Nunca me casei, nunca tive o menor interesse. Na verdade, acredito que o casamento seja uma grande invenção social. E uma invenção que, dia a dia, vem demonstrando sinais claros de sua própria falência moral. Vide o que pensam (e querem) os casais modernos. Em tempos de liberalismo, permanecer fiel a sua "alma gêmea" tornou-se cada vez mais desafiador. Entretanto, por mais que isso pareça contraditório, adoro filmes sobre casamentos e famílias disfuncionais, principalmente aqueles que deixam claro em suas intenções a iminência do caos.
E é justamente nesse quesito que o novo longa da atriz e diretora Olivia Wilde, O convite, mostra toda a sua força e sua capacidade de reflexão. Portanto, palmas a ele!
Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) são agentes de um casamento falido, mas não conseguem entender isso de forma prática. Ele, um ex-músico de banda, agora professor; ela, mera dona de casa, que não soube transformar seu talento numa carreira digna. Exaustos do convívio familiar, mesmo tendo uma filha de 12 anos, parecem sempre a um passo da depressão total. E eis que, ao chegar em casa depois de um dia exaustivo de trabalho, Joe descobre que Angela convidou os vizinhos de cima, Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), para conhecer o apartamento do casal.
Angela vê em Pina seu modelo ideal de mulher: bem resolvida, psicoterapeuta, ex-sexóloga, vegana, ciente de seu papel na relação. Já Joe acha Hawk, um bombeiro brigadista, o retrato vivo do insuportável e da inconveniência. Em meio a conversas e petiscos, verdades vão vindo à tona, até que num determinado momento é feito o "convite" que dá título à trama: querem que Joe e Angela participem com eles de um sexo grupal.
Nesse exato momento, afloram as maiores divergências entre o casal falido. E mesmo que tenham decidido embarcar na empreitada, sabem de antemão que o último resquício de sanidade da relação se perderá ali, ao dar aquele passo ousado. Só que a consequência daquela escolha é uma catástrofe sem precedentes que, não somente isso, abre aquele que pode ser um canal para o término derradeiro. Conseguirão eles salvar esse matrimônio? P.S: o desfecho proposto pela diretora é sensacional em seu minimalismo.
Sei que me chamarão de maluco ou exagerado, mas O convite me parece à primeira vista uma espécie de Noivo neurótico, noiva nervosa (filme de Woody Allen), versão 2.0. E cabe aqui destacar o excelente trio de roteiristas: Cesc Gay, Will McCormack e Rashida Jones, pela impecável narrativa criada. Repleto de tiradas ácidas e um humor que flerta entre o incômodo e a cara de pau, merece - na minha visão - uma indicação à roteiro original no Oscar do ano que vem.
Outro ponto positivo foi focar a história em um só cenário: o apartamento em processo de renovação. E o fato de ele estar sempre incompleto em algum sentido também diz muito sobre as histórias desses casais, tanto o falido quanto o metido a moderninho, mas que esconde mal seus próprios traumas e deficiências.
Termino a sessão com duas certezas: 1) estou diante do primeiro grande indicado à temporada de prêmios de 2027 (se, claro, a Academia não boicotar o longa, como já fez outras tantas vezes com candidatos também sublimes); e 2) vida a dois não é papo para amadores, nem marinheiros de primeira viagem. E é preciso ter culhões - ambas as partes - para encarar o dilúvio ou o terremoto que se fazem presentes de tempos em tempos em qualquer relação. O problema? A sociedade contemporânea é o exato oposto disso que chamamos de conservadorismo puro e simples. Logo... Já entenderam no que vai dar isso, não é mesmo?
Mas, para o que nos interessa aqui nesse post, fica a dica: filmaço! Com F maiúsculo.






