Já faz tempo que não assisto tv aberta, canal nenhum, e por culpa da própria televisão, que se colocou a serviço do gratuito, do vulgar, do chulo, da falta de talento e desse mundo vazio produzido por influenciadores e canastrões midiáticos. Sou de uma época em que televisão era sinônimo de grandes realizadores e produtores (que o diga a era do Boni na Rede Globo!). Sentava em frente ao aparelho para me encantar ou flertar com o absurdo e não para aplaudir isso que hoje é vendido como show de realidade.
Logo, ver a notícia do falecimento do produtor Guto Graça Mello, aos 78 anos, me traz a certeza de que a tv vai desaparecendo de vez, e aos poucos. Ele fez parte de uma era inesquecível da telinha. Como ouvir o seu nome e não se lembrar da trilha sonora do fantástico, que ele criou numa época em que o veículo vendia nostalgia? Seu legado para o meio televisivo é muito mais do que a criação de produtos que se perpetuaram. Ele está no âmbito do imaginário coletivo.
Lembrar de Guto é lembrar de mim ainda novo assistindo aos especiais Pirlimpimpim e Plunct, Plact, Zuuum (que sempre me traz à mente a lembrança do eterno Raul Seixas, o maluco beleza, na pele do carimbador maluco). Meu pai chegou, na época, a comprar os vinis com a trilha, que eu ouvia e reouvia a perder de vista. Víamos na tela Baby Consuelo - hoje do Brasil - como Emília, Jorge Ben (hoje Benjor) como Saci, entre outras figuras eternas da MPB desfilando canções que ecoavam na mente de inúmeras crianças e jovens.
E por falar em MPB, Guto também é um capítulo à parte na história da discografia nacional. Produziu mais de 500 álbuns icônicos entre as décadas de 1970 e 1980, tanto na gravadora Som Livre como para a própria Rede Globo.
Dentre os artistas com quem colaborou, grandes nomes do nosso cancioneiro como Rita Lee, Moraes Moreira, Guilherme Arantes, Sandra de Sá, Alceu Valença, Elba Ramalho e Gilberto Gil. Uma tia minha possuía em vinil (sim, eram outros tempos!) um exemplar de Trem azul, da cantora Elis Regina, que eu sempre ouvia quando a visitava. Acredito que foi uma das primeiras experiências musicais que eu tive fora da minha zona de conforto habitual (eu era fã de Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho) e após a primeira audição fui querer saber mais sobre música popular brasileira e não parei mais.
Entre as trilhas sonoras de novelas que marcaram época pelas mãos dele vale a pena citar as de Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia, Estúpido Cupido, Pai herói e Cavalo de Aço (esta última foi alvo de uma curiosidade minha por quase toda a adolescência, pois ficava intrigado com o título). Ele conseguiu transformar até a apresentadora Xuxa num fenômeno de vendas do mercado fonográfico, chegando a produzir mais de 3 milhões de cópias.
Embora uma figura multimídia, Graça Mello foi muito conhecido dentro do setor como um "caça-talentos silencioso". Entre seus assistentes dentro da Som Livre, dois nomes que viraram pilares do rock nacional: Cazuza (como assessor de imprensa) e Lulu Santos (responsável por ouvir as fitas demo dos chamados "novos artistas"). Ele também assinou a trilha sonora de mais de 30 longas-metragens cinematográficos, dentre eles produções como Cazuza - o tempo não para, Se eu fosse você e o filme espírita Nosso lar.
Sua partida não só empobrece ainda mais a cultura brasileira como alimenta ainda mais a decadência televisiva vigente. Uma pena! Precisamos de mais homens de visão como ele nas telas - e não essa geleia rançosa atual. Fica com Deus, mestre!






