Muito antes do diretor hollywoodiano Quentin Tarantino nos entregar sua obra-prima Pulp Fiction (vencedora da Palma de Ouro em Cannes), um mineiro de Belo Horizonte nos apresentou sua versão tupiniquim e desaforada do mesmo universo - guardadas as devidas proporções e culturas de ambos os países. Seu nome? Neville D'Almeida. E o filme? Matou a família e foi ao cinema.
E é bom ir logo deixando claro que o longa (que completa 35 anos de existência em 2026) é um remake do clássico dirigido por Júlio Bressane em 1969. Contudo, aqui ele parece bem mais turbinado e ousado, para os padrões de qualquer época (mas principalmente no início dos anos 1990)
Quando Fausto Fawcett, na canção Rio 40 graus, se refere à expressão "purgatório da beleza e do caos" para mencionar a cidade maravilhosa, é exatamente sobre essa metáfora que o diretor aponta seu holofote ao mostrar a degradação da sociedade e dos costumes naquele período. Matou a família e foi ao cinema é o retrato da falência moral, que só faz crescer de forma galopante com a chegada das novas gerações (leia-se: a geração advinda da internet e das redes sociais).
Bebeto (Alexandre Frota) é o estereótipo do vagabundo por vocação. Não estuda, nem trabalha, e vive tomando esporro dos pais, que o consideram um peso morto na família. Cansado de ser massacrado pelas críticas e a verdade dolorosa, ele os assassina a facadas. E logo a seguir, tranquilamente, adentra uma sessão de cinema. Lá se depara com vinhetas e microfilmes que expõem a nu a realidade atroz da sociedade brasileira.
Os filmes que Bebeto assiste no cinema são como a enciclopédia das taras humanas proposta por Tarantino em seu longa. A diferença? Enquanto na produção hollywoodiana, máfia, violência e jogos de poder ditam a trama frenética, aqui o que vemos é um desmascaramento do convívio humano em meio à sexualidade aflorada, o eterno niilismo de uma população que vivia em meio à recessão e o eterno falso moralismo das elites.
As socialites Márcia (Cláudia Raia) e Renata (Louise Cardoso), reféns de casamentos monótonos e uma rotina preguiçosa, quando o que desejam de fato é viver sem rédeas, num "delírio eterno". Levam seu libertarismo a tal extremo que acabam por provocar a própria tragédia que as consumirá. O abominável ladrão de calcinhas (Guará Rodrigues), figura mítica e torpe que atacava mulheres lindíssimas, no meio da rua, requisitando suas roupas íntimas. E as colegiais lésbicas, vivendo um amor proibido e censurado pela mãe de uma delas, eterna defensora da moral e dos bons costumes. A trinca de narrativas compõe um grande ensaio sobre o desespero e a eterna hipocrisia que sempre reinou nesse país, e só fez crescer em tempos de liberalismo fajuto.
Ao fim dessa tragédia urbana, regada à citações ao poeta Paul Verlaine e até mesmo a pequena notável, Carmem Miranda, e cenas sexuais estilosas, o que se percebe é que o cinema brasileiro daquela época (tempos de Embrafilme indo pro ralo no Governo Collor e falta de perspectivas) mostra um Rio de Janeiro decadente que não é muito diferente do de hoje e, provavelmente, o de amanhã também.
Logo, só nos resta rezar - e muito! - por dias melhores.






