segunda-feira, 30 de março de 2026

O Brasileiro na Calçada da Fama


Nunca disse isso esses anos todos que escrevo nesse blog, mas é preciso: eu sou fascinado por música instrumental, e principalmente por percussão. Desde que ouvi pela primeira vez o gênio Naná Vasconcelos, fiquei encantado pela capacidade de certos artistas tirarem sonoridade de onde parece, muitas vezes, impossível. Outro caso claro desses é Hermeto Paschoal, mestre dos mestres quando o assunto era produzir música.

Contudo, hoje é dia de falar de outro mestre, este menos conhecido de quem não faz parte do mercado fonográfico. E que agora, após o anúncio de que ele será o primeiro brasileiro nato a ganhar uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, certamente será pesquisado - e muito! - por quem é fã de boa música (como eu). Refiro-me, logicamente, ao magistral Paulinho da Costa.

Imagine um indivíduo extremamente talentoso cuja primeira impressão que se tem dele é de que trabalhou com todo mundo do meio musical que tenha algum tipo de relevância. Esse é o caso do Mestre Paulinho. Ele excursionou ao redor do mundo fazendo shows com grandes nomes do pop, rock e jazz. E a lista é tão gigantesca, que é melhor lembrarmos do óbvio, para que este post não se transforme numa monografia. De Michael Jackson à Prince, de Madonna à Elton John, de Earth, Wind & Fire à Lionel Ritchie, de Celine Dion à Barry White, de Aretha Franklin à Ray Charles... Sim, meus caros leitores! O homem é uma lenda.

Nascido em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, Paulinho da Costa descobriu que percussão era o seu caminho através da ala jovem da bateria da escola de samba Portela. Em 1972, se mudou para Los Angeles para fazer parte da Banda de Sergio Mendes, por muitos anos considerado o artista brasileiro mais famoso e reconhecido em terras americanas. Foi ali, em meio àquele cenário e aquela convulsão sonora, que Paulo tocou em quase 7000 músicas, de mais de 900 artistas.

E seu currículo, quando lembramos das músicas nas quais participou tocando, é devastador. É possível ouvi-lo em hits como "Don't stop 'til get enough", "La isla bonita", "Purple Rain", "All night long", "I will survive", "September" e, até mesmo, no clássico dos clássicos "We are the world", no projeto USA for África (a maior reunião de artistas para a gravação de um clipe até hoje).

Recentemente, a Netflix lançou o documentário The Groove under the groove, dirigido por Oscar Rodrigues Alves, sobre a vida do músico, e a impressão que se tem de todos que trabalharam com Paulinho falando sobre ele, é de que se trata de um monstro sagrado da música instrumental, capaz de encontrar melodia e ritmo onde até mesmo parece que ele nunca existirá. Expressões como "assombroso", "de outro planeta", "fenomenal" e "único em seu estilo" povoam o longa, que merece ser assistido por qualquer um que se diga fã de música.

Faltou dizer alguma coisa mais? Mas é claro! Faltou eu, mais uma vez, dizer que precisamos valorizar mais nosso produto nacional, que muitas vezes está lá fora, fazendo história, e nem nos damos conta, preferimos cultuar artistas meia-boca com algum "selo internacional de qualidade". Já passou da hora de entendermos que se tem uma coisa fora de série que nós sabemos fazer, isso é a nossa música. O problema: o interesse constante pelo pior e pela mediocridade artística, que não nos deixa enxergar o melhor do nosso catálogo musical.

Fica a dica para os que estão começando a se inteirar sobre o assunto e não sabem por onde começar.


terça-feira, 24 de março de 2026

Marilyn, 100


E se ela ainda estivesse entre nós, o mito teria resistido com o passar dos anos ou seria substituída por alguém mais nova? Sempre me pergunto isso quando penso em Marilyn Monroe e na forma como ela nos deixou. Ainda a considero o maior mito sexual que hollywood já foi capaz de produzir, embora não possa dizer o mesmo dela como atriz. Marilyn era uma figura muito mais imagética do que necessariamente uma grande artista, e isso fica bem claro quando lemos grande parte da bibliografia existente sobre ela. 

A moça jovem, Norma Jean, que precisava - quase que de forma obsessiva - da fama e do status social, pois somente assim seria legitimada pelo star system da época. Acabou, isso sim, sendo usada até dizer chega numa era repleta de predadores sexuais e profissionais canalhas (principalmente: leia-se os malditos paparazzis).

Se estivesse viva ainda, Marilyn teria chegado em 2026 aos 100 anos. E acredito piamente que, das atuais divas presentes na indústria de cinema norte-americano, praticamente ninguém faria frente a ela. Se na época em que hollywood era sinônimo de mulheres como Ava Gardner, Elizabeth Taylor, Natalie Wood e Audrey Hepburn, elas já cortavam um dobrado, imagine agora...

Vê-la em clássicos como Quanto mais quente melhor, Os homens preferem as loiras, O pecado mora ao lado e Como agarrar um milionário (que eu rezo, todo santo dia, para que nunca façam remakes!) é a prova viva de que certos artistas são eternos, independente do talento que possuam. Marilyn, embora limitada dramaticamente, era uma força da natureza. Sabia vender seu sex appeal como nenhuma outra dentro da indústria e por isso foi criada pela mídia sua persona atemporal, ímpar, nunca superada. 

Seu caso com o presidente John Kennedy, o casamento com o dramaturgo Arthur Miller, a malfadada história do ensaio erótico para a Playboy... A vida de Marilyn é pautada por grandes polêmicas e transgressões. É até aí nenhum problema: ela é fruto de uma época - a chamada era de ouro do cinema americano - repleta de lendas urbanas, pin-ups, pulp fictions, teorias da conspiração, Macartismo, etc. Logo, parecia até meio natural que sua carreira se confundisse um pouco com tudo isso.

Ela faleceu em 1962, em pleno ápice da hollywood clássica, e nunca teve (acho que nunca terá) alguém que sequer chegasse perto de sua história. Quem conviveu com ela, disse em entrevistas que Marilyn era ingênua, carente, acreditava muito fácil nos outros e isso lhe custou a vida. Contudo, ela representou, quase que sozinha, uma espécie de estabilishment cinematográfico que é lembrado até hoje e, cá entre nós, acho que dificilmente será superado por essa geração atual que só pensa em recordes de bilheteria e verdades inventadas de internet. 

São mais de 6 décadas sem a musa definitiva do cinema made in USA e, ainda assim, do ponto de vista de quem curte e escreve sobre cinema, parece que foi ontem, ou no máximo anteontem. O que mostra o simbolismo dessa mulher à frente do seu tempo. Aliás... De todos os tempos. Saudades, Marilyn. E olha que eu nem pertenço a sua geração e estou dizendo isso tudo, hein! Imagine se fosse o meu pai escrevendo isso aqui.


sexta-feira, 20 de março de 2026

A lenda


O título desse post parece, no mínimo, irônico, mas em se tratando do ator e mestre das artes marciais Chuck Norris, que faleceu ontem, aos 86 anos, não é nenhuma novidade. Foi assim que ele acabou se tornando conhecido entre os fãs mais ardorosos depois que virou meme de internet, anos depois de ter se aposentado das telas. O homem que nada destruiria, inatingível. 

Carlos Ray "Chuck" Norris foi, antes de ator de filmes de ação em hollywood, membro da força aérea dos Estados Unidos. Mas a grande maioria do público fã de cinema o conhece mesmo como pupilo de Bruce Lee e astro de grandes franquias. 

Impossível se lembrar de seu legado cinematográfico e não citar o extraordinário Braddock e também os dois longas da série Comando delta (longa que eu tinha um enorme fetiche e vivia reassistindo nos tempos de videolocadoras). Em ambos ele vivia um herói de guerra acionado para lidar com tensões envolvendo terroristas e ditadores. Tudo isso numa época em que expressões como cinema brucutu e "exército de um homem só" eram vastamente difundidas entre cinéfilos os mais apaixonados. 

Outro personagem dele que repercutiu por anos foi o de Texas ranger, o patrulheiro das ruas, tanto no filme McQuade: o lobo solitário como na série de mesmo nome que, de certa forma, encerrou sua carreira nas telas. 

O curioso é que passado os tempos de sopapos e bilheteria, Chuck Norris se reencontrou como religioso (uma faceta que ele havia abandonado na adolescência). Tornou-se pastor da igreja batista norte-americana, chegando a liderar um ministério. Para muitos fãs que o acompanharam em produções como Comboio da carga pesada, Octagon - escola de assassinos, Vingança forçada e tantos outros hits, talvez tal informação possa parecer um delírio ou invenção, mas na verdade Chuck disse ter se reencontrado de fato como homem e cidadão somente quando fez as pazes com sua fé.

Nos últimos tempos muita gente que acompanhou sua carreira de forma fervorosa, seja no cinema, seja em vídeo, ficou decepcionado com ele ao saber que aderiu ao MAGA, mentalidade proposta pelo presidente Donald Trump, que defende a América (no caso, os Estados Unidos) em primeiro lugar. Chegaram a dizer na internet que ele havia vendido a sua alma e estragado a sua história. 

Honestamente... Não cabe a mim discutir as convicções políticas do autor, independente de eu concordar ou discordar delas. Meu interesse por Chuck Norris sempre foi o artístico e continuo defendendo o seu papel e legado na sétima arte. O resto me parece disputa por território que nunca leva a lugar nenhum. 

Recomendo aos que não conhecem sua obra que procurem entre os quase 50 créditos nos quais ele atuou. Aposto que encontrarão muita coisa boa. E o mais importante: o cinema de ação da época em que Norris estava em evidência - bem como Stallone, Van Damme e cia. - é completamente diferente do de hoje, baseado em narrativas repetidas criadas em IA e falta de originalidade. Logo, apreciem! É um tempo que não volta mais, infelizmente. 

De resto, fica a lembrança de mais um nome forte da indústria de cinema norte-americano que nos deixa (e, de novo, sem substituto à altura). 


terça-feira, 17 de março de 2026

Monólogo da intolerância nacional


Ouvi - de novo, e já deve ser a centésima vez que o faço - Cabeça dinossauro, álbum mítico do Titãs que completa 40 anos em 2026, e mais uma vez sou vencido pelo deslumbre da obra. Mais do que isso: sinto um gosto amargo na boca só de pensar que o rock nacional era isso tocando nas rádios todo dia, e hoje em dia ele nem está mais presente na dial (as próprias rádios perderam seu encanto, a sua razão de existir).

Na página do you tube onde reouço as faixas muitos comentários exaltam a obra, a força das letras, a coragem daqueles artistas de se posicionarem diante de um país que não é muito diferente desse que vemos hoje. Logo, qual o segredo desse disco? Como ele consegue permanecer tão relevante sem precisar mudar uma vírgula sequer? Cabeça dinossauro é, mais do que um simples álbum musical, um acontecimento político seríssimo na história da música brasileira. 

Ou poderia simplesmente dizer: é uma pedrada, dessas que você não sabe nem de onde vêm e te atingem de forma devastadora nos seus órgãos internos. Pareço exagerar? Então, pelo amor de deus, ouçam o disco (de preferência mais de uma vez, para captar a mensagem). 

É inegável o poder de demolição de canções como "AAUU", "Bichos escrotos" (foi a primeira vez na vida que eu cantei com gosto um palavrão contra o sistema, o status quo), "Família", "Homem primata", "Polícia" e a última - e enigmática - "O quê" (que durante anos virou uma espécie de mantra pessoal meu enquanto assistia clipes na MTV e programas de auditório na linha Perdidos na noite, com Fausto Silva). 

E olha que nem falei nada da faixa título, "Estado violência", "Porrada" e "Igreja". O repertório como um todo é altamente ácido, crítico, mordaz, à frente e, principalmente, ciente do seu tempo, ou seja: de uma sociedade fragmentada, abusiva, divisiva ao extremo, e que não dá a mínima para quem pensa diferente da bolha. Anos depois, quando a banda gravou o Acústico MTV, deparei-me novamente com essas mesmas músicas dentro de um outro contexto.

O resultado disso: ter a certeza de que as gravações originais são eternas, imutáveis, e resistem ao tempo como a muralha da China. Se por um lado o Titãs que apresentará um show-homenagem do álbum não é mais o mesmo, e sim apenas um fragmento daquela era, por outro é extraordinário continuar convivendo com essas pequenas joias desaforadas, cheias de denúncias, quase monólogos sobre a intolerância nacional que continua reinando nesse país controverso. 

É por causa de exemplares magníficos como Cabeça dinossauro dentro da discografia brasileira que eu sempre vou achar um abuso a nova geração ter trocado o rock pela breguice insuportável do sertanejo, um gênero que em nada reflete a fúria cotidiana com a qual convivemos dia sim, outro também. Soa-me tão contraditório quanto ex-roqueiros famosos de bandas fundamentais trocando o rock pela chatice da música folk. Fica parecendo um mundo paralelo, insólito, sem sentido. 

Em nome desse eterno que não pode morrer, convido todos que leram até aqui a conhecer (ou ouvir de novo, e de novo, e de novo) essa obra-prima ainda incompreendida por quem não entende nada de música, mas adora dar palpite em site furreca sobre mercado fonográfico e podcast de quinta categoria. Aposto que não irão se arrepender!


terça-feira, 10 de março de 2026

A matriarca do samba


Na ultima semana não vi, nem li, muito menos ouvi nada que merecesse de fato a minha atenção, que dirá minha modesta opinião crítica. Em muitos aspectos, março acabou se tornando o oposto do que foram os dois primeiros meses do ano. Em suma: uma monotonia. Até que leio em alguns sites e perfis em redes sociais que a escola de samba Paraíso do Tuiuti escolheu o seu enredo para 2027. E ele será sobre a extraordinária Tia Ciata.

Empolguei-me na hora (além de lembrar da escola municipal que recebeu o nome dela, lá na Avenida Presidente Vargas, bem pertinho do Sambódromo).

Tia Ciata - ou mais especificamente Hilária Batista de Almeida (1854-1924)- foi uma mãe de santo e quituteira de mão cheia, que marcou época na cidade do Rio de Janeiro, além de ter um papel essencial na criação e difusão do samba no estado da Guanabara. 

Hilária nasceu no Recôncavo Baiano e se mudou para a cidade do Rio de Janeiro em 1876, aos 22 anos. Moradora da Cidade Nova - reduto de negros e negras alforriadas, além de imigrantes de diversas localidades -, exatamente na Rua Visconde de Itaúna, localizada na Praça Onze (a então Pequena África), ela abriu espaço para o que veio a ser o "berço do samba". 

Em sua residência ela reuniu os primeiros grandes nomes do gênero musical para que cantassem e tocassem livremente, num momento do país em que o ritmo era proibido por lei, visto como ocupação de marginais e delinquentes.

Ela fazia e vendia doces no tabuleiro nas ruas do Rio de Janeiro, sendo uma das primeiras baianas paramentadas com saias e turbantes a realizar tal comércio (ou seja: aquela imagem clássica que vemos das alas das baianas nas agremiações do samba tiveram ela como referência direta!)

Por sua casa passaram artistas de grande importância como Heitor dos Prazeres, Donga, Pixinguinha, João da Baiana, entre outros. Há, inclusive, fortes indícios de que foi em sua casa que "Pelo Telefone" - canção de Donga e Mário de Almeida (1916) -, o primeiro samba gravado, foi criado. Atualmente, é preciso dizer que tudo isso é questionado e investigado por historiadores, incluindo nesse debate se "Pelo telefone" foi realmente o primeiro samba da história.

Mas, em se tratando de Tia Ciata, deixemos de lado discussões e polêmicas. O verdadeiramente importante é reconhecermos ela como a grande matriarca do samba que foi (mais do que isso: pioneira). Pois assim como Dona Ivone Lara ela também merece todos os holofotes possíveis e imagináveis. Não fosse sua visão de mundo, talvez o samba - como gênero - não fosse o que é. 

P.S: que grande escolha da Paraíso do Tuiuti... valerá a minha torcida ano que vem!