sábado, 6 de junho de 2026

Um magnífico ensaio sobre o fim dos tempos


Vejo num canal nerd sobre quadrinhos no youtube a informação de que a graphic novel O cavaleiro das trevas, do trio Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley, completou 40 anos em 2026 e imediatamente viajo no tempo para meus exatos 19 anos (primeira vez que eu li a HQ). Ao mesmo tempo em que o tempo viaja na velocidade da luz - junto com minhas lembranças -, me pego procurando novamente a obra gráfica para ler. E, claro, me surpreender. 

O cavaleiro das trevas é uma obra-prima inquestionável do formato quadrinhos. Merece seu lugar de destaque junto à outras obras seminais como Maus (de Art Spiegelman), Akira (de Katsuhiro Otomo), Avenida Dropsie (de Will Eisner) e tantas outras pérolas da arte sequencial. Só que, mais do que isso, relê-la mais de duas décadas depois, me fez repensar esse trabalho magistral, à luz desse século XXI repleto de déspotas e outros seres degradantes que somos obrigados a aturar. 

Na HQ de Miller e cia, Batman não é mais um mero vigilante ou herói incompreendido. Pelo contrário. Após seu sumiço de Gotham City por uma década, ele se tornou uma figura estranha, soturna, que vê no aumento da criminalidade na cidade o estopim para se encontrar com seu lado dark e justiceiro. O problema: o estado (ou as autoridades, como preferir) agora o veem como um pária. Pior: um problema a ser combatido, assim como os seus arqui-inimigos.

Dick Grayson (o eterno Robin) rompeu relações com ele e o último a vestir o uniforme, Jason Todd, foi morto pelo Coringa. O que abre espaço para uma versão feminina da personagem entrar em ação e formar dupla com o cavaleiro das trevas. Contudo, vilões do passado - Duas Caras, Coringa - estão de volta, remodelados, prontos para novos crimes a serem perpetrados. E, além disso, há uma seita que pretende ocupar o lugar de Batman como força-motriz da cidade. 

Seu companheiro de combate, o Comissário Gordon, está se aposentando e quem assume o seu lugar como chefe é uma mulher que não acredita no papel do herói como combatente da violência. Ela vê nele, isso sim, mais um inimigo a ser destruído - custe o que custar. E o cenário de caos prolifera de forma dantesca, lembrando (e muito!) o atual Estados Unidos, rodeado de ICE e polícia corrupta por todos os lados.

Lembro de quando o diretor Christopher Nolan realizou sua versão da história para os cinemas com Christian Bale e Heath Ledger e hoje, após ler o volume de novo, fica aqui um elogio de minha parte. Ele soube reinventar de forma extremamente eficaz as principais temáticas da HQ, fazendo uma releitura bastante atualizada sobre esse grande "ensaio sobre o fim dos tempos".

As quase 200 páginas da obra mostram um painel inviolável do que se tornou a humanidade nessas últimas décadas, criada pela falta de empatia e eterna ganância do ser humano. O Cavaleiro das trevas é profético em todos os níveis que você puder imaginar e mostra de forma pontual o quanto seu roteirista já vislumbrava a decadência do sistema e a eterna predileção da sociedade pela mentalidade "o homem é o lobo do homem".

Resultado: um trabalho devastador, apocalíptico em n formas possíveis e imagináveis e que mostra o quanto o universo quadrinístico assumiu uma postura errada ao preferir a cultura cinematográfica à nona arte como forma de expressão. Ler O Cavaleiro das trevas novamente me fez pensar no quanto ver essa história no atual cinema estará sujeito à produtores e realizadores moralistas, comprometidos unicamente com o negócio lucrativo e nada mais.

Fica aqui, portanto, a recomendação para quem nunca leu essa joia. Isso aqui é ouro puro (algo raro na indústria cultural contemporânea).   


segunda-feira, 1 de junho de 2026

O mago da inventividade


Terminei o sábado em estado de graça e consciente de que a cultura e a arte são, de fato, libertadoras num patamar impossível de ser explicado. E ninguém na face da terra conseguirá destruir isso. Explico-me. 

Conheci o trabalho do artista plástico paulista Vik Muniz através do documentário de 2010 indicado ao Oscar Lixo extraordinário, dirigido pelo trio Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim, e na mesma hora fiquei encantado. Muito pelo fato de ele utilizar materiais inusitados em meio às suas telas. Ao invés de tintas, o artista usa como matéria-prima muito lixo, açúcar, geleia, macarrão, até mesmo cinzas do incêndio recente do Museu Nacional.

E o mais importante: ver os quadros de Muniz é um gigantesco exercício do olhar. Você tem diferentes leituras ao se aproximar ou se distanciar de uma tela, o que promove um efeito por vezes bi ou tridimensional. 

Dando continuidade a minha paixão (e também curiosidade) sobre o seu trabalho, fui essa semana ao Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, para ver a exposição Vik Muniz: a olho nu, a maior retrospectiva da sua carreira até hoje. São mais de 220 obras que compõem um vasto cenário sobre a sua trajetória. E quem é fã de história da arte, artes plásticas (como eu) vai, certamente, ficar encantado.

Passeio pelos corredores amarelos e fico perdido em meio a tantas referências. Perco mais de meia hora só na parte dos retratos de celebridades. É, no mínimo, uma afronta um artista desse tamanho ser mais reconhecido no exterior do que no próprio país natal. Vik é tão inventivo, tão cheio de ideias, que me parece um desserviço à cultura não divulgá-lo ou sequer reconhecê-lo. 

Numa mistura de processos, materiais e escalas as mais diversas, o artista constrói uma nova forma de poética, transformando o olhar numa tarefa múltipla e não mais tradicional. Estamos a todo momento revendo suas ideias na tela, pois a cada momento elas parecem reproduzir novos significados. Não se surpreenda se, ao sair da exposição, você desejar vê-la de novo na semana seguinte, pois teve a sensação de ter perdido alguma coisa, algum detalhe. 

Pois a intenção da mostra, entre tantas outras, é exatamente essa: expandir leituras e interpretações. 

trabalhos tridimensionais do início de sua trajetória, séries fotográficas emblemáticas que marcaram sua produção ao longo dos anos e obras recentes, reunidas, acabam por configurar um imenso painel de um mago da inventividade. Acho que essa é a melhor maneira de classificar Vik Muniz (pelo menos, nesse exato momento; resta saber o que ele ainda irá nos entregar nos próximos anos - o que sempre é uma incógnita deliciosa).   

Ao fim, apenas uma certeza: seu trabalho é uma grande obra aberta, propensa a novos - e desafiadores - caminhos, e isso para qualquer fã de arte que se preze, é uma excelente notícia. Vejam! Fica em cartaz até 7 de setembro.  


quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Picasso do jazz


Eu lembro da primeira vez em que vi Miles Davis na tela e não foi necessariamente tocando. Tratava-se do quarto episódio da segunda temporada de Miami Vice - um série icônica que marcou minha adolescência profundamente - e fiquei impressionado com sua presença de cena. Contudo, eu nunca o tinha ouvido tocando jazz e foi meu pai que me abordou naquele exato momento e me disse: "Esse cara é um artista extraordinário. Quando tiver tempo, ouça-o!". Como ele já havia me apresentado anteriormente a duas divas da música, Aretha Franklin e Nina Simone, corri atrás de seu trabalho como louco.

E o que descobri após fuçar em lojas de discos (sim, naquela época elas existiam em profusão!) foi que não só estava diante de um artista talentoso, mas de uma lenda, de uma figura inigualável para a história da música. Quem nunca ouviu Miles Davis, não faz a menor ideia do que está perdendo. Seu disco mais famoso e mais badalado da carreira, o monumental Kind of blue (1959), é dessas experiências que você ouve quase rezando, de joelhos, aproveitando cada faixa, cada toque, cada momento. Mais do que isso: ele é uma excelente porta de entrada para conhecer toda a obra gigantesca de Davis. 

Miles foi do Hard bop ao jazz fusion, passando por orquestrações e psicodelias as mais diversas, e eu acho praticamente impossível escolher um gênero ou um momento específico no qual ele tenha sido melhor. Foi um artista completo, complexo, rebelde, à frente do seu tempo em todos os níveis. Atuou ao lado de lendas como Charlie Parker, John Coltrane e Bill Evans e, ainda assim, imprimiu seu estilo próprio, se destacando dos demais. 

Dentre as características que mais o marcaram ao longo da carreira, vale destacar sua assinatura sonora (você sabia de antemão quando estava ouvindo o trompete de Miles e não de outro artista), sua capacidade camaleônica de se reinventar em diversos estilos (seja o Bebop, o jazz modal, o cool jazz, etc), o fato de ser um vanguardista eternamente insatisfeito com a própria criação (odiava rótulos que o limitassem como músico, ou seja, que o levassem a se repetir) e foi um revelador de novos talentos (lançou músicos sublimes como Herbie Hancock, Wayne Shorter e Chick Corea)

Para quem não sabe por onde começar a ouvi-lo (e a lista de coisas impressionantes que ele fez é grande), recomendo brevemente a trinca Round About Midnight (1956), Sketches of Spain (1960) e Bitches Brew (1969), este último uma mistura eletrizante de rock e funk. Mas faço um pedido: ouçam atentos, sejam gentis com a música. Aposto como se surpreenderão -e muito!

Em 2011 fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para ver a inacreditável exposição Queremos Miles – Miles Davis, lenda do jazz, repleta de fotos, documentos, discos, desenhos do próprio artista e, claro, seus trompetes. Foi lá, aliás, que descobri o interesse de Miles pelo boxe. Saí da experiência ainda mais fã do músico e com a cabeça repleta de informação valiosa, que me acompanha até hoje quando escrevo sobre cultura pop. 

Há quem o chame, entre a grande mídia, de o Picasso do jazz, e eu não vejo o menor exagero nisso. Ele realmente parecia pintar as notas musicais com a sua genialidade ímpar. E poder relembrar dele em seu centenário, que foi celebrado ontem, me deixou duas certezas: a) ele se foi cedo demais (morreu em 1991, aos 65 anos); e b) assim como Frank Sinatra e Jimi Hendrix, nunca mais haverá outro como ele. É daquelas figuras eternas que só passam pelo planeta terra uma única vez e o seu papel depois disso é relembrar do quanto ele foi único. 

Grande Miles, você foi uma aula de música!


domingo, 24 de maio de 2026

Muito mais que uma playlist para salvar um domingo cinza


Que a poesia está em todos os lugares, em todos os sentimentos, nas pequenas (e grandes) coisas do mundo, disso nunca tive a menor dúvida. Não importa o quão tenebrosa seja a realidade atualmente. É possível continuar sonhando em meio às adversidades diárias. O que importa: é continuar tentando, nadando contra a maré, insistindo, não desistindo. 

E por que digo isso? Vejo o domingo melancólico que foi hoje, praticamente cinza, sem viço. Parecia completamente estragado. Um dia improdutivo a mais para esse 2026 esquisito até aqui. E então, como num passe de mágica, aparece no comecinho da tarde Paulo Miklos, o ex-titã, músico e compositor estupendo, e me apresenta no youtube ao adorável Coisas da vida. Que eu até poderia resumir como "uma playlist para salvar o meu dia". Porém, seu quinto álbum solo de estúdio, é bem mais do que isso. Ele é necessário, em tempos tão amargos. 

É uma alegria tremenda conviver com o Miklos pós-Titãs, disposto a novos caminhos, novos voos, ou mesmo reeditando clássicos. E aqui há covers de canções inesquecíveis. 

Ele abre seu disco se mostrando preocupado com o que estamos fazendo com o planeta terra, cita Jonas e baleia da bíblia sagrada, mostra que precisamos acreditar mais em nós mesmos, seres humanos. Enfim: deixa claro que a batalha (ainda) não está perdida. Insatisfeito, não se basta com essa breve mensagem que bem poderia soar aos ouvidos dos execráveis moralistas de plantão como um panfleto autoajuda chato, repetitivo. 

E eis que ele enfileira uma trinca de respeito com as ótimas "Quero voltar pra Bahia", "Saudosa Maloca" (de Adoniran Barbosa, que o próprio Miklos já deixou claro em sua carreira ser um notório fã) e "Xibom bombom" (com seu toque de denúncia aos tempos atuais e ao eterno capitalismo selvagem que nos persegue). "Cachorro babucho" é apenas um tira-gosto para o prato principal, que vem em dobro com "Não existe amor em SP" e a eterna hit parade "Evidências" (clássico na voz da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó).

Mas acham que acabou, assim, desse jeito? Ah quem dera! O eterno roqueiro que habita dentro de Paulo não poderia terminar esse álbum de outra forma, que não fosse apresentando uma nova versão para um clássico. O escolhido é "O tempo não para", música síntese de Cazuza, o poeta do rock. Agora sim, posso fechar a tampa e eu a fecho, mas já saudoso, sabendo de antemão que certamente ouvirei o disco novamente nos próximos dias, para que fique fixado em minha mente sua mensagem.

Muito mais do que uma reles playlist para salvar um domingo acinzentado, sem sentido, Coisas da vida me ganhou por mostrar que o simples, mas bem feito, anda em falta na MPB, mais que isso: no mercado fonográfico atual. E ele pode ser bem mais poderoso do que muita bobagem estilosa que anda em voga atualmente. É apenas uma questão de se comprometer. O problema: quem é que se compromete com alguma coisa em meio a essa realidade louca proposta pela contemporaneidade? Pois é... O Paulo fez exatamente isso! e fica aqui o meu muito obrigado a ele.   

sábado, 16 de maio de 2026

A epopeia linguística da literatura brasileira


A expressão "há livros e livros" nunca foi tão verdadeira. Principalmente depois que você lê (e, de preferência, relê) uma obra-prima como Grande sertão: veredas, do escritor João Guimarães Rosa, que completa inacreditáveis 70 anos de existência em 2026 sem perder um milímetro de sua ternura e sua capacidade de se reinventar. E depois de ler esse registro literário colossal, eu passei a ter uma certeza: Guimarães merece seu lugar no olimpo da literatura brasileira ao lado do também magistral Machado de Assis - sim, os críticos sempre ficam putos quando eu repito essa frase...

Acompanhamos a trajetória de Riobaldo como acompanhamos uma canção amarga, porém necessária para entendermos os rumos desse país contraditório. E ao longo dessa jornada ele enfrentará não só percalços e inimigos os mais diversos, como um amor fora da curva e principalmente a dureza do sertão, que praticamente fala aqui, como um personagem contraditório e raivoso. 

E por falar em personagens - Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes (o algoz derradeiro desse quase anti-herói diferente de tudo que já se viu em nossas letras), Zé Bebelo, Ricardão, etc - eles compõem um grande ensaio sobre a dor, o interesse, a ganância, o eterno maniqueísmo que move o nordeste brasileiro, dentre outras temáticas tão ardilosas quanto. Chamar Grande sertão: veredas de mero romance ou saga não explica sequer a superfície do que é esse relato gigantesco, um dos maiores de toda a nossa bibliografia. 

Um dado triste: às vezes eu tenho a sensação de que Guimarães Rosa só será lembrado, citado e reconhecido como merece de fato no exterior. Há quem, inclusive, chame o livro de "o monte Everest" da tradução, pelo trabalho de quase recriar a obra ao traduzi-la para outros idiomas. Desde sua primeira publicação, em 1964, na Alemanha, o códex linguístico proposto por Rosa passou a gerar um imenso fascínio internacional. E por mais que existam aquelas pessoas que reclamem da necessidade de qualquer obra ou artista brasileiro ser reconhecido no exterior para ter real valor dentro do país, nesse caso específico acho uma honra o reconhecimento e admiração. 

Tive uma professora de língua portuguesa na universidade que dizia ser Grande sertão: veredas um dos maiores desafios de leitura da história da literatura mundial, mas que quando você insistia no duelo com o autor e pegava no tranco não queria mais saber de outra vida, muito menos experiências literárias fáceis e gratuitas novamente. E ela estava coberta de razão. Penei para compreender a mente e a narrativa de Rosa, abandonei a obra umas seis ou sete vezes ao longo da vida, mas quando finalmente captei seu espírito livre e compreendi suas intenções foi um deleite à parte. 

Uma certeza é preciso ser dita ao fim desse post: não se fazem mais (e, provavelmente, nunca mais se farão) obras literárias como Grande sertão: veredas. Primeiro, porque a sociedade brasileira se mostra cada dia mais iletrada e desinteressada pelo conhecimento. E segundo, por fazer parte de um mundo que parece cada dia mais distante e chamado de ilusório por uma geração que se esmera dia a dia por desmentir o passado, a utopia, a denúncia, e mesmo o recomeçar.  

Dito isto, para quem ainda não leu a maior epopeia linguística da história da literatura nacional, aproveite a chance (e a data comemorativa). Vocês não fazem a menor ideia do que estão perdendo. Não mesmo. Ah! um rápido P.S (praticamente um aviso de um leitor apaixonado): fujam dessa adaptação cinematográfica recente que o diretor Guel Arraes fez do romance. Ela diminui - e muito! - a grandeza e a importância da obra. 


terça-feira, 5 de maio de 2026

O produtor musical da era inesquecível da tv


Já faz tempo que não assisto tv aberta, canal nenhum, e por culpa da própria televisão, que se colocou a serviço do gratuito, do vulgar, do chulo, da falta de talento e desse mundo vazio produzido por influenciadores e canastrões midiáticos. Sou de uma época em que televisão era sinônimo de grandes realizadores e produtores (que o diga a era do Boni na Rede Globo!). Sentava em frente ao aparelho para me encantar ou flertar com o absurdo e não para aplaudir isso que hoje é vendido como show de realidade. 

Logo, ver a notícia do falecimento do produtor Guto Graça Mello, aos 78 anos, me traz a certeza de que a tv vai desaparecendo de vez, e aos poucos. Ele fez parte de uma era inesquecível da telinha. Como ouvir o seu nome e não se lembrar da trilha sonora do fantástico, que ele criou numa época em que o veículo vendia nostalgia? Seu legado para o meio televisivo é muito mais do que a criação de produtos que se perpetuaram. Ele está no âmbito do imaginário coletivo.

Lembrar de Guto é lembrar de mim ainda novo assistindo aos especiais Pirlimpimpim e Plunct, Plact, Zuuum (que sempre me traz à mente a lembrança do eterno Raul Seixas, o maluco beleza, na pele do carimbador maluco). Meu pai chegou, na época, a comprar os vinis com a trilha, que eu ouvia e reouvia a perder de vista. Víamos na tela Baby Consuelo - hoje do Brasil - como Emília, Jorge Ben (hoje Benjor) como Saci, entre outras figuras eternas da MPB desfilando canções que ecoavam na mente de inúmeras crianças e jovens. 

E por falar em MPB, Guto também é um capítulo à parte na história da discografia nacional. Produziu mais de 500 álbuns icônicos entre as décadas de 1970 e 1980, tanto na gravadora Som Livre como para a própria Rede Globo. 

Dentre os artistas com quem colaborou, grandes nomes do nosso cancioneiro como Rita Lee, Moraes Moreira, Guilherme Arantes, Sandra de Sá, Alceu Valença, Elba Ramalho e Gilberto Gil. Uma tia minha possuía em vinil (sim, eram outros tempos!) um exemplar de Trem azul, da cantora Elis Regina, que eu sempre ouvia quando a visitava. Acredito que foi uma das primeiras experiências musicais que eu tive fora da minha zona de conforto habitual (eu era fã de Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho) e após a primeira audição fui querer saber mais sobre música popular brasileira e não parei mais. 

Entre as trilhas sonoras de novelas que marcaram época pelas mãos dele vale a pena citar as de Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia, Estúpido Cupido, Pai herói e Cavalo de Aço (esta última foi alvo de uma curiosidade minha por quase toda a adolescência, pois ficava intrigado com o título). Ele conseguiu transformar até a apresentadora Xuxa num fenômeno de vendas do mercado fonográfico, chegando a produzir mais de 3 milhões de cópias. 

Embora uma figura multimídia, Graça Mello foi muito conhecido dentro do setor como um "caça-talentos silencioso". Entre seus assistentes dentro da Som Livre, dois nomes que viraram pilares do rock nacional: Cazuza (como assessor de imprensa) e Lulu Santos (responsável por ouvir as fitas demo dos chamados "novos artistas"). Ele também assinou a trilha sonora de mais de 30 longas-metragens cinematográficos, dentre eles produções como Cazuza - o tempo não para, Se eu fosse você e o filme espírita Nosso lar.

Sua partida não só empobrece ainda mais a cultura brasileira como alimenta ainda mais a decadência televisiva vigente. Uma pena! Precisamos de mais homens de visão como ele nas telas - e não essa geleia rançosa atual. Fica com Deus, mestre!

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Sganzerla, 80


Se vivo ainda fosse, Rogerio Sganzerla estaria comemorando hoje seus 80 anos. Oito décadas de uma das trajetórias mais fascinantes e extraordinárias da história do cinema brasileiro. E quem diz que eu exagero é porque não conhece a cinematografia e, principalmente, a personalidade do diretor e produtor de cinema que era a cara (e a alma) do cinema marginal. De crítico de cinema do Estado de SP (por 4 anos) à realizador de filmes bombásticos, ele aprontou das melhores peripécias que eu já tive o prazer de assistir na tela.

Sganzerla fez parte de uma geração que decidiu questionar os rumos tomados pelo cinema novo. Queria outra proposta, outra maneira de pensar a sétima arte, longe da espetacularização que vinha acompanhando o segmento liderado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cia. O caminho encontrado foi aquele que ficou conhecido em São Paulo como Cinema da boca do lixo. Logo, baseado numa estética mais bruta, mais suja, em contato com a realidade urbana. 

Seus longas eram uma mistura de sátira, subversão, colagens as mais diversas, irreverência para dar e vender, trilhas radiofônicas, humor ácido, linguagem fragmentada e muita crítica social. Alguns críticos e especialistas em cinema gostam de dividir sua obra fílmica em dois grandes segmentos: as ficções caóticas e os filmes-ensaio. Entretanto, ah quem dera fosse fácil explicar em poucas palavras o que foi o seu trabalho audiovisual. 

E ele chega mostrando a que veio logo no segundo filme, o extraordinário O bandido da luz vermelha, retrato de um país que em nada difere deste, controverso, no qual vivemos hoje. A história da caçada ao famoso ladrão de residências ganha contornos épicos com uma montagem e um roteiro frenético, cheio de melindres, e temáticas como manipulação da mídia, poder político e uma violência urbana com fundo anárquico e experimental. Aliás, experimental é um adjetivo que explica bem Rogerio, em todas as suas vertentes e provocações. 

Deixo aqui, inclusive, uma dica: procure no you tube um vídeo chamado "Rogerio Sganzerla manda recado ao Brasil". Em pouco mais de 30 segundos ele mostra toda sua malícia e postura antenada diante do país e do mundo, incitando o público a acordar para a realidade. Aposto que quem nunca viu nada dele, depois que conferir esse breve "teaser" vai procurar por toda a sua filmografia!

Uma das paixões dele era o diretor americano Orson Welles (também um transgressor por excelência). Tanto que Sganzerla realizou a trinca Nem tudo é verdade, A linguagem de Orson Welles e Tudo é Brasil, uma trilogia inspirada no cineasta americano e suas inúmeras intervenções e propostas estéticas. 

Em 1970 fundou, junto com seu parceiro Júlio Bressane, a Belair e em pleno período militar entregaram sete filmes em quatro meses, uma façanha até hoje alardeada aos quatro ventos por qualquer cinéfilo de bom gosto que se preze. E ali, em meio àquela tentativa de virar a estética cinematográfica de cabeça para baixo, podemos perceber o melhor do seu cinema. Seus filmes: a) desafiaram a narrativa considerada linear; b) tiveram influência do cinema noir, da chanchada, do tropicalismo; c) e tiveram diálogos rápidos, irônicos e cheios de citações. 

Mesmo nos anos 2000, com seus trabalhos experimentais, feitos à base de poucos recursos, mas muita ousadia visual, Sganzerla deu provas de que era um exemplar raro dentro do audiovisual brasileiro. E hoje, mais do que nunca, faltam mentes brilhantes como ele no mercado exibidor, um visionário nato na arte de produzir narrativas em formato película (e acredito, sem duvidar, que ele guardaria o digital no bolso também). 

Recomendo de olhos fechados a qualquer leitor deste post que assistam (e reassistam), além do já citado O bandido da luz vermelha, os também magníficos A mulher de todos; Sem essa, aranha; Copacabana mon amour; O abismo; O signo do caos e todos os curtas que vocês conseguirem encontrar na internet. Aposto a grana que for como não vão se arrepender!

Se houve um camaleão do cinema tupiniquim, esse cara foi o Rogerio Sganzerla e ninguém vai conseguir me provar do contrário. Saudades, mestre!