um porto seguro mínimo que seja.

Sim, meus caros leitores! Por mais que eu seja homem e não tenha filhos, nunca deixei de acreditar que a maternidade também é um campo de batalha - e dos mais terríveis. É preciso ter uma cabeça muito boa para ser mãe, ainda mais num mundo cada vez mais complexo e desigual como este no qual vivemos. A frustração e posterior desespero de Grace é totalmente justificável. Ela precisa dar conta das duas partes da relação e ainda por cima aparentar para os demais que tudo vai às mil maravilhas. Tarefa extremamente hercúlea para qualquer ser humano que se preze.

A diretora Lynne Ramsay é excelente ao mostrar em sua cinematografia esse lado perdido, sem chão, da sociedade contemporânea. Seus filmes sempre parecem nos mostrar o quanto o ser humano parece mais fodido do que realmente aparenta diante das convenções sociais. É como se perdêssemos nosso teor de civilidade e nos transformássemos em meros organismos vivos, sintéticos, sem alma. Sim, é triste e niilista ao extremo!

No caso de Grace ainda há o agravante de "mesmo que o meu casamento acabe eu não me liberto da responsabilidade de ser mãe. Eu simplesmente a assumo, dessa vez de forma oficial, sozinha, sem a ajuda do parceiro". E o desfecho dessa descoberta é ainda mais aterrador do que o próprio duelo que vem travando com a maternidade.

Para quem curte assistir longas sobre casamentos em crise ou falidos - como Foi apenas um sonho, Kramer vs. Kramer ou História de um casamento - este aqui é uma grande pedida. Com um ingrediente a mais: trata do que chamam de relacionamento as novas gerações, que tem mania de confundir casamento com diversão ou um mero hobby. E quando a verdade bate à porta não dão conta de lidar com o mais simples dos desafios, que dirá com a rotina angustiante e opressiva.

P.S: Que a atriz Jennifer Lawrence invista em mais projetos na carreira como esse (ela está ótima!) e não em franquias distópicas como Jogos vorazes, que nada mais são do que fábricas de bilheteria que depois que saem de cartaz e ninguém mais lembra.


sábado, 11 de abril de 2026

Lixo também é cultura


Eu considero lixeiro um das profissões mais complicadas do mundo. Imagine recolher todos os resíduos, toda a imundície produzida por uma sociedade cada dia mais imediatista e consumista e ainda ouvir desaforos na rua. É triste. Mais do que isso: um trabalho para corajosos. Eu sei que muita gente diz que só pega esse tipo de serviço que não tem melhores oportunidades trabalhistas, mas na boa... Com tanta gente trabalhando em casa, fazendo seu próprio horário, não, não dá.

Contudo, é preciso também entender a história por trás do lixo e como deixamos que as coisas chegassem a essa ponto. E foi exatamente com isso que me deparei enquanto lia a graphic novel Eu, lixeiro, do quadrinista Derf Backderf (da também ótima - e também postada aqui nesse blog - Meu amigo Dahmer).

Backderf nos apresenta ao cotidiano de uma das profissões mais difíceis e subvalorizadas dos Estados Unidos e acompanhamos a rotina frenética e repleta de desafios de um grupo de lixeiros, porém com mais frequência a da dupla J.B (alter-ego do autor) e Mike. E desde já adianto: ao fim da leitura, vocês ficarão perplexos não só com a quantidade de informação produzida como também com o cenário autodestrutivo que essa realidade apresenta. 

J.B, Mike e seus colegas de trabalho encaram o duro dia-a-dia de quem recolhe a sujeira do país. E bota sujeira nisso! De mudanças abandonadas pelo meio do caminho por conta de ordens de despejo até garrafas de urina jogadas por motoristas no meio do trânsito, camisinhas usadas, eletrônicos descartados sem o menor critério, moradores insuportáveis que ainda querem dar lição de moral e um idoso carrancudo responsável pelo recolhimento de cães por parte da carrocinha, o que vislumbramos é o retrato do verdadeiro EUA, que adora se vender como "a grande nação". 

Paralelamente a isso, o autor ainda oferece uma parte documental onde registra informações e estatísticas acerca da forma como o lixo é recolhido, reciclado e principalmente, como ele já era um problema social desde priscas eras. Detalhe importante: atentem para a questão dos aterros sanitários que vêm diminuindo com o passar dos anos, podendo levar a novos problemas futuros. 

Talvez a nova geração de leitores não tenha paciência para lidar com essa segunda parte da obra (refiro-me a parte de pesquisa sobre o tema "lixo"). Entretanto, achei que ela agregou um valor ainda mais importante ao conteúdo produzido na parte ficcional, tirando a narrativa do âmbito da mera ficção. Chegou a me lembrar, em alguns momentos, a mescla de quadrinhos com jornalismo do Joe Sacco, outro grande mestre contemporâneo da nona arte. 

O maior legado da HQ, com certeza, é o sentimento de preocupação sobre como lidaremos com esse problema num futuro próximo, tendo em vista que a própria sociedade não demonstra sinais de que se tornará menos consumista daqui pra frente. Pelo contrário. Nunca imaginei que fosse dizer isso aqui, num post, mas... Sim, lixo também pode ser cultura, se soubermos contextualizá-lo de forma contundente e com embasamento. E isso Eu, lixeiro, faz com maestria.  

Para quem procura uma opção menos óbvia (leia-se: menos heroica ou sobrenatural) no formato quadrinhos, eis uma excelente opção. E o trabalho de Derf Backderf é magnífico e chama cada vez mais a minha atenção à medida que vou lendo mais coisas dele. Procurem! Aposto que vão devorar tudo numa sentada. Foi o que eu fiz, e nem senti o tempo passar.  


quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Maracanã dos cinemas


O Cinema Odeon completou 100 em 2026. Não, é serio! Parece louco pensar que um lugar que eu frequentei tão repleto de boas lembranças e momentos marcantes já tem todo esse tempo de vida. Mas, ao mesmo tempo, é triste pensar no que ele se tornou: um lugar de resistência dentro do circuito exibidor brasileiro cada dia mais voltado aos cinemas de shopping centers e à sombra dos serviços de streaming. Sim, o Odeon merecia um posicionamento melhor em seu centenário.

Mas não é disso que se trata este post e sim relembrar do grande "templo cinematográfico" que ele é. Vejo numa matéria na internet comentando o centenário da sala o autor do texto se referindo ao local como "o Maracanã dos cinemas". Sim, é muito por aí. Mais do que uma mera sala de exibição, o Odeon é um fenômeno cultural por si só. Por ali passou o melhor da sétima arte ao redor do mundo. 

Assim como foi possível assistir clássicos de Godard, Fellini, Antonioni, Glauber, Billy Wilder, Nelson Pereira dos Santos e tantas outras feras, o Odeon também foi lugar de controvérsias e sessões pautadas por polêmicas ou desafetos. Caso, por exemplo, de A serbian film, do diretor Srdjan Spasojevic (eu estava lá no dia). Acusado de incitar pedofilia, o longa quase foi boicotado, envolvendo na polêmica inclusive figuras políticas. Lembro da exata reação de alguns espectadores na sessão, meio enojados com o que viam na tela. Acho até que foram no dia para tentar impedir a projeção. 

Outro diretor, que é a cara do controverso, cuja cinematografia marcou presença no cinema foi Lars Von Trier. Tanto O anticristo quanto A casa que Jack construiu, dois longas cheios de incômodos e amarguras (um deles, durante um Festival na Europa, viu seus espectadores se retirarem da sala durante a sessão) fizeram a alegria dos fãs do cinema sem barreiras, mais afeitos à liberdade de expressão. 

É preciso também destacar como marco do cinema Odeon suas inúmeras mostras e programações especiais que fizeram história com o passar dos anos. O Festival do Rio, o Anima Mundi (mais famoso festival de animação da cidade do Rio de Janeiro), o Festival Varilux de cinema francês e as nostálgicas sessões da Maratona Odeon (evento que virava noite adentro, com o DJ André Luís entretendo a galera entre as sessões, e com filmes que podiam variar entre os clássicos do terror até filmes recém indicados ao Oscar. Quem frequentou não esquece!).

Assim como o (hoje extinto) Cine Paissandu, o cinema Odeon é uma instituição cinematográfica que marcou época na história da cidade maravilhosa. Acho quase impossível que algum cinéfilo raiz deixe de citar ambos ao se referir à sétima arte, quando questionado sobre o que é cinema aqui no Rio de Janeiro. 

Se por um lado é triste percebermos que a sala hoje não tem mais a mesma projeção de outros tempos (fora em eventos específicos e sessões especiais), por outro é de uma extrema coragem e grandeza acompanharmos a luta do espaço para permanecer de pé em tempos de digital e serviços que fazem de tudo para que os espectadores permaneçam dentro de casa. Um adendo, entretanto, se faz necessário: é bem verdade também que os preços praticados muitas vezes não ajudam, contribuindo para a evasão com a qual o circuito exibidor tem de lidar nos últimos anos. 

Amores e desafios à parte, considero extremamente simbólico o centenário do cinema. Outras casas tão antigas quanto ele, como o Roxy, por exemplo, não resistiram e tiveram que se transformar num outro tipo de negócio para não fechar as portas de vez. O Caso Odeon é a prova viva de que ainda é possível manter o tradicional mesmo em tempos de tecnologia e delivery dominando o mercado. Que ele continue persistindo!


segunda-feira, 30 de março de 2026

O Brasileiro na Calçada da Fama


Nunca disse isso esses anos todos que escrevo nesse blog, mas é preciso: eu sou fascinado por música instrumental, e principalmente por percussão. Desde que ouvi pela primeira vez o gênio Naná Vasconcelos, fiquei encantado pela capacidade de certos artistas tirarem sonoridade de onde parece, muitas vezes, impossível. Outro caso claro desses é Hermeto Paschoal, mestre dos mestres quando o assunto era produzir música.

Contudo, hoje é dia de falar de outro mestre, este menos conhecido de quem não faz parte do mercado fonográfico. E que agora, após o anúncio de que ele será o primeiro brasileiro nato a ganhar uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, certamente será pesquisado - e muito! - por quem é fã de boa música (como eu). Refiro-me, logicamente, ao magistral Paulinho da Costa.

Imagine um indivíduo extremamente talentoso cuja primeira impressão que se tem dele é de que trabalhou com todo mundo do meio musical que tenha algum tipo de relevância. Esse é o caso do Mestre Paulinho. Ele excursionou ao redor do mundo fazendo shows com grandes nomes do pop, rock e jazz. E a lista é tão gigantesca, que é melhor lembrarmos do óbvio, para que este post não se transforme numa monografia. De Michael Jackson à Prince, de Madonna à Elton John, de Earth, Wind & Fire à Lionel Ritchie, de Celine Dion à Barry White, de Aretha Franklin à Ray Charles... Sim, meus caros leitores! O homem é uma lenda.

Nascido em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, Paulinho da Costa descobriu que percussão era o seu caminho através da ala jovem da bateria da escola de samba Portela. Em 1972, se mudou para Los Angeles para fazer parte da Banda de Sergio Mendes, por muitos anos considerado o artista brasileiro mais famoso e reconhecido em terras americanas. Foi ali, em meio àquele cenário e aquela convulsão sonora, que Paulo tocou em quase 7000 músicas, de mais de 900 artistas.

E seu currículo, quando lembramos das músicas nas quais participou tocando, é devastador. É possível ouvi-lo em hits como "Don't stop 'til get enough", "La isla bonita", "Purple Rain", "All night long", "I will survive", "September" e, até mesmo, no clássico dos clássicos "We are the world", no projeto USA for África (a maior reunião de artistas para a gravação de um clipe até hoje).

Recentemente, a Netflix lançou o documentário The Groove under the groove, dirigido por Oscar Rodrigues Alves, sobre a vida do músico, e a impressão que se tem de todos que trabalharam com Paulinho falando sobre ele, é de que se trata de um monstro sagrado da música instrumental, capaz de encontrar melodia e ritmo onde até mesmo parece que ele nunca existirá. Expressões como "assombroso", "de outro planeta", "fenomenal" e "único em seu estilo" povoam o longa, que merece ser assistido por qualquer um que se diga fã de música.

Faltou dizer alguma coisa mais? Mas é claro! Faltou eu, mais uma vez, dizer que precisamos valorizar mais nosso produto nacional, que muitas vezes está lá fora, fazendo história, e nem nos damos conta, preferimos cultuar artistas meia-boca com algum "selo internacional de qualidade". Já passou da hora de entendermos que se tem uma coisa fora de série que nós sabemos fazer, isso é a nossa música. O problema: o interesse constante pelo pior e pela mediocridade artística, que não nos deixa enxergar o melhor do nosso catálogo musical.

Fica a dica para os que estão começando a se inteirar sobre o assunto e não sabem por onde começar.