terça-feira, 13 de outubro de 2026

Punk: 5 décadas de puro rock n' roll


Alguns "entendidos e especialistas" irão lhe dizer que foi dois anos antes ou um ano depois, mas para a grande maioria dos críticos que escrevem sobre música pop o movimento punk começou em 1976, ou seja, há cinco décadas. E acreditem: até hoje, nada do que foi feito dentro do gênero merece receber a alcunha de rock tanto quanto esses caras vistos como sem noção e arrogantes. Seja pela liberdade de criação, seja pela postura anti-mainstream que faz com que as bandas e o cancioneiros produzidos por eles se tornem exemplos de legitimidade.

Há, porém, que se levar em consideração três fatores que motivaram (e muito) o surgimento e a ascensão do punk, tanto entre britânicos como americanos: 1) a crise econômica que pairava no período; 2) as altas taxas de desemprego entre as classes mais jovens; e principalmente 3) uma insatisfação social generalizada com os rumos do mundo naquele momento específico. Ponto. Estava ali instaurado um catalisador fortíssimo, responsável pela cultura do "Do it yourself" (faça você mesmo!). Era preciso, portanto, criar sua própria possibilidade de subsistência, pois do contrário aquela classe minoritária permaneceria eternamente no ostracismo. E foi exatamente o que fez aquele grupo de jovens rebeldes e sem papas na língua.

E não somente a música em si. O movimento punk também introduziu na cultura pop o segmento dos fanzines (muito popular aqui no Brasil nos anos 1990), trazendo conceitos como improvisação e barateamento na produção à tona.

O álbum homônimo do Ramones (1976) é considerado por muitos como o pontapé inicial do movimento. Contudo, há um grupo que prefere acreditar que Never mind the bollocks, here's the Sex Pistols (1977) tem uma importância maior, por se tratar da banda mais icônica daquele período para uma grande parcela de ouvintes. Discussões à parte, vale a pena, caro ouvinte, ouvir os dois seguidamente para entender a superfície daquele momento.

Roupas rasgadas, cabelos coloridos até dizer chega, penduricalhos e adornos os mais diversos, tudo junto compondo uma figura andrógina, completamente desplugada daquela realidade insana e monetariamente difícil. Some a isso as vozes gritadas de alguns vocalistas e o enfrentamento, a postura não somente cool, como também atrevida em todos os lugares (fosse em cima do palco ou não), e bum! nascia ali um fenômeno certo e que deixou raízes profundas no rock n' roll mundial.

Sex Pistols, Ramones, Black Flag, Bad Religion, The Clash, Dead Kennedys, Misfits, Green Day, The Slits (a primeira banda totalmente feminina do gênero), MC5, Iggy pop and The stooges, New York Dolls, Agent Orange, The Adicts, The Undertones, The Hives, Avail, Anti-Flag, The Ataris, Avail, The Boomtown Rats, Asta Kask, Angelic Upstars... A lista é imensa e somente a pesquisa já valeria por um livro autoral ou, no mínimo, uma tese de doutorado bem escrita e defendida. Todos eles brincaram, ousaram, gritaram, se desnudaram pelo punk. E mais: fazendo com que suas plateias embarcassem na onda com a mesma fúria e proporção.

Aqui no Brasil tivemos também uma cena interessantíssima, com grupos como Os inocentes, Ratos do porão, Os replicantes, Garotos podres, Porcos cegos, Restos de nada, Cólera, Tequila baby, Aborto elétrico (que gerou, posteriormente, as bandas Legião Urbana e Capital Inicial), Submundo, As mercenárias, etc etc etc. Recomendo os ainda crus ou novatos no assunto que procurem pelo excelente documentário Botinada – A origem do punk no Brasil, dirigido por Gastão Moreira (Ex-VJ da MTV) e com o Clemente (vocalista dos Inocentes) na produção. É fácil de encontrá-lo no you tube em qualidade HD e vale cada segundo.

E pensar que depois de toda essa revolução, o que vemos hoje em dia no segmento rock é um festival de estrelas vazias, cantando uma musiquinha mais pop que rock, de doer, e ainda por cima cheia de marra, achando-se a grande inovação do momento. Negros tempos! Que este post fique no imaginário de quem o ler como um grande gatilho, para que se procurem os discos da época (tem muita coisa boa, remasterizada, dando sopa na internet) e tentem entender o que significou de fato aquela postura revolucionária que continua na mente das pessoas depois de tanto tempo. Ouçam! ouçam o máximo que puderem! O rock em seu estado mais puro agradece.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A reconstrutora


Parece estranho falar sobre uma escritora que você nunca leu, e é. Contudo, achei curiosíssima - para dizer o mínimo - a escolha da autora canadense Anne Carson como vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2026. E, por incrível que pareça, seu modelo de trabalho diz muito sobre o mundo no qual estamos vivendo: um mundo cada vez mais interessado em desconstruir (ou, preferencialmente, destruir) tudo. 

Mas quem é Anne Carson? (Detalhe irônico: lembro de já ter ouvido esse nome antes quando frequentava as bibliotecas de bairro atrás de livros para empréstimo, mas sem encontrar propriamente uma de suas obras). Anne é nascida em Toronto, especialista em grego, lecionou nas universidades McGill, Michigan e Princeton e é ainda uma tradutora de mão cheia, tanto que já meteu a mão no trabalho de autores como Safo, Eurípedes e Sófocles.

Entretanto, o maior mérito de sua carreira - seja como acadêmica, seja como ficcionista - é o estilo empregado. Guardem esta palavra: estilo.  

E mais outra (que quase eu me esqueço de postar aqui): experimentalismo. É na mistura de formas e linguagens que reside a maior força de sua narrativa. Poesia, prosa, ensaio, tradução, diários pessoais, tratados filosóficos, tudo converge criando uma literatura desafiadora que rompe com qualquer ideia ou definição de clássico. Esqueçam padrões, esqueçam literatura rebuscada, pomposa, elitista. Anne gosta de causar, de confundir, de levar seu leitor para outros parâmetros, digamos, bem mais ousados. 

Entre seus trabalhos mais conhecidos (e há nove deles publicados no Brasil; procurem!), encontram-se o "romance em versos" Autobiografia do Vermelho; Eros, o doce-amargo; A beleza do marido (que lhe valeu o T.S. Eliot Prize; aliás, foi a primeira mulher a conquistá-lo) e O método Albertine. 

Informação curiosa sobre Anne: ela convive com o Mal de Parkinson desde agosto de 2024. Resultado: a condição afetou de forma considerável sua caligrafia e, principalmente, sua rotina de escrita. Acham que ela encerrou as atividades e foi cuidar só da própria vida? Nada. Ela decidiu, isso sim, praticar o boxe, por conta de benefícios motores como agilidade, coordenação motora, força muscular e equilíbrio postural. Tudo para continuar escrevendo.

Ao fim do anúncio da Academia Sueca e a revelação de Anne como a autora desse ano, fico com a impressão mais do que clara de que o Nobel premiou em 2026 uma reconstrutora, não somente da forma de narrar, desapegada de fronteiras e normatismos, como também da própria vida. Ela é uma lutadora por natureza, e só por isso já vale a pena dar uma conferida na obra literária dela. Fica aqui a minha sugestão (e repetindo: olhe que eu nem li nada dela ainda). Adorei.  


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Memórias de uma libertina


Depois do ano espetacular que a atriz Fernanda Torres teve no Brasil e no Exterior - com a vitória como melhor atriz no Globo de Ouro e Ainda estou aqui vencendo o Oscar de melhor filme internacional - ela decidiu retornar com uma nova temporada teatral de A casa dos budas ditosos, baseado em romance homônimo do escritor (e imortal da ABL) João Ubaldo Ribeiro. E sempre que isso acontece eu repenso a obra literária em questão, que é magnífica em suas ousadas intenções.

E vê-la no palco novamente, sempre se reinventando e remodelando o texto de Ubaldo, é extremamente gratificante. Chegou a vazar um vídeo com a apresentação dela no you tube (não sei se ainda se encontra por lá). Quem puder, dê uma conferida. Mas por que, caros leitores desse descompromissado blog, A casa dos budas ditosos, tanto livro quando adaptação teatral, gera tanta comoção e interesse?

Simples. Porque ele foca em ousadias que parecem cada dia mais relevantes, principalmente em tempos tão conservadoramente babacas e autodestrutivos como os atuais. Talvez sua apresentação seja um dos últimos resquícios de sanidade mental numa sociedade que prefere se esconder atrás de personagens cafonas, moralistas e enfadonhos ao excesso.

Acompanhamos a trajetória corajosa (e tresloucada) de CLB, uma senhora baiana de 68 anos, que decide narrar - não, confessar - suas aventuras sexuais ao longo da vida, com requintes de deboche e ironia pura. Não há espaço aqui, um momento sequer, para o mínimo sentimento de culpa. CLB é uma mulher à frente do seu tempo numa época em que o máximo que se podia fazer sendo moderna era usar uma minissaia e isso por si só já dava muito pano pra manga e sermões homéricos.

Da iniciação sexual às orgias e aventuras as mais distintas, com direito à envolvimento erótico até com parentes, CLB desnuda suas experiências íntimas com a mesma facilidade de uma garota de programa da zona sul carioca ou uma prostituta da Vila Mimosa. Ou seja: sem rodeios, na lata, apontando inclusive o falso moralismo de seus amantes.

No palco, onde Fernanda incorpora a libertina que exulta suas memórias, ela dá um show à parte, provocando gargalhadas as mais diversas na plateia. Não consigo imaginar outra atriz para fazer a personagem (talvez, também, pelo fato dela já ter incorporado uma tresloucada do mesmo nível quando interpretou a Vani da série de tv Os normais). O romance de Ubaldo fez parte originalmente da coleção Plenos pecados da Editora Objetiva e representava o pecado da luxúria. E é tão afeito ao humor ácido, que certamente faria sucesso também como stand up, se tentassem.

Ao fim da sessão no teatro (e mais uma releitura do romance), me fica a impressão que o livro virou uma espécie de patrimônio cultural do país. Ela própria disse em entrevista que já entendeu que esse será um espetáculo que ele terá de retomar até o fim da vida, pois as novas gerações irão querer dialogar com essa história também. E que assim seja! o texto é ótimo, a atriz também, e quem sai ganhando com isso é o público das salas, que não fica refém de comediantes canastrões e suas prepotências costumeiras.

Quem não foi ver (ou rever) ainda essa nova temporada, não perca a chance. Continua atualíssimo. E os moralistas? Que se descabelem de raiva!


sábado, 3 de outubro de 2026

A voz (e o puro soul) de Stevie Maravilha


Desço a barra de rolagem deste blog para investigar algumas coisas (algo que costumo fazer com frequência, até para saber sobre o que eu estou escrevendo aqui - ou não) e me deparo com a triste  notícia de que, em mais de 700 postagens, nunca falei do cantor e compositor Stevie Wonder, um artista fetiche dentro da minha formação musical. Como assim? Isso só pode ser piada de mau gosto ou um problema cognitivo sério da minha parte.

Ao mesmo tempo vejo imagens em minha rede social dizendo que Songs in the key of life, um de seus trabalhos mais apoteóticos, está completando 50 anos de existência em 2026. Quer motivo melhor do que esse para falar de Stevie Maravilha e seu cancioneiro irretocável? Então... Vamos lá!

Songs in the key of life tem muito do que tornou Stevie uma lenda da música (tanto na Motown, que o lançou, quanto depois dela). A começar pela faixa de abertura, a balada "Love's in need of love today". Procure por trilhas sonoras de clássicos do cinema dos anos 1980 ou alguma produção do Spike Lee e, certamente, você a encontrará figurando com todo o garbo. Outra boa pedida é "Contusion" (uma dica, aliás, para todo o álbum: prestem atenção na cozinha sonora que acompanha o cantor). É groove puro, raiz, da melhor qualidade.

Nos primeiros acordes de "Sir Duke" eu fico apaixonado por me (re)lembrar de porquê essa é um de minhas canções favoritas do artista. E eu sempre ouço ela mais de uma vez, não importa o que eu esteja fazendo naquele momento. É obrigatório. "If it's magic" vem para dar uma quebrada no ritmo, mas logo em seguida ele retorna em excelente forma com "As" (uma outra dica, de fã enjoado: procurem na internet pelo cover dessa música gravado por Mary J. Blidge e George Michael. É maravilhoso também!).

Acham que acabou? Nada. Ele tira da cartola a trinca "Another star" (e mais uma vez eu aviso: fiquem de olho na banda afiada), "I wish" - um furacão em forma de melodia e talento - e, claro, "Knocks me off my feet". E você, caro ouvinte, já estaria realizado por si só, quando ele emenda com "Pastime Paradise", cuja primeira versão que ouvi foi de uma trilha sonora para o filme Mentes perigosas, com a atriz Michelle Pfeiffer na pele de uma professora que precisa encarar uma turma rebelde num desses muitos colégios barra-pesada dos EUA.

Ufa! Agora sim, e... Agora sim o quê? Esqueceu de "Isn't she lovely" e sua gaita descomunal? De "Ebony eyes", clássico eterno de estações de rádio como Antena 1 e JB FM? Pelo amor de Deus, ouça essa relíquia musical mais de uma vez! Você deve isso, no mínimo, a esse gigante da música.

Foi por causa deste álbum que eu me tornei fã de Stevie Wonder para o resto da vida. Mesmo que ele nunca mais lance nada novo, mesmo que o próximo álbum dele (se houver) só seja lançado daqui a uma década, pelo que ele fez aqui - e com folga, como se não estivesse fazendo nada de mais - eu já aguardaria, cheio de expectativa. E quem viu o que ele fez ao vivo quando esteve aqui no Rock in Rio em 2011, vale sempre a pena ouvir algo novo dele. Repito: sempre.

Ficou curioso? Então, como eu digo sempre nesses posts sobre música e artistas que eu admiro desde sempre: toma vergonha na cara e vai lá ouvir, no you tube, no Spotify, no Deezer, em vinil, cassete, CD, DVD, onde você quiser. Mas houve, enquanto é tempo. Enquanto ainda é possível. Entendeu?


domingo, 27 de setembro de 2026

Ard al-shier


Quase três anos se passaram, os conflitos na Faixa de Gaza pioraram, Israel continua mostrando sua vertente cada dia mais cruel, e eu aqui, pensando sobre o futuro do mundo. Que tristeza! Mas dizer isso somente não basta. Uma mudança se faz mais do que necessária. Ela é vital para que levemos o estado do mundo para outro lugar, livre de déspotas, canalhas, ditadores e facínoras.

Fiquei pensando nisso ao fim da leitura de Gaza, terra da poesia, coletânea de poemas organizada por Muhammad Taysir que reúne 17 jovens talentos nascidos na Palestina e preocupados, não somente com suas próprias vidas, mas com o que vem a seguir nesse século XXI cada vez mais destruído pela ganância e o esnobismo. Vemos Gaza sendo retratada aqui como um lugar onde "não se pode confiar no que se vê a maior parte do tempo", como bem diz Amal Abuqamar. Há todo tipo de denúncia na obra, desde interrogações as mais incômodas, perguntas sem resposta num fluxo absurdo e constante, e a certeza de que essas pessoas estão diante do legado da derrota.

Adham Alaqqad, outro poeta desta antologia, deseja que seu país se torne "um lugar onde o povo espera a chegada do novo mundo e, com ele, uma vida melhor". Porém, esse parece um sonho tão distante, que a população já não vê mais sentido em sonhá-lo. Já Fatima Ahmad, questiona: "Que valor tem a palavra... se tudo aqui está debaixo dos sapatos do Algoz?", se referindo a Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. É possível sentir a dor escapando de dentro desses relatos, ora fúnebres, ora confissões de um fim que parece cocriado pelo caos. No poema "O menino de maio", é dito que "Todo olho palestino é uma boca de fuzil (...) toda dor é uma guilhotina".

Gaza é uma terra onde "Você não me vê - vê só o que eu quero", diz Rawan Hussain. Ou seja, um país de cegos fabricados e obedientes, onde quem se levanta merece o seu extermínio. E tem gente aqui no Brasil, escondido em sua zona de conforto televisiva, chamando isso de "mera crise humanitária". "Não posso dizer que sou infeliz ou que sou feliz (...) deixei de tentar entender o que sinto", confessa amargurado Muhammad Chaqfa). A perda de identidade é uma forma de dominação cultural nessa região onde negligenciar o próximo é um modus operandi.

Já Ahmad Assuq quer ser mais esperançoso, dentro do possível, e diz: "Fazendo planos para depois que a guerra acabar". Resta saber qual será o fim de tudo isso, se haverá de fato um final (a questão da Palestina já corrói o mundo há quase sete décadas, num misto de ódio e degeneração). Ilina Ahmad, ao contrário, é mais seca, negativa: "O que nos resta dizer exceto que a salvação é uma mentira?". E Duha Alkahlut complementa sua desesperança, dizendo: "A guerra termina e começa outra (...) Não chega ao fim, porque não sai de nós".

Ao fim do livro, o melhor conceito que resume a obra - que é dilacerante, mas também de uma beleza profunda - é que "A guerra é o quê? É o que tenta ser a eternidade e o seu êxtase". Em suma: por conviverem em meio a conflitos, execuções e explosões, perderam a noção da realidade, não conhecem uma rotina diferente disso. Não conhecem os dias pacíficos, a calma, a esperança, pois isso lhes foi tirado desde cedo. "Tudo está morto e vivo, tudo ausente e presente, todas as coisas brincam de esconde-esconde comigo", abre o jogo Wissam Attavil.

Leiam! Se permitam conhecer esse tudo-ou-nada em formato literário. Das experiências de leitura mais fortes e inebriantes que eu tive em 2026. P.S: o título desse post é a expressão "terra da poesia" em árabe. Achei que cairia bem junto ao tema proposto.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

O jornalista que não terminou


Mal ligo o meu notebook para começar os trabalhos e já fico desanimado, triste mesmo, com a notícia do falecimento do jornalista e escritor Zuenir Ventura. Que ano infeliz foi 2026! Perdi grande parte de minhas referências culturais e sem peças de reposição à vista. E Zuenir era um ser quase mítico. Lê-lo sempre me remeteu a uma obrigação literária (não no sentido impositivo da palavra, mas porque não conseguia conceber alguém que pudesse abrir mão do conhecimento oferecido por ele). Era um mestre antes mesmo de ter sido reconhecido pelo Academia Brasileira de Letras, que o tornou imortal em 2014.

Falar de seu trabalho jornalístico e também literário é entender um indivíduo cuja história e carreira se confundem com a do próprio país. Ver essa enormidade de influenciadores digitais ocupando espaço nos jornais e no mercado editorial me dá uma enorme tristeza, justamente porque já tivemos a excelência ocupando esse espaço. E Zuenir sempre foi um dos maiores (pelo menos, para mim) nesse sentido. 

Por onde começar quando falamos de sua obra? Difícil. E justamente por isso, melhor começar pelo óbvio. No caso, o best-seller 1968: o ano que não terminou, no qual ele funde figuras as mais diversas (da atriz italiana Claudia Cardinale ao militante Carlos Lamarca) para narrar um dos anos mais emblemáticos - e, para nós, horrendos! - da história do país e do mundo. Quem é formado em comunicação social, como eu, e nunca leu esta pérola, certamente tem um déficit em sua formação acadêmica. E ele ganha proporções ainda maiores quando lido seguidamente à Cidade partida - que eu confesso, li umas três vezes - onde narra a divisão social que teima em persistir no Brasil, não importa quantos governos tentem dar uma solução para isso. 

Contudo, há um livro dele que guardo como uma espécie de coqueluche, e que volta e meia releio (na eterna expectativa de encontrar informações que deixei escapar na leitura anterior). Trata-se de Chico Mendes: crime e castigo, onde ele aborda o assassinato e posterior julgamento dos assassinos do seringueiro e líder ambientalista na Amazônia. Faz parte da coleção Jornalismo literário da Companhia das Letras, que é sempre uma excelente pedida para qualquer bom leitor informado que se preze.

Ele também produziu obras mais leves, como o simples e excepcional Crônicas de um fim de século, bem como o episódico Minhas histórias dos outros, no qual intercala sua vivência com a de personalidades de sua geração. Esse, aliás, eu li na mesma época do Noites tropicais, do Nelson Motta, e acabou por compor uma dobradinha interessantíssima na minha cabeça na época em que eu estava na faculdade, à procura de relatos e carreiras interessantes do meio artístico e cultural. Se puderem, façam o mesmo!

E até mesmo na categoria ficção Zuenir deu um baile com Sagrada família, no qual ele narra - de forma não menos brilhante - a vida em uma grande família do interior do estado do Rio de Janeiro. Para fãs de obras literárias como Éramos seis, de Maria José Dupré (que faz parte da série vagalume da Editora Ática que toda a minha geração leu e releu) e Anarquistas, graças a Deus, de Zélia Gattai, é um prato cheio (e saboroso).

Além de sua premiada obra literária (porta de entrada para que eu conhecesse o seu trabalho), ele passou pelas redações do Correio da Manhã, das revista Fatos & Fotos e O Cruzeiro, além de Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Também foi colunista de O Globo e professor da UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj. Ganhou os prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog pela série de reportagens O Acre de Chico Mendes. Ganhou o prêmio jabuti de melhor reportagem e ainda arranjou tempo para codirigir o documentário Um dia qualquer e roteirizar Paulinho da Viola: Meu tempo é hoje, ambos da cineasta Izabel Jaguaribe.

Mesmo chegando ao fim de sua jornada aos 95 anos, ficou-me a sensação de que ele poderia ter ido aos 120, no mínimo. Ele era (e sempre será) o jornalista que não terminou, uma obra em progresso de carne e osso. Grande Zuenir. Fica com Deus, mestre!


domingo, 20 de setembro de 2026

Em busca de reparação


Sempre assisti na tv o desenho do Papa-léguas (na verdade, um dos meus favoritos. E olha que a concorrência era grande!) e sempre entendi a frustração do Coiote. Passar uma vida tentando agarrar o animal mais rápido do mundo, sem sucesso. E olha que ele tentou usando todos os produtos da Acme. Imagine, então, que no auge do seu cansaço e revolta, ele decidisse processar a empresa que prometia lhe entregar uma solução para o problema, mas só o fez passar vergonha.

É exatamente essa a premissa proposta pela animação Coiote vs. Acme, do diretor Dave Green, que deu o que falar antes mesmo do seu lançamento (que quase, por sinal, foi engavetado pela própria produtora). O Coiote procura o advogado Kevin Avery (Will Forte), especialista em fazer acordos envolvendo personagens animados e corporações. Contudo, o injustiçado quer mais do que um cala-boca. Exige, isso sim, reparação digna por anos e anos de abusos envolvendo a sua figura.

Do outro lado do tribunal, Kevin terá de enfrentar o inescrupuloso Buddy Crane (John Cena, num papel que enfim coube como uma luva para alguém como ele), chefão da poderosa Acme, cujo único objetivo será provar que a companhia nunca fez mal a nenhuma animação após tantos anos de serviços prestados. Entretanto, há um mistério incômodo envolvendo um projeto de três décadas atrás que pode levar a empresa à sua extinção ou bancarrota. E por isso, eles precisam dar fim ao réu e a equipe que o assessora.

Ouvi muita gente falando que foi ao cinema e disse se tratar da melhor produção envolvendo animações e live action desde Uma cilada para Roger Rabbit (que continua, sublime, figurando no meu Top 1). E eu entendo parte da euforia.

Mais até do que isso: eu entendo o motivo da empresa que produziu o filme querer descartá-lo. Contar uma história em que uma corporação do mundo do cinema é processada por maus tratos? Não, eles não poderiam permitir isso e me parece que, em certo sentido, a carapuça coube bem em parte dos executivos desse mesmo setor. Todavia, como há empresa alguém querendo lançar o que outros querem impedir que seja visto, Coiote vs. Acme encontrou o seu distribuidor e tem feito a alegria das plateias nas salas de projeção (na sessão que eu estava o público era recorde, comparável ao de sucessos recentes, como A Odisseia, Obsessão e Backrooms).

Recomendo o filme tanto para as crianças como, principalmente, os pais (e ainda mais para moralistas que gostam de enxergar hollywood e seus estúdios tendenciosos como "mero paraíso"). O filme é bastante irônico na forma como aborda certos temas, incluindo o papel do espectador no processo. Não é de hoje que vejo uma mentalidade manipuladora voltando a ganhar status na indústria cultural e isso, além de perigoso, precisa ser combatido.

Já passou da hora dos produtores culturais mudarem o espectro ou a abordagem de seus produtos. Não bastassem filmes em excesso para o público teen e quase nada para plateias mais adultas, ainda ter que aturar ironias e discursos demagógicos de uma turma que tem telhado de vidro e é hipócrita por natureza é de doer. Nesse sentido, a animação dos Looney Tunes é uma grata surpresa nesse 2026 de, até então, poucas novidades realmente interessantes. Corram para assistir antes que saia de cartaz!


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Deus Ex Humanitas?


A grande questão que rege o mundo, desde que ele existe, é: Deus existe ou não passa de uma grande ficção inventada pelo desespero humano para nos anestesiar ou simplesmente manter a esperança viva? E o simples fato de eu largar essa provocação assim, desse jeito, já é o suficiente para que muitos reacionários e fanáticos já fiquem putos, e queiram destruir a minha vida (ou, no mínimo, a minha reputação). Mesmo assim, vale - e muito! - a reflexão, principalmente em tempos tão mórbidos e extremistas quanto o atual.

Essa semana eu tive a ajuda de mais um projeto (no caso, uma graphic novel) para complementar essa discussão tão bem vinda, porém cada vez mais difícil em termos de abordagem lúcida, sem cegueiras ou messianismos. Trata-se de Deus em pessoa, do ilustrador e roteirista Marc-Antoine Mathieu.

E olha, gente, que porrada na cara dos conservadores tendenciosos, que acreditam unicamente em sua própria versão sobre a criação do mundo! Deus - sim, ele, o onipresente, o criador do céu e da terra - entra na fila do censo e ao ser abordado, apresenta-se, levando uma multidão de pessoas às gargalhadas. "Será este senhor mais um picareta tentando se passar por homem sagrado?", pensam eles. Contudo, há um outro grupo mais interessado em transformar aquele homem numa ideia bem sucedida de negócio.

E é nesse momento que a história de Mathieu ganha uma amplitude ainda mais cruel, porém necessária para futuros debates sobre o começo do mundo: Deus participará do processo. No caso, um grande julgamento (que, em muitos momentos, lembrará o que vemos a cada dois anos em campanhas políticas as mais diversas). E todos, sem exceção, cometerão o mesmo erro ao abordá-lo. Qual seria? A eterna mania da humanidade em querer definir Deus, torná-lo um conceito explicável para o mundo como um todo.

Há uma parte da HQ que remete aos documentários sensacionalistas que vêm ganhando força no cinema contemporâneo nos últimos anos. Apelam para os mais diversos tipos de especialistas e intelectuais, cujo único interesse é o de diminuir ou relativizar a importância de Deus, segundo, lógico, suas próprias convicções. De outro lado, há uma equipe que assessora o criador nesse julgamento, enquanto cria todo um aparato mercadológico para vendê-lo como rei do marketing.

Deus conversa com um psicanalista, desnuda um dos juízes que o acusam de charlatão expondo uma lembrança da infância dele, é indagado por uma inteligência artificial, é questionado por segmentos os mais diversos, e mesmo assim não perde seus seguidores fanáticos e cativos (e acreditem: é preciso olhar estes últimos com certo medo, pois o futuro - a projetarmos o que vem acontecendo no mundo nos últimos anos - promete grandes revoltas e uma mudança de status tenebrosa).

Em outras palavras: há quem queira ser Deus. E há quem queira desmenti-lo ou transformá-lo num reles show business, com direito a parque de diversões com o nome dele e tudo. No fim das contas, fica a dúvida: Deus ex humanitas? (ou, em termos mais leigos: Deus veio da humanidade ou possui uma natureza humana?). Confesso aos leitores deste blog que terminei a leitura num misto de apreensão - quase com os cabelos em pé - e ainda mais curioso com o tema proposto. Pretendo, inclusive, fuçar na obra de Marc-Antonie, para saber se ele enveredou ainda mais por esse território nebuloso, porém fantástico.

No mais, fica a dica de leitura para quem está sempre a procura de bons trabalhos na nona arte, e que fuja do segmento super-heróis (pois, como já disse anteriormente, neste mesmo blog: o mundo das histórias em quadrinhos não se resume exclusivamente à Marvel e a DC, embora muito nerdola chato pense o contrário). Procurem! É das melhores reflexões sobre a religiosidade e o estado do mundo que eu li nos últimos tempos.


sábado, 12 de setembro de 2026

Vida a dois não é para amadores


Nunca me casei, nunca tive o menor interesse. Na verdade, acredito que o casamento seja uma grande invenção social. E uma invenção que, dia a dia, vem demonstrando sinais claros de sua própria falência moral. Vide o que pensam (e querem) os casais modernos. Em tempos de liberalismo, permanecer fiel a sua "alma gêmea" tornou-se cada vez mais desafiador. Entretanto, por mais que isso pareça contraditório, adoro filmes sobre casamentos e famílias disfuncionais, principalmente aqueles que deixam claro em suas intenções a iminência do caos.

E é justamente nesse quesito que o novo longa da atriz e diretora Olivia Wilde, O convite, mostra toda a sua força e sua capacidade de reflexão. Portanto, palmas a ele!

Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) são agentes de um casamento falido, mas não conseguem entender isso de forma prática. Ele, um ex-músico de banda, agora professor; ela, mera dona de casa, que não soube transformar seu talento numa carreira digna. Exaustos do convívio familiar, mesmo tendo uma filha de 12 anos, parecem sempre a um passo da depressão total. E eis que, ao chegar em casa depois de um dia exaustivo de trabalho, Joe descobre que Angela convidou os vizinhos de cima, Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), para conhecer o apartamento do casal.

Angela vê em Pina seu modelo ideal de mulher: bem resolvida, psicoterapeuta, ex-sexóloga, vegana, ciente de seu papel na relação. Já Joe acha Hawk, um bombeiro brigadista, o retrato vivo do insuportável e da inconveniência. Em meio a conversas e petiscos, verdades vão vindo à tona, até que num determinado momento é feito o "convite" que dá título à trama: querem que Joe e Angela participem com eles de um sexo grupal.

Nesse exato momento, afloram as maiores divergências entre o casal falido. E mesmo que tenham decidido embarcar na empreitada, sabem de antemão que o último resquício de sanidade da relação se perderá ali, ao dar aquele passo ousado. Só que a consequência daquela escolha é uma catástrofe sem precedentes que, não somente isso, abre aquele que pode ser um canal para o término derradeiro. Conseguirão eles salvar esse matrimônio? P.S: o desfecho proposto pela diretora é sensacional em seu minimalismo.

Sei que me chamarão de maluco ou exagerado, mas O convite me parece à primeira vista uma espécie de Noivo neurótico, noiva nervosa (filme de Woody Allen), versão 2.0. E cabe aqui destacar o excelente trio de roteiristas: Cesc Gay, Will McCormack e Rashida Jones, pela impecável narrativa criada. Repleto de tiradas ácidas e um humor que flerta entre o incômodo e a cara de pau, merece - na minha visão - uma indicação à roteiro original no Oscar do ano que vem.

Outro ponto positivo foi focar a história em um só cenário: o apartamento em processo de renovação. E o fato de ele estar sempre incompleto em algum sentido também diz muito sobre as histórias desses casais, tanto o falido quanto o metido a moderninho, mas que esconde mal seus próprios traumas e deficiências.

Termino a sessão com duas certezas: 1) estou diante do primeiro grande indicado à temporada de prêmios de 2027 (se, claro, a Academia não boicotar o longa, como já fez outras tantas vezes com candidatos também sublimes); e 2) vida a dois não é papo para amadores, nem marinheiros de primeira viagem. E é preciso ter culhões - ambas as partes - para encarar o dilúvio ou o terremoto que se fazem presentes de tempos em tempos em qualquer relação. O problema? A sociedade contemporânea é o exato oposto disso que chamamos de conservadorismo puro e simples. Logo... Já entenderam no que vai dar isso, não é mesmo?

Mas, para o que nos interessa aqui nesse post, fica a dica: filmaço! Com F maiúsculo.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O nascimento de um gênio


Dizer que Djavan é um fenômeno da MPB é chover no molhado e soar repetitivo. Qualquer pessoa que já tenha ouvido sua voz e acompanhado sua carreira através de canções magníficas já entendeu que, além de um artífice da palavra, ele é a voz por excelência. Quem não entende isso ou simplesmente é hater do cantor e compositor, por favor: este post não é para você. Contudo, sempre me ficou a seguinte pergunta: quando foi que nasceu o gênio Djavan? Nunca ouvi seu álbum de estreia e sempre me lastimei por isso. Queria preencher essa lacuna musical em minha formação.

Pois bem: seu primeiro álbum, A voz, o violão, a música de Djavan, completou 5 décadas em 2026 e vi ele aparecendo na minha timeline no youtube (certamente porque o algoritmo sabe por a mais b que sou alucinado por música brasileira). E o resultado dessa audição é enfim me deparar com a resposta para a pergunta feita no parágrafo acima. Trata-se de um dos melhores inícios de carreira que eu testemunhei até hoje. Ouçam! Pelo amor de Deus, apenas ouçam!

Djavan abre com "Flor de lis" (a faixa mais famosa do disco, cuja história ecoa dentro de sua própria carreira). E além da voz e da poesia do compositor, já aqui, nesse primeiro momento, fica um aviso aos ouvintes: prestem atenção na sonoridade do trabalho como um todo. Desde o uso de instrumentos até participação dos backing vocals. Trata-se de uma engenharia musical extraordinária. 

Difícil escolher preferidas no repertório, então vamos lá mencionar o conjunto da obra: em "Na boca do beco" ele fala dos amigos de jornada, que foram ficando para trás, mas trazem grandes ensinamentos; com "Maçã do rosto", um triângulo de forró maroto traz um contraste interessantíssimo para a letra poderosa; já em "Pára-raio", o cantor nos entrega um quase rap, não devendo nada a artistas do gênero como Gabriel, o pensador e Criolo, dentre outros; em "E que Deus ajude" ele apresenta o início atribulado da carreira, vindo de Alagoas para o RJ, tentar a carreira de cantor popular. 

"Quantas voltas dá meu mundo" reforça essa jornada inicial, trazendo o verso "Quem não se arrisca, não joga a isca", e Djavan certamente a jogou de forma sublime; com "Maria das Mercedes", ele parece, à primeira vista, revisitar um amor do passado (será realmente isso? esse é o momento "pulga atrás da orelha" do álbum); "Muito obrigado" é bem-vinda exaltação ao próprio estilo do cantor; "Embola a bola (Cateretê)" tem refrão que lembra meio que um cordel em certos momentos, e é delicioso de ouvir. 

Então "Fato consumado", o segundo hit do álbum, dá as caras e deixa um gostinho de quero mais, e eu aproveito e faço um apelo a quem for ouvir essa faixa em questão: procurem, depois, por uma versão acústica, só voz e violão, dela. Aposto que se surpreenderão ainda mais; "Magia" é puro swing e mescla soul, funky e tudo mais que você quiser ouvir. Trata-se de uma canção que deveria ser mais badalada em seu cancioneiro; E finalmente "Ventos do norte" encerra a experiência, como uma espécie de cantiga ou acalanto, despedindo-se do público com um sentimento de nostalgia, na linha "a gente se reencontra muito em breve". 

O resultado dessa experiência magnífica? A chegada à terra de um mestre da letra, da voz, do som, e principalmente, uma certeza: a de que todo fã de Djavan, de sua poesia e talento ímpar, deveria, obrigatoriamente, começar a conhecê-lo a partir deste álbum (e entender o que ele se tornou com o passar dessas cinco décadas). Está tudo aqui, ainda em fase embrionária. Só não enxerga quem não quer ou prefere a zona de conforto da preguiça ou da ignorância. E desse grupo nunca fiz parte, nem me interesso. 

Valeu? Para mim, não tenho a menor dúvida. Agora vai lá ouvir e tire suas próprias conclusões. 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A algoritmolândia


Sim, poderia ser o título de um livro de não-ficção ou romance que eu estou escrevendo, mas... Não, não é sobre isso esse breve post. E sim sobre o que o mundo (e, principalmente, a indústria cultural) estão se tornando, numa velocidade cada dia mais vertiginosa. E também - é bom que se alerte - perigosa.

Vi nos últimos dias uma série de entrevistas e depoimentos de pessoas ligadas ao mercado cultural (sejam atores, produtores, coreógrafos, dramaturgos, etc) comentando sobre a grande mesmice que virou o setor. Mais do que isso: o quanto esse caminho é, não só preocupante, mas catalisador de uma sociedade cada vez mais monótona, enfadonha, repetitiva. Viramos uma civilização de idiotas que replicam comportamentos e posturas engessadas.

Talvez o setor cultural onde melhor vejamos isso seja o mercado fonográfico. O mundo, musicalmente falando, foi de Elton John, Marvin Gaye, Tom Jobim, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Chico Buarque, Led Zeppelin, Beatles, Rolling Stones e cia. à uma geração vazia, sem graça, que não canta ao vivo, não escreve - muitas vezes - suas próprias composições, se esconde atrás de ferramentas como o autotune, com letras cada vez mais curtas e tatibitates, compondo um universo deplorável onde a mesmice e a falta de talento convergem para produzir atentados sonoros.

No cinema (leia-se: hollywood, por ser a meca, mas não somente ela, trata-se de um problema mundial) trocaram figuras como John Ford, Billy Wilder, John Huston, a nova hollywood de Coppola, Scorsese, Spielberg, por... filmes sobre bonecos, tênis de celebridades, jogos de tabuleiro, esfregões, videogames e outros artefatos que em nada combinam com a sétima arte. A geração atual agradece. Já nós, cinéfilos raiz, sofremos para encontrar boas películas e histórias bem contadas. Na vertente nacional do cinema, ainda temos que lidar com o fato de que passamos a nos interessar por personagens criminosos sendo glamourizados para soar "relevantes".

O teatro - a nobre arte, não importa o quanto digam o contrário - perdeu espaço para o stand up comedy e seus humoristas grosseiros, prepotentes e canastrões, com suas piadas de baixo calão, e ainda por cima acreditando terem suas rasas opiniões um papel monumental para a sociedade. Nelson Rodrigues? Plínio Marcos? Gil Vicente? Ariano Suassuna? Acho que nunca mais, gente!

O mercado editorial? Não esperem por novos Shakespeares ou Dostoiévskis ou algo que lembre minimamente um Molière, um Machado de Assis, um Graciliano Ramos... Nem pensar. O que vale na balança do mercado são os Young adults, livros para bobalhões trintões ou quarentões posando de adolescentes, a execrável literatura de autoajuda, exemplares de capa dura ou emborrachada a preços extorsivos e uma cultura mais interessada em estilo (que nada mais é do que propaganda fajuta disfarçada de algo válido ou imponente) do que conteúdo.

Faltou alguma coisa? Os quadrinhos que trocaram as bancas de jornal e o submundo underground pelas megastores caríssimas e inacessíveis para o verdadeiro leitor de quadrinhos, a fotografia que agora é produzida por celulares com seus donos abusando de caretas e poses gratuitas (e pensar que antigamente tínhamos Sebastião Salgado, Cartier-Bresson!) e a transformação do formato game ou RPG em peça de arte. Sim, foi isso mesmo que vocês leram. Sinto muito.

Já vi uma mulher ganhar um prêmio na MTV cantando palavrões. Já li uma autora francesa (procurem: Lolita Pille) que acha sua sexualidade o tema mais importante do mundo contemporâneo. Já vi o mundo do futebol mais preocupado com o que é fashion do que fazer gols ou ganhar títulos. E não bastasse tudo isso, vi a beleza humana e a ética sendo relativizadas em nome de um delírio coletivo ou simples vontade de chocar (e acreditar que isso é show business). Sim, são tempos sombrios esses da chamada algoritmolândia.

Renderia um bom livro? Não tenho a menor dúvida disso. Será uma narrativa tenebrosa, se a projetarmos ainda mais para o futuro? Infelizmente. Irei escrevê-la em algum momento da minha vida? Eis a questão. E não digo isso por falta de coragem e, sim, por receio de contribuir ainda mais para a alienação que nos rodeia. E isso eu não desejo nem para o meu maior inimigo. 

E algo, definitivamente, precisa mudar. Para ontem, se possível. Do contrário, não sei não...


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O surreal Tim Curry


Por que nos lembramos de certos artistas só de mencionar o sobrenome, enquanto outros precisamos pesquisar no google por mais informações? Digo isso, pois toda vez que lia o nome do ator Tim Curry - que faleceu hoje, aos 80 anos - e não via a sua imagem junto da matéria eu precisava fuçar em algum site de busca para ligar o nome à pessoa. E acreditem: acho isso uma sacanagem, porque ele era um puta artista. Marcou minha adolescência como poucos. 

Acho praticamente impossível dissociá-lo da imagem que ele próprio construiu com o Dr. Frank-N-Furter, personagem síntese do antológico musical The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman. Mais do que isso: ele era a "alma" do filme, que foi dos Midnight movies à peça cult para milhões de cinéfilos enlouquecidos. 

Outro trabalho marcante do ator, com certeza, foi o Pennywise da minissérie It: a obra-prima do medo, de Tommy Lee Wallace, feita para a HBO. Eu, que sempre fui fã de palhaços descontruídos como serial killers e psicopatas, nunca mais encontrei nada que chegasse sequer perto dessa versão aqui.

Contudo, se iludem aqueles que acreditam que a sua carreira se resumiu apenas a esses dois grandes papéis. Tim Curry, como disse em parágrafo anterior, marcou profundamente minha juventude, bem como de toda a minha geração (leia-se: a galera que vivia entrando e saindo das videolocadoras de bairro, um fenômeno que vem sendo trazido de volta, aos poucos, por uma legião de nostálgicos cada dia mais irritados com os serviços de streaming, o fim da mídia física e outras escolhas terríveis de mercado quando o assunto é distribuição e home vídeo). 

Se você hoje está próximo dos 50 (como eu), certamente se deparou com Curry em produções como Annie (de John Huston), A lenda (de Ridley Scott), A caçada ao outubro vermelho (de John McTiernan, do clássico de ação Duro de matar), Minha filha quer casar (de John Landis), Esqueceram de mim 2: perdido em Nova York (de Chris Columbus), Máquina quase mortífera (de Gene Quintano), Os 3 mosqueteiros (de Stephen Herek), O sombra (de Russell Mulcahy, uma adaptação em quadrinhos precursora de muita coisa feita pela DC anos depois) e Congo (de Frank Marshall). 

Já no departamento dublagem (e também narrações), eu poderia passar o resto da vida aqui e sequer arranharia a estrutura de tudo o que ele fez em termos de voz: de Batman à Eek, o gato; de A família dinossauro à Alladin; de A pequena sereia à Sonic; de Tom e Jerry aos Muppets; de O máskara à Carmen San Diego; de Scooby-doo à Johnny Bravo...

O garoto inglês que se formou em Teatro e Inglês na Universidade de Birmingham e estreou nos palcos numa versão londrina do musical Hair teve mais de 200 créditos ao longo da carreira (procurem no IMDb por mais detalhes, fanáticos de plantão!) e certamente deixará - muitas - saudades. Deixo aqui minhas condolências à amigos e familiares. Ele era foda (vou mais além: era surreal, na forma como conduziu sua vida e carreira). E seu olhar cínico, debochado, cheio de sarcasmo quando a câmera focava nele, nunca se apagará de minha mente. Vai com Deus e descanse em paz, mestre!


domingo, 23 de agosto de 2026

30 anos sem Gene Kelly


Parece piada (de humor negro), mas não é. Hoje vi no x - antigo twitter - um post sobre o aniversário do ator, cantor e dançarino Gene Kelly que nos deixou há... Três décadas! Engoli em seco. Como assim Gene Kelly já nos deixou há 30 anos? Os deuses do cinema, certamente, estão rindo sarcasticamente neste exato momento. E imediatamente eu sinto vontade de reassistir mais uma vez um clássico desse eterno mestre da dança.

Eugene Curran Kelly era descendente de irlandeses e oriundo de Pittsburgh, Pensilvânia. Veio para hollywood em 1941 quando a Metro-Goldwyn-Mayer era O estúdio e ditava tendências na arte cinematográfica. Ele era competitivo e exigente ao extremo com o seu trabalho (como deveria ser!) e, ainda assim, exibia um otimismo e uma energia típica dos grandes do seu meio. 

Ao lado de outro mestre, Fred Astaire, dividiu as atenções sobre quem seria o melhor no quesito dança e teve até crítico de cinema que perdeu tempo debatendo sobre o tema. Na boa... Que pergunta indigesta e sem sentido! Tanto quanto quem foi melhor no futebol: Pelé ou Maradona? Só imbecis perdem tempo com isso.

Entre seus inúmeros sucessos, gosto sempre de citar Marujos do amor (1945), do trio George Sidney, William Hanna e Joseph Barbera (sim, aquela dupla das animações); O pirata (1948), de Vincente Minnelli; Um dia em Nova York (1949), que dirigiu com Stanley Donen; Sinfonia de Paris (1951), de Vincente Minnelli (vencedor de 6 oscars); Cantando na chuva (1952), nova parceria com Stanley Donen; e Xanadu (1980), de Robert Greenwald, que curiosamente é o primeiro dele que assisti, ainda adolescente, ao lado da atriz e cantora Olivia Newton-John (que era uma crush minha dos tempos de VHS).

E mais do que a cena que o eternizou, dançando na chuva numa rua vazia, era um deleite aos olhos vê-lo exercitar seu ofício. E tenho um fetiche pessoal quando se trata de Kelly: sua parceira com o também inacreditável Donald O'Connor em Cantando na chuva é a prova viva do brilhantismo que eram os musicais nessa época. Tínhamos, às vezes, a sensação de que eles seriam capazes de voar ou dançar até de cabeça para baixo. Simplesmente sublime!

Sucessivos derrames cerebrais o tiraram de nós em fevereiro de 1996. Nunca mais vê-lo andando de patins no clube Xanadu ou dividindo seu talento com Debbie Reynolds ou Judy Garland. A vida no showbiz é realmente injusta! Em 1952 ele ganhou um Oscar honorário. Em 1996, ano de sua morte, a Academia lhe prestou uma singela homenagem com o tap dancer Savion Glover reeditando sua cena famosa na chuva. Foi, aliás, a partir desse dia que eu passei a procurar com mais afinco por seus longas nas locadoras de vídeo. 

Hoje? Não há mais Kelly, nem Astaire, Garland, Cyd Charisse (as mais belas pernas de hollywood), Donald O'Connor, Ray Bolger (o eterno espantalho de O mágico de Oz) e a broadway virou um pastiche de si mesma. Logo, restou ao cinema americano sobreviver de superheróis vazios e personagens sobrenaturais babacas. Que triste sina! Ah, mestre... Se você pudesse ver o que fizeram com a meca do cinema, certamente estaria chorando agora. Eu estou. E um dos motivos é por saber que já são 30 anos sem o seu carisma e talento. Fazer o quê.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

As duas damas


Olha... Que porrada! Duas de uma vez, não tem fã que aguente. A dramaturgia e a arte brasileira em geral perdem duas de suas maiores damas. Nesta terça-feira nos despedimos de Laura Cardoso e Glória Menezes, e aumentamos ainda mais aquela lista que já ficou famosa aqui neste blog de artistas insubstituíveis que partiram. 

Alguns artistas são magistrais, tanto que os seguimos apaixonados para onde quer que eles vão. Contudo, existem aqueles que nasceram para ser lendas. São inigualáveis naquilo que fazem. E por isso, nunca ficamos esperando que eles tenham sucessores (até porque dificilmente isso realmente acontecerá - e, na boa, está tudo bem, eu já entendi essa parte). Laura e Glória fazem parte desse seleto grupo. 

E basta ouvir seus colegas de profissão e, principalmente, de geração, para entendermos que não fomos os únicos a entender isso. Vejo um depoimento do ator Tony Ramos, emocionado, para o jornal da Globonews, e aquilo simboliza tudo o que eu penso sobre Laura e Glorinha. Fico imaginando gigantes da TV - como Suzana Vieira, Lima Duarte, Ary Fontoura, etc -, sabendo da notícia e refletindo sobre a perda que isso acarretará para a nossa cultura. 

Sim, elas eram sublimes e nada do que digam ao contrário me fará mudar de opinião.

Descobri a força de Laura antes, por causa dos desenhos animados. E vocês me perguntam o porquê. Ela era a voz da Betty, a esposa de Barney Rubble na animação Os Flintstones, que os programas infantis adoravam exibir. Já Glória, eu vi pela primeira vez como a Roberta Leone da inesquecível Guerra dos sexos, e ela me ganhou logo de cara. Ela não era só a esposa de Tarcísio Meira, o João Coragem. Não, senhor! Tinha luz própria - e muita.  

Entretanto, levando-se em consideração toda a carreira de ambas, eu sempre me lembrarei de Laura por causa de Dona Guiomar, a sogra possuída pelo espírito do filho morto, que infernizava a vida do genro (vivido por Miguel Falabella) na novela A viagem, e também por sua cena magistral como Manuela no filme Terra estrangeira, de Walter Salles, no qual ela enfarta e morre em frente à tv após a notícia do confisco da poupança durante o governo Collor. E Glória... Como esquecer da eterna Laurinha Figueroa, de Rainha da Sucata, e da Rosa - esposa de Zé Burro - em O pagador de promessas, Palma de Ouro em Cannes em 1962?

Ao fim, sobram as homenagens, as lembranças, revemos trabalhos antigos no you tube, certamente o Canal Brasil as homenagearão (elas fizeram muita coisa também no cinema), rememoramos seus sorrisos, suas gargalhadas, suas facetas mais sérias. Ambas fizeram rir e chorar como ninguém. Como poucos. Uma pena. A tv e o país ficam bem mais tristes hoje, duplamente. 

Onde quer que estejam, que fiquem em paz. Pois pela vida que tiveram, vocês certamente merecem. 


domingo, 16 de agosto de 2026

Bichos não tão escrotos assim


A presença do cover na indústria fonográfica é muito bem vinda, não tem nada de mais em exaltá-lo. Trata-se de uma nova performance ou regravação de uma música feita por um artista que não é o autor ou o intérprete original da faixa. Já houve, inclusive, casos em que o cover é infinitamente melhor do que a canção original. Lembro de ouvir Whitney Houston cantando "I will always love you" na trilha sonora do filme O guarda-costas e depois conhecer a faixa original, e pensar: "sim, ela não só reinventou... ela salvou a música". Logo, não demonizemos o formato. 

Nos últimos dias andaram falando bastante sobre o cover de "Bichos escrotos", hit da banda Titãs, do álbum histórico Cabeça dinossauro (fase áurea da banda). Fui correndo ao you tube e encontrei o clipe rapidamente. Ao fim da audição, uma tremenda decepção, broxante mesmo. Sim, também é preciso dizer: às vezes o cover destrói toda a história de uma música, muito pelo fato dela estar ligada de forma quase mediúnica com um período da história. 

Vi algumas pessoas da crítica especializada e, especificamente, um colunista da Rolling Stone, dizendo se tratar mais de um viral, uma forçada de barra, do que propriamente um registro digno de nota. E ele está certo. Não tenho nada contra Anitta, a cantora da versão que tomou a internet (nem sou fã do estilo musical dela, é bom ir logo deixando claro!), mas não me parece que ela seja a pessoa mais adequada para assumir uma responsa dessas. 

Sim, é uma responsa. 

"Bichos escrotos" é daqueles momentos do rock brasileiro (e também da MPB) em que você sente prazer em ouvir um sonoro esculacho, um gigantesco desabafo. Assim como na canção Que país é esse?, da banda Legião Urbana, aguardamos o momento em que a frase que dá título à música é proferida para dizer "é a porra do Brasil", em Bichos também esperamos ansiosos por aquele momento foda-se, em que podemos colocar toda a nossa revolta para fora. 

E por mais que Anitta seja um expoente do funk (embora bem mais Kondzilla do que Furacão 2000 e, sim, há um enorme diferença!), ela não possui a coragem e o "culhão" necessários para vender a verve que a música almeja. "Bichos escrotos" é, praticamente, um hino oficial daquelas pessoas putas, que não aguentam mais os mandos e desmandos de um sistema podre, falho, corrupto, e veem na letra seu último resquício de enfrentamento à ordem social. 

E do outro lado dessa equação vemos uma geração - da qual Anitta faz parte - que não está antenada com esse desejo de rebelar-se. Parece mais afeita ao mundo dos negócios, do status, do glamour, tudo o que a música em questão não prega. Pelo contrário. Sei que vou ser detonado de tudo quanto é lado pela imensa legião da fãs da cantora (e eles sabem ser cegos e persistentes o quanto podem!), mas acreditem: a cantora e a canção não deram match, sorry! E às vezes isso também acontece, mais até do que vocês imaginam. Quem sabe no próximo. 

Não será a primeira, nem a última vez, que rainha do baile das poderosas e a girl from rio, passará por isso na carreira. E ela já está até calejada nesse sentido. E, sim, eu precisava fazer esse post, pois não dá pra gostar de tudo só porque os outros gostaram. Os bichos, dessa vez, não eram tão escrotos assim... 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Mulher de todos e de ninguém


Algumas atrizes sacramentaram o conceito de musa no cinema mundial. Assim foi Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Claudia Cardinale, Elizabeth Taylor, Judy Garland, Sônia Braga, Diane Keaton e tantas outras. Eu poderia incluir Helena Ignez nessa lista (com folga), mas cá entre nós: isso não explicaria, sequer arranharia, a superfície do que ela é. E como é bom ver isso tudo muito bem representado na Ocupação Helena Ignez, que ocorre no Itaú Cultural, em SP, até 18 de outubro.

Eu me tornei fã de Helena por acidente (acidente, não; e sim porque, lá atrás, ela foi parceira de dois dos maiores nomes da história do nosso cinema: Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. E isso, por si só, era para mim um puta cartão de visitas). Ao vê-la como Sonia Silk em Copacabana Mon Amour, eu tive uma certeza: estava diante de uma artista incomum, e nenhum rótulo conseguiria defini-la. De jeito nenhum. 

Helena trabalhou em 77 longas (obras seminais como Assalto ao trem pagador, O padre e a moça, O bandido da luz vermelha, A mulher de todos, Sem essa, aranha, Nem tudo é verdade, O signo do caos, etc), dirigiu outros 11 (dentre os quais, recomendo com força A miss e o dinossauro, Luz nas trevas: a volta do bandido da luz vermelha e A moça do calendário) e interagiu no teatro, na política, na sexualidade, na espiritualidade, na vida como um todo. E, ainda assim, parece quase impossível dar-lhe uma definição derradeira. Ela é múltipla no melhor sentido da palavra. 

Vejo essa senhora como um estupendo exemplo do que deveria ser todo artista. Como bem diria Raul Seixas: uma metamorfose ambulante. Sem papas na língua, ácida, sabendo de antemão o que quer - e principalmente: o que não quer -, ela construiu uma carreira sólida e cheia de nuances. Junto com Sganzerla e Bressane foi além e nos entregou a Belair, sinônimo de radicalismo e autoralidade cinematográfica numa época em que simplesmente emitir uma reles opinião já era o maior pecado. Helena causou (e muito). Graças a Deus!

A exposição no Itaú cultural reúne fotografias, documentos, trechos de filmes e materiais inéditos que revelam a atuação de Helena diante e atrás das câmeras, além de uma publicação virtual e um site cheio de conteúdo, para dar e vender. Quem quiser saber mais, muito mais, acesse: https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/helena-ignez/.

Seu sobrenome? Com certeza, deveria ser liberdade. Criativa, de pensamento, de viver sem freios. Eu poderia passar o resto do dia, da semana, do mês, do ano, aqui, escrevendo, falando exclusivamente sobre ela, e ainda assim faltaria muita coisa para dizer. Ela era a mulher de todos, e de ninguém. Parte indecifrável; parte mágica, ímpar, única. Grande Helena. Fantástica Ignez. Longa vida a você, antimusa!

E quanto a vocês, que leram esse mísero post que tenta homenageá-la, pelo amor de Deus, vão conhecer a Ocupação. Aquilo ali é a história do audiovisual brasileiro, que merece ser exaltado, lembrado, relembrado. Não importa o quanto queiram difamá-lo. Não desperdicem essa chance. Talvez vocês não tenham outra. 


terça-feira, 4 de agosto de 2026

O mundo é uma pista de dança


Quase esqueço de comentar Confessions II, novo álbum da Madonna que vem despertando o interesse do público no último mês. Andei lendo, ouvindo e vendo tanta coisa (boa e também descartável) que deixei o time disso aqui passar. Mas quer saber? Melhor assim. Fujo das opiniões tanto dos detratores da diva pop quanto dos elogios vazios dos fanáticos admiradores sem critério. Acreditem: o ideal hoje, do jeito que o mundo está, é ficar no meio-termo. Sobre tudo. 

Confessions II é a melhor coisa que a material girl produziu nos últimos anos - e com folga. Não deve nada ao álbum original, lançado em 2005 e que já trazia uma Madonna bastante à vontade, despudorada como só ela. Aqui, em alguns momentos, achei as letras até mais diretas, incisivas, sobre os temas que a cantora tanto gosta de martelar (e incomodar) os incautos por natureza. 

Madonna correlaciona o mundo com uma pista de dança, chegando a chamá-la até de um ritual (como fica expresso na canção "One step away"). Ela diz, sem rodeios e firulas, estar aberta a uma nova persona, livre, repaginada. Portanto, esqueçam sua versão antiga. O que a diva deseja mesmo é recomeçar do zero, antenada com este novo mundo que vai se mutilando dia a dia, ano a ano, nos forçando por vezes a tomar atitudes radicais. 

Consciência é uma palavra que povoa muito seu novo trabalho. E mais: ela não quer saber da opinião que as outras pessoas têm sobre ela e mais do que certa ela está. A humanidade anda por demais cretina para que nós a levemos a sério. Ela deseja o seu amor e não suas críticas (e canta isso em alta voz, ao lado de Sabrina Carpenter na ótima "Bring your love").

Há um momento metralhadora anti-sistema no álbum, quando ela acusa os falsos modelos de ética da sociedade, pessoas que só sabem mentir e desejar o pior ao outro. E é nesse momento que a pista de dança é fundamental, para exorcizar esse pensamento. Somente nela, vivenciamos o território da liberdade (trata-se de "Danceteria", que é praticamente a Vogue desse novo álbum).

Entre os mantras propostos por Madonna nesse novo disco estão premissas como "viva de olhos abertos", "encontre a luz para a sua vida", "fuja da escuridão cotidiana". E o principal: o papel do amor nessa equação pra lá de louca e exuberante. Ela diz em "Bizarre" - no qual menciona o casamento com o ator Sean Penn - que "o amor é a coisa mais estranha do mundo". Já em "Love without words", convida o ouvinte a ouvir o amor que vem de dentro, que paremos de aprender com o que vem de fora. E em "Love sensation" explicita o amor como uma droga da qual não consegue se libertar.

Ao fim, ela enaltece que não estava perdida esses anos todos, e sim apenas despedaçada por aqueles que tentaram colocá-la no chão, submissa (mas não conseguiram). E na música que encerra essa experiência quase psicodélica, "L.E.S girl", ela constrói uma crônica sobre uma garota independente que vive intensamente, um dia de cada vez. Tudo que ela vem mostrando ao mundo desde os anos 1980. E ela conseguiu de novo!

Ouçam. Quantas vezes forem necessárias. Saber que ela ainda está entre nós é um alento em meio a tanta mesmice, tanta mediocridade musical. Logo, não pode ser desperdiçado. De jeito nenhum. 


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Purgatório da beleza e do caos


Muito antes do diretor hollywoodiano Quentin Tarantino nos entregar sua obra-prima Pulp Fiction (vencedora da Palma de Ouro em Cannes), um mineiro de Belo Horizonte nos apresentou sua versão tupiniquim e desaforada do mesmo universo - guardadas as devidas proporções e culturas de ambos os países. Seu nome? Neville D'Almeida. E o filme? Matou a família e foi ao cinema. 

E é bom ir logo deixando claro que o longa (que completa 35 anos de existência em 2026) é um remake do clássico dirigido por Júlio Bressane em 1969. Contudo, aqui ele parece bem mais turbinado e ousado, para os padrões de qualquer época (mas principalmente no início dos anos 1990)

Quando Fausto Fawcett, na canção Rio 40 graus, se refere à expressão "purgatório da beleza e do caos" para mencionar a cidade maravilhosa, é exatamente sobre essa metáfora que o diretor aponta seu holofote ao mostrar a degradação da sociedade e dos costumes naquele período. Matou a família e foi ao cinema é o retrato da falência moral, que só faz crescer de forma galopante com a chegada das novas gerações (leia-se: a geração advinda da internet e das redes sociais). 

Bebeto (Alexandre Frota) é o estereótipo do vagabundo por vocação. Não estuda, nem trabalha, e vive tomando esporro dos pais, que o consideram um peso morto na família. Cansado de ser massacrado pelas críticas e a verdade dolorosa, ele os assassina a facadas. E logo a seguir, tranquilamente, adentra uma sessão de cinema. Lá se depara com vinhetas e microfilmes que expõem a nu a realidade atroz da sociedade brasileira. 

Os filmes que Bebeto assiste no cinema são como a enciclopédia das taras humanas proposta por Tarantino em seu longa. A diferença? Enquanto na produção hollywoodiana, máfia, violência e jogos de poder ditam a trama frenética, aqui o que vemos é um desmascaramento do convívio humano em meio à sexualidade aflorada, o eterno niilismo de uma população que vivia em meio à recessão e o eterno falso moralismo das elites. 

As socialites Márcia (Cláudia Raia) e Renata (Louise Cardoso), reféns de casamentos monótonos e uma rotina preguiçosa, quando o que desejam de fato é viver sem rédeas, num "delírio eterno". Levam seu libertarismo a tal extremo que acabam por provocar a própria tragédia que as consumirá. O abominável ladrão de calcinhas (Guará Rodrigues), figura mítica e torpe que atacava mulheres lindíssimas, no meio da rua, requisitando suas roupas íntimas. E as colegiais lésbicas, vivendo um amor proibido e censurado pela mãe de uma delas, eterna defensora da moral e dos bons costumes. A trinca de narrativas compõe um grande ensaio sobre o desespero e a eterna hipocrisia que sempre reinou nesse país, e só fez crescer em tempos de liberalismo fajuto. 

Ao fim dessa tragédia urbana, regada à citações ao poeta Paul Verlaine e até mesmo a pequena notável, Carmem Miranda, e cenas sexuais estilosas, o que se percebe é que o cinema brasileiro daquela época (tempos de Embrafilme indo pro ralo no Governo Collor e falta de perspectivas) mostra um Rio de Janeiro decadente que não é muito diferente do de hoje e, provavelmente, o de amanhã também.

Logo, só nos resta rezar - e muito! - por dias melhores. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

O eterno Barretão


Leio a matéria no G1 e na mesma hora fico triste. É... O Barretão partiu. O quê? Você se diz cinéfilo de carteirinha e não sabe quem é o Barretão? Putz! Tá mal então... Luiz Carlos Barreto - que nos deixou órfãos de bom cinema aos 98 anos - é, nada mais nada menos, do que o produtor de cinema mais famoso do Brasil. Digo mais: sua história se confunde com a do audiovisual brasileiro, mais ainda: com a da cultura popular do nosso país. Através dos filmes que produziu ele nos contou histórias que perfazem um grande mosaico do que é a nossa sociedade. 

Antes disso, contudo, não se pode esquecer do fato de que ele também foi um fotógrafo de mão cheia (da revista O cruzeiro, onde fotografou de estrelas de hollywood ao ditador Fidel Castro), de olhar apurado, atento às mazelas dessa nação e do mundo. E isso em muito contribuiu para a carreira que ele viria a consolidar depois. Descobriu o cinema aos 12 anos, quando viu Orson Welles no Ceará filmando Jangadeiros para um documentário, durante o governo Vargas. Costumava dizer sempre que "O cinema é uma coisa útil, e não uma coisa fútil", frase que virou sua marca registrada (e deveria ser melhor interpretada por parte da geração que faz cinema hoje em dia). 

Falar de sua carreira daria uma grande tese de doutorado ou livro de referência, tantos foram os sucessos de bilheteria e crítica no qual esteve envolvido. Começou de cara com dois filmes emblemáticos: Garrincha - alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade e Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos. E se somente por esses dois medalhões você acha que ele não precisaria apresentar mais nada, é porque não conhece o restante do trabalho dele. 

A hora e a vez de Augusto Matraga, A grande cidade, O padre e a moça, Terra em Transe, Capitu, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, Como era gostoso o meu francês, Dona flor e seus dois maridos (por muitos anos, a maior bilheteria da história do cinema nacional), A dama do lotação, Bye Bye Brasil, O beijo no asfalto, Menino do rio, Memórias do cárcere, Ele, o boto, Luzia homem, O quatrilho e O que é isso, companheiro? (ambos indicados ao Oscar de melhor filme internacional), Bossa nova, A paixão de Jacobina, O caminho das nuvens... Ufa! Ele era uma lenda. 

Lembro de quando assisti um documentário sobre a vida dele, exibido no Canal Brasil não faz muito tempo. Tive a certeza de estar diante de um homem do seu tempo (e também à frente do seu próprio tempo). 

Barreto viveu a glória do cinema novo, bem como os anos do governo Collor (que extinguiu a Embrafilme). Conviveu de perto com a ditadura e toda a repressão, mas também teve a honra de ver o renascimento da sétima arte brasileira com a retomada, iniciada com Carlota Joaquina: princesa do Brasil, de Carla Camurati. Chorou, sorriu, venceu, perdeu, insistiu, tentou de novo, reiniciou tantas vezes e não abandonou a luta. Por isso seu nome estará sempre nos anais da nossa cinematografia. 

E, infelizmente, é mais um capítulo da série "não deixou um sucessor à altura" na história da cultura popular brasileira. Vai fazer falta - e muito! -, principalmente no momento atual que o nosso cinema vive, reconhecido no exterior com premiações inéditas, e precisando de um legado. Vai em paz, Mestre! Certamente tem alguma coisa magistral pra você produzir lá em cima...


domingo, 19 de julho de 2026

Deusa? Hummmm...


Quadrinhos é provocação (e certamente não é literatura). Levo sempre isso em consideração quando leio mais uma graphic novel. E gosto de ler um pouco de tudo: de turma da Mônica, do Maurício de Sousa à Moebius e Milo Manara. Mas nada, absolutamente nada, é mais importante para mim no formato do que um autor que subverta qualquer remota possibilidade de expectativa. É preciso transgredir para entender de fato o que é a nona arte. E foi exatamente isso que Rafael Campos Rocha fez ao produzir sua HQ Deus, essa gostosa. 

Falar de Deus já é, por natureza, procurar sarna para se coçar. Os haters estão logo ali, na esquina, esperando você dizer isso aqui dele, e bum! atacam como chacais. Imagine então Deus como uma mulher negra, no apogeu da sua sexualidade, dona de uma sex shop (isso mesmo que você leu) e, ainda por cima, trocando altas ideias num bar com Satã. Pronto! A terceira guerra mundial está instaurada. 

Ao longo de toda a leitura fiquei pensando em Je vous salue, Marie, do cineasta Jean-Luc Godard, outro marco da transgressão (esse da sétima arte). HQ e filme certamente incomodam pelos mesmos motivos, embora sejam narrativas completamente diferentes. O Deus de Rafael Campos ao mesmo tempo que tenta entender a humanidade, sabe que muito do que aí está, do que chamamos de civilização, já é um caso perdido. E, claro, por culpa do próprio bicho-homem.

A Deusa em voga aqui não cria delírios, teorias conspiratórias ou mesmo teses motivacionais para justificar a decadência do mundo. Ela simplesmente segue o fluxo (o que, aliás, é o mais certo a fazer, tendo em vista a existência do livre arbítrio. Cada um que lide com as consequências de suas próprias - e errôneas - escolhas).

Na grande conversa de botequim entre Deus e Satã, me soou em alguns momentos um clima de O sétimo selo, clássico atemporal do cinema mundial dirigido por Ingmar Bergman. A única diferença? Sai o tabuleiro de xadrez, entram os copos de cerveja. Com direito à punguista roubando carro à luz do dia, na cara dura, e tudo. Mais outsider do que isso, impossível. 

A graphic novel é curta, poucas páginas e diálogos, em preto-e-branco, com traços primários (chego até a avisar aos desavisados: o roteiro é bastante superior a arte - tendo em vista que o autor da obra é um artista plástico e não um quadrinista de carreira). Contudo, é justamente nessa simplicidade que reside a grande força do trabalho. Rafael não se esmerou por produzir um espetáculo em arte sequencial. O que ele quer, realmente, é provocar uma discussão sobre os rumos da fé na atual sociedade. 

E nesse quesito, ele mata no peito e chuta pro gol, indefensável para o goleiro. Em tempos de fanatismo religioso extremo e bitolados pela própria crença convertendo pelas ruas impunemente, vale a pena refletir sobre os malefícios da cegueira espiritual (um tema que merece ser mais debatido nesse século XXI espinhoso e confuso). Recomendo o álbum para os interessados em se abrir para novas posturas, cansados de totalitarismo e opressão. Já os eternos inquisidores da manipulação, na boa... deixem isso aqui em paz. Não é para vocês. 

Uma das grandes surpresas arrebatadoras que eu tive nesse ano de 2026 no segmento cultura pop. Procurem, antes que o mercado editorial dê um sumiço nela por conveniência!