Depois do ano espetacular que a atriz Fernanda Torres teve no Brasil e no Exterior - com a vitória como melhor atriz no Globo de Ouro e Ainda estou aqui vencendo o Oscar de melhor filme internacional - ela decidiu retornar com uma nova temporada teatral de A casa dos budas ditosos, baseado em romance homônimo do escritor (e imortal da ABL) João Ubaldo Ribeiro. E sempre que isso acontece eu repenso a obra literária em questão, que é magnífica em suas ousadas intenções.
E vê-la no palco novamente, sempre se reinventando e remodelando o texto de Ubaldo, é extremamente gratificante. Chegou a vazar um vídeo com a apresentação dela no you tube (não sei se ainda se encontra por lá). Quem puder, dê uma conferida. Mas por que, caros leitores desse descompromissado blog, A casa dos budas ditosos, tanto livro quando adaptação teatral, gera tanta comoção e interesse?
Simples. Porque ele foca em ousadias que parecem cada dia mais relevantes, principalmente em tempos tão conservadoramente babacas e autodestrutivos como os atuais. Talvez sua apresentação seja um dos últimos resquícios de sanidade mental numa sociedade que prefere se esconder atrás de personagens cafonas, moralistas e enfadonhos ao excesso.
Acompanhamos a trajetória corajosa (e tresloucada) de CLB, uma senhora baiana de 68 anos, que decide narrar - não, confessar - suas aventuras sexuais ao longo da vida, com requintes de deboche e ironia pura. Não há espaço aqui, um momento sequer, para o mínimo sentimento de culpa. CLB é uma mulher à frente do seu tempo numa época em que o máximo que se podia fazer sendo moderna era usar uma minissaia e isso por si só já dava muito pano pra manga e sermões homéricos.
Da iniciação sexual às orgias e aventuras as mais distintas, com direito à envolvimento erótico até com parentes, CLB desnuda suas experiências íntimas com a mesma facilidade de uma garota de programa da zona sul carioca ou uma prostituta da Vila Mimosa. Ou seja: sem rodeios, na lata, apontando inclusive o falso moralismo de seus amantes.
No palco, onde Fernanda incorpora a libertina que exulta suas memórias, ela dá um show à parte, provocando gargalhadas as mais diversas na plateia. Não consigo imaginar outra atriz para fazer a personagem (talvez, também, pelo fato dela já ter incorporado uma tresloucada do mesmo nível quando interpretou a Vani da série de tv Os normais). O romance de Ubaldo fez parte originalmente da coleção Plenos pecados da Editora Objetiva e representava o pecado da luxúria. E é tão afeito ao humor ácido, que certamente faria sucesso também como stand up, se tentassem.
Ao fim da sessão no teatro (e mais uma releitura do romance), me fica a impressão que o livro virou uma espécie de patrimônio cultural do país. Ela própria disse em entrevista que já entendeu que esse será um espetáculo que ele terá de retomar até o fim da vida, pois as novas gerações irão querer dialogar com essa história também. E que assim seja! o texto é ótimo, a atriz também, e quem sai ganhando com isso é o público das salas, que não fica refém de comediantes canastrões e suas prepotências costumeiras.
Quem não foi ver (ou rever) ainda essa nova temporada, não perca a chance. Continua atualíssimo. E os moralistas? Que se descabelem de raiva!






