Se existe algo na história de Roma e da Igreja Católica que provoque sentimentos mistos de repugnância e curiosidade, essa coisa com certeza é a família Bórgia. É provável que eles tenham sido com folga as figuras mais podres que já representaram o mundo religioso ao redor do planeta. E mesmo após tantos anos passados continuam despertando cada vez mais o interesse por quem procura se inteirar sobre a história do mundo e seus eternos cafajestes que nada mais fazem do que cobiçar o poder.
Esta semana, durante minhas pesquisas à procura de material sobre a cultura pop (leia-se: filmes, Hqs, teatro, livros, exposições, etc), deparei-me com um exemplar da graphic novel Bórgia, da dupla Alejandro Jodorowsky e Milo Manara, dois mestres da nona arte. E não consegui pensar em mais nada que não fosse ler aquilo o quanto antes. Fosse pela escrita impecável do primeiro, fosse pelas ilustrações do mago do erotismo (quem nunca leu Manara, pelo amor de Deus pare tudo que está fazendo agora e procure a sua obra!), meu cérebro praticamente fundiu ao fim da leitura.
Bórgia foi lançada originalmente na França em quatro volumes (entre 2004 e 2010) e traz o período em que o cardeal espanhol Rodrigo Bórgia chega ao trono papal, se tornando o Papa Alexandre VI (1492–1503). Mas até aí, você deve estar pensando, nada de mais. Elegeu-se um novo pontífice, e daí? A questão é: você não faz a menor ideia do que foi a família Bórgia, do que eles foram capazes para se manter no poder.
Na abertura do álbum vemos que Roma está entregue à devassidão moral e à total ausência de ética. Até mesmo aqueles que deveriam ser os homens de fé vendem a peso de ouro o perdão divino, através de indulgências. O Papa Inocêncio VIII, completamente doente, é engolido por seu próprio ódio e ganância e sobrevive da exploração da boa fé alheia. A peste consome todo o país como uma prostituta sendo eternamente explorada pelo seu cafetão.
O profeta Savonarola - visto como fanático pela igreja - tenta avisar a sociedade do fim dos tempos que se aproxima. Trata-se de uma era de traições e muitas conspirações. E em meio a todo esse caos, a família Bórgia almeja o poder mais que tudo. O pior deles? Rodrigo, o patriarca, que consegue através de manipulações e chantagens, tornar-se o novo papa. Contudo, sua eleição não é nada bem quista nem por parte dos poderosos, muito menos pelo povo romano.
Seus filhos são verdadeiros reflexos de sua própria estupidez e cobiça. Porém, há dois que merecem um adendo a parte: César, o filho ilegítimo, que deseja a qualquer custo liderar o exército de Roma; e Lucrécia, a filha lascívia que será capaz de tudo (através de sua beleza, lógico!) para manter-se no topo da hierarquia. E o mais desumano de tudo isso: o próprio Rodrigo, já empossado papa, incentiva o incesto entre os próprios filhos unicamente visando a manutenção do seu próprio poder.
Casamentos arranjados, homossexualismo extremo, apoios escusos, títulos de nobreza negociados, atos sexuais forjados a céu aberto, até astrólogos tramando conspirações com o intuito de ludibriar a população... Vale tudo para manter o império da família pelo máximo de tempo possível, quiçá eternamente. Contudo, a guerra é iminente e Savonarola atiça o povo para que invada as cidades e destrua o poderio da igreja.
Ao fim, o que vemos é a destruição da família, que implode de dentro para fora, levando irmãos a se matarem e o papa envenenado por Della Rovere, um postulante ao trono da igreja. Porém, é preciso avisar com antecedência ao leitor desse post: muito do que é visto aqui foi ficcionalizado, levando-se em considerações inúmeras lendas urbanas e fetiches criados acerca desse período. E até aí nenhum problema. Trata-se de uma história em quadrinhos, não um livro de não-ficção sobre a história da igreja católica. Logo, saibam manter suas mentes abertas para separar as coisas.
E o maior legado deixado por Jodorowsky e Manara nesse trabalho (aliás, eles deveriam ter realizado mais parcerias, pois foi das melhores duplas de criação que eu já li até hoje!) foi o fato de estarmos diante de um período histórico marcado profundamente pela vaidade e o ego, dois sentimentos capazes de aniquilar a essência humana com uma naturalidade apavorante. E vendo o atual estado do mundo, seria bom que a humanidade conhecesse isso aqui, dentre outras leituras a respeito, se pudesse. Achei de uma atualidade assustadora, porém muito necessária para abrirmos os olhos. O futuro pode ser negro de novo e está ali na esquina, esperando para atacar.






