domingo, 24 de maio de 2026

Muito mais que uma playlist para salvar um domingo cinza


Que a poesia está em todos os lugares, em todos os sentimentos, nas pequenas (e grandes) coisas do mundo, disso nunca tive a menor dúvida. Não importa o quão tenebrosa seja a realidade atualmente. É possível continuar sonhando em meio às adversidades diárias. O que importa: é continuar tentando, nadando contra a maré, insistindo, não desistindo. 

E por que digo isso? Vejo o domingo melancólico que foi hoje, praticamente cinza, sem viço. Parecia completamente estragado. Um dia improdutivo a mais para esse 2026 esquisito até aqui. E então, como num passe de mágica, aparece no comecinho da tarde Paulo Miklos, o ex-titã, músico e compositor estupendo, e me apresenta no youtube ao adorável Coisas da vida. Que eu até poderia resumir como "uma playlist para salvar o meu dia". Porém, seu quinto álbum solo de estúdio, é bem mais do que isso. Ele é necessário, em tempos tão amargos. 

É uma alegria tremenda conviver com o Miklos pós-Titãs, disposto a novos caminhos, novos voos, ou mesmo reeditando clássicos. E aqui há covers de canções inesquecíveis. 

Ele abre seu disco se mostrando preocupado com o que estamos fazendo com o planeta terra, cita Jonas e baleia da bíblia sagrada, mostra que precisamos acreditar mais em nós mesmos, seres humanos. Enfim: deixa claro que a batalha (ainda) não está perdida. Insatisfeito, não se basta com essa breve mensagem que bem poderia soar aos ouvidos dos execráveis moralistas de plantão como um panfleto autoajuda chato, repetitivo. 

E eis que ele enfileira uma trinca de respeito com as ótimas "Quero voltar pra Bahia", "Saudosa Maloca" (de Adoniran Barbosa, que o próprio Miklos já deixou claro em sua carreira ser um notório fã) e "Xibom bombom" (com seu toque de denúncia aos tempos atuais e ao eterno capitalismo selvagem que nos persegue). "Cachorro babucho" é apenas um tira-gosto para o prato principal, que vem em dobro com "Não existe amor em SP" e a eterna hit parade "Evidências" (clássico na voz da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó).

Mas acham que acabou, assim, desse jeito? Ah quem dera! O eterno roqueiro que habita dentro de Paulo não poderia terminar esse álbum de outra forma, que não fosse apresentando uma nova versão para um clássico. O escolhido é "O tempo não para", música síntese de Cazuza, o poeta do rock. Agora sim, posso fechar a tampa e eu a fecho, mas já saudoso, sabendo de antemão que certamente ouvirei o disco novamente nos próximos dias, para que fique fixado em minha mente sua mensagem.

Muito mais do que uma reles playlist para salvar um domingo acinzentado, sem sentido, Coisas da vida me ganhou por mostrar que o simples, mas bem feito, anda em falta na MPB, mais que isso: no mercado fonográfico atual. E ele pode ser bem mais poderoso do que muita bobagem estilosa que anda em voga atualmente. É apenas uma questão de se comprometer. O problema: quem é que se compromete com alguma coisa em meio a essa realidade louca proposta pela contemporaneidade? Pois é... O Paulo fez exatamente isso! e fica aqui o meu muito obrigado a ele.   

sábado, 16 de maio de 2026

A epopeia linguística da literatura brasileira


A expressão "há livros e livros" nunca foi tão verdadeira. Principalmente depois que você lê (e, de preferência, relê) uma obra-prima como Grande sertão: veredas, do escritor João Guimarães Rosa, que completa inacreditáveis 70 anos de existência em 2026 sem perder um milímetro de sua ternura e sua capacidade de se reinventar. E depois de ler esse registro literário colossal, eu passei a ter uma certeza: Guimarães merece seu lugar no olimpo da literatura brasileira ao lado do também magistral Machado de Assis - sim, os críticos sempre ficam putos quando eu repito essa frase...

Acompanhamos a trajetória de Riobaldo como acompanhamos uma canção amarga, porém necessária para entendermos os rumos desse país contraditório. E ao longo dessa jornada ele enfrentará não só percalços e inimigos os mais diversos, como um amor fora da curva e principalmente a dureza do sertão, que praticamente fala aqui, como um personagem contraditório e raivoso. 

E por falar em personagens - Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes (o algoz derradeiro desse quase anti-herói diferente de tudo que já se viu em nossas letras), Zé Bebelo, Ricardão, etc - eles compõem um grande ensaio sobre a dor, o interesse, a ganância, o eterno maniqueísmo que move o nordeste brasileiro, dentre outras temáticas tão ardilosas quanto. Chamar Grande sertão: veredas de mero romance ou saga não explica sequer a superfície do que é esse relato gigantesco, um dos maiores de toda a nossa bibliografia. 

Um dado triste: às vezes eu tenho a sensação de que Guimarães Rosa só será lembrado, citado e reconhecido como merece de fato no exterior. Há quem, inclusive, chame o livro de "o monte Everest" da tradução, pelo trabalho de quase recriar a obra ao traduzi-la para outros idiomas. Desde sua primeira publicação, em 1964, na Alemanha, o códex linguístico proposto por Rosa passou a gerar um imenso fascínio internacional. E por mais que existam aquelas pessoas que reclamem da necessidade de qualquer obra ou artista brasileiro ser reconhecido no exterior para ter real valor dentro do país, nesse caso específico acho uma honra o reconhecimento e admiração. 

Tive uma professora de língua portuguesa na universidade que dizia ser Grande sertão: veredas um dos maiores desafios de leitura da história da literatura mundial, mas que quando você insistia no duelo com o autor e pegava no tranco não queria mais saber de outra vida, muito menos experiências literárias fáceis e gratuitas novamente. E ela estava coberta de razão. Penei para compreender a mente e a narrativa de Rosa, abandonei a obra umas seis ou sete vezes ao longo da vida, mas quando finalmente captei seu espírito livre e compreendi suas intenções foi um deleite à parte. 

Uma certeza é preciso ser dita ao fim desse post: não se fazem mais (e, provavelmente, nunca mais se farão) obras literárias como Grande sertão: veredas. Primeiro, porque a sociedade brasileira se mostra cada dia mais iletrada e desinteressada pelo conhecimento. E segundo, por fazer parte de um mundo que parece cada dia mais distante e chamado de ilusório por uma geração que se esmera dia a dia por desmentir o passado, a utopia, a denúncia, e mesmo o recomeçar.  

Dito isto, para quem ainda não leu a maior epopeia linguística da história da literatura nacional, aproveite a chance (e a data comemorativa). Vocês não fazem a menor ideia do que estão perdendo. Não mesmo. Ah! um rápido P.S (praticamente um aviso de um leitor apaixonado): fujam dessa adaptação cinematográfica recente que o diretor Guel Arraes fez do romance. Ela diminui - e muito! - a grandeza e a importância da obra. 


terça-feira, 5 de maio de 2026

O produtor musical da era inesquecível da tv


Já faz tempo que não assisto tv aberta, canal nenhum, e por culpa da própria televisão, que se colocou a serviço do gratuito, do vulgar, do chulo, da falta de talento e desse mundo vazio produzido por influenciadores e canastrões midiáticos. Sou de uma época em que televisão era sinônimo de grandes realizadores e produtores (que o diga a era do Boni na Rede Globo!). Sentava em frente ao aparelho para me encantar ou flertar com o absurdo e não para aplaudir isso que hoje é vendido como show de realidade. 

Logo, ver a notícia do falecimento do produtor Guto Graça Mello, aos 78 anos, me traz a certeza de que a tv vai desaparecendo de vez, e aos poucos. Ele fez parte de uma era inesquecível da telinha. Como ouvir o seu nome e não se lembrar da trilha sonora do fantástico, que ele criou numa época em que o veículo vendia nostalgia? Seu legado para o meio televisivo é muito mais do que a criação de produtos que se perpetuaram. Ele está no âmbito do imaginário coletivo.

Lembrar de Guto é lembrar de mim ainda novo assistindo aos especiais Pirlimpimpim e Plunct, Plact, Zuuum (que sempre me traz à mente a lembrança do eterno Raul Seixas, o maluco beleza, na pele do carimbador maluco). Meu pai chegou, na época, a comprar os vinis com a trilha, que eu ouvia e reouvia a perder de vista. Víamos na tela Baby Consuelo - hoje do Brasil - como Emília, Jorge Ben (hoje Benjor) como Saci, entre outras figuras eternas da MPB desfilando canções que ecoavam na mente de inúmeras crianças e jovens. 

E por falar em MPB, Guto também é um capítulo à parte na história da discografia nacional. Produziu mais de 500 álbuns icônicos entre as décadas de 1970 e 1980, tanto na gravadora Som Livre como para a própria Rede Globo. 

Dentre os artistas com quem colaborou, grandes nomes do nosso cancioneiro como Rita Lee, Moraes Moreira, Guilherme Arantes, Sandra de Sá, Alceu Valença, Elba Ramalho e Gilberto Gil. Uma tia minha possuía em vinil (sim, eram outros tempos!) um exemplar de Trem azul, da cantora Elis Regina, que eu sempre ouvia quando a visitava. Acredito que foi uma das primeiras experiências musicais que eu tive fora da minha zona de conforto habitual (eu era fã de Legião Urbana, Titãs e Barão Vermelho) e após a primeira audição fui querer saber mais sobre música popular brasileira e não parei mais. 

Entre as trilhas sonoras de novelas que marcaram época pelas mãos dele vale a pena citar as de Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia, Estúpido Cupido, Pai herói e Cavalo de Aço (esta última foi alvo de uma curiosidade minha por quase toda a adolescência, pois ficava intrigado com o título). Ele conseguiu transformar até a apresentadora Xuxa num fenômeno de vendas do mercado fonográfico, chegando a produzir mais de 3 milhões de cópias. 

Embora uma figura multimídia, Graça Mello foi muito conhecido dentro do setor como um "caça-talentos silencioso". Entre seus assistentes dentro da Som Livre, dois nomes que viraram pilares do rock nacional: Cazuza (como assessor de imprensa) e Lulu Santos (responsável por ouvir as fitas demo dos chamados "novos artistas"). Ele também assinou a trilha sonora de mais de 30 longas-metragens cinematográficos, dentre eles produções como Cazuza - o tempo não para, Se eu fosse você e o filme espírita Nosso lar.

Sua partida não só empobrece ainda mais a cultura brasileira como alimenta ainda mais a decadência televisiva vigente. Uma pena! Precisamos de mais homens de visão como ele nas telas - e não essa geleia rançosa atual. Fica com Deus, mestre!

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Sganzerla, 80


Se vivo ainda fosse, Rogerio Sganzerla estaria comemorando hoje seus 80 anos. Oito décadas de uma das trajetórias mais fascinantes e extraordinárias da história do cinema brasileiro. E quem diz que eu exagero é porque não conhece a cinematografia e, principalmente, a personalidade do diretor e produtor de cinema que era a cara (e a alma) do cinema marginal. De crítico de cinema do Estado de SP (por 4 anos) à realizador de filmes bombásticos, ele aprontou das melhores peripécias que eu já tive o prazer de assistir na tela.

Sganzerla fez parte de uma geração que decidiu questionar os rumos tomados pelo cinema novo. Queria outra proposta, outra maneira de pensar a sétima arte, longe da espetacularização que vinha acompanhando o segmento liderado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cia. O caminho encontrado foi aquele que ficou conhecido em São Paulo como Cinema da boca do lixo. Logo, baseado numa estética mais bruta, mais suja, em contato com a realidade urbana. 

Seus longas eram uma mistura de sátira, subversão, colagens as mais diversas, irreverência para dar e vender, trilhas radiofônicas, humor ácido, linguagem fragmentada e muita crítica social. Alguns críticos e especialistas em cinema gostam de dividir sua obra fílmica em dois grandes segmentos: as ficções caóticas e os filmes-ensaio. Entretanto, ah quem dera fosse fácil explicar em poucas palavras o que foi o seu trabalho audiovisual. 

E ele chega mostrando a que veio logo no segundo filme, o extraordinário O bandido da luz vermelha, retrato de um país que em nada difere deste, controverso, no qual vivemos hoje. A história da caçada ao famoso ladrão de residências ganha contornos épicos com uma montagem e um roteiro frenético, cheio de melindres, e temáticas como manipulação da mídia, poder político e uma violência urbana com fundo anárquico e experimental. Aliás, experimental é um adjetivo que explica bem Rogerio, em todas as suas vertentes e provocações. 

Deixo aqui, inclusive, uma dica: procure no you tube um vídeo chamado "Rogerio Sganzerla manda recado ao Brasil". Em pouco mais de 30 segundos ele mostra toda sua malícia e postura antenada diante do país e do mundo, incitando o público a acordar para a realidade. Aposto que quem nunca viu nada dele, depois que conferir esse breve "teaser" vai procurar por toda a sua filmografia!

Uma das paixões dele era o diretor americano Orson Welles (também um transgressor por excelência). Tanto que Sganzerla realizou a trinca Nem tudo é verdade, A linguagem de Orson Welles e Tudo é Brasil, uma trilogia inspirada no cineasta americano e suas inúmeras intervenções e propostas estéticas. 

Em 1970 fundou, junto com seu parceiro Júlio Bressane, a Belair e em pleno período militar entregaram sete filmes em quatro meses, uma façanha até hoje alardeada aos quatro ventos por qualquer cinéfilo de bom gosto que se preze. E ali, em meio àquela tentativa de virar a estética cinematográfica de cabeça para baixo, podemos perceber o melhor do seu cinema. Seus filmes: a) desafiaram a narrativa considerada linear; b) tiveram influência do cinema noir, da chanchada, do tropicalismo; c) e tiveram diálogos rápidos, irônicos e cheios de citações. 

Mesmo nos anos 2000, com seus trabalhos experimentais, feitos à base de poucos recursos, mas muita ousadia visual, Sganzerla deu provas de que era um exemplar raro dentro do audiovisual brasileiro. E hoje, mais do que nunca, faltam mentes brilhantes como ele no mercado exibidor, um visionário nato na arte de produzir narrativas em formato película (e acredito, sem duvidar, que ele guardaria o digital no bolso também). 

Recomendo de olhos fechados a qualquer leitor deste post que assistam (e reassistam), além do já citado O bandido da luz vermelha, os também magníficos A mulher de todos; Sem essa, aranha; Copacabana mon amour; O abismo; O signo do caos e todos os curtas que vocês conseguirem encontrar na internet. Aposto a grana que for como não vão se arrepender!

Se houve um camaleão do cinema tupiniquim, esse cara foi o Rogerio Sganzerla e ninguém vai conseguir me provar do contrário. Saudades, mestre!


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Roger Corman, 100 anos


Abril chegando ao fim e quase me esqueço de comentar aqui acerca do centenário do extraordinário diretor e produtor de cinema Roger Corman. Talvez pelo fato de que ele tenha vivido quase 100 anos (o artista faleceu em 2024), eu tenha pensado: "já falei sobre ele não faz muito tempo, então...". Mas estava completamente enganado e por pouco não deixei passar a data em branco - o que seria uma vergonha da minha parte. 

Roger Corman era engenheiro de formação (assim como seu pai), mas sua maior característica, com certeza, foi a capacidade de unir seu intelecto a um mundo visto por muitos como mórbido. Ninguém realizou o macabro antes dele da mesma forma. Ver seus filmes - tanto os que ele dirigiu quanto aqueles em que atuou nos bastidores - era se deparar com um grande ensaio sobre o insólito. 

Passeou dos clássicos (seu Frankenstein: o monstro das trevas, de 1990, com Raul Julia e William Hurt, que não sai da minha mente até hoje, é um deleite para qualquer cinéfilo que se preze) à modernidade e conseguiu tirar leite de pedra, muitas vezes com orçamentos irrisórios. Foi o responsável por dar as primeiras oportunidades de trabalho a gigantes do cinema como Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, e brincou com estilos e referências até dizer chega, numa época em que hollywood não sobrevivia de megalançamentos e projetos caríssimos. 

Entre os longas que dirigiu adoro sempre citar O corvo - adaptação do poema clássico de Edgar Allan Poe -, O solar maldito (o filme que me apresentou ao mestre do horror Vincent Price), A loja dos horrores (com um jovem Jack Nicholson em início de carreira), O emissário do outro mundo e, claro, o mais do que cult Mercenários das galáxias (uma espécie de contrapartida ao gigantesco Star Wars, de George Lucas).

Entretanto sua carreira cinematográfica está repleta de criaturas dantescas, seres sobrenaturais, fábulas amedrontadoras, bichos pré-históricos, sagas medievais e outras invencionices que ele ia bolando ao sabor dos acontecimentos. Se hoje temos figuras dentro da indústria como Guillermo del Toro e, mais recentemente, Robert Eggers (para ficar em dois realizadores mais afeitos ao universo fantástico), acredito que eles não seriam possíveis antes do pioneirismo proposto por Corman. 

Seu maior legado para a história do cinema, não tenho a menor dúvida, foi ter provado por a mais b que sucesso não é sinônimo de orçamento ou produção estratosférica. Assim como aconteceu quando conheci o cinema de John Cassavetes (outro baluarte do cinema como arte, muito mais do que negócio), Corman me mostrou que sétima arte e desejo andam de mãos dadas, muito mais do que ter um estúdio todo-poderoso por trás para realizar os seus sonhos. E que nem sempre design de produção se traduz em bilheteria. 

E que, onde quer que ele esteja nesse exato momento, que ele saiba que sua história - e carreira de sucesso - jamais serão esquecidas pelos verdadeiros cinéfilos de plantão (como eu). P.S: A hollywood contemporânea nunca precisou tanto de alguém como ele, de seu deboche, de sua postura anárquica diante do mercado exibidor, quanto agora. Porém, onde encontrar outro mestre desses num cinema que agora se esconde atrás de tecnologias de última geração e o "mundo mágico" proposto pela inteligência artificial? Eis a questão.


sexta-feira, 17 de abril de 2026

O mão-santa


O basquete brasileiro, o esporte nacional como um todo, o Brasil, perderam hoje uma lenda. Uma pessoa que, na minha cabeça, é tão gigantesco quanto Pelé, Ayrton Senna, Zico, a geração olímpica do vôlei, nossos ginastas, judocas, nadadores, velocistas e tudo de mais genial que nós já tivemos na história do desporto. Falo de Oscar Schmidt, que nos deixou aos míseros 68 anos. O mão-santa, como a mídia gostava de se referir a ele, vai deixar saudade - e muita!

A história de Oscar é como a de muitos garotos que só querem uma oportunidade para mostrar o seu valor e, com isso, poder mudar de vida. Encontrou sua chance na adolescência com Zezão, no colégio salesiano e, consequentemente, com Laurindo Miura, no Clube Unidade da Vizinhança. Mas, como todo gênio que se preze, isso ainda era pouco, quase nada, para alguém com um talento como o dele. Palmeiras, Sírio, América-RJ, Juvecaserta (Itália), Pavia (Itália), Valladolid (Espanha), Corinthians, Bandeirantes, Mackenzie e Flamengo também conheceriam seu talento e - claro - suas cestas milagrosas.

Sempre que eu lembrar dele, me lembrarei de 1987. Eu, com apenas 11 anos de idade, em frente a tv, vendo a seleção brasileira desbancar a toda poderosa seleção norte-americana no Pan-americano de Indianápolis (detalhe: na terra dos caras). 120 a 115 para a nossa seleção que, a partir dali, revolucionou o nosso basquete e o jeito de jogar aquele esporte daí em diante. Não à toa os EUA, anos depois, passaram a chamar os profissionais para as competições. Ou seja: o jogo não seria mais o mesmo. 

Enquanto muitos atletas sonham com a NBA, Oscar decidiu seguir seu coração e dizer não. Ao saber que indo para a liga profissional americana não poderia representar mais a sua seleção, preferiu recusar (algo hoje, visto por muitos como inimaginável). Ele decidiu acreditar na sua própria história, no legado que poderia produzir. 

Era mágico vê-lo em quadra. Mesmo que o jogo em questão fosse de madrugada, eu parava tudo o que estava fazendo para assisti-lo. Ele personificava o nosso basquete. Bons tempos em que dava orgulho acordar cedo para ver um gigante performando. 

Quando ele foi reconhecido pelo Hall da fama do basquete fui correndo assistir seu pronunciamento. Ele relembrou do começo da carreira, das dificuldades, os treinamentos exóticos, das derrotas não esquecidas e, principalmente, do legado que o basquete lhe entregou. Parei de assistir a modalidade nos últimos anos, pois sinto falta dessa entrega, dessa dedicação total à carreira (crítica que eu também faço a outros esportes, como a seleção brasileira de futebol, por exemplo). Se eu não puder acompanhar e torcer desse jeito, prefiro não ver. Oscar me ensinou isso. 

E é com enorme tristeza que hoje preciso dizer adeus a um capítulo extraordinário da nossa história. Oscar, nunca te vi, nunca cruzei com você na rua, mas sempre te admirei e acompanhei sua jornada, e isso ficará gravado em mim para o resto da vida. Onde quer que você esteja, meu irmão, fica em paz. Você era foda. E nada vai mudar isso. E que o basquete brasileiro reencontre seu caminho de glória para poder homenageá-lo como você merece.  


quarta-feira, 15 de abril de 2026

A maternidade também é um campo de batalha


Se tem uma coisa que eu não entendo, nunca entendi, na humanidade, é essa mania que certos jovens têm de casar, construir família cedo demais, às vezes antes de chegar à maioridade. Abrem mão do próprio ato de viver, de enfrentar os obstáculos diários para acreditar na eterna ilusão do "encontrei a pessoa da minha vida". No final da experiência, o que sobra é aquele sentimento de "meti os pés pelas mãos" ou o famoso "Eu era feliz e não sabia".

Essa semana assisti (atrasado) à Morra, amor, filme da diretora Lynne Ramsay - que já havia chamado a minha atenção de forma impactante com o seu extraordinário Precisamos falar sobre o Kevin - e vivenciei uma interessante desconstrução sobre isso, essa obsessão da nova geração em querer amadurecer cedo em demasia. E o resultado é ainda melhor do que aquilo que eu via nos trailers.

Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) são o estereótipo vivo - seja em que país for - do casal prematuro, que quer antecipar passos importantíssimos antes de sequer viver a própria vida. Casam-se cedo demais e, consequentemente, tem um filho quando na verdade deveriam estar tentando, antes de tudo, entender o que é o mundo. A relação entre o casal parece um atirar-se aleatoriamente de para-quedas rumo a lugar nenhum. Mas com a responsabilidade de criar um filho tudo muda, na verdade, tudo piora. E a consequência disso é o desespero, o delírio, por vezes a psicose.

Jackson, como a grande maioria dos homens, encontra um novo estilo de vida ao perceber que as dificuldades de assumir a paternidade. Esconde-se atrás do trabalho e, claro, amantes. Já Grace precisa lidar com a parte mais difícil do casal: dar conta praticamente sozinha da criação da prole. O resultado? Ela pira, perde completamente a noção de realidade, e nem sua própria família é capaz de lhe apontar um norte, um porto seguro mínimo que seja.

Sim, meus caros leitores! Por mais que eu seja homem e não tenha filhos, nunca deixei de acreditar que a maternidade também é um campo de batalha - e dos mais terríveis. É preciso ter uma cabeça muito boa para ser mãe, ainda mais num mundo cada vez mais complexo e desigual como este no qual vivemos. A frustração e posterior desespero de Grace é totalmente justificável. Ela precisa dar conta das duas partes da relação e ainda por cima aparentar para os demais que tudo vai às mil maravilhas. Tarefa extremamente hercúlea para qualquer ser humano que se preze.

A diretora Lynne Ramsay é excelente ao mostrar em sua cinematografia esse lado perdido, sem chão, da sociedade contemporânea. Seus filmes sempre parecem nos mostrar o quanto o ser humano parece mais fodido do que realmente aparenta diante das convenções sociais. É como se perdêssemos nosso teor de civilidade e nos transformássemos em meros organismos vivos, sintéticos, sem alma. Sim, é triste e niilista ao extremo!

No caso de Grace ainda há o agravante de "mesmo que o meu casamento acabe eu não me liberto da responsabilidade de ser mãe. Eu simplesmente a assumo, dessa vez de forma oficial, sozinha, sem a ajuda do parceiro". E o desfecho dessa descoberta é ainda mais aterrador do que o próprio duelo que vem travando com a maternidade.

Para quem curte assistir longas sobre casamentos em crise ou falidos - como Foi apenas um sonho, Kramer vs. Kramer ou História de um casamento - este aqui é uma grande pedida. Com um ingrediente a mais: trata do que chamam de relacionamento as novas gerações, que tem mania de confundir casamento com diversão ou um mero hobby. E quando a verdade bate à porta não dão conta de lidar com o mais simples dos desafios, que dirá com a rotina angustiante e opressiva.

P.S: Que a atriz Jennifer Lawrence invista em mais projetos na carreira como esse (ela está ótima!) e não em franquias distópicas como Jogos vorazes, que nada mais são do que fábricas de bilheteria que depois que saem de cartaz e ninguém mais lembra.