Imagine um livro que você, leitor, começou a ler umas 8, 9 vezes, e sempre teve que parar no meio do caminho por conta de problemas pessoais ou profissionais urgentes! E a consequência disso foi devolvê-lo à estante e só retomar a leitura meses, de repente mais de um ano depois. Pois então: no meu caso esse livro foi o romance On the road, de Jack Kerouac (que aqui no Brasil tem o título de Pé na estrada, embora desconfie que os brasileiros se refiram mais a ele em seu título original).
Agora, após finalmente conseguir lê-lo em sua integralidade - e sair em êxtase da experiência, que desde já adianto, não é para todos - posso afirmar: eu entendo o porquê de tantos adiamentos. Eles eram extremamente necessários para que eu não perdesse o foco, as intenções da trama. E isso transformou o meu trajeto folheando as páginas ainda mais prazeroso.
On the road é meio que a bíblia dos outsiders. E antes que me perguntem por aqui: o que é um outsider? Esclareço: tratam-se de indivíduos nada afeitos a bolhas culturais ou sistemas tradicionais de vida. Pessoas que não seguem uma estrutura ou organização definida. Cheguei a ler em alguns lugares a menção de "pessoas fora de um determinado grupo ou círculo social", mas na verdade eles podem até coabitar o mesmo espaço, conversar com opiniões divergentes, mas no fundo seguem seu estilo de vida própria e nada de fora conseguirá interferir em suas escolhas, não importa o quanto tentem. Acho mais justa essa percepção.
O romance de Kerouac, figura mais pensante e folclórica da chamada Beat generation, é uma grande viagem de redescoberta sobre os EUA. É possível ver aqui, durante toda a viagem percorrida por Sal Paradise (seu alter ego nessa história), uma clara intenção de rediscutir essa famosa ideia da "grande nação do mundo". E o que vemos não são lugares paradisíacos, altamente turísticos, escondidos pela beleza e pelo status. Pelo contrário: testemunhamos, isso sim, o lado B da terra do famigerado Tio Sam, com todos os seus problemas e cicatrizes nesse processo.
Ao redor de Paradise e também tirando suas próprias impressões sobre a jornada amigos de longa data que, muitas vezes, são representações de colegas da sua própria geração. Dean Moriarty, contraponto visceral ao protagonista durante as viagens feitas, nada mais é do que seu amigo Neal Cassidy; Carlo Marx, e sua visão de mundo melancólica, quase derrotista, é um paralelo com o poeta Allen Ginsberg, autor do também clássico O uivo; Old Bull Lee, mais velho, mentor daquela geração, viciado convicto, é a personificação de William Burroughs, criador de obras-primas como Almoço nu e Junky.
Além desses, mais conhecidos, há ainda as mulheres fortes ou autodestrutivas que cruzam seu caminho deixando importantes aprendizados para o restante de sua vida. Casos de Marylou, primeira esposa de Dean Moriarty, fogosa e polêmica ao extremo; Terry, a mexicana com quem Sal Paradise se envolve romanticamente na Califórnia; Camille, que lida a todo momento com a ideia de abandono por parte de seus parceiros anteriores e também instabilidade emocional; e Inez.
Trata-se de uma narrativa complexa, cheia de interrogações, interjeições e rupturas as mais diversas. Já ouvi alguns outros leitores me dizendo que, dentro do contexto literário e linguístico, On the road nos oferece as mesmas dificuldades de Ulisses, obra seminal do escritor James Joyce. E embora eu ache o livro de Joyce mais devastador nesse sentido (não à toa foi rotulado por críticos como "o momento em que o romance entrou em colapso"), eu devo confessar que há um fundo de razão nesse raciocínio. Como disse em parágrafo anterior, e repito: não é leitura para todo mundo, exige um bagagem cultural prévia interessante, mas quando você entende a premissa, o que está em jogo, vale cada segundo em frente ao livro.
E aproveito a deixa para indicar também (lógico, após o fim da leitura!) a também excelente adaptação cinematográfica feita pelo diretor brasileiro Walter Salles em 2012, com elenco majestoso, que traz Kristen Stewart como Marylou, Sam Riley na pele de Sal Paradise e Garrett Hedlund vivendo Dean Moriarty. Procurem! E olha que até o Francis Ford Coppola, de O poderoso chefão, tentou tirar a ideia do papel e não conseguiu.
No mais, passo a bola para vocês, admiradores deste blog: conheçam o livro, vejam o filme, se puderem procurem outras obras da Beat generation. Trata-se de uma galera que merece ser muito mais difundida do que é, sempre. Além de ser um dos últimos suspiros de originalidade real na literatura americana. E isso não se pode desprezar de jeito nenhum.






