segunda-feira, 1 de junho de 2026

O mago da inventividade


Terminei o sábado em estado de graça e consciente de que a cultura e a arte são, de fato, libertadoras num patamar impossível de ser explicado. E ninguém na face da terra conseguirá destruir isso. Explico-me. 

Conheci o trabalho do artista plástico paulista Vik Muniz através do documentário de 2010 indicado ao Oscar Lixo extraordinário, dirigido pelo trio Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim, e na mesma hora fiquei encantado. Muito pelo fato de ele utilizar materiais inusitados em meio às suas telas. Ao invés de tintas, o artista usa como matéria-prima muito lixo, açúcar, geleia, macarrão, até mesmo cinzas do incêndio recente do Museu Nacional.

E o mais importante: ver os quadros de Muniz é um gigantesco exercício do olhar. Você tem diferentes leituras ao se aproximar ou se distanciar de uma tela, o que promove um efeito por vezes bi ou tridimensional. 

Dando continuidade a minha paixão (e também curiosidade) sobre o seu trabalho, fui essa semana ao Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, para ver a exposição Vik Muniz: a olho nu, a maior retrospectiva da sua carreira até hoje. São mais de 220 obras que compõem um vasto cenário sobre a sua trajetória. E quem é fã de história da arte, artes plásticas (como eu) vai, certamente, ficar encantado.

Passeio pelos corredores amarelos e fico perdido em meio a tantas referências. Perco mais de meia hora só na parte dos retratos de celebridades. É, no mínimo, uma afronta um artista desse tamanho ser mais reconhecido no exterior do que no próprio país natal. Vik é tão inventivo, tão cheio de ideias, que me parece um desserviço à cultura não divulgá-lo ou sequer reconhecê-lo. 

Numa mistura de processos, materiais e escalas as mais diversas, o artista constrói uma nova forma de poética, transformando o olhar numa tarefa múltipla e não mais tradicional. Estamos a todo momento revendo suas ideias na tela, pois a cada momento elas parecem reproduzir novos significados. Não se surpreenda se, ao sair da exposição, você desejar vê-la de novo na semana seguinte, pois teve a sensação de ter perdido alguma coisa, algum detalhe. 

Pois a intenção da mostra, entre tantas outras, é exatamente essa: expandir leituras e interpretações. 

trabalhos tridimensionais do início de sua trajetória, séries fotográficas emblemáticas que marcaram sua produção ao longo dos anos e obras recentes, reunidas, acabam por configurar um imenso painel de um mago da inventividade. Acho que essa é a melhor maneira de classificar Vik Muniz (pelo menos, nesse exato momento; resta saber o que ele ainda irá nos entregar nos próximos anos - o que sempre é uma incógnita deliciosa).   

Ao fim, apenas uma certeza: seu trabalho é uma grande obra aberta, propensa a novos - e desafiadores - caminhos, e isso para qualquer fã de arte que se preze, é uma excelente notícia. Vejam! Fica em cartaz até 7 de setembro.  


quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Picasso do jazz


Eu lembro da primeira vez em que vi Miles Davis na tela e não foi necessariamente tocando. Tratava-se do quarto episódio da segunda temporada de Miami Vice - um série icônica que marcou minha adolescência profundamente - e fiquei impressionado com sua presença de cena. Contudo, eu nunca o tinha ouvido tocando jazz e foi meu pai que me abordou naquele exato momento e me disse: "Esse cara é um artista extraordinário. Quando tiver tempo, ouça-o!". Como ele já havia me apresentado anteriormente a duas divas da música, Aretha Franklin e Nina Simone, corri atrás de seu trabalho como louco.

E o que descobri após fuçar em lojas de discos (sim, naquela época elas existiam em profusão!) foi que não só estava diante de um artista talentoso, mas de uma lenda, de uma figura inigualável para a história da música. Quem nunca ouviu Miles Davis, não faz a menor ideia do que está perdendo. Seu disco mais famoso e mais badalado da carreira, o monumental Kind of blue (1959), é dessas experiências que você ouve quase rezando, de joelhos, aproveitando cada faixa, cada toque, cada momento. Mais do que isso: ele é uma excelente porta de entrada para conhecer toda a obra gigantesca de Davis. 

Miles foi do Hard bop ao jazz fusion, passando por orquestrações e psicodelias as mais diversas, e eu acho praticamente impossível escolher um gênero ou um momento específico no qual ele tenha sido melhor. Foi um artista completo, complexo, rebelde, à frente do seu tempo em todos os níveis. Atuou ao lado de lendas como Charlie Parker, John Coltrane e Bill Evans e, ainda assim, imprimiu seu estilo próprio, se destacando dos demais. 

Dentre as características que mais o marcaram ao longo da carreira, vale destacar sua assinatura sonora (você sabia de antemão quando estava ouvindo o trompete de Miles e não de outro artista), sua capacidade camaleônica de se reinventar em diversos estilos (seja o Bebop, o jazz modal, o cool jazz, etc), o fato de ser um vanguardista eternamente insatisfeito com a própria criação (odiava rótulos que o limitassem como músico, ou seja, que o levassem a se repetir) e foi um revelador de novos talentos (lançou músicos sublimes como Herbie Hancock, Wayne Shorter e Chick Corea)

Para quem não sabe por onde começar a ouvi-lo (e a lista de coisas impressionantes que ele fez é grande), recomendo brevemente a trinca Round About Midnight (1956), Sketches of Spain (1960) e Bitches Brew (1969), este último uma mistura eletrizante de rock e funk. Mas faço um pedido: ouçam atentos, sejam gentis com a música. Aposto como se surpreenderão -e muito!

Em 2011 fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para ver a inacreditável exposição Queremos Miles – Miles Davis, lenda do jazz, repleta de fotos, documentos, discos, desenhos do próprio artista e, claro, seus trompetes. Foi lá, aliás, que descobri o interesse de Miles pelo boxe. Saí da experiência ainda mais fã do músico e com a cabeça repleta de informação valiosa, que me acompanha até hoje quando escrevo sobre cultura pop. 

Há quem o chame, entre a grande mídia, de o Picasso do jazz, e eu não vejo o menor exagero nisso. Ele realmente parecia pintar as notas musicais com a sua genialidade ímpar. E poder relembrar dele em seu centenário, que foi celebrado ontem, me deixou duas certezas: a) ele se foi cedo demais (morreu em 1991, aos 65 anos); e b) assim como Frank Sinatra e Jimi Hendrix, nunca mais haverá outro como ele. É daquelas figuras eternas que só passam pelo planeta terra uma única vez e o seu papel depois disso é relembrar do quanto ele foi único. 

Grande Miles, você foi uma aula de música!


domingo, 24 de maio de 2026

Muito mais que uma playlist para salvar um domingo cinza


Que a poesia está em todos os lugares, em todos os sentimentos, nas pequenas (e grandes) coisas do mundo, disso nunca tive a menor dúvida. Não importa o quão tenebrosa seja a realidade atualmente. É possível continuar sonhando em meio às adversidades diárias. O que importa: é continuar tentando, nadando contra a maré, insistindo, não desistindo. 

E por que digo isso? Vejo o domingo melancólico que foi hoje, praticamente cinza, sem viço. Parecia completamente estragado. Um dia improdutivo a mais para esse 2026 esquisito até aqui. E então, como num passe de mágica, aparece no comecinho da tarde Paulo Miklos, o ex-titã, músico e compositor estupendo, e me apresenta no youtube ao adorável Coisas da vida. Que eu até poderia resumir como "uma playlist para salvar o meu dia". Porém, seu quinto álbum solo de estúdio, é bem mais do que isso. Ele é necessário, em tempos tão amargos. 

É uma alegria tremenda conviver com o Miklos pós-Titãs, disposto a novos caminhos, novos voos, ou mesmo reeditando clássicos. E aqui há covers de canções inesquecíveis. 

Ele abre seu disco se mostrando preocupado com o que estamos fazendo com o planeta terra, cita Jonas e baleia da bíblia sagrada, mostra que precisamos acreditar mais em nós mesmos, seres humanos. Enfim: deixa claro que a batalha (ainda) não está perdida. Insatisfeito, não se basta com essa breve mensagem que bem poderia soar aos ouvidos dos execráveis moralistas de plantão como um panfleto autoajuda chato, repetitivo. 

E eis que ele enfileira uma trinca de respeito com as ótimas "Quero voltar pra Bahia", "Saudosa Maloca" (de Adoniran Barbosa, que o próprio Miklos já deixou claro em sua carreira ser um notório fã) e "Xibom bombom" (com seu toque de denúncia aos tempos atuais e ao eterno capitalismo selvagem que nos persegue). "Cachorro babucho" é apenas um tira-gosto para o prato principal, que vem em dobro com "Não existe amor em SP" e a eterna hit parade "Evidências" (clássico na voz da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó).

Mas acham que acabou, assim, desse jeito? Ah quem dera! O eterno roqueiro que habita dentro de Paulo não poderia terminar esse álbum de outra forma, que não fosse apresentando uma nova versão para um clássico. O escolhido é "O tempo não para", música síntese de Cazuza, o poeta do rock. Agora sim, posso fechar a tampa e eu a fecho, mas já saudoso, sabendo de antemão que certamente ouvirei o disco novamente nos próximos dias, para que fique fixado em minha mente sua mensagem.

Muito mais do que uma reles playlist para salvar um domingo acinzentado, sem sentido, Coisas da vida me ganhou por mostrar que o simples, mas bem feito, anda em falta na MPB, mais que isso: no mercado fonográfico atual. E ele pode ser bem mais poderoso do que muita bobagem estilosa que anda em voga atualmente. É apenas uma questão de se comprometer. O problema: quem é que se compromete com alguma coisa em meio a essa realidade louca proposta pela contemporaneidade? Pois é... O Paulo fez exatamente isso! e fica aqui o meu muito obrigado a ele.   

sábado, 16 de maio de 2026

A epopeia linguística da literatura brasileira


A expressão "há livros e livros" nunca foi tão verdadeira. Principalmente depois que você lê (e, de preferência, relê) uma obra-prima como Grande sertão: veredas, do escritor João Guimarães Rosa, que completa inacreditáveis 70 anos de existência em 2026 sem perder um milímetro de sua ternura e sua capacidade de se reinventar. E depois de ler esse registro literário colossal, eu passei a ter uma certeza: Guimarães merece seu lugar no olimpo da literatura brasileira ao lado do também magistral Machado de Assis - sim, os críticos sempre ficam putos quando eu repito essa frase...

Acompanhamos a trajetória de Riobaldo como acompanhamos uma canção amarga, porém necessária para entendermos os rumos desse país contraditório. E ao longo dessa jornada ele enfrentará não só percalços e inimigos os mais diversos, como um amor fora da curva e principalmente a dureza do sertão, que praticamente fala aqui, como um personagem contraditório e raivoso. 

E por falar em personagens - Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes (o algoz derradeiro desse quase anti-herói diferente de tudo que já se viu em nossas letras), Zé Bebelo, Ricardão, etc - eles compõem um grande ensaio sobre a dor, o interesse, a ganância, o eterno maniqueísmo que move o nordeste brasileiro, dentre outras temáticas tão ardilosas quanto. Chamar Grande sertão: veredas de mero romance ou saga não explica sequer a superfície do que é esse relato gigantesco, um dos maiores de toda a nossa bibliografia. 

Um dado triste: às vezes eu tenho a sensação de que Guimarães Rosa só será lembrado, citado e reconhecido como merece de fato no exterior. Há quem, inclusive, chame o livro de "o monte Everest" da tradução, pelo trabalho de quase recriar a obra ao traduzi-la para outros idiomas. Desde sua primeira publicação, em 1964, na Alemanha, o códex linguístico proposto por Rosa passou a gerar um imenso fascínio internacional. E por mais que existam aquelas pessoas que reclamem da necessidade de qualquer obra ou artista brasileiro ser reconhecido no exterior para ter real valor dentro do país, nesse caso específico acho uma honra o reconhecimento e admiração. 

Tive uma professora de língua portuguesa na universidade que dizia ser Grande sertão: veredas um dos maiores desafios de leitura da história da literatura mundial, mas que quando você insistia no duelo com o autor e pegava no tranco não queria mais saber de outra vida, muito menos experiências literárias fáceis e gratuitas novamente. E ela estava coberta de razão. Penei para compreender a mente e a narrativa de Rosa, abandonei a obra umas seis ou sete vezes ao longo da vida, mas quando finalmente captei seu espírito livre e compreendi suas intenções foi um deleite à parte. 

Uma certeza é preciso ser dita ao fim desse post: não se fazem mais (e, provavelmente, nunca mais se farão) obras literárias como Grande sertão: veredas. Primeiro, porque a sociedade brasileira se mostra cada dia mais iletrada e desinteressada pelo conhecimento. E segundo, por fazer parte de um mundo que parece cada dia mais distante e chamado de ilusório por uma geração que se esmera dia a dia por desmentir o passado, a utopia, a denúncia, e mesmo o recomeçar.  

Dito isto, para quem ainda não leu a maior epopeia linguística da história da literatura nacional, aproveite a chance (e a data comemorativa). Vocês não fazem a menor ideia do que estão perdendo. Não mesmo. Ah! um rápido P.S (praticamente um aviso de um leitor apaixonado): fujam dessa adaptação cinematográfica recente que o diretor Guel Arraes fez do romance. Ela diminui - e muito! - a grandeza e a importância da obra. 


terça-feira, 5 de maio de 2026

O produtor musical da era inesquecível da tv


Já faz tempo que não assisto tv aberta, canal nenhum, e por culpa da própria televisão, que se colocou a serviço do gratuito, do vulgar, do chulo, da falta de talento e desse mundo vazio produzido por influenciadores e canastrões midiáticos. Sou de uma época em que televisão era sinônimo de grandes realizadores e produtores (que o diga a era do Boni na Rede Globo!). Sentava em frente ao aparelho para me encantar ou flertar com o absurdo e não para aplaudir isso que hoje é vendido como show de realidade. 

Logo, ver a notícia do falecimento do produtor Guto Graça Mello, aos 78 anos, me traz a certeza de que a tv vai desaparecendo de vez, e aos poucos. Ele fez parte de uma era inesquecível da telinha. Como ouvir o seu nome e não se lembrar da trilha sonora do fantástico, que ele criou numa época em que o veículo vendia nostalgia? Seu legado para o meio televisivo é muito mais do que a criação de produtos que se perpetuaram. Ele está no âmbito do imaginário coletivo.

Lembrar de Guto é lembrar de mim ainda novo assistindo aos especiais Pirlimpimpim e Plunct, Plact, Zuuum (que sempre me traz à mente a lembrança do eterno Raul Seixas, o maluco beleza, na pele do carimbador maluco). Meu pai chegou, na época, a comprar os vinis com a trilha, que eu ouvia e reouvia a perder de vista. Víamos na tela Baby Consuelo - hoje do Brasil - como Emília, Jorge Ben (hoje Benjor) como Saci, entre outras figuras eternas da MPB desfilando canções que ecoavam na mente de inúmeras crianças e jovens. 

E por falar em MPB, Guto também é um capítulo à parte na história da discografia nacional. Produziu mais de 500 álbuns icônicos entre as décadas de 1970 e 1980, tanto na gravadora Som Livre como para a própria Rede Globo. 

Dentre os artistas com quem colaborou, grandes nomes do nosso cancioneiro como Rita Lee, Moraes Moreira, Guilherme Arantes, Sandra de Sá, Alceu Valença, Elba Ramalho e Gilberto Gil. Uma tia minha possuía em vinil (sim, eram outros tempos!) um exemplar de Trem azul, da cantora Elis Regina, que eu sempre ouvia quando a visitava. Acredito que foi uma das primeiras experiências musicais que eu tive fora da minha zona de conforto habitual (eu era fã de Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho) e após a primeira audição fui querer saber mais sobre música popular brasileira e não parei mais. 

Entre as trilhas sonoras de novelas que marcaram época pelas mãos dele vale a pena citar as de Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia, Estúpido Cupido, Pai herói e Cavalo de Aço (esta última foi alvo de uma curiosidade minha por quase toda a adolescência, pois ficava intrigado com o título). Ele conseguiu transformar até a apresentadora Xuxa num fenômeno de vendas do mercado fonográfico, chegando a produzir mais de 3 milhões de cópias. 

Embora uma figura multimídia, Graça Mello foi muito conhecido dentro do setor como um "caça-talentos silencioso". Entre seus assistentes dentro da Som Livre, dois nomes que viraram pilares do rock nacional: Cazuza (como assessor de imprensa) e Lulu Santos (responsável por ouvir as fitas demo dos chamados "novos artistas"). Ele também assinou a trilha sonora de mais de 30 longas-metragens cinematográficos, dentre eles produções como Cazuza - o tempo não para, Se eu fosse você e o filme espírita Nosso lar.

Sua partida não só empobrece ainda mais a cultura brasileira como alimenta ainda mais a decadência televisiva vigente. Uma pena! Precisamos de mais homens de visão como ele nas telas - e não essa geleia rançosa atual. Fica com Deus, mestre!

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Sganzerla, 80


Se vivo ainda fosse, Rogerio Sganzerla estaria comemorando hoje seus 80 anos. Oito décadas de uma das trajetórias mais fascinantes e extraordinárias da história do cinema brasileiro. E quem diz que eu exagero é porque não conhece a cinematografia e, principalmente, a personalidade do diretor e produtor de cinema que era a cara (e a alma) do cinema marginal. De crítico de cinema do Estado de SP (por 4 anos) à realizador de filmes bombásticos, ele aprontou das melhores peripécias que eu já tive o prazer de assistir na tela.

Sganzerla fez parte de uma geração que decidiu questionar os rumos tomados pelo cinema novo. Queria outra proposta, outra maneira de pensar a sétima arte, longe da espetacularização que vinha acompanhando o segmento liderado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cia. O caminho encontrado foi aquele que ficou conhecido em São Paulo como Cinema da boca do lixo. Logo, baseado numa estética mais bruta, mais suja, em contato com a realidade urbana. 

Seus longas eram uma mistura de sátira, subversão, colagens as mais diversas, irreverência para dar e vender, trilhas radiofônicas, humor ácido, linguagem fragmentada e muita crítica social. Alguns críticos e especialistas em cinema gostam de dividir sua obra fílmica em dois grandes segmentos: as ficções caóticas e os filmes-ensaio. Entretanto, ah quem dera fosse fácil explicar em poucas palavras o que foi o seu trabalho audiovisual. 

E ele chega mostrando a que veio logo no segundo filme, o extraordinário O bandido da luz vermelha, retrato de um país que em nada difere deste, controverso, no qual vivemos hoje. A história da caçada ao famoso ladrão de residências ganha contornos épicos com uma montagem e um roteiro frenético, cheio de melindres, e temáticas como manipulação da mídia, poder político e uma violência urbana com fundo anárquico e experimental. Aliás, experimental é um adjetivo que explica bem Rogerio, em todas as suas vertentes e provocações. 

Deixo aqui, inclusive, uma dica: procure no you tube um vídeo chamado "Rogerio Sganzerla manda recado ao Brasil". Em pouco mais de 30 segundos ele mostra toda sua malícia e postura antenada diante do país e do mundo, incitando o público a acordar para a realidade. Aposto que quem nunca viu nada dele, depois que conferir esse breve "teaser" vai procurar por toda a sua filmografia!

Uma das paixões dele era o diretor americano Orson Welles (também um transgressor por excelência). Tanto que Sganzerla realizou a trinca Nem tudo é verdade, A linguagem de Orson Welles e Tudo é Brasil, uma trilogia inspirada no cineasta americano e suas inúmeras intervenções e propostas estéticas. 

Em 1970 fundou, junto com seu parceiro Júlio Bressane, a Belair e em pleno período militar entregaram sete filmes em quatro meses, uma façanha até hoje alardeada aos quatro ventos por qualquer cinéfilo de bom gosto que se preze. E ali, em meio àquela tentativa de virar a estética cinematográfica de cabeça para baixo, podemos perceber o melhor do seu cinema. Seus filmes: a) desafiaram a narrativa considerada linear; b) tiveram influência do cinema noir, da chanchada, do tropicalismo; c) e tiveram diálogos rápidos, irônicos e cheios de citações. 

Mesmo nos anos 2000, com seus trabalhos experimentais, feitos à base de poucos recursos, mas muita ousadia visual, Sganzerla deu provas de que era um exemplar raro dentro do audiovisual brasileiro. E hoje, mais do que nunca, faltam mentes brilhantes como ele no mercado exibidor, um visionário nato na arte de produzir narrativas em formato película (e acredito, sem duvidar, que ele guardaria o digital no bolso também). 

Recomendo de olhos fechados a qualquer leitor deste post que assistam (e reassistam), além do já citado O bandido da luz vermelha, os também magníficos A mulher de todos; Sem essa, aranha; Copacabana mon amour; O abismo; O signo do caos e todos os curtas que vocês conseguirem encontrar na internet. Aposto a grana que for como não vão se arrepender!

Se houve um camaleão do cinema tupiniquim, esse cara foi o Rogerio Sganzerla e ninguém vai conseguir me provar do contrário. Saudades, mestre!


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Roger Corman, 100 anos


Abril chegando ao fim e quase me esqueço de comentar aqui acerca do centenário do extraordinário diretor e produtor de cinema Roger Corman. Talvez pelo fato de que ele tenha vivido quase 100 anos (o artista faleceu em 2024), eu tenha pensado: "já falei sobre ele não faz muito tempo, então...". Mas estava completamente enganado e por pouco não deixei passar a data em branco - o que seria uma vergonha da minha parte. 

Roger Corman era engenheiro de formação (assim como seu pai), mas sua maior característica, com certeza, foi a capacidade de unir seu intelecto a um mundo visto por muitos como mórbido. Ninguém realizou o macabro antes dele da mesma forma. Ver seus filmes - tanto os que ele dirigiu quanto aqueles em que atuou nos bastidores - era se deparar com um grande ensaio sobre o insólito. 

Passeou dos clássicos (seu Frankenstein: o monstro das trevas, de 1990, com Raul Julia e William Hurt, que não sai da minha mente até hoje, é um deleite para qualquer cinéfilo que se preze) à modernidade e conseguiu tirar leite de pedra, muitas vezes com orçamentos irrisórios. Foi o responsável por dar as primeiras oportunidades de trabalho a gigantes do cinema como Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, e brincou com estilos e referências até dizer chega, numa época em que hollywood não sobrevivia de megalançamentos e projetos caríssimos. 

Entre os longas que dirigiu adoro sempre citar O corvo - adaptação do poema clássico de Edgar Allan Poe -, O solar maldito (o filme que me apresentou ao mestre do horror Vincent Price), A loja dos horrores (com um jovem Jack Nicholson em início de carreira), O emissário do outro mundo e, claro, o mais do que cult Mercenários das galáxias (uma espécie de contrapartida ao gigantesco Star Wars, de George Lucas).

Entretanto sua carreira cinematográfica está repleta de criaturas dantescas, seres sobrenaturais, fábulas amedrontadoras, bichos pré-históricos, sagas medievais e outras invencionices que ele ia bolando ao sabor dos acontecimentos. Se hoje temos figuras dentro da indústria como Guillermo del Toro e, mais recentemente, Robert Eggers (para ficar em dois realizadores mais afeitos ao universo fantástico), acredito que eles não seriam possíveis antes do pioneirismo proposto por Corman. 

Seu maior legado para a história do cinema, não tenho a menor dúvida, foi ter provado por a mais b que sucesso não é sinônimo de orçamento ou produção estratosférica. Assim como aconteceu quando conheci o cinema de John Cassavetes (outro baluarte do cinema como arte, muito mais do que negócio), Corman me mostrou que sétima arte e desejo andam de mãos dadas, muito mais do que ter um estúdio todo-poderoso por trás para realizar os seus sonhos. E que nem sempre design de produção se traduz em bilheteria. 

E que, onde quer que ele esteja nesse exato momento, que ele saiba que sua história - e carreira de sucesso - jamais serão esquecidas pelos verdadeiros cinéfilos de plantão (como eu). P.S: A hollywood contemporânea nunca precisou tanto de alguém como ele, de seu deboche, de sua postura anárquica diante do mercado exibidor, quanto agora. Porém, onde encontrar outro mestre desses num cinema que agora se esconde atrás de tecnologias de última geração e o "mundo mágico" proposto pela inteligência artificial? Eis a questão.


sexta-feira, 17 de abril de 2026

O mão-santa


O basquete brasileiro, o esporte nacional como um todo, o Brasil, perderam hoje uma lenda. Uma pessoa que, na minha cabeça, é tão gigantesco quanto Pelé, Ayrton Senna, Zico, a geração olímpica do vôlei, nossos ginastas, judocas, nadadores, velocistas e tudo de mais genial que nós já tivemos na história do desporto. Falo de Oscar Schmidt, que nos deixou aos míseros 68 anos. O mão-santa, como a mídia gostava de se referir a ele, vai deixar saudade - e muita!

A história de Oscar é como a de muitos garotos que só querem uma oportunidade para mostrar o seu valor e, com isso, poder mudar de vida. Encontrou sua chance na adolescência com Zezão, no colégio salesiano e, consequentemente, com Laurindo Miura, no Clube Unidade da Vizinhança. Mas, como todo gênio que se preze, isso ainda era pouco, quase nada, para alguém com um talento como o dele. Palmeiras, Sírio, América-RJ, Juvecaserta (Itália), Pavia (Itália), Valladolid (Espanha), Corinthians, Bandeirantes, Mackenzie e Flamengo também conheceriam seu talento e - claro - suas cestas milagrosas.

Sempre que eu lembrar dele, me lembrarei de 1987. Eu, com apenas 11 anos de idade, em frente a tv, vendo a seleção brasileira desbancar a toda poderosa seleção norte-americana no Pan-americano de Indianápolis (detalhe: na terra dos caras). 120 a 115 para a nossa seleção que, a partir dali, revolucionou o nosso basquete e o jeito de jogar aquele esporte daí em diante. Não à toa os EUA, anos depois, passaram a chamar os profissionais para as competições. Ou seja: o jogo não seria mais o mesmo. 

Enquanto muitos atletas sonham com a NBA, Oscar decidiu seguir seu coração e dizer não. Ao saber que indo para a liga profissional americana não poderia representar mais a sua seleção, preferiu recusar (algo hoje, visto por muitos como inimaginável). Ele decidiu acreditar na sua própria história, no legado que poderia produzir. 

Era mágico vê-lo em quadra. Mesmo que o jogo em questão fosse de madrugada, eu parava tudo o que estava fazendo para assisti-lo. Ele personificava o nosso basquete. Bons tempos em que dava orgulho acordar cedo para ver um gigante performando. 

Quando ele foi reconhecido pelo Hall da fama do basquete fui correndo assistir seu pronunciamento. Ele relembrou do começo da carreira, das dificuldades, os treinamentos exóticos, das derrotas não esquecidas e, principalmente, do legado que o basquete lhe entregou. Parei de assistir a modalidade nos últimos anos, pois sinto falta dessa entrega, dessa dedicação total à carreira (crítica que eu também faço a outros esportes, como a seleção brasileira de futebol, por exemplo). Se eu não puder acompanhar e torcer desse jeito, prefiro não ver. Oscar me ensinou isso. 

E é com enorme tristeza que hoje preciso dizer adeus a um capítulo extraordinário da nossa história. Oscar, nunca te vi, nunca cruzei com você na rua, mas sempre te admirei e acompanhei sua jornada, e isso ficará gravado em mim para o resto da vida. Onde quer que você esteja, meu irmão, fica em paz. Você era foda. E nada vai mudar isso. E que o basquete brasileiro reencontre seu caminho de glória para poder homenageá-lo como você merece.  


quarta-feira, 15 de abril de 2026

A maternidade também é um campo de batalha


Se tem uma coisa que eu não entendo, nunca entendi, na humanidade, é essa mania que certos jovens têm de casar, construir família cedo demais, às vezes antes de chegar à maioridade. Abrem mão do próprio ato de viver, de enfrentar os obstáculos diários para acreditar na eterna ilusão do "encontrei a pessoa da minha vida". No final da experiência, o que sobra é aquele sentimento de "meti os pés pelas mãos" ou o famoso "Eu era feliz e não sabia".

Essa semana assisti (atrasado) à Morra, amor, filme da diretora Lynne Ramsay - que já havia chamado a minha atenção de forma impactante com o seu extraordinário Precisamos falar sobre o Kevin - e vivenciei uma interessante desconstrução sobre isso, essa obsessão da nova geração em querer amadurecer cedo em demasia. E o resultado é ainda melhor do que aquilo que eu via nos trailers.

Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) são o estereótipo vivo - seja em que país for - do casal prematuro, que quer antecipar passos importantíssimos antes de sequer viver a própria vida. Casam-se cedo demais e, consequentemente, tem um filho quando na verdade deveriam estar tentando, antes de tudo, entender o que é o mundo. A relação entre o casal parece um atirar-se aleatoriamente de para-quedas rumo a lugar nenhum. Mas com a responsabilidade de criar um filho tudo muda, na verdade, tudo piora. E a consequência disso é o desespero, o delírio, por vezes a psicose.

Jackson, como a grande maioria dos homens, encontra um novo estilo de vida ao perceber que as dificuldades de assumir a paternidade. Esconde-se atrás do trabalho e, claro, amantes. Já Grace precisa lidar com a parte mais difícil do casal: dar conta praticamente sozinha da criação da prole. O resultado? Ela pira, perde completamente a noção de realidade, e nem sua própria família é capaz de lhe apontar um norte, um porto seguro mínimo que seja.

Sim, meus caros leitores! Por mais que eu seja homem e não tenha filhos, nunca deixei de acreditar que a maternidade também é um campo de batalha - e dos mais terríveis. É preciso ter uma cabeça muito boa para ser mãe, ainda mais num mundo cada vez mais complexo e desigual como este no qual vivemos. A frustração e posterior desespero de Grace é totalmente justificável. Ela precisa dar conta das duas partes da relação e ainda por cima aparentar para os demais que tudo vai às mil maravilhas. Tarefa extremamente hercúlea para qualquer ser humano que se preze.

A diretora Lynne Ramsay é excelente ao mostrar em sua cinematografia esse lado perdido, sem chão, da sociedade contemporânea. Seus filmes sempre parecem nos mostrar o quanto o ser humano parece mais fodido do que realmente aparenta diante das convenções sociais. É como se perdêssemos nosso teor de civilidade e nos transformássemos em meros organismos vivos, sintéticos, sem alma. Sim, é triste e niilista ao extremo!

No caso de Grace ainda há o agravante de "mesmo que o meu casamento acabe eu não me liberto da responsabilidade de ser mãe. Eu simplesmente a assumo, dessa vez de forma oficial, sozinha, sem a ajuda do parceiro". E o desfecho dessa descoberta é ainda mais aterrador do que o próprio duelo que vem travando com a maternidade.

Para quem curte assistir longas sobre casamentos em crise ou falidos - como Foi apenas um sonho, Kramer vs. Kramer ou História de um casamento - este aqui é uma grande pedida. Com um ingrediente a mais: trata do que chamam de relacionamento as novas gerações, que tem mania de confundir casamento com diversão ou um mero hobby. E quando a verdade bate à porta não dão conta de lidar com o mais simples dos desafios, que dirá com a rotina angustiante e opressiva.

P.S: Que a atriz Jennifer Lawrence invista em mais projetos na carreira como esse (ela está ótima!) e não em franquias distópicas como Jogos vorazes, que nada mais são do que fábricas de bilheteria que depois que saem de cartaz e ninguém mais lembra.


sábado, 11 de abril de 2026

Lixo também é cultura


Eu considero lixeiro um das profissões mais complicadas do mundo. Imagine recolher todos os resíduos, toda a imundície produzida por uma sociedade cada dia mais imediatista e consumista e ainda ouvir desaforos na rua. É triste. Mais do que isso: um trabalho para corajosos. Eu sei que muita gente diz que só pega esse tipo de serviço que não tem melhores oportunidades trabalhistas, mas na boa... Com tanta gente trabalhando em casa, fazendo seu próprio horário, não, não dá.

Contudo, é preciso também entender a história por trás do lixo e como deixamos que as coisas chegassem a essa ponto. E foi exatamente com isso que me deparei enquanto lia a graphic novel Eu, lixeiro, do quadrinista Derf Backderf (da também ótima - e também postada aqui nesse blog - Meu amigo Dahmer).

Backderf nos apresenta ao cotidiano de uma das profissões mais difíceis e subvalorizadas dos Estados Unidos e acompanhamos a rotina frenética e repleta de desafios de um grupo de lixeiros, porém com mais frequência a da dupla J.B (alter-ego do autor) e Mike. E desde já adianto: ao fim da leitura, vocês ficarão perplexos não só com a quantidade de informação produzida como também com o cenário autodestrutivo que essa realidade apresenta. 

J.B, Mike e seus colegas de trabalho encaram o duro dia-a-dia de quem recolhe a sujeira do país. E bota sujeira nisso! De mudanças abandonadas pelo meio do caminho por conta de ordens de despejo até garrafas de urina jogadas por motoristas no meio do trânsito, camisinhas usadas, eletrônicos descartados sem o menor critério, moradores insuportáveis que ainda querem dar lição de moral e um idoso carrancudo responsável pelo recolhimento de cães por parte da carrocinha, o que vislumbramos é o retrato do verdadeiro EUA, que adora se vender como "a grande nação". 

Paralelamente a isso, o autor ainda oferece uma parte documental onde registra informações e estatísticas acerca da forma como o lixo é recolhido, reciclado e principalmente, como ele já era um problema social desde priscas eras. Detalhe importante: atentem para a questão dos aterros sanitários que vêm diminuindo com o passar dos anos, podendo levar a novos problemas futuros. 

Talvez a nova geração de leitores não tenha paciência para lidar com essa segunda parte da obra (refiro-me a parte de pesquisa sobre o tema "lixo"). Entretanto, achei que ela agregou um valor ainda mais importante ao conteúdo produzido na parte ficcional, tirando a narrativa do âmbito da mera ficção. Chegou a me lembrar, em alguns momentos, a mescla de quadrinhos com jornalismo do Joe Sacco, outro grande mestre contemporâneo da nona arte. 

O maior legado da HQ, com certeza, é o sentimento de preocupação sobre como lidaremos com esse problema num futuro próximo, tendo em vista que a própria sociedade não demonstra sinais de que se tornará menos consumista daqui pra frente. Pelo contrário. Nunca imaginei que fosse dizer isso aqui, num post, mas... Sim, lixo também pode ser cultura, se soubermos contextualizá-lo de forma contundente e com embasamento. E isso Eu, lixeiro, faz com maestria.  

Para quem procura uma opção menos óbvia (leia-se: menos heroica ou sobrenatural) no formato quadrinhos, eis uma excelente opção. E o trabalho de Derf Backderf é magnífico e chama cada vez mais a minha atenção à medida que vou lendo mais coisas dele. Procurem! Aposto que vão devorar tudo numa sentada. Foi o que eu fiz, e nem senti o tempo passar.  


quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Maracanã dos cinemas


O Cinema Odeon completou 100 em 2026. Não, é serio! Parece louco pensar que um lugar que eu frequentei tão repleto de boas lembranças e momentos marcantes já tem todo esse tempo de vida. Mas, ao mesmo tempo, é triste pensar no que ele se tornou: um lugar de resistência dentro do circuito exibidor brasileiro cada dia mais voltado aos cinemas de shopping centers e à sombra dos serviços de streaming. Sim, o Odeon merecia um posicionamento melhor em seu centenário.

Mas não é disso que se trata este post e sim relembrar do grande "templo cinematográfico" que ele é. Vejo numa matéria na internet comentando o centenário da sala o autor do texto se referindo ao local como "o Maracanã dos cinemas". Sim, é muito por aí. Mais do que uma mera sala de exibição, o Odeon é um fenômeno cultural por si só. Por ali passou o melhor da sétima arte ao redor do mundo. 

Assim como foi possível assistir clássicos de Godard, Fellini, Antonioni, Glauber, Billy Wilder, Nelson Pereira dos Santos e tantas outras feras, o Odeon também foi lugar de controvérsias e sessões pautadas por polêmicas ou desafetos. Caso, por exemplo, de A serbian film, do diretor Srdjan Spasojevic (eu estava lá no dia). Acusado de incitar pedofilia, o longa quase foi boicotado, envolvendo na polêmica inclusive figuras políticas. Lembro da exata reação de alguns espectadores na sessão, meio enojados com o que viam na tela. Acho até que foram no dia para tentar impedir a projeção. 

Outro diretor, que é a cara do controverso, cuja cinematografia marcou presença no cinema foi Lars Von Trier. Tanto O anticristo quanto A casa que Jack construiu, dois longas cheios de incômodos e amarguras (um deles, durante um Festival na Europa, viu seus espectadores se retirarem da sala durante a sessão) fizeram a alegria dos fãs do cinema sem barreiras, mais afeitos à liberdade de expressão. 

É preciso também destacar como marco do cinema Odeon suas inúmeras mostras e programações especiais que fizeram história com o passar dos anos. O Festival do Rio, o Anima Mundi (mais famoso festival de animação da cidade do Rio de Janeiro), o Festival Varilux de cinema francês e as nostálgicas sessões da Maratona Odeon (evento que virava noite adentro, com o DJ André Luís entretendo a galera entre as sessões, e com filmes que podiam variar entre os clássicos do terror até filmes recém indicados ao Oscar. Quem frequentou não esquece!).

Assim como o (hoje extinto) Cine Paissandu, o cinema Odeon é uma instituição cinematográfica que marcou época na história da cidade maravilhosa. Acho quase impossível que algum cinéfilo raiz deixe de citar ambos ao se referir à sétima arte, quando questionado sobre o que é cinema aqui no Rio de Janeiro. 

Se por um lado é triste percebermos que a sala hoje não tem mais a mesma projeção de outros tempos (fora em eventos específicos e sessões especiais), por outro é de uma extrema coragem e grandeza acompanharmos a luta do espaço para permanecer de pé em tempos de digital e serviços que fazem de tudo para que os espectadores permaneçam dentro de casa. Um adendo, entretanto, se faz necessário: é bem verdade também que os preços praticados muitas vezes não ajudam, contribuindo para a evasão com a qual o circuito exibidor tem de lidar nos últimos anos. 

Amores e desafios à parte, considero extremamente simbólico o centenário do cinema. Outras casas tão antigas quanto ele, como o Roxy, por exemplo, não resistiram e tiveram que se transformar num outro tipo de negócio para não fechar as portas de vez. O Caso Odeon é a prova viva de que ainda é possível manter o tradicional mesmo em tempos de tecnologia e delivery dominando o mercado. Que ele continue persistindo!


segunda-feira, 30 de março de 2026

O Brasileiro na Calçada da Fama


Nunca disse isso esses anos todos que escrevo nesse blog, mas é preciso: eu sou fascinado por música instrumental, e principalmente por percussão. Desde que ouvi pela primeira vez o gênio Naná Vasconcelos, fiquei encantado pela capacidade de certos artistas tirarem sonoridade de onde parece, muitas vezes, impossível. Outro caso claro desses é Hermeto Paschoal, mestre dos mestres quando o assunto era produzir música.

Contudo, hoje é dia de falar de outro mestre, este menos conhecido de quem não faz parte do mercado fonográfico. E que agora, após o anúncio de que ele será o primeiro brasileiro nato a ganhar uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, certamente será pesquisado - e muito! - por quem é fã de boa música (como eu). Refiro-me, logicamente, ao magistral Paulinho da Costa.

Imagine um indivíduo extremamente talentoso cuja primeira impressão que se tem dele é de que trabalhou com todo mundo do meio musical que tenha algum tipo de relevância. Esse é o caso do Mestre Paulinho. Ele excursionou ao redor do mundo fazendo shows com grandes nomes do pop, rock e jazz. E a lista é tão gigantesca, que é melhor lembrarmos do óbvio, para que este post não se transforme numa monografia. De Michael Jackson à Prince, de Madonna à Elton John, de Earth, Wind & Fire à Lionel Ritchie, de Celine Dion à Barry White, de Aretha Franklin à Ray Charles... Sim, meus caros leitores! O homem é uma lenda.

Nascido em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, Paulinho da Costa descobriu que percussão era o seu caminho através da ala jovem da bateria da escola de samba Portela. Em 1972, se mudou para Los Angeles para fazer parte da Banda de Sergio Mendes, por muitos anos considerado o artista brasileiro mais famoso e reconhecido em terras americanas. Foi ali, em meio àquele cenário e aquela convulsão sonora, que Paulo tocou em quase 7000 músicas, de mais de 900 artistas.

E seu currículo, quando lembramos das músicas nas quais participou tocando, é devastador. É possível ouvi-lo em hits como "Don't stop 'til get enough", "La isla bonita", "Purple Rain", "All night long", "I will survive", "September" e, até mesmo, no clássico dos clássicos "We are the world", no projeto USA for África (a maior reunião de artistas para a gravação de um clipe até hoje).

Recentemente, a Netflix lançou o documentário The Groove under the groove, dirigido por Oscar Rodrigues Alves, sobre a vida do músico, e a impressão que se tem de todos que trabalharam com Paulinho falando sobre ele, é de que se trata de um monstro sagrado da música instrumental, capaz de encontrar melodia e ritmo onde até mesmo parece que ele nunca existirá. Expressões como "assombroso", "de outro planeta", "fenomenal" e "único em seu estilo" povoam o longa, que merece ser assistido por qualquer um que se diga fã de música.

Faltou dizer alguma coisa mais? Mas é claro! Faltou eu, mais uma vez, dizer que precisamos valorizar mais nosso produto nacional, que muitas vezes está lá fora, fazendo história, e nem nos damos conta, preferimos cultuar artistas meia-boca com algum "selo internacional de qualidade". Já passou da hora de entendermos que se tem uma coisa fora de série que nós sabemos fazer, isso é a nossa música. O problema: o interesse constante pelo pior e pela mediocridade artística, que não nos deixa enxergar o melhor do nosso catálogo musical.

Fica a dica para os que estão começando a se inteirar sobre o assunto e não sabem por onde começar.


terça-feira, 24 de março de 2026

Marilyn, 100


E se ela ainda estivesse entre nós, o mito teria resistido com o passar dos anos ou seria substituída por alguém mais nova? Sempre me pergunto isso quando penso em Marilyn Monroe e na forma como ela nos deixou. Ainda a considero o maior mito sexual que hollywood já foi capaz de produzir, embora não possa dizer o mesmo dela como atriz. Marilyn era uma figura muito mais imagética do que necessariamente uma grande artista, e isso fica bem claro quando lemos grande parte da bibliografia existente sobre ela. 

A moça jovem, Norma Jean, que precisava - quase que de forma obsessiva - da fama e do status social, pois somente assim seria legitimada pelo star system da época. Acabou, isso sim, sendo usada até dizer chega numa era repleta de predadores sexuais e profissionais canalhas (principalmente: leia-se os malditos paparazzis).

Se estivesse viva ainda, Marilyn teria chegado em 2026 aos 100 anos. E acredito piamente que, das atuais divas presentes na indústria de cinema norte-americano, praticamente ninguém faria frente a ela. Se na época em que hollywood era sinônimo de mulheres como Ava Gardner, Elizabeth Taylor, Natalie Wood e Audrey Hepburn, elas já cortavam um dobrado, imagine agora...

Vê-la em clássicos como Quanto mais quente melhor, Os homens preferem as loiras, O pecado mora ao lado e Como agarrar um milionário (que eu rezo, todo santo dia, para que nunca façam remakes!) é a prova viva de que certos artistas são eternos, independente do talento que possuam. Marilyn, embora limitada dramaticamente, era uma força da natureza. Sabia vender seu sex appeal como nenhuma outra dentro da indústria e por isso foi criada pela mídia sua persona atemporal, ímpar, nunca superada. 

Seu caso com o presidente John Kennedy, o casamento com o dramaturgo Arthur Miller, a malfadada história do ensaio erótico para a Playboy... A vida de Marilyn é pautada por grandes polêmicas e transgressões. É até aí nenhum problema: ela é fruto de uma época - a chamada era de ouro do cinema americano - repleta de lendas urbanas, pin-ups, pulp fictions, teorias da conspiração, Macartismo, etc. Logo, parecia até meio natural que sua carreira se confundisse um pouco com tudo isso.

Ela faleceu em 1962, em pleno ápice da hollywood clássica, e nunca teve (acho que nunca terá) alguém que sequer chegasse perto de sua história. Quem conviveu com ela, disse em entrevistas que Marilyn era ingênua, carente, acreditava muito fácil nos outros e isso lhe custou a vida. Contudo, ela representou, quase que sozinha, uma espécie de estabilishment cinematográfico que é lembrado até hoje e, cá entre nós, acho que dificilmente será superado por essa geração atual que só pensa em recordes de bilheteria e verdades inventadas de internet. 

São mais de 6 décadas sem a musa definitiva do cinema made in USA e, ainda assim, do ponto de vista de quem curte e escreve sobre cinema, parece que foi ontem, ou no máximo anteontem. O que mostra o simbolismo dessa mulher à frente do seu tempo. Aliás... De todos os tempos. Saudades, Marilyn. E olha que eu nem pertenço a sua geração e estou dizendo isso tudo, hein! Imagine se fosse o meu pai escrevendo isso aqui.


sexta-feira, 20 de março de 2026

A lenda


O título desse post parece, no mínimo, irônico, mas em se tratando do ator e mestre das artes marciais Chuck Norris, que faleceu ontem, aos 86 anos, não é nenhuma novidade. Foi assim que ele acabou se tornando conhecido entre os fãs mais ardorosos depois que virou meme de internet, anos depois de ter se aposentado das telas. O homem que nada destruiria, inatingível. 

Carlos Ray "Chuck" Norris foi, antes de ator de filmes de ação em hollywood, membro da força aérea dos Estados Unidos. Mas a grande maioria do público fã de cinema o conhece mesmo como pupilo de Bruce Lee e astro de grandes franquias. 

Impossível se lembrar de seu legado cinematográfico e não citar o extraordinário Braddock e também os dois longas da série Comando delta (longa que eu tinha um enorme fetiche e vivia reassistindo nos tempos de videolocadoras). Em ambos ele vivia um herói de guerra acionado para lidar com tensões envolvendo terroristas e ditadores. Tudo isso numa época em que expressões como cinema brucutu e "exército de um homem só" eram vastamente difundidas entre cinéfilos os mais apaixonados. 

Outro personagem dele que repercutiu por anos foi o de Texas ranger, o patrulheiro das ruas, tanto no filme McQuade: o lobo solitário como na série de mesmo nome que, de certa forma, encerrou sua carreira nas telas. 

O curioso é que passado os tempos de sopapos e bilheteria, Chuck Norris se reencontrou como religioso (uma faceta que ele havia abandonado na adolescência). Tornou-se pastor da igreja batista norte-americana, chegando a liderar um ministério. Para muitos fãs que o acompanharam em produções como Comboio da carga pesada, Octagon - escola de assassinos, Vingança forçada e tantos outros hits, talvez tal informação possa parecer um delírio ou invenção, mas na verdade Chuck disse ter se reencontrado de fato como homem e cidadão somente quando fez as pazes com sua fé.

Nos últimos tempos muita gente que acompanhou sua carreira de forma fervorosa, seja no cinema, seja em vídeo, ficou decepcionado com ele ao saber que aderiu ao MAGA, mentalidade proposta pelo presidente Donald Trump, que defende a América (no caso, os Estados Unidos) em primeiro lugar. Chegaram a dizer na internet que ele havia vendido a sua alma e estragado a sua história. 

Honestamente... Não cabe a mim discutir as convicções políticas do autor, independente de eu concordar ou discordar delas. Meu interesse por Chuck Norris sempre foi o artístico e continuo defendendo o seu papel e legado na sétima arte. O resto me parece disputa por território que nunca leva a lugar nenhum. 

Recomendo aos que não conhecem sua obra que procurem entre os quase 50 créditos nos quais ele atuou. Aposto que encontrarão muita coisa boa. E o mais importante: o cinema de ação da época em que Norris estava em evidência - bem como Stallone, Van Damme e cia. - é completamente diferente do de hoje, baseado em narrativas repetidas criadas em IA e falta de originalidade. Logo, apreciem! É um tempo que não volta mais, infelizmente. 

De resto, fica a lembrança de mais um nome forte da indústria de cinema norte-americano que nos deixa (e, de novo, sem substituto à altura). 


terça-feira, 17 de março de 2026

Monólogo da intolerância nacional


Ouvi - de novo, e já deve ser a centésima vez que o faço - Cabeça dinossauro, álbum mítico do Titãs que completa 40 anos em 2026, e mais uma vez sou vencido pelo deslumbre da obra. Mais do que isso: sinto um gosto amargo na boca só de pensar que o rock nacional era isso tocando nas rádios todo dia, e hoje em dia ele nem está mais presente na dial (as próprias rádios perderam seu encanto, a sua razão de existir).

Na página do you tube onde reouço as faixas muitos comentários exaltam a obra, a força das letras, a coragem daqueles artistas de se posicionarem diante de um país que não é muito diferente desse que vemos hoje. Logo, qual o segredo desse disco? Como ele consegue permanecer tão relevante sem precisar mudar uma vírgula sequer? Cabeça dinossauro é, mais do que um simples álbum musical, um acontecimento político seríssimo na história da música brasileira. 

Ou poderia simplesmente dizer: é uma pedrada, dessas que você não sabe nem de onde vêm e te atingem de forma devastadora nos seus órgãos internos. Pareço exagerar? Então, pelo amor de deus, ouçam o disco (de preferência mais de uma vez, para captar a mensagem). 

É inegável o poder de demolição de canções como "AAUU", "Bichos escrotos" (foi a primeira vez na vida que eu cantei com gosto um palavrão contra o sistema, o status quo), "Família", "Homem primata", "Polícia" e a última - e enigmática - "O quê" (que durante anos virou uma espécie de mantra pessoal meu enquanto assistia clipes na MTV e programas de auditório na linha Perdidos na noite, com Fausto Silva). 

E olha que nem falei nada da faixa título, "Estado violência", "Porrada" e "Igreja". O repertório como um todo é altamente ácido, crítico, mordaz, à frente e, principalmente, ciente do seu tempo, ou seja: de uma sociedade fragmentada, abusiva, divisiva ao extremo, e que não dá a mínima para quem pensa diferente da bolha. Anos depois, quando a banda gravou o Acústico MTV, deparei-me novamente com essas mesmas músicas dentro de um outro contexto.

O resultado disso: ter a certeza de que as gravações originais são eternas, imutáveis, e resistem ao tempo como a muralha da China. Se por um lado o Titãs que apresentará um show-homenagem do álbum não é mais o mesmo, e sim apenas um fragmento daquela era, por outro é extraordinário continuar convivendo com essas pequenas joias desaforadas, cheias de denúncias, quase monólogos sobre a intolerância nacional que continua reinando nesse país controverso. 

É por causa de exemplares magníficos como Cabeça dinossauro dentro da discografia brasileira que eu sempre vou achar um abuso a nova geração ter trocado o rock pela breguice insuportável do sertanejo, um gênero que em nada reflete a fúria cotidiana com a qual convivemos dia sim, outro também. Soa-me tão contraditório quanto ex-roqueiros famosos de bandas fundamentais trocando o rock pela chatice da música folk. Fica parecendo um mundo paralelo, insólito, sem sentido. 

Em nome desse eterno que não pode morrer, convido todos que leram até aqui a conhecer (ou ouvir de novo, e de novo, e de novo) essa obra-prima ainda incompreendida por quem não entende nada de música, mas adora dar palpite em site furreca sobre mercado fonográfico e podcast de quinta categoria. Aposto que não irão se arrepender!


terça-feira, 10 de março de 2026

A matriarca do samba


Na ultima semana não vi, nem li, muito menos ouvi nada que merecesse de fato a minha atenção, que dirá minha modesta opinião crítica. Em muitos aspectos, março acabou se tornando o oposto do que foram os dois primeiros meses do ano. Em suma: uma monotonia. Até que leio em alguns sites e perfis em redes sociais que a escola de samba Paraíso do Tuiuti escolheu o seu enredo para 2027. E ele será sobre a extraordinária Tia Ciata.

Empolguei-me na hora (além de lembrar da escola municipal que recebeu o nome dela, lá na Avenida Presidente Vargas, bem pertinho do Sambódromo).

Tia Ciata - ou mais especificamente Hilária Batista de Almeida (1854-1924)- foi uma mãe de santo e quituteira de mão cheia, que marcou época na cidade do Rio de Janeiro, além de ter um papel essencial na criação e difusão do samba no estado da Guanabara. 

Hilária nasceu no Recôncavo Baiano e se mudou para a cidade do Rio de Janeiro em 1876, aos 22 anos. Moradora da Cidade Nova - reduto de negros e negras alforriadas, além de imigrantes de diversas localidades -, exatamente na Rua Visconde de Itaúna, localizada na Praça Onze (a então Pequena África), ela abriu espaço para o que veio a ser o "berço do samba". 

Em sua residência ela reuniu os primeiros grandes nomes do gênero musical para que cantassem e tocassem livremente, num momento do país em que o ritmo era proibido por lei, visto como ocupação de marginais e delinquentes.

Ela fazia e vendia doces no tabuleiro nas ruas do Rio de Janeiro, sendo uma das primeiras baianas paramentadas com saias e turbantes a realizar tal comércio (ou seja: aquela imagem clássica que vemos das alas das baianas nas agremiações do samba tiveram ela como referência direta!)

Por sua casa passaram artistas de grande importância como Heitor dos Prazeres, Donga, Pixinguinha, João da Baiana, entre outros. Há, inclusive, fortes indícios de que foi em sua casa que "Pelo Telefone" - canção de Donga e Mário de Almeida (1916) -, o primeiro samba gravado, foi criado. Atualmente, é preciso dizer que tudo isso é questionado e investigado por historiadores, incluindo nesse debate se "Pelo telefone" foi realmente o primeiro samba da história.

Mas, em se tratando de Tia Ciata, deixemos de lado discussões e polêmicas. O verdadeiramente importante é reconhecermos ela como a grande matriarca do samba que foi (mais do que isso: pioneira). Pois assim como Dona Ivone Lara ela também merece todos os holofotes possíveis e imagináveis. Não fosse sua visão de mundo, talvez o samba - como gênero - não fosse o que é. 

P.S: que grande escolha da Paraíso do Tuiuti... valerá a minha torcida ano que vem!


sábado, 28 de fevereiro de 2026

A guerra nunca acaba

 


A guerra, como sempre, nunca acaba

não

nem pensar!

ela se sofistica

se reorganiza

mas acabar, nunca acaba

e não acaba porque os homens

- também os mesmos de sempre -

não abandonam seus objetivos escusos

seus fascínios deturpados 

seus ternos bem cortados

sua eterna mania de conquistar

ou de simplesmente não respeitar o outro

que outro?

qualquer outro

porque nessas horas

não importa etnia, status social, sexualidade

se o outro pensa (ou defende) 

algo minimamente diferente

precisa ser executado, exterminado, fulminado

mais que isso:

ele não pode sequer constar dos livros de história.


Os mísseis partem

de lá e de cá

atingem casas, prédios

destroem vidas

tudo feito por um reles joystick 

idêntico ao do Playstation do seu filho

em meros segundos

bum!

tudo acabou

tudo vira pó

tudo vira cinza

tudo vira passado. 


Enquanto isso

enquanto toda essa desgraça midiática acontece

tarifas impõem sanções

destroem reputações de países

crianças engravidam crianças

adultos traficam crianças 

jovens são destruídos pelas drogas

desemprego 

renda per capita baixíssima

populações consumidas pela indústria farmacêutica

quando mal sobra grana para pagarem seus aluguéis e hipotecas

e idiotas se divertem em resorts e festivais de música 

ao som de alguma cançoneta pop ou techno fraudulenta

e dançam

e gritam a plenos pulmões

e achincalham quem não pertence à classe privilegiada

e entopem suas redes sociais 

de seus fanatismos frustrados

tudo a troco de... de quê?

do nada existencial 

do niilismo já cansativo 

desse dia-a-dia cada vez mais monocromático 

e sem graça

- e bota sem graça nisso!


Até quando? 

- perguntam os devotos, os cristãos, os profetas -

até quando teremos de aturar mais um dia D

mais um conflito bélico 

mais um desajuste político 

provocado por meninos inseguros brincando de Deus

com seus dedos acusadores contra tudo que lhes pareça errado

enquanto seus próprios erros 

são varridos para debaixo do mesmo carpete imundo?


Esqueçam o dia seguinte

e os outros que vierem depois deste

são todos iguais em suas intenções malévolas

o objetivo oficial: a reconstrução do mundo

o real objetivo: a covardia disfarçada de valentia

o mundo anda cheio de bullies e imbecis

passeamos 30 minutos pela internet 

e nos deparamos com a legitimação do grotesco

a ignorância ganhou um status nunca antes visto

a guerra passou de televisionada 

à fracionada em vídeos verticais no melhor estilo tik tok

com o único intuito de entreter os anormais.


O show business virou sinônimo de morte e alienação

crianças são bombardeadas em colégios 

na verdade, são esterelizadas

mas o principal fator de preocupação 

de 9 em cada 10 especialistas em catástrofe

comentando no NYT, BBC, CNN, etc

é a quantas anda a Bolsa de Valores

está tudo bem em Wall Street?

então continuemos 

o resto... 

é narrativa

é fake News.


Vejo pela tela do celular os destroços

os gritos

o desespero 

o sentimento de impotência 

os semblantes derrotados 

de quem já conhece aquela cena

de quem já a viu antes, inúmeras vezes

aquela mesma expressão:

"é, acabou"

e ter de levantar a cabeça 

e recomeçar 

pela milionésima vez

sem saber se uma nova cena, idêntica,

está programada para daqui a uma ou duas horas 

(de repente, menos).


Destruímos o bom senso 

destruímos o direito de ir-e-vir

destruímos a possibilidade do diálogo

destruímos o viver coletivamente

destruímos até o prêmio nobel da paz

- que nunca foi essa coisa toda, diga-se de passagem! -

tudo em nome da ingratidão 

e do desejo dos mesmos prepotentes de sempre 

se acharem os "donos do mundo".


A seguir: 

as cenas dos próximos (mesmos) capítulos.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A mulher mais relevante do país hoje


É tempo de carnaval, de mulatas e influenciadoras saradas, exibindo seus físicos impecáveis, construídos metodicamente ao longo do ano somente para aquele momento derradeiro do desfile. Entretanto, essa é uma época em que também se diz (e se promove) muito conteúdo inútil. Como, por exemplo, a declaração dada pelo presidente alienado da LIESA ao dizer que não havia mulher mais relevante no país hoje do que a influenciadora Virgínia Fonseca, uma prova cabal da grande ignorância que sempre ganha status no Brasil.

Do outro lado dessa discussão medíocre, a professora - e doutora - Tatiana Sampaio, formada pela UFRJ, que devotou a própria vida a pesquisar a medula, e desenvolveu uma proteína experimental chamada polilaminina, capaz de estimular a reconexão de neurônios danificados, levando pacientes que não conseguiam andar há anos a recuperar os movimentos. Uma descoberta científica histórica dentro do nosso país. 

Se por um lado Tatiana não se enquadra no parâmetro de beleza proposto por aqueles que existem única e exclusivamente para viver da própria imagem e nada mais além disso, de outro ela é o retrato de um país que, para mim, é o que realmente vale a pena: o das pessoas que pautaram sua vida além de famas, reconhecimentos fúteis e o mundo midiático de uma forma geral. 

Tatiana deveria ser um modelo dentro de um Brasil que, infelizmente, prefere se ater à futilidades, festas e celebrações em excesso, notícias enganosas e fraudulentas sendo vendidas à luz do dia como meras laranjas e uma população que cada dia mais nutre admiração pela própria ignorância. E, infelizmente, ela sai perdendo nessa equação. Seu trabalho passa quase em branco para a grande maioria da população. 

Em alguns sites e portais, várias pessoas já comentam a possibilidade de que ela possa ser considerada para o Nobel de Medicina, o que também seria um feito gigantesco - além de inédito para a nossa classe científica. Torço para que aconteça, embora saiba por a mais b o quanto a instituição que promove o Nobel é contraditória por excelência (vide a última vencedora do Nobel da Paz e para quem ela "deu" o prêmio).

Ao fim, o que realmente vale a pena ser comentado é o fato de mais uma brasileira ser reconhecida por um grande feito, algo que tem acontecido com certa frequência nos últimos anos, seja no Oscar, no Grammy, no Globo de Ouro, nas Olimpíadas de inverno, etc. E o Brasil merece mais reconhecimentos como esse. Precisamos reagir a nossa eterna síndrome de vira-latas e valorizar o produto nacional. 

P.S: e voltando ao carnaval, pergunte àquelas mulheres, destaques, rainhas de bateria, passistas, o que elas farão de relevante, de produtivo, no restante do ano. Aposto como se entediarão com a resposta. Mas essas, por algum motivo inexplicável, merecem a alcunha de relevantes.