segunda-feira, 27 de abril de 2026

Roger Corman, 100 anos


Abril chegando ao fim e quase me esqueço de comentar aqui acerca do centenário do extraordinário diretor e produtor de cinema Roger Corman. Talvez pelo fato de que ele tenha vivido quase 100 anos (o artista faleceu em 2024), eu tenha pensado: "já falei sobre ele não faz muito tempo, então...". Mas estava completamente enganado e por pouco não deixei passar a data em branco - o que seria uma vergonha da minha parte. 

Roger Corman era engenheiro de formação (assim como seu pai), mas sua maior característica, com certeza, foi a capacidade de unir seu intelecto a um mundo visto por muitos como mórbido. Ninguém realizou o macabro antes dele da mesma forma. Ver seus filmes - tanto os que ele dirigiu quanto aqueles em que atuou nos bastidores - era se deparar com um grande ensaio sobre o insólito. 

Passeou dos clássicos (seu Frankenstein: o monstro das trevas, de 1990, com Raul Julia e William Hurt, que não sai da minha mente até hoje, é um deleite para qualquer cinéfilo que se preze) à modernidade e conseguiu tirar leite de pedra, muitas vezes com orçamentos irrisórios. Foi o responsável por dar as primeiras oportunidades de trabalho a gigantes do cinema como Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, e brincou com estilos e referências até dizer chega, numa época em que hollywood não sobrevivia de megalançamentos e projetos caríssimos. 

Entre os longas que dirigiu adoro sempre citar O corvo - adaptação do poema clássico de Edgar Allan Poe -, O solar maldito (o filme que me apresentou ao mestre do horror Vincent Price), A loja dos horrores (com um jovem Jack Nicholson em início de carreira), O emissário do outro mundo e, claro, o mais do que cult Mercenários das galáxias (uma espécie de contrapartida ao gigantesco Star Wars, de George Lucas).

Entretanto sua carreira cinematográfica está repleta de criaturas dantescas, seres sobrenaturais, fábulas amedrontadoras, bichos pré-históricos, sagas medievais e outras invencionices que ele ia bolando ao sabor dos acontecimentos. Se hoje temos figuras dentro da indústria como Guillermo del Toro e, mais recentemente, Robert Eggers (para ficar em dois realizadores mais afeitos ao universo fantástico), acredito que eles não seriam possíveis antes do pioneirismo proposto por Corman. 

Seu maior legado para a história do cinema, não tenho a menor dúvida, foi ter provado por a mais b que sucesso não é sinônimo de orçamento ou produção estratosférica. Assim como aconteceu quando conheci o cinema de John Cassavetes (outro baluarte do cinema como arte, muito mais do que negócio), Corman me mostrou que sétima arte e desejo andam de mãos dadas, muito mais do que ter um estúdio todo-poderoso por trás para realizar os seus sonhos. E que nem sempre design de produção se traduz em bilheteria. 

E que, onde quer que ele esteja nesse exato momento, que ele saiba que sua história - e carreira de sucesso - jamais serão esquecidas pelos verdadeiros cinéfilos de plantão (como eu). P.S: A hollywood contemporânea nunca precisou tanto de alguém como ele, de seu deboche, de sua postura anárquica diante do mercado exibidor, quanto agora. Porém, onde encontrar outro mestre desses num cinema que agora se esconde atrás de tecnologias de última geração e o "mundo mágico" proposto pela inteligência artificial? Eis a questão.


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