Mal ligo o meu notebook para começar os trabalhos e já fico desanimado, triste mesmo, com a notícia do falecimento do jornalista e escritor Zuenir Ventura. Que ano infeliz foi 2026! Perdi grande parte de minhas referências culturais e sem peças de reposição à vista. E Zuenir era um ser quase mítico. Lê-lo sempre me remeteu a uma obrigação literária (não no sentido impositivo da palavra, mas porque não conseguia conceber alguém que pudesse abrir mão do conhecimento oferecido por ele). Era um mestre antes mesmo de ter sido reconhecido pelo Academia Brasileira de Letras, que o tornou imortal em 2014.
Falar de seu trabalho jornalístico e também literário é entender um indivíduo cuja história e carreira se confundem com a do próprio país. Ver essa enormidade de influenciadores digitais ocupando espaço nos jornais e no mercado editorial me dá uma enorme tristeza, justamente porque já tivemos a excelência ocupando esse espaço. E Zuenir sempre foi um dos maiores (pelo menos, para mim) nesse sentido.
Por onde começar quando falamos de sua obra? Difícil. E justamente por isso, melhor começar pelo óbvio. No caso, o best-seller 1968: o ano que não terminou, no qual ele funde figuras as mais diversas (da atriz italiana Claudia Cardinale ao militante Carlos Lamarca) para narrar um dos anos mais emblemáticos - e, para nós, horrendos! - da história do país e do mundo. Quem é formado em comunicação social, como eu, e nunca leu esta pérola, certamente tem um déficit em sua formação acadêmica. E ele ganha proporções ainda maiores quando lido seguidamente à Cidade partida - que eu confesso, li umas três vezes - onde narra a divisão social que teima em persistir no Brasil, não importa quantos governos tentem dar uma solução para isso.
Contudo, há um livro dele que guardo como uma espécie de coqueluche, e que volta e meia releio (na eterna expectativa de encontrar informações que deixei escapar na leitura anterior). Trata-se de Chico Mendes: crime e castigo, onde ele aborda o assassinato e posterior julgamento dos assassinos do seringueiro e líder ambientalista na Amazônia. Faz parte da coleção Jornalismo literário da Companhia das Letras, que é sempre uma excelente pedida para qualquer bom leitor informado que se preze.
Ele também produziu obras mais leves, como o simples e excepcional Crônicas de um fim de século, bem como o episódico Minhas histórias dos outros, no qual intercala sua vivência com a de personalidades de sua geração. Esse, aliás, eu li na mesma época do Noites tropicais, do Nelson Motta, e acabou por compor uma dobradinha interessantíssima na minha cabeça na época em que eu estava na faculdade, à procura de relatos e carreiras interessantes do meio artístico e cultural. Se puderem, façam o mesmo!
E até mesmo na categoria ficção Zuenir deu um baile com Sagrada família, no qual ele narra - de forma não menos brilhante - a vida em uma grande família do interior do estado do Rio de Janeiro. Para fãs de obras literárias como Éramos seis, de Maria José Dupré (que faz parte da série vagalume da Editora Ática que toda a minha geração leu e releu) e Anarquistas, graças a Deus, de Zélia Gattai, é um prato cheio (e saboroso).
Além de sua premiada obra literária (porta de entrada para que eu conhecesse o seu trabalho), ele passou pelas redações do Correio da Manhã, das revista Fatos & Fotos e O Cruzeiro, além de Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Também foi colunista de O Globo e professor da UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj. Ganhou os prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog pela série de reportagens O Acre de Chico Mendes. Ganhou o prêmio jabuti de melhor reportagem e ainda arranjou tempo para codirigir o documentário Um dia qualquer e roteirizar Paulinho da Viola: Meu tempo é hoje, ambos da cineasta Izabel Jaguaribe.
Mesmo chegando ao fim de sua jornada aos 95 anos, ficou-me a sensação de que ele poderia ter ido aos 120, no mínimo. Ele era (e sempre será) o jornalista que não terminou, uma obra em progresso de carne e osso. Grande Zuenir. Fica com Deus, mestre!






