Eu me pergunto de tempos em tempos para que servem as redes sociais em pleno mundo contemporâneo e a resposta em praticamente 99,9% dos casos é sempre a mesma: "para nada". Então as pessoas volta e meia me perguntam: "e o 0,01%?". A resposta? Chamar a atenção para si mesmo e ditar o discurso do mundo. Já fui expulso do Facebook tempos atrás por publicar algo que incomodava aos criadores da empresa. E olha que eles dizem que defendem a liberdade de expressão... A deles, lógico! Ver O outro lado das redes, de Aaron Sorkin (filme que continua o universo proposto por A rede social, do diretor David Fincher) me fez ter a certeza de que não foi um mau negócio ter sido expulso de lá. Não mesmo.
Acompanhamos nesse novo longa a investigação do jornalista do Walt Street Journal vencedor do Pulitzer, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), acerca do envolvimento do Facebook numa política de disseminação de ódio e desinformação dentro da sociedade americana. Ele sabe de antemão que seu trabalho não será nada fácil. Pior: pode ser que, além de não conseguir provar sua tese, ele veja sua carreira escorrer pelos dedos. E mesmo assim ele segue em frente? Sim, porque é isso que a imprensa de verdade deve fazer.
Sua melhor chance de conseguir provas que incriminem a empresa de Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) é a analista de dados Frances Haugen (Mikey Madison), que embora ame seu trabalho e acredite na missão do Facebook, sabe por a mais b que algo de muito errado está acontecendo dentro da empresa. E por mais que ela tenha medo de sofrer retaliações ou ver sua carreira acabar, é o único caminho visível para que a verdade venha à tona.
O melhor de O outro lado das redes é a faceta roteirista do diretor Aaron Sorkin (algo que ele já mostrou esplendidamente em outros projetos, como a série de tv West Wing e o longa-metragem A grande jogada, com a atriz Jessica Chastain). Ele consegue fornecer ao espectador um panorama sobre há quantas anda o mundo em tempos de internet monopolizando os discursos da opinião pública. Vivemos numa era de fake News, polarização gritante e pós-verdade, e qualquer dado minimamente alterado para alimentar rebeldias, dissensões e caos é muito bem vindo.
Do outro lado dessa equação, há a eterna figura de capitalistas ególatras como Zuckerberg, cujo único intuito no mundo é enriquecer a qualquer preço e, com isso, delimitar quais devem ser as diretrizes do planeta terra a partir de marionetes cegas e tendenciosas, capazes de tudo para virar o mundo de ponta a cabeça. E empresas como a Meta (que foi exatamente o que o Facebook se tornou após o escândalo vazado) realizam esse trabalho de formiguinha, diário, tornando a vida como a conhecemos cada dia mais insuportável.
Tráfico de influência, manipulação ideológica, interesses escusos os mais diversos, a transformação da barbárie em entretenimento e o discurso frouxo de que "não impomos verdades aos nossos clientes, apenas oferecemos um cenário para o debate livre" são elementos que convergem, tornando o debate político e a vida privada um teste de sobrevivência 24 horas por dia. E prestem bem atenção no que está acontecendo atualmente na Europa e nos EUA, com tantas greves e manifestações, pois elas são o legado desse teatro das ideias fabricadas para soarem revolucionárias, mas que não passam de estopim para uma futura guerra.
Ao fim, o que fica de legado dessa experiência cinematográfica quase profana é a certeza de que viver em sociedade virou um grande ato falho, travestido de nova ordem mundial (leia-se: corrupção). Tudo é fake no dia a dia online, até que se prove o contrário. E acreditem: ninguém quer provar o contrário, pois o falso, o imoral, o torto, o confuso e o ilógico são as novas modalidades do real. E sabe lá Deus quais serão as cenas dos próximos capítulos!
P.S: fiquei muito triste de ver a sala onde assisti o filme esvaziada, menos de 20 espectadores. Sinal de que a sociedade não está nem um pouco interessada em temas realmente relevantes para o cinema mundial. Preferem perder tempo esperando pelo lançamento do novo Vingadores e uma nova bobajada super-heróica, rasa e sem conteúdo. Depois reclamam do status do mundo e vêm falar nos seus perfis do medo do amanhã. É preciso acordar, enquanto é tempo. O cronômetro está em contagem regressiva.






