Ouvi - de novo, e já deve ser a centésima vez que o faço - Cabeça dinossauro, álbum mítico do Titãs que completa 40 anos em 2026, e mais uma vez sou vencido pelo deslumbre da obra. Mais do que isso: sinto um gosto amargo na boca só de pensar que o rock nacional era isso tocando nas rádios todo dia, e hoje em dia ele nem está mais presente na dial (as próprias rádios perderam seu encanto, a sua razão de existir).
Na página do you tube onde reouço as faixas muitos comentários exaltam a obra, a força das letras, a coragem daqueles artistas de se posicionarem diante de um país que não é muito diferente desse que vemos hoje. Logo, qual o segredo desse disco? Como ele consegue permanecer tão relevante sem precisar mudar uma vírgula sequer? Cabeça dinossauro é, mais do que um simples álbum musical, um acontecimento político seríssimo na história da música brasileira.
Ou poderia simplesmente dizer: é uma pedrada, dessas que você não sabe nem de onde vêm e te atingem de forma devastadora nos seus órgãos internos. Pareço exagerar? Então, pelo amor de deus, ouçam o disco (de preferência mais de uma vez, para captar a mensagem).
É inegável o poder de demolição de canções como "AAUU", "Bichos escrotos" (foi a primeira vez na vida que eu cantei com gosto um palavrão contra o sistema, o status quo), "Família", "Homem primata", "Polícia" e a última - e enigmática - "O quê" (que durante anos virou uma espécie de mantra pessoal meu enquanto assistia clipes na MTV e programas de auditório na linha Perdidos na noite, com Fausto Silva).
E olha que nem falei nada da faixa título, "Estado violência", "Porrada" e "Igreja". O repertório como um todo é altamente ácido, crítico, mordaz, à frente e, principalmente, ciente do seu tempo, ou seja: de uma sociedade fragmentada, abusiva, divisiva ao extremo, e que não dá a mínima para quem pensa diferente da bolha. Anos depois, quando a banda gravou o Acústico MTV, deparei-me novamente com essas mesmas músicas dentro de um outro contexto.
O resultado disso: ter a certeza de que as gravações originais são eternas, imutáveis, e resistem ao tempo como a muralha da China. Se por um lado o Titãs que apresentará um show-homenagem do álbum não é mais o mesmo, e sim apenas um fragmento daquela era, por outro é extraordinário continuar convivendo com essas pequenas joias desaforadas, cheias de denúncias, quase monólogos sobre a intolerância nacional que continua reinando nesse país controverso.
É por causa de exemplares magníficos como Cabeça dinossauro dentro da discografia brasileira que eu sempre vou achar um abuso a nova geração ter trocado o rock pela breguice insuportável do sertanejo, um gênero que em nada reflete a fúria cotidiana com a qual convivemos dia sim, outro também. Soa-me tão contraditório quanto ex-roqueiros famosos de bandas fundamentais trocando o rock pela chatice da música folk. Fica parecendo um mundo paralelo, insólito, sem sentido.
Em nome desse eterno que não pode morrer, convido todos que leram até aqui a conhecer (ou ouvir de novo, e de novo, e de novo) essa obra-prima ainda incompreendida por quem não entende nada de música, mas adora dar palpite em site furreca sobre mercado fonográfico e podcast de quinta categoria. Aposto que não irão se arrepender!






