Sempre assisti na tv o desenho do Papa-léguas (na verdade, um dos meus favoritos. E olha que a concorrência era grande!) e sempre entendi a frustração do Coiote. Passar uma vida tentando agarrar o animal mais rápido do mundo, sem sucesso. E olha que ele tentou usando todos os produtos da Acme. Imagine, então, que no auge do seu cansaço e revolta, ele decidisse processar a empresa que prometia lhe entregar uma solução para o problema, mas só o fez passar vergonha.
É exatamente essa a premissa proposta pela animação Coiote vs. Acme, do diretor Dave Green, que deu o que falar antes mesmo do seu lançamento (que quase, por sinal, foi engavetado pela própria produtora). O Coiote procura o advogado Kevin Avery (Will Forte), especialista em fazer acordos envolvendo personagens animados e corporações. Contudo, o injustiçado quer mais do que um cala-boca. Exige, isso sim, reparação digna por anos e anos de abusos envolvendo a sua figura.
Do outro lado do tribunal, Kevin terá de enfrentar o inescrupuloso Buddy Crane (John Cena, num papel que enfim coube como uma luva para alguém como ele), chefão da poderosa Acme, cujo único objetivo será provar que a companhia nunca fez mal a nenhuma animação após tantos anos de serviços prestados. Entretanto, há um mistério incômodo envolvendo um projeto de três décadas atrás que pode levar a empresa à sua extinção ou bancarrota. E por isso, eles precisam dar fim ao réu e a equipe que o assessora.
Ouvi muita gente falando que foi ao cinema e disse se tratar da melhor produção envolvendo animações e live action desde Uma cilada para Roger Rabbit (que continua, sublime, figurando no meu Top 1). E eu entendo parte da euforia.
Mais até do que isso: eu entendo o motivo da empresa que produziu o filme querer descartá-lo. Contar uma história em que uma corporação do mundo do cinema é processada por maus tratos? Não, eles não poderiam permitir isso e me parece que, em certo sentido, a carapuça coube bem em parte dos executivos desse mesmo setor. Todavia, como há empresa alguém querendo lançar o que outros querem impedir que seja visto, Coiote vs. Acme encontrou o seu distribuidor e tem feito a alegria das plateias nas salas de projeção (na sessão que eu estava o público era recorde, comparável ao de sucessos recentes, como A Odisseia, Obsessão e Backrooms).
Recomendo o filme tanto para as crianças como, principalmente, os pais (e ainda mais para moralistas que gostam de enxergar hollywood e seus estúdios tendenciosos como "mero paraíso"). O filme é bastante irônico na forma como aborda certos temas, incluindo o papel do espectador no processo. Não é de hoje que vejo uma mentalidade manipuladora voltando a ganhar status na indústria cultural e isso, além de perigoso, precisa ser combatido.
Já passou da hora dos produtores culturais mudarem o espectro ou a abordagem de seus produtos. Não bastassem filmes em excesso para o público teen e quase nada para plateias mais adultas, ainda ter que aturar ironias e discursos demagógicos de uma turma que tem telhado de vidro e é hipócrita por natureza é de doer. Nesse sentido, a animação dos Looney Tunes é uma grata surpresa nesse 2026 de, até então, poucas novidades realmente interessantes. Corram para assistir antes que saia de cartaz!






