sábado, 20 de junho de 2026

O maior filme brasileiro de todos os tempos


A notícia recentemente divulgada de que o filme Central do Brasil, do diretor Walter Salles, foi escolhido como o "melhor filme brasileiro de todos os tempos" (rótulo que é sempre um exagero, seja qual longa tenha sido escolhido para tal), me fez rever a produção cinematográfica, com o intuito de desconstruir minha própria visão sobre ele. E acreditem: minha opinião sobre o filme do Waltinho melhorou ainda mais depois de tantos anos sem revê-lo. 

Central do Brasil tem toda uma história de sucesso dentro e também fora do Brasil, onde foi vencedor do Globo de Ouro, do Urso de Ouro em Berlim, do Bafta, entre outras premiações. E por mais que eu considere grandes obras-primas do cinema brasileiro (como Cidade de Deus, Terra em transe, Os fuzis, São Paulo: sociedade anônima, Bye Bye Brasil, entre outros), acredito que a escolha de Central faz jus ao reconhecimento. 

Acompanhamos a saga de Dora (personagem da extraordinária Fernanda Montenegro) como quem acompanhamos a trajetória do próprio país. A mulher que escreve cartas na Central do Brasil para pessoas analfabetas, que desejam se comunicar com seus parentes distantes, e cuja vida se esbarra com a do jovem Josué que deseja reencontra com o pai nos cafundós do nordeste, após a morte da mãe num acidente de ônibus, diz muito sobre esse nosso país de extremos e inconstâncias. 

E o que há no filme de Walter para despertar tanto fascínio e comoção? Justamente essa capacidade de mostrar o país sem rodeios, favoritismos ou privilégios. Um país cheio de fé, mas também de dificuldades extremas, onde a realidade da grande maioria da população é um grande desafio diário e nada mais do que isso. 

Já conversei com inúmeras pessoas - até de outros estados do país - e é simplesmente incrível a quantidade de pessoas que ainda não entenderam completamente a mensagem do filme. Tem até quem desdenhe de sua capacidade de encantar ou refletir sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos ao fim de cada jornada complexa. E isso é uma pena! Mais do que o cartão postal da carreira do diretor Walter Salles (que com o passar dos anos, nos entregou outras grandes narrativas, como Diários de motocicleta e o recente vencedor do Oscar Ainda estou aqui), Central do Brasil - como os filmes Rio, zona norte e Rio, zona sul, do diretor Nelson Pereira dos Santos - é um grande cartão postal sobre o Brasil de uma época. 

Digo mais: em suas entrelinhas, é quase um estudo sociológico sobre uma sociedade dúbia, fragmentada, que não perde a esperança mesmo em meio às maiores dificuldades e dilemas. E isso é grandioso por si só, daí sua representação como "o melhor filme brasileiro de todos os tempos" (mas as aspas continuam indispensáveis, tamanha a riqueza de nosso cinema e a necessidade de escolhermos um melhor, em detrimento dos demais). 

E o pior: sua escolha - infelizmente - será debatida sob a ótica de bobalhões especialistas da internet e seus eternos revisionismos de quinta categoria, o que é sempre um mau negócio. Já para os verdadeiros fãs da sétima arte, acho muito difícil que condenem a escolha. Central do Brasil, Walter Salles, Fernanda Montenegro e cia, conquistaram esse lugar por mérito próprio e acho justo o título. Mais uma prova de que o nosso cinema é bem mais interessante do que acredita a própria população, que adora desdenhar dele sempre que pode, favorecendo enlatados hollywoodianos. 

Meus parabéns aos envolvidos na escolha. E viva o cinema nacional!       


quinta-feira, 11 de junho de 2026

É tempo de Copa do Mundo


É, minha gente... A copa do mundo de 2026 começou hoje. E, infelizmente, repleta (também) de más notícias por parte de uma das sedes, acreditando que o maior evento esportivo do mundo deva se submeter ou ser marionete daquela dita nação outrora "a mais poderosa do mundo". Mas não quero falar disso e sim do futebol, que é o que realmente interessa durante os meses de junho e julho. México, EUA e Canadá se dividem entre os anfitriões e é visível, logo de cara, nesses primeiros dias, quem realmente parece o mais animado dos três. Eles realizaram essa mesma festa em 1970 e 1986 e mostraram porque suas edições estão entre as mais animadas da história. 

Nossa seleção? Confesso que poderia pular este parágrafo, mas decidi mantê-lo. Nossa geração não é, nem de longe, boa. Fora uma ou duas surpresas aleatórias que podem surpreender, não descarto uma eliminação antes da final. Mas aguardemos. Em 1994 (também nos EUA) eu também não botava fé - e olha que tinha Romário e Bebeto no ataque - e deu no que deu. De certo mesmo é que houve muita polêmica (envolvendo a escalação de um certo atacante que não mostra a que veio a mais de 2 anos, e mesmo assim permanece o queridinho de um grande contingente) e também espetacularização e midiatismo em demasia na escolha de nosso escrete. 

Favoritas desse ano? Eu poderia jogar minhas fichas em França, Espanha, na atual campeã - a Argentina, com Messi -, muita gente falando de Portugal e Cristiano Ronaldo (que eu não vejo com essa força toda!), mas... Depois que Camarões venceu da Argentina no jogo de estreia em 1990 e Senegal calou a torcida francesa em 2002 eu acredito em qualquer coisa fora do óbvio. Embora o óbvio, nessa competição, em 90% dos casos sempre vença. Portanto, não sei o que esperar. Mesmo. 

Tenho uma relação quase doentia com zebras em Copas do mundo. Adoro ver o que vi ano passado com a seleção do Marrocos (e esse ano eles são o nosso jogo de estreia, logo...). E há também aquelas seleções por quem nutro grande simpatia, embora sempre saiba que perto da final elas voltarão para casa. São os casos de Holanda, Croácia, Inglaterra. Enfim... Eu sou um torcedor fora da bolha. Estou sempre na expectativa de que o inusitado aconteça. 

Infelizmente, é preciso também dizer isso, o mundo - pelo que está passando nesse exato momento - não deveria estar promovendo eventos como esse. Não vejo a realidade cotidiana nesse século XXI, repleta de terroristas e extremismos, como aberta à festividades e celebrações de qualquer tipo. E o fato (como já citei no primeiro parágrafo) de uma das sedes ter se tornado um grande problema nesse mundial, por conta de seu presidente déspota e sua eterna mentalidade de se achar insubstituível ou "dono do mundo", contribui ainda mais para esse sentimento de niilismo que se apossou de mim este ano. 

Sim, não estou em clima de Copa nem muito interessado em torcer, mas fiz questão de escrever esse post para deixar claro o quanto essa festa (sim, o show business se apossou dessa competição e faz tempo), ocorrida de quatro em quatro anos, diz muito sobre os "interesses" que povoam a humanidade e os chamados agentes do poder. A diferença em relação às edições anteriores? Não me parece - mesmo! - que há muita empolgação com o torneio esse ano, a começar pelos habitantes dos países sedes (excetuando, é claro, México).

Novos tempos? Descaracterização? O mundo passou a dar valor a outros temas, questões, eventos? O esporte virou reles negócio lucrativo? Eu poderia ficar aqui escrevendo o dia inteiro e não conseguiria chegar à uma conclusão realmente válida. Então, como diria o vilão Jigsaw do filme Jogos Mortais: que comecem os jogos! E que vença quem estiver destinado a vencer. 


sábado, 6 de junho de 2026

Um magnífico ensaio sobre o fim dos tempos


Vejo num canal nerd sobre quadrinhos no youtube a informação de que a graphic novel O cavaleiro das trevas, do trio Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley, completou 40 anos em 2026 e imediatamente viajo no tempo para meus exatos 19 anos (primeira vez que eu li a HQ). Ao mesmo tempo em que o tempo viaja na velocidade da luz - junto com minhas lembranças -, me pego procurando novamente a obra gráfica para ler. E, claro, me surpreender. 

O cavaleiro das trevas é uma obra-prima inquestionável do formato quadrinhos. Merece seu lugar de destaque junto à outras obras seminais como Maus (de Art Spiegelman), Akira (de Katsuhiro Otomo), Avenida Dropsie (de Will Eisner) e tantas outras pérolas da arte sequencial. Só que, mais do que isso, relê-la mais de duas décadas depois, me fez repensar esse trabalho magistral, à luz desse século XXI repleto de déspotas e outros seres degradantes que somos obrigados a aturar. 

Na HQ de Miller e cia, Batman não é mais um mero vigilante ou herói incompreendido. Pelo contrário. Após seu sumiço de Gotham City por uma década, ele se tornou uma figura estranha, soturna, que vê no aumento da criminalidade na cidade o estopim para se encontrar com seu lado dark e justiceiro. O problema: o estado (ou as autoridades, como preferir) agora o veem como um pária. Pior: um problema a ser combatido, assim como os seus arqui-inimigos.

Dick Grayson (o eterno Robin) rompeu relações com ele e o último a vestir o uniforme, Jason Todd, foi morto pelo Coringa. O que abre espaço para uma versão feminina da personagem entrar em ação e formar dupla com o cavaleiro das trevas. Contudo, vilões do passado - Duas Caras, Coringa - estão de volta, remodelados, prontos para novos crimes a serem perpetrados. E, além disso, há uma seita que pretende ocupar o lugar de Batman como força-motriz da cidade. 

Seu companheiro de combate, o Comissário Gordon, está se aposentando e quem assume o seu lugar como chefe é uma mulher que não acredita no papel do herói como combatente da violência. Ela vê nele, isso sim, mais um inimigo a ser destruído - custe o que custar. E o cenário de caos prolifera de forma dantesca, lembrando (e muito!) o atual Estados Unidos, rodeado de ICE e polícia corrupta por todos os lados.

Lembro de quando o diretor Christopher Nolan realizou sua versão da história para os cinemas com Christian Bale e Heath Ledger e hoje, após ler o volume de novo, fica aqui um elogio de minha parte. Ele soube reinventar de forma extremamente eficaz as principais temáticas da HQ, fazendo uma releitura bastante atualizada sobre esse grande "ensaio sobre o fim dos tempos".

As quase 200 páginas da obra mostram um painel inviolável do que se tornou a humanidade nessas últimas décadas, criada pela falta de empatia e eterna ganância do ser humano. O Cavaleiro das trevas é profético em todos os níveis que você puder imaginar e mostra de forma pontual o quanto seu roteirista já vislumbrava a decadência do sistema e a eterna predileção da sociedade pela mentalidade "o homem é o lobo do homem".

Resultado: um trabalho devastador, apocalíptico em n formas possíveis e imagináveis e que mostra o quanto o universo quadrinístico assumiu uma postura errada ao preferir a cultura cinematográfica à nona arte como forma de expressão. Ler O Cavaleiro das trevas novamente me fez pensar no quanto ver essa história no atual cinema estará sujeito à produtores e realizadores moralistas, comprometidos unicamente com o negócio lucrativo e nada mais.

Fica aqui, portanto, a recomendação para quem nunca leu essa joia. Isso aqui é ouro puro (algo raro na indústria cultural contemporânea).   


segunda-feira, 1 de junho de 2026

O mago da inventividade


Terminei o sábado em estado de graça e consciente de que a cultura e a arte são, de fato, libertadoras num patamar impossível de ser explicado. E ninguém na face da terra conseguirá destruir isso. Explico-me. 

Conheci o trabalho do artista plástico paulista Vik Muniz através do documentário de 2010 indicado ao Oscar Lixo extraordinário, dirigido pelo trio Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim, e na mesma hora fiquei encantado. Muito pelo fato de ele utilizar materiais inusitados em meio às suas telas. Ao invés de tintas, o artista usa como matéria-prima muito lixo, açúcar, geleia, macarrão, até mesmo cinzas do incêndio recente do Museu Nacional.

E o mais importante: ver os quadros de Muniz é um gigantesco exercício do olhar. Você tem diferentes leituras ao se aproximar ou se distanciar de uma tela, o que promove um efeito por vezes bi ou tridimensional. 

Dando continuidade a minha paixão (e também curiosidade) sobre o seu trabalho, fui essa semana ao Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, para ver a exposição Vik Muniz: a olho nu, a maior retrospectiva da sua carreira até hoje. São mais de 220 obras que compõem um vasto cenário sobre a sua trajetória. E quem é fã de história da arte, artes plásticas (como eu) vai, certamente, ficar encantado.

Passeio pelos corredores amarelos e fico perdido em meio a tantas referências. Perco mais de meia hora só na parte dos retratos de celebridades. É, no mínimo, uma afronta um artista desse tamanho ser mais reconhecido no exterior do que no próprio país natal. Vik é tão inventivo, tão cheio de ideias, que me parece um desserviço à cultura não divulgá-lo ou sequer reconhecê-lo. 

Numa mistura de processos, materiais e escalas as mais diversas, o artista constrói uma nova forma de poética, transformando o olhar numa tarefa múltipla e não mais tradicional. Estamos a todo momento revendo suas ideias na tela, pois a cada momento elas parecem reproduzir novos significados. Não se surpreenda se, ao sair da exposição, você desejar vê-la de novo na semana seguinte, pois teve a sensação de ter perdido alguma coisa, algum detalhe. 

Pois a intenção da mostra, entre tantas outras, é exatamente essa: expandir leituras e interpretações. 

trabalhos tridimensionais do início de sua trajetória, séries fotográficas emblemáticas que marcaram sua produção ao longo dos anos e obras recentes, reunidas, acabam por configurar um imenso painel de um mago da inventividade. Acho que essa é a melhor maneira de classificar Vik Muniz (pelo menos, nesse exato momento; resta saber o que ele ainda irá nos entregar nos próximos anos - o que sempre é uma incógnita deliciosa).   

Ao fim, apenas uma certeza: seu trabalho é uma grande obra aberta, propensa a novos - e desafiadores - caminhos, e isso para qualquer fã de arte que se preze, é uma excelente notícia. Vejam! Fica em cartaz até 7 de setembro.  


quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Picasso do jazz


Eu lembro da primeira vez em que vi Miles Davis na tela e não foi necessariamente tocando. Tratava-se do quarto episódio da segunda temporada de Miami Vice - um série icônica que marcou minha adolescência profundamente - e fiquei impressionado com sua presença de cena. Contudo, eu nunca o tinha ouvido tocando jazz e foi meu pai que me abordou naquele exato momento e me disse: "Esse cara é um artista extraordinário. Quando tiver tempo, ouça-o!". Como ele já havia me apresentado anteriormente a duas divas da música, Aretha Franklin e Nina Simone, corri atrás de seu trabalho como louco.

E o que descobri após fuçar em lojas de discos (sim, naquela época elas existiam em profusão!) foi que não só estava diante de um artista talentoso, mas de uma lenda, de uma figura inigualável para a história da música. Quem nunca ouviu Miles Davis, não faz a menor ideia do que está perdendo. Seu disco mais famoso e mais badalado da carreira, o monumental Kind of blue (1959), é dessas experiências que você ouve quase rezando, de joelhos, aproveitando cada faixa, cada toque, cada momento. Mais do que isso: ele é uma excelente porta de entrada para conhecer toda a obra gigantesca de Davis. 

Miles foi do Hard bop ao jazz fusion, passando por orquestrações e psicodelias as mais diversas, e eu acho praticamente impossível escolher um gênero ou um momento específico no qual ele tenha sido melhor. Foi um artista completo, complexo, rebelde, à frente do seu tempo em todos os níveis. Atuou ao lado de lendas como Charlie Parker, John Coltrane e Bill Evans e, ainda assim, imprimiu seu estilo próprio, se destacando dos demais. 

Dentre as características que mais o marcaram ao longo da carreira, vale destacar sua assinatura sonora (você sabia de antemão quando estava ouvindo o trompete de Miles e não de outro artista), sua capacidade camaleônica de se reinventar em diversos estilos (seja o Bebop, o jazz modal, o cool jazz, etc), o fato de ser um vanguardista eternamente insatisfeito com a própria criação (odiava rótulos que o limitassem como músico, ou seja, que o levassem a se repetir) e foi um revelador de novos talentos (lançou músicos sublimes como Herbie Hancock, Wayne Shorter e Chick Corea)

Para quem não sabe por onde começar a ouvi-lo (e a lista de coisas impressionantes que ele fez é grande), recomendo brevemente a trinca Round About Midnight (1956), Sketches of Spain (1960) e Bitches Brew (1969), este último uma mistura eletrizante de rock e funk. Mas faço um pedido: ouçam atentos, sejam gentis com a música. Aposto como se surpreenderão -e muito!

Em 2011 fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para ver a inacreditável exposição Queremos Miles – Miles Davis, lenda do jazz, repleta de fotos, documentos, discos, desenhos do próprio artista e, claro, seus trompetes. Foi lá, aliás, que descobri o interesse de Miles pelo boxe. Saí da experiência ainda mais fã do músico e com a cabeça repleta de informação valiosa, que me acompanha até hoje quando escrevo sobre cultura pop. 

Há quem o chame, entre a grande mídia, de o Picasso do jazz, e eu não vejo o menor exagero nisso. Ele realmente parecia pintar as notas musicais com a sua genialidade ímpar. E poder relembrar dele em seu centenário, que foi celebrado ontem, me deixou duas certezas: a) ele se foi cedo demais (morreu em 1991, aos 65 anos); e b) assim como Frank Sinatra e Jimi Hendrix, nunca mais haverá outro como ele. É daquelas figuras eternas que só passam pelo planeta terra uma única vez e o seu papel depois disso é relembrar do quanto ele foi único. 

Grande Miles, você foi uma aula de música!


domingo, 24 de maio de 2026

Muito mais que uma playlist para salvar um domingo cinza


Que a poesia está em todos os lugares, em todos os sentimentos, nas pequenas (e grandes) coisas do mundo, disso nunca tive a menor dúvida. Não importa o quão tenebrosa seja a realidade atualmente. É possível continuar sonhando em meio às adversidades diárias. O que importa: é continuar tentando, nadando contra a maré, insistindo, não desistindo. 

E por que digo isso? Vejo o domingo melancólico que foi hoje, praticamente cinza, sem viço. Parecia completamente estragado. Um dia improdutivo a mais para esse 2026 esquisito até aqui. E então, como num passe de mágica, aparece no comecinho da tarde Paulo Miklos, o ex-titã, músico e compositor estupendo, e me apresenta no youtube ao adorável Coisas da vida. Que eu até poderia resumir como "uma playlist para salvar o meu dia". Porém, seu quinto álbum solo de estúdio, é bem mais do que isso. Ele é necessário, em tempos tão amargos. 

É uma alegria tremenda conviver com o Miklos pós-Titãs, disposto a novos caminhos, novos voos, ou mesmo reeditando clássicos. E aqui há covers de canções inesquecíveis. 

Ele abre seu disco se mostrando preocupado com o que estamos fazendo com o planeta terra, cita Jonas e baleia da bíblia sagrada, mostra que precisamos acreditar mais em nós mesmos, seres humanos. Enfim: deixa claro que a batalha (ainda) não está perdida. Insatisfeito, não se basta com essa breve mensagem que bem poderia soar aos ouvidos dos execráveis moralistas de plantão como um panfleto autoajuda chato, repetitivo. 

E eis que ele enfileira uma trinca de respeito com as ótimas "Quero voltar pra Bahia", "Saudosa Maloca" (de Adoniran Barbosa, que o próprio Miklos já deixou claro em sua carreira ser um notório fã) e "Xibom bombom" (com seu toque de denúncia aos tempos atuais e ao eterno capitalismo selvagem que nos persegue). "Cachorro babucho" é apenas um tira-gosto para o prato principal, que vem em dobro com "Não existe amor em SP" e a eterna hit parade "Evidências" (clássico na voz da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó).

Mas acham que acabou, assim, desse jeito? Ah quem dera! O eterno roqueiro que habita dentro de Paulo não poderia terminar esse álbum de outra forma, que não fosse apresentando uma nova versão para um clássico. O escolhido é "O tempo não para", música síntese de Cazuza, o poeta do rock. Agora sim, posso fechar a tampa e eu a fecho, mas já saudoso, sabendo de antemão que certamente ouvirei o disco novamente nos próximos dias, para que fique fixado em minha mente sua mensagem.

Muito mais do que uma reles playlist para salvar um domingo acinzentado, sem sentido, Coisas da vida me ganhou por mostrar que o simples, mas bem feito, anda em falta na MPB, mais que isso: no mercado fonográfico atual. E ele pode ser bem mais poderoso do que muita bobagem estilosa que anda em voga atualmente. É apenas uma questão de se comprometer. O problema: quem é que se compromete com alguma coisa em meio a essa realidade louca proposta pela contemporaneidade? Pois é... O Paulo fez exatamente isso! e fica aqui o meu muito obrigado a ele.   

sábado, 16 de maio de 2026

A epopeia linguística da literatura brasileira


A expressão "há livros e livros" nunca foi tão verdadeira. Principalmente depois que você lê (e, de preferência, relê) uma obra-prima como Grande sertão: veredas, do escritor João Guimarães Rosa, que completa inacreditáveis 70 anos de existência em 2026 sem perder um milímetro de sua ternura e sua capacidade de se reinventar. E depois de ler esse registro literário colossal, eu passei a ter uma certeza: Guimarães merece seu lugar no olimpo da literatura brasileira ao lado do também magistral Machado de Assis - sim, os críticos sempre ficam putos quando eu repito essa frase...

Acompanhamos a trajetória de Riobaldo como acompanhamos uma canção amarga, porém necessária para entendermos os rumos desse país contraditório. E ao longo dessa jornada ele enfrentará não só percalços e inimigos os mais diversos, como um amor fora da curva e principalmente a dureza do sertão, que praticamente fala aqui, como um personagem contraditório e raivoso. 

E por falar em personagens - Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes (o algoz derradeiro desse quase anti-herói diferente de tudo que já se viu em nossas letras), Zé Bebelo, Ricardão, etc - eles compõem um grande ensaio sobre a dor, o interesse, a ganância, o eterno maniqueísmo que move o nordeste brasileiro, dentre outras temáticas tão ardilosas quanto. Chamar Grande sertão: veredas de mero romance ou saga não explica sequer a superfície do que é esse relato gigantesco, um dos maiores de toda a nossa bibliografia. 

Um dado triste: às vezes eu tenho a sensação de que Guimarães Rosa só será lembrado, citado e reconhecido como merece de fato no exterior. Há quem, inclusive, chame o livro de "o monte Everest" da tradução, pelo trabalho de quase recriar a obra ao traduzi-la para outros idiomas. Desde sua primeira publicação, em 1964, na Alemanha, o códex linguístico proposto por Rosa passou a gerar um imenso fascínio internacional. E por mais que existam aquelas pessoas que reclamem da necessidade de qualquer obra ou artista brasileiro ser reconhecido no exterior para ter real valor dentro do país, nesse caso específico acho uma honra o reconhecimento e admiração. 

Tive uma professora de língua portuguesa na universidade que dizia ser Grande sertão: veredas um dos maiores desafios de leitura da história da literatura mundial, mas que quando você insistia no duelo com o autor e pegava no tranco não queria mais saber de outra vida, muito menos experiências literárias fáceis e gratuitas novamente. E ela estava coberta de razão. Penei para compreender a mente e a narrativa de Rosa, abandonei a obra umas seis ou sete vezes ao longo da vida, mas quando finalmente captei seu espírito livre e compreendi suas intenções foi um deleite à parte. 

Uma certeza é preciso ser dita ao fim desse post: não se fazem mais (e, provavelmente, nunca mais se farão) obras literárias como Grande sertão: veredas. Primeiro, porque a sociedade brasileira se mostra cada dia mais iletrada e desinteressada pelo conhecimento. E segundo, por fazer parte de um mundo que parece cada dia mais distante e chamado de ilusório por uma geração que se esmera dia a dia por desmentir o passado, a utopia, a denúncia, e mesmo o recomeçar.  

Dito isto, para quem ainda não leu a maior epopeia linguística da história da literatura nacional, aproveite a chance (e a data comemorativa). Vocês não fazem a menor ideia do que estão perdendo. Não mesmo. Ah! um rápido P.S (praticamente um aviso de um leitor apaixonado): fujam dessa adaptação cinematográfica recente que o diretor Guel Arraes fez do romance. Ela diminui - e muito! - a grandeza e a importância da obra.