sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A bíblia dos outsiders


Imagine um livro que você, leitor, começou a ler umas 8, 9 vezes, e sempre teve que parar no meio do caminho por conta de problemas pessoais ou profissionais urgentes! E a consequência disso foi devolvê-lo à estante e só retomar a leitura meses, de repente mais de um ano depois. Pois então: no meu caso esse livro foi o romance On the road, de Jack Kerouac (que aqui no Brasil tem o título de Pé na estrada, embora desconfie que os brasileiros se refiram mais a ele em seu título original).

Agora, após finalmente conseguir lê-lo em sua integralidade - e sair em êxtase da experiência, que desde já adianto, não é para todos - posso afirmar: eu entendo o porquê de tantos adiamentos. Eles eram extremamente necessários para que eu não perdesse o foco, as intenções da trama. E isso transformou o meu trajeto folheando as páginas ainda mais prazeroso.

On the road é meio que a bíblia dos outsiders. E antes que me perguntem por aqui: o que é um outsider? Esclareço: tratam-se de indivíduos nada afeitos a bolhas culturais ou sistemas tradicionais de vida. Pessoas que não seguem uma estrutura ou organização definida. Cheguei a ler em alguns lugares a menção de "pessoas fora de um determinado grupo ou círculo social", mas na verdade eles podem até coabitar o mesmo espaço, conversar com opiniões divergentes, mas no fundo seguem seu estilo de vida própria e nada de fora conseguirá interferir em suas escolhas, não importa o quanto tentem. Acho mais justa essa percepção.

O romance de Kerouac, figura mais pensante e folclórica da chamada Beat generation, é uma grande viagem de redescoberta sobre os EUA. É possível ver aqui, durante toda a viagem percorrida por Sal Paradise (seu alter ego nessa história), uma clara intenção de rediscutir essa famosa ideia da "grande nação do mundo". E o que vemos não são lugares paradisíacos, altamente turísticos, escondidos pela beleza e pelo status. Pelo contrário: testemunhamos, isso sim, o lado B da terra do famigerado Tio Sam, com todos os seus problemas e cicatrizes nesse processo.

Ao redor de Paradise e também tirando suas próprias impressões sobre a jornada amigos de longa data que, muitas vezes, são representações de colegas da sua própria geração. Dean Moriarty, contraponto visceral ao protagonista durante as viagens feitas, nada mais é do que seu amigo Neal Cassidy; Carlo Marx, e sua visão de mundo melancólica, quase derrotista, é um paralelo com o poeta Allen Ginsberg, autor do também clássico O uivo; Old Bull Lee, mais velho, mentor daquela geração, viciado convicto, é a personificação de William Burroughs, criador de obras-primas como Almoço nu e Junky.

Além desses, mais conhecidos, há ainda as mulheres fortes ou autodestrutivas que cruzam seu caminho deixando importantes aprendizados para o restante de sua vida. Casos de Marylou, primeira esposa de Dean Moriarty, fogosa e polêmica ao extremo; Terry, a mexicana com quem Sal Paradise se envolve romanticamente na Califórnia; Camille, que lida a todo momento com a ideia de abandono por parte de seus parceiros anteriores e também instabilidade emocional; e Inez.

Trata-se de uma narrativa complexa, cheia de interrogações, interjeições e rupturas as mais diversas. Já ouvi alguns outros leitores me dizendo que, dentro do contexto literário e linguístico, On the road nos oferece as mesmas dificuldades de Ulisses, obra seminal do escritor James Joyce. E embora eu ache o livro de Joyce mais devastador nesse sentido (não à toa foi rotulado por críticos como "o momento em que o romance entrou em colapso"), eu devo confessar que há um fundo de razão nesse raciocínio. Como disse em parágrafo anterior, e repito: não é leitura para todo mundo, exige um bagagem cultural prévia interessante, mas quando você entende a premissa, o que está em jogo, vale cada segundo em frente ao livro.

E aproveito a deixa para indicar também (lógico, após o fim da leitura!) a também excelente adaptação cinematográfica feita pelo diretor brasileiro Walter Salles em 2012, com elenco majestoso, que traz Kristen Stewart como Marylou, Sam Riley na pele de Sal Paradise e Garrett Hedlund vivendo Dean Moriarty. Procurem! E olha que até o Francis Ford Coppola, de O poderoso chefão, tentou tirar a ideia do papel e não conseguiu.

No mais, passo a bola para vocês, admiradores deste blog: conheçam o livro, vejam o filme, se puderem procurem outras obras da Beat generation. Trata-se de uma galera que merece ser muito mais difundida do que é, sempre. Além de ser um dos últimos suspiros de originalidade real na literatura americana. E isso não se pode desprezar de jeito nenhum.


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O pianeiro


O feriado do dia do comerciário começou já entrando de sola. Sacanagem!

A MPB e o samba perderam ontem um de seus maiores expoentes. O Brasil diz adeus à Benito di Paula, um artista que a geração nerdola de hoje em dia jamais conseguirá entender (pelo fato de estar presa ao próprio imediatismo e alienação). Ninguém levou o samba para outro patamar como ele. Não mesmo! Aqui em casa ele sempre foi uma entidade musical. E por algum motivo que nunca soube explicar direito sempre vi nele um sósia do ator Al Pacino. É... Talvez eu esteja louco de pedra. Mas que importa? Ele era gigante.

Seu nome de batismo: Uday Vellozo. E chegou, no início da carreira, a se apresentar nos palcos como Dai Veloso. Nasceu em Nova Friburgo, filho de um ferroviário de ascendência cigana. Era flamenguista e imperiano roxo. Foi crooner na noite, tocou em boates e bailes e começou sua carreira em Santos. Não tinha formação musical (o que torna sua habilidade no piano ainda mais impressionante). Foi o inventor do chamado Samba Joia, que para muitos críticos musicais é o precursor do pagode romântico que virou febre nos anos 1990 com grupos como Raça negra, Só pra contrariar e Negritude júnior, dentre tantos outros. 

Se você, caro leitor, nunca em sua vida ouviu os hits 'Retalhos de Cetim', 'Charlie Brown' 'Do jeito que a vida quer' e 'Mulher Brasileira', pare de ler imediatamente. Este post definitivamente não é para você. É para entendidos do assunto, amantes da verdadeira música nacional, e não esse arremedo sonoro que lota estádios e festivais entra ano, sai ano.

Benito sofreu na mão dos velhos puristas e chegou a ser chamado de "traidor do samba", tudo porque decidiu inserir o piano clássico dentro de uma estrutura que eles consideravam proibida para novos elementos. Calou a todos. Seu samba, diferentemente de artistas como Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, segue um outro caminho, uma vertente própria, mais melódica, que lembra os antigos salões de baile. 

Muitos consideram Um Novo Samba, lançado em 1973 pela gravadora Copacabana, como seu melhor trabalho. Em seu álbum de estreia (de 1971) decidiu peitar os militares e gravou 'Apesar de você', de Chico Buarque. Resultado: teve a faixa censurada. Além do enorme público no Brasil, ele também conquistou fãs internacionais como Stevie Wonder, Sarah Vaughan e Ravi Shankar. Além disso, virou tema no desfile das escolas de samba quando se tornou enredo da Águia de Ouro no Carnaval paulistano de 2025. 

Encerro essa breve homenagem fazendo um pedido (por mais que pareça inútil, eu sei...) às novas gerações. Se permitam ouvir Benito. Ele já era uma das melhores coisas de nosso cancioneiro e merece todas as atenções no dia de hoje. E não somente ele, mas a verdadeira MPB, de sonoridade inigualável e ritmo inconfundível. Grande Uday! Fica com Deus, mestre!


domingo, 18 de outubro de 2026

Só pode existir um


Vi umas imagens do remake (desnecessário, é bom ir logo dizendo!) de Highlander - o guerreiro imortal. E que sentimento de tristeza me acometeu. A começar pela escolha de Henry Cavill - mais conhecido pelo papel de Superman nos longas de Zack Snyder - como Connor MacLeod. Considero esse artista um dos maiores canastrões da atual hollywood, um ator que só garante sua presença em projetos grandes por personificar, para o público feminino, um ideal de beleza e charme. Ele seria, guardadas as devidas proporções, Um Marlon Brando, mas sem o menor talento. Mas não somente isso: o clima do remake proposto, a paleta de cores, tudo me parece um tanto equivocado.

E eis que de repente, um colega me cutuca e diz: "Ainda mais se tratando de um longa que está comemorando 40 anos em 2026, não é mesmo?". Como assim? O longa de Russell Mulcahy está completando quatro décadas? Já tem esse tempo todo? Mas isso merece um post à altura. Logo, vamos a ele.

Highlander é daquelas experiências cinematográficas que me marcou profundamente na adolescência, e numa época em que a programação televisiva não decepcionava (como hoje em dia). O longa de Mulcahy - um diretor que merece ser redescoberto pelas novas gerações, procure por sua ficha no IMDb - nos traz a jornada de Connor MacLeod (Christopher Lambert), um viking pertencente a uma linhagem de homens imortais, que é treinado por Juan Sanchez Villa-Lobos (Sean Connery) e fica sabendo da morte de sua amada pelas mãos de seu maior inimigo, Kurgan (Clancy Brown).

Passados vários séculos e batalhas feéricas onde o lema entre eles é "só pode existir um" e a execução precisa acontecer arrancando a cabeça do adversário, MacLeod e Kurgan se reencontrarão para um duelo final. Contudo, uma pesquisadora encontrará um objeto que remete a eras passadas num desses campos de batalha e ficará intrigada com a figura de Connor, querendo saber mais sobre sua história.

Se em Star Wars nos anos 1970 pudemos testemunhar Luke Skywalker e Darth Vader duelando com seus sabres de luz, aqui o que vemos são batalhas mais clássicas, com espadas forjadas no velho metal, na mesma linha de produções como Conan, o bárbaro (John Millius) e Guerreiros de fogo (de Richard Fleischer). A principal diferença aqui é que a trama principal é deslocada para os dias atuais, dando ao longa, em alguns momentos, um aspecto meio de ficção-científica B.

Highlander foi um filme repleto de curiosidades, a começar pelas faíscas das espadas nas cenas de batalha. Como não havia tecnologia de última geração naquele tempo, eles acoplaram as espadas à baterias de carros para reproduzir o efeito pretendido. Há relatos de que a narração do longa - feita por Connery - teria sido produzida dentro do banheiro de um estúdio, para poder manter a acústica impecável. E o fato de Christopher Lambert não falar inglês na época também gerou empecilhos, pois ele precisou decorar suas falas de forma fonética.

Já no quesito trilha sonora, um adendo importante ao longa: as músicas foram produzidas pela banda de rock Queen, e se tornaram fenômenos na época. Na verdade, elas são com folga uma das melhores coisas do filme.

Ironia máxima: Embora muito se fale do longa hoje em dia, Highlander não foi um sucesso de bilheteria na época de seu lançamento. Pelo contrário. Foi um verdadeiro fiasco comercial e olha que ele nem teve um custo de produção tão alto assim (algo em torno de 16 e 20 milhões de dólares). Ele acabou por se tornar uma peça cult com o passar dos anos pelas gerações posteriores a que viram o filme nos cinemas. E, ao fim, o que precisa ficar de registro desse post é que se trata de um fenômeno televisivo gigantesco no Brasil, principalmente nos anos 1980 e 1990. Teve três continuações e um seriado spin-off, mas nenhum deles digno de maior menção (o que é uma pena).

Aproveitem! É possível encontrá-lo com facilidade (e dublado) no you tube.


terça-feira, 13 de outubro de 2026

Punk: 5 décadas de puro rock n' roll


Alguns "entendidos e especialistas" irão lhe dizer que foi dois anos antes ou um ano depois, mas para a grande maioria dos críticos que escrevem sobre música pop o movimento punk começou em 1976, ou seja, há cinco décadas. E acreditem: até hoje, nada do que foi feito dentro do gênero merece receber a alcunha de rock tanto quanto esses caras vistos como sem noção e arrogantes. Seja pela liberdade de criação, seja pela postura anti-mainstream que faz com que as bandas e o cancioneiros produzidos por eles se tornem exemplos de legitimidade.

Há, porém, que se levar em consideração três fatores que motivaram (e muito) o surgimento e a ascensão do punk, tanto entre britânicos como americanos: 1) a crise econômica que pairava no período; 2) as altas taxas de desemprego entre as classes mais jovens; e principalmente 3) uma insatisfação social generalizada com os rumos do mundo naquele momento específico. Ponto. Estava ali instaurado um catalisador fortíssimo, responsável pela cultura do "Do it yourself" (faça você mesmo!). Era preciso, portanto, criar sua própria possibilidade de subsistência, pois do contrário aquela classe minoritária permaneceria eternamente no ostracismo. E foi exatamente o que fez aquele grupo de jovens rebeldes e sem papas na língua.

E não somente a música em si. O movimento punk também introduziu na cultura pop o segmento dos fanzines (muito popular aqui no Brasil nos anos 1990), trazendo conceitos como improvisação e barateamento na produção à tona.

O álbum homônimo do Ramones (1976) é considerado por muitos como o pontapé inicial do movimento. Contudo, há um grupo que prefere acreditar que Never mind the bollocks, here's the Sex Pistols (1977) tem uma importância maior, por se tratar da banda mais icônica daquele período para uma grande parcela de ouvintes. Discussões à parte, vale a pena, caro ouvinte, ouvir os dois seguidamente para entender a superfície daquele momento.

Roupas rasgadas, cabelos coloridos até dizer chega, penduricalhos e adornos os mais diversos, tudo junto compondo uma figura andrógina, completamente desplugada daquela realidade insana e monetariamente difícil. Some a isso as vozes gritadas de alguns vocalistas e o enfrentamento, a postura não somente cool, como também atrevida em todos os lugares (fosse em cima do palco ou não), e bum! nascia ali um fenômeno certo e que deixou raízes profundas no rock n' roll mundial.

Sex Pistols, Ramones, Black Flag, Bad Religion, The Clash, Dead Kennedys, Misfits, Green Day, The Slits (a primeira banda totalmente feminina do gênero), MC5, Iggy pop and The stooges, New York Dolls, Agent Orange, The Adicts, The Undertones, The Hives, Avail, Anti-Flag, The Ataris, Avail, The Boomtown Rats, Asta Kask, Angelic Upstars... A lista é imensa e somente a pesquisa já valeria por um livro autoral ou, no mínimo, uma tese de doutorado bem escrita e defendida. Todos eles brincaram, ousaram, gritaram, se desnudaram pelo punk. E mais: fazendo com que suas plateias embarcassem na onda com a mesma fúria e proporção.

Aqui no Brasil tivemos também uma cena interessantíssima, com grupos como Os inocentes, Ratos do porão, Os replicantes, Garotos podres, Porcos cegos, Restos de nada, Cólera, Tequila baby, Aborto elétrico (que gerou, posteriormente, as bandas Legião Urbana e Capital Inicial), Submundo, As mercenárias, etc etc etc. Recomendo os ainda crus ou novatos no assunto que procurem pelo excelente documentário Botinada – A origem do punk no Brasil, dirigido por Gastão Moreira (Ex-VJ da MTV) e com o Clemente (vocalista dos Inocentes) na produção. É fácil de encontrá-lo no you tube em qualidade HD e vale cada segundo.

E pensar que depois de toda essa revolução, o que vemos hoje em dia no segmento rock é um festival de estrelas vazias, cantando uma musiquinha mais pop que rock, de doer, e ainda por cima cheia de marra, achando-se a grande inovação do momento. Negros tempos! Que este post fique no imaginário de quem o ler como um grande gatilho, para que se procurem os discos da época (tem muita coisa boa, remasterizada, dando sopa na internet) e tentem entender o que significou de fato aquela postura revolucionária que continua na mente das pessoas depois de tanto tempo. Ouçam! ouçam o máximo que puderem! O rock em seu estado mais puro agradece.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A reconstrutora


Parece estranho falar sobre uma escritora que você nunca leu, e é. Contudo, achei curiosíssima - para dizer o mínimo - a escolha da autora canadense Anne Carson como vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2026. E, por incrível que pareça, seu modelo de trabalho diz muito sobre o mundo no qual estamos vivendo: um mundo cada vez mais interessado em desconstruir (ou, preferencialmente, destruir) tudo. 

Mas quem é Anne Carson? (Detalhe irônico: lembro de já ter ouvido esse nome antes quando frequentava as bibliotecas de bairro atrás de livros para empréstimo, mas sem encontrar propriamente uma de suas obras). Anne é nascida em Toronto, especialista em grego, lecionou nas universidades McGill, Michigan e Princeton e é ainda uma tradutora de mão cheia, tanto que já meteu a mão no trabalho de autores como Safo, Eurípedes e Sófocles.

Entretanto, o maior mérito de sua carreira - seja como acadêmica, seja como ficcionista - é o estilo empregado. Guardem esta palavra: estilo.  

E mais outra (que quase eu me esqueço de postar aqui): experimentalismo. É na mistura de formas e linguagens que reside a maior força de sua narrativa. Poesia, prosa, ensaio, tradução, diários pessoais, tratados filosóficos, tudo converge criando uma literatura desafiadora que rompe com qualquer ideia ou definição de clássico. Esqueçam padrões, esqueçam literatura rebuscada, pomposa, elitista. Anne gosta de causar, de confundir, de levar seu leitor para outros parâmetros, digamos, bem mais ousados. 

Entre seus trabalhos mais conhecidos (e há nove deles publicados no Brasil; procurem!), encontram-se o "romance em versos" Autobiografia do Vermelho; Eros, o doce-amargo; A beleza do marido (que lhe valeu o T.S. Eliot Prize; aliás, foi a primeira mulher a conquistá-lo) e O método Albertine. 

Informação curiosa sobre Anne: ela convive com o Mal de Parkinson desde agosto de 2024. Resultado: a condição afetou de forma considerável sua caligrafia e, principalmente, sua rotina de escrita. Acham que ela encerrou as atividades e foi cuidar só da própria vida? Nada. Ela decidiu, isso sim, praticar o boxe, por conta de benefícios motores como agilidade, coordenação motora, força muscular e equilíbrio postural. Tudo para continuar escrevendo.

Ao fim do anúncio da Academia Sueca e a revelação de Anne como a autora desse ano, fico com a impressão mais do que clara de que o Nobel premiou em 2026 uma reconstrutora, não somente da forma de narrar, desapegada de fronteiras e normatismos, como também da própria vida. Ela é uma lutadora por natureza, e só por isso já vale a pena dar uma conferida na obra literária dela. Fica aqui a minha sugestão (e repetindo: olhe que eu nem li nada dela ainda). Adorei.  


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Memórias de uma libertina


Depois do ano espetacular que a atriz Fernanda Torres teve no Brasil e no Exterior - com a vitória como melhor atriz no Globo de Ouro e Ainda estou aqui vencendo o Oscar de melhor filme internacional - ela decidiu retornar com uma nova temporada teatral de A casa dos budas ditosos, baseado em romance homônimo do escritor (e imortal da ABL) João Ubaldo Ribeiro. E sempre que isso acontece eu repenso a obra literária em questão, que é magnífica em suas ousadas intenções.

E vê-la no palco novamente, sempre se reinventando e remodelando o texto de Ubaldo, é extremamente gratificante. Chegou a vazar um vídeo com a apresentação dela no you tube (não sei se ainda se encontra por lá). Quem puder, dê uma conferida. Mas por que, caros leitores desse descompromissado blog, A casa dos budas ditosos, tanto livro quando adaptação teatral, gera tanta comoção e interesse?

Simples. Porque ele foca em ousadias que parecem cada dia mais relevantes, principalmente em tempos tão conservadoramente babacas e autodestrutivos como os atuais. Talvez sua apresentação seja um dos últimos resquícios de sanidade mental numa sociedade que prefere se esconder atrás de personagens cafonas, moralistas e enfadonhos ao excesso.

Acompanhamos a trajetória corajosa (e tresloucada) de CLB, uma senhora baiana de 68 anos, que decide narrar - não, confessar - suas aventuras sexuais ao longo da vida, com requintes de deboche e ironia pura. Não há espaço aqui, um momento sequer, para o mínimo sentimento de culpa. CLB é uma mulher à frente do seu tempo numa época em que o máximo que se podia fazer sendo moderna era usar uma minissaia e isso por si só já dava muito pano pra manga e sermões homéricos.

Da iniciação sexual às orgias e aventuras as mais distintas, com direito à envolvimento erótico até com parentes, CLB desnuda suas experiências íntimas com a mesma facilidade de uma garota de programa da zona sul carioca ou uma prostituta da Vila Mimosa. Ou seja: sem rodeios, na lata, apontando inclusive o falso moralismo de seus amantes.

No palco, onde Fernanda incorpora a libertina que exulta suas memórias, ela dá um show à parte, provocando gargalhadas as mais diversas na plateia. Não consigo imaginar outra atriz para fazer a personagem (talvez, também, pelo fato dela já ter incorporado uma tresloucada do mesmo nível quando interpretou a Vani da série de tv Os normais). O romance de Ubaldo fez parte originalmente da coleção Plenos pecados da Editora Objetiva e representava o pecado da luxúria. E é tão afeito ao humor ácido, que certamente faria sucesso também como stand up, se tentassem.

Ao fim da sessão no teatro (e mais uma releitura do romance), me fica a impressão que o livro virou uma espécie de patrimônio cultural do país. Ela própria disse em entrevista que já entendeu que esse será um espetáculo que ele terá de retomar até o fim da vida, pois as novas gerações irão querer dialogar com essa história também. E que assim seja! o texto é ótimo, a atriz também, e quem sai ganhando com isso é o público das salas, que não fica refém de comediantes canastrões e suas prepotências costumeiras.

Quem não foi ver (ou rever) ainda essa nova temporada, não perca a chance. Continua atualíssimo. E os moralistas? Que se descabelem de raiva!


sábado, 3 de outubro de 2026

A voz (e o puro soul) de Stevie Maravilha


Desço a barra de rolagem deste blog para investigar algumas coisas (algo que costumo fazer com frequência, até para saber sobre o que eu estou escrevendo aqui - ou não) e me deparo com a triste  notícia de que, em mais de 700 postagens, nunca falei do cantor e compositor Stevie Wonder, um artista fetiche dentro da minha formação musical. Como assim? Isso só pode ser piada de mau gosto ou um problema cognitivo sério da minha parte.

Ao mesmo tempo vejo imagens em minha rede social dizendo que Songs in the key of life, um de seus trabalhos mais apoteóticos, está completando 50 anos de existência em 2026. Quer motivo melhor do que esse para falar de Stevie Maravilha e seu cancioneiro irretocável? Então... Vamos lá!

Songs in the key of life tem muito do que tornou Stevie uma lenda da música (tanto na Motown, que o lançou, quanto depois dela). A começar pela faixa de abertura, a balada "Love's in need of love today". Procure por trilhas sonoras de clássicos do cinema dos anos 1980 ou alguma produção do Spike Lee e, certamente, você a encontrará figurando com todo o garbo. Outra boa pedida é "Contusion" (uma dica, aliás, para todo o álbum: prestem atenção na cozinha sonora que acompanha o cantor). É groove puro, raiz, da melhor qualidade.

Nos primeiros acordes de "Sir Duke" eu fico apaixonado por me (re)lembrar de porquê essa é um de minhas canções favoritas do artista. E eu sempre ouço ela mais de uma vez, não importa o que eu esteja fazendo naquele momento. É obrigatório. "If it's magic" vem para dar uma quebrada no ritmo, mas logo em seguida ele retorna em excelente forma com "As" (uma outra dica, de fã enjoado: procurem na internet pelo cover dessa música gravado por Mary J. Blidge e George Michael. É maravilhoso também!).

Acham que acabou? Nada. Ele tira da cartola a trinca "Another star" (e mais uma vez eu aviso: fiquem de olho na banda afiada), "I wish" - um furacão em forma de melodia e talento - e, claro, "Knocks me off my feet". E você, caro ouvinte, já estaria realizado por si só, quando ele emenda com "Pastime Paradise", cuja primeira versão que ouvi foi de uma trilha sonora para o filme Mentes perigosas, com a atriz Michelle Pfeiffer na pele de uma professora que precisa encarar uma turma rebelde num desses muitos colégios barra-pesada dos EUA.

Ufa! Agora sim, e... Agora sim o quê? Esqueceu de "Isn't she lovely" e sua gaita descomunal? De "Ebony eyes", clássico eterno de estações de rádio como Antena 1 e JB FM? Pelo amor de Deus, ouça essa relíquia musical mais de uma vez! Você deve isso, no mínimo, a esse gigante da música.

Foi por causa deste álbum que eu me tornei fã de Stevie Wonder para o resto da vida. Mesmo que ele nunca mais lance nada novo, mesmo que o próximo álbum dele (se houver) só seja lançado daqui a uma década, pelo que ele fez aqui - e com folga, como se não estivesse fazendo nada de mais - eu já aguardaria, cheio de expectativa. E quem viu o que ele fez ao vivo quando esteve aqui no Rock in Rio em 2011, vale sempre a pena ouvir algo novo dele. Repito: sempre.

Ficou curioso? Então, como eu digo sempre nesses posts sobre música e artistas que eu admiro desde sempre: toma vergonha na cara e vai lá ouvir, no you tube, no Spotify, no Deezer, em vinil, cassete, CD, DVD, onde você quiser. Mas houve, enquanto é tempo. Enquanto ainda é possível. Entendeu?