segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O nascimento de um gênio


Dizer que Djavan é um fenômeno da MPB é chover no molhado e soar repetitivo. Qualquer pessoa que já tenha ouvido sua voz e acompanhado sua carreira através de canções magníficas já entendeu que, além de um artífice da palavra, ele é a voz por excelência. Quem não entende isso ou simplesmente é hater do cantor e compositor, por favor: este post não é para você. Contudo, sempre me ficou a seguinte pergunta: quando foi que nasceu o gênio Djavan? Nunca ouvi seu álbum de estreia e sempre me lastimei por isso. Queria preencher essa lacuna musical em minha formação.

Pois bem: seu primeiro álbum, A voz, o violão, a música de Djavan, completou 5 décadas em 2026 e vi ele aparecendo na minha timeline no youtube (certamente porque o algoritmo sabe por a mais b que sou alucinado por música brasileira). E o resultado dessa audição é enfim me deparar com a resposta para a pergunta feita no parágrafo acima. Trata-se de um dos melhores inícios de carreira que eu testemunhei até hoje. Ouçam! Pelo amor de Deus, apenas ouçam!

Djavan abre com "Flor de lis" (a faixa mais famosa do disco, cuja história ecoa dentro de sua própria carreira). E além da voz e da poesia do compositor, já aqui, nesse primeiro momento, fica um aviso aos ouvintes: prestem atenção na sonoridade do trabalho como um todo. Desde o uso de instrumentos até participação dos backing vocals. Trata-se de uma engenharia musical extraordinária. 

Difícil escolher preferidas no repertório, então vamos lá mencionar o conjunto da obra: em "Na boca do beco" ele fala dos amigos de jornada, que foram ficando para trás, mas trazem grandes ensinamentos; com "Maçã do rosto", um triângulo de forró maroto traz um contraste interessantíssimo para a letra poderosa; já em "Pára-raio", o cantor nos entrega um quase rap, não devendo nada a artistas do gênero como Gabriel, o pensador e Criolo, dentre outros; em "E que Deus ajude" ele apresenta o início atribulado da carreira, vindo de Alagoas para o RJ, tentar a carreira de cantor popular. 

"Quantas voltas dá meu mundo" reforça essa jornada inicial, trazendo o verso "Quem não se arrisca, não joga a isca", e Djavan certamente a jogou de forma sublime; com "Maria das Mercedes", ele parece, à primeira vista, revisitar um amor do passado (será realmente isso? esse é o momento "pulga atrás da orelha" do álbum); "Muito obrigado" é bem-vinda exaltação ao próprio estilo do cantor; "Embola a bola (Cateretê)" tem refrão que lembra meio que um cordel em certos momentos, e é delicioso de ouvir. 

Então "Fato consumado", o segundo hit do álbum, dá as caras e deixa um gostinho de quero mais, e eu aproveito e faço um apelo a quem for ouvir essa faixa em questão: procurem, depois, por uma versão acústica, só voz e violão, dela. Aposto que se surpreenderão ainda mais; "Magia" é puro swing e mescla soul, funky e tudo mais que você quiser ouvir. Trata-se de uma canção que deveria ser mais badalada em seu cancioneiro; E finalmente "Ventos do norte" encerra a experiência, como uma espécie de cantiga ou acalanto, despedindo-se do público com um sentimento de nostalgia, na linha "a gente se reencontra muito em breve". 

O resultado dessa experiência magnífica? A chegada à terra de um mestre da letra, da voz, do som, e principalmente, uma certeza: a de que todo fã de Djavan, de sua poesia e talento ímpar, deveria, obrigatoriamente, começar a conhecê-lo a partir deste álbum (e entender o que ele se tornou com o passar dessas cinco décadas). Está tudo aqui, ainda em fase embrionária. Só não enxerga quem não quer ou prefere a zona de conforto da preguiça ou da ignorância. E desse grupo nunca fiz parte, nem me interesso. 

Valeu? Para mim, não tenho a menor dúvida. Agora vai lá ouvir e tire suas próprias conclusões. 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A algoritmolândia


Sim, poderia ser o título de um livro de não-ficção ou romance que eu estou escrevendo, mas... Não, não é sobre isso esse breve post. E sim sobre o que o mundo (e, principalmente, a indústria cultural) estão se tornando, numa velocidade cada dia mais vertiginosa. E também - é bom que se alerte - perigosa.

Vi nos últimos dias uma série de entrevistas e depoimentos de pessoas ligadas ao mercado cultural (sejam atores, produtores, coreógrafos, dramaturgos, etc) comentando sobre a grande mesmice que virou o setor. Mais do que isso: o quanto esse caminho é, não só preocupante, mas catalisador de uma sociedade cada vez mais monótona, enfadonha, repetitiva. Viramos uma civilização de idiotas que replicam comportamentos e posturas engessadas.

Talvez o setor cultural onde melhor vejamos isso seja o mercado fonográfico. O mundo, musicalmente falando, foi de Elton John, Marvin Gaye, Tom Jobim, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Chico Buarque, Led Zeppelin, Beatles, Rolling Stones e cia. à uma geração vazia, sem graça, que não canta ao vivo, não escreve - muitas vezes - suas próprias composições, se esconde atrás de ferramentas como o autotune, com letras cada vez mais curtas e tatibitates, compondo um universo deplorável onde a mesmice e a falta de talento convergem para produzir atentados sonoros.

No cinema (leia-se: hollywood, por ser a meca, mas não somente ela, trata-se de um problema mundial) trocaram figuras como John Ford, Billy Wilder, John Huston, a nova hollywood de Coppola, Scorsese, Spielberg, por... filmes sobre bonecos, tênis de celebridades, jogos de tabuleiro, esfregões, videogames e outros artefatos que em nada combinam com a sétima arte. A geração atual agradece. Já nós, cinéfilos raiz, sofremos para encontrar boas películas e histórias bem contadas. Na vertente nacional do cinema, ainda temos que lidar com o fato de que passamos a nos interessar por personagens criminosos sendo glamourizados para soar "relevantes".

O teatro - a nobre arte, não importa o quanto digam o contrário - perdeu espaço para o stand up comedy e seus humoristas grosseiros, prepotentes e canastrões, com suas piadas de baixo calão, e ainda por cima acreditando terem suas rasas opiniões um papel monumental para a sociedade. Nelson Rodrigues? Plínio Marcos? Gil Vicente? Ariano Suassuna? Acho que nunca mais, gente!

O mercado editorial? Não esperem por novos Shakespeares ou Dostoiévskis ou algo que lembre minimamente um Molière, um Machado de Assis, um Graciliano Ramos... Nem pensar. O que vale na balança do mercado são os Young adults, livros para bobalhões trintões ou quarentões posando de adolescentes, a execrável literatura de autoajuda, exemplares de capa dura ou emborrachada a preços extorsivos e uma cultura mais interessada em estilo (que nada mais é do que propaganda fajuta disfarçada de algo válido ou imponente) do que conteúdo.

Faltou alguma coisa? Os quadrinhos que trocaram as bancas de jornal e o submundo underground pelas megastores caríssimas e inacessíveis para o verdadeiro leitor de quadrinhos, a fotografia que agora é produzida por celulares com seus donos abusando de caretas e poses gratuitas (e pensar que antigamente tínhamos Sebastião Salgado, Cartier-Bresson!) e a transformação do formato game ou RPG em peça de arte. Sim, foi isso mesmo que vocês leram. Sinto muito.

Já vi uma mulher ganhar um prêmio na MTV cantando palavrões. Já li uma autora francesa (procurem: Lolita Pille) que acha sua sexualidade o tema mais importante do mundo contemporâneo. Já vi o mundo do futebol mais preocupado com o que é fashion do que fazer gols ou ganhar títulos. E não bastasse tudo isso, vi a beleza humana e a ética sendo relativizadas em nome de um delírio coletivo ou simples vontade de chocar (e acreditar que isso é show business). Sim, são tempos sombrios esses da chamada algoritmolândia.

Renderia um bom livro? Não tenho a menor dúvida disso. Será uma narrativa tenebrosa, se a projetarmos ainda mais para o futuro? Infelizmente. Irei escrevê-la em algum momento da minha vida? Eis a questão. E não digo isso por falta de coragem e, sim, por receio de contribuir ainda mais para a alienação que nos rodeia. E isso eu não desejo nem para o meu maior inimigo. 

E algo, definitivamente, precisa mudar. Para ontem, se possível. Do contrário, não sei não...


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O surreal Tim Curry


Por que nos lembramos de certos artistas só de mencionar o sobrenome, enquanto outros precisamos pesquisar no google por mais informações? Digo isso, pois toda vez que lia o nome do ator Tim Curry - que faleceu hoje, aos 80 anos - e não via a sua imagem junto da matéria eu precisava fuçar em algum site de busca para ligar o nome à pessoa. E acreditem: acho isso uma sacanagem, porque ele era um puta artista. Marcou minha adolescência como poucos. 

Acho praticamente impossível dissociá-lo da imagem que ele próprio construiu com o Dr. Frank-N-Furter, personagem síntese do antológico musical The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman. Mais do que isso: ele era a "alma" do filme, que foi dos Midnight movies à peça cult para milhões de cinéfilos enlouquecidos. 

Outro trabalho marcante do ator, com certeza, foi o Pennywise da minissérie It: a obra-prima do medo, de Tommy Lee Wallace, feita para a HBO. Eu, que sempre fui fã de palhaços descontruídos como serial killers e psicopatas, nunca mais encontrei nada que chegasse sequer perto dessa versão aqui.

Contudo, se iludem aqueles que acreditam que a sua carreira se resumiu apenas a esses dois grandes papéis. Tim Curry, como disse em parágrafo anterior, marcou profundamente minha juventude, bem como de toda a minha geração (leia-se: a galera que vivia entrando e saindo das videolocadoras de bairro, um fenômeno que vem sendo trazido de volta, aos poucos, por uma legião de nostálgicos cada dia mais irritados com os serviços de streaming, o fim da mídia física e outras escolhas terríveis de mercado quando o assunto é distribuição e home vídeo). 

Se você hoje está próximo dos 50 (como eu), certamente se deparou com Curry em produções como Annie (de John Huston), A lenda (de Ridley Scott), A caçada ao outubro vermelho (de John McTiernan, do clássico de ação Duro de matar), Minha filha quer casar (de John Landis), Esqueceram de mim 2: perdido em Nova York (de Chris Columbus), Máquina quase mortífera (de Gene Quintano), Os 3 mosqueteiros (de Stephen Herek), O sombra (de Russell Mulcahy, uma adaptação em quadrinhos precursora de muita coisa feita pela DC anos depois) e Congo (de Frank Marshall). 

Já no departamento dublagem (e também narrações), eu poderia passar o resto da vida aqui e sequer arranharia a estrutura de tudo o que ele fez em termos de voz: de Batman à Eek, o gato; de A família dinossauro à Alladin; de A pequena sereia à Sonic; de Tom e Jerry aos Muppets; de O máskara à Carmen San Diego; de Scooby-doo à Johnny Bravo...

O garoto inglês que se formou em Teatro e Inglês na Universidade de Birmingham e estreou nos palcos numa versão londrina do musical Hair teve mais de 200 créditos ao longo da carreira (procurem no IMDb por mais detalhes, fanáticos de plantão!) e certamente deixará - muitas - saudades. Deixo aqui minhas condolências à amigos e familiares. Ele era foda (vou mais além: era surreal, na forma como conduziu sua vida e carreira). E seu olhar cínico, debochado, cheio de sarcasmo quando a câmera focava nele, nunca se apagará de minha mente. Vai com Deus e descanse em paz, mestre!


domingo, 23 de agosto de 2026

30 anos sem Gene Kelly


Parece piada (de humor negro), mas não é. Hoje vi no x - antigo twitter - um post sobre o aniversário do ator, cantor e dançarino Gene Kelly que nos deixou há... Três décadas! Engoli em seco. Como assim Gene Kelly já nos deixou há 30 anos? Os deuses do cinema, certamente, estão rindo sarcasticamente neste exato momento. E imediatamente eu sinto vontade de reassistir mais uma vez um clássico desse eterno mestre da dança.

Eugene Curran Kelly era descendente de irlandeses e oriundo de Pittsburgh, Pensilvânia. Veio para hollywood em 1941 quando a Metro-Goldwyn-Mayer era O estúdio e ditava tendências na arte cinematográfica. Ele era competitivo e exigente ao extremo com o seu trabalho (como deveria ser!) e, ainda assim, exibia um otimismo e uma energia típica dos grandes do seu meio. 

Ao lado de outro mestre, Fred Astaire, dividiu as atenções sobre quem seria o melhor no quesito dança e teve até crítico de cinema que perdeu tempo debatendo sobre o tema. Na boa... Que pergunta indigesta e sem sentido! Tanto quanto quem foi melhor no futebol: Pelé ou Maradona? Só imbecis perdem tempo com isso.

Entre seus inúmeros sucessos, gosto sempre de citar Marujos do amor (1945), do trio George Sidney, William Hanna e Joseph Barbera (sim, aquela dupla das animações); O pirata (1948), de Vincente Minnelli; Um dia em Nova York (1949), que dirigiu com Stanley Donen; Sinfonia de Paris (1951), de Vincente Minnelli (vencedor de 6 oscars); Cantando na chuva (1952), nova parceria com Stanley Donen; e Xanadu (1980), de Robert Greenwald, que curiosamente é o primeiro dele que assisti, ainda adolescente, ao lado da atriz e cantora Olivia Newton-John (que era uma crush minha dos tempos de VHS).

E mais do que a cena que o eternizou, dançando na chuva numa rua vazia, era um deleite aos olhos vê-lo exercitar seu ofício. E tenho um fetiche pessoal quando se trata de Kelly: sua parceira com o também inacreditável Donald O'Connor em Cantando na chuva é a prova viva do brilhantismo que eram os musicais nessa época. Tínhamos, às vezes, a sensação de que eles seriam capazes de voar ou dançar até de cabeça para baixo. Simplesmente sublime!

Sucessivos derrames cerebrais o tiraram de nós em fevereiro de 1996. Nunca mais vê-lo andando de patins no clube Xanadu ou dividindo seu talento com Debbie Reynolds ou Judy Garland. A vida no showbiz é realmente injusta! Em 1952 ele ganhou um Oscar honorário. Em 1996, ano de sua morte, a Academia lhe prestou uma singela homenagem com o tap dancer Savion Glover reeditando sua cena famosa na chuva. Foi, aliás, a partir desse dia que eu passei a procurar com mais afinco por seus longas nas locadoras de vídeo. 

Hoje? Não há mais Kelly, nem Astaire, Garland, Cyd Charisse (as mais belas pernas de hollywood), Donald O'Connor, Ray Bolger (o eterno espantalho de O mágico de Oz) e a broadway virou um pastiche de si mesma. Logo, restou ao cinema americano sobreviver de superheróis vazios e personagens sobrenaturais babacas. Que triste sina! Ah, mestre... Se você pudesse ver o que fizeram com a meca do cinema, certamente estaria chorando agora. Eu estou. E um dos motivos é por saber que já são 30 anos sem o seu carisma e talento. Fazer o quê.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

As duas damas


Olha... Que porrada! Duas de uma vez, não tem fã que aguente. A dramaturgia e a arte brasileira em geral perdem duas de suas maiores damas. Nesta terça-feira nos despedimos de Laura Cardoso e Glória Menezes, e aumentamos ainda mais aquela lista que já ficou famosa aqui neste blog de artistas insubstituíveis que partiram. 

Alguns artistas são magistrais, tanto que os seguimos apaixonados para onde quer que eles vão. Contudo, existem aqueles que nasceram para ser lendas. São inigualáveis naquilo que fazem. E por isso, nunca ficamos esperando que eles tenham sucessores (até porque dificilmente isso realmente acontecerá - e, na boa, está tudo bem, eu já entendi essa parte). Laura e Glória fazem parte desse seleto grupo. 

E basta ouvir seus colegas de profissão e, principalmente, de geração, para entendermos que não fomos os únicos a entender isso. Vejo um depoimento do ator Tony Ramos, emocionado, para o jornal da Globonews, e aquilo simboliza tudo o que eu penso sobre Laura e Glorinha. Fico imaginando gigantes da TV - como Suzana Vieira, Lima Duarte, Ary Fontoura, etc -, sabendo da notícia e refletindo sobre a perda que isso acarretará para a nossa cultura. 

Sim, elas eram sublimes e nada do que digam ao contrário me fará mudar de opinião.

Descobri a força de Laura antes, por causa dos desenhos animados. E vocês me perguntam o porquê. Ela era a voz da Betty, a esposa de Barney Rubble na animação Os Flintstones, que os programas infantis adoravam exibir. Já Glória, eu vi pela primeira vez como a Roberta Leone da inesquecível Guerra dos sexos, e ela me ganhou logo de cara. Ela não era só a esposa de Tarcísio Meira, o João Coragem. Não, senhor! Tinha luz própria - e muita.  

Entretanto, levando-se em consideração toda a carreira de ambas, eu sempre me lembrarei de Laura por causa de Dona Guiomar, a sogra possuída pelo espírito do filho morto, que infernizava a vida do genro (vivido por Miguel Falabella) na novela A viagem, e também por sua cena magistral como Manuela no filme Terra estrangeira, de Walter Salles, no qual ela enfarta e morre em frente à tv após a notícia do confisco da poupança durante o governo Collor. E Glória... Como esquecer da eterna Laurinha Figueroa, de Rainha da Sucata, e da Rosa - esposa de Zé Burro - em O pagador de promessas, Palma de Ouro em Cannes em 1962?

Ao fim, sobram as homenagens, as lembranças, revemos trabalhos antigos no you tube, certamente o Canal Brasil as homenagearão (elas fizeram muita coisa também no cinema), rememoramos seus sorrisos, suas gargalhadas, suas facetas mais sérias. Ambas fizeram rir e chorar como ninguém. Como poucos. Uma pena. A tv e o país ficam bem mais tristes hoje, duplamente. 

Onde quer que estejam, que fiquem em paz. Pois pela vida que tiveram, vocês certamente merecem. 


domingo, 16 de agosto de 2026

Bichos não tão escrotos assim


A presença do cover na indústria fonográfica é muito bem vinda, não tem nada de mais em exaltá-lo. Trata-se de uma nova performance ou regravação de uma música feita por um artista que não é o autor ou o intérprete original da faixa. Já houve, inclusive, casos em que o cover é infinitamente melhor do que a canção original. Lembro de ouvir Whitney Houston cantando "I will always love you" na trilha sonora do filme O guarda-costas e depois conhecer a faixa original, e pensar: "sim, ela não só reinventou... ela salvou a música". Logo, não demonizemos o formato. 

Nos últimos dias andaram falando bastante sobre o cover de "Bichos escrotos", hit da banda Titãs, do álbum histórico Cabeça dinossauro (fase áurea da banda). Fui correndo ao you tube e encontrei o clipe rapidamente. Ao fim da audição, uma tremenda decepção, broxante mesmo. Sim, também é preciso dizer: às vezes o cover destrói toda a história de uma música, muito pelo fato dela estar ligada de forma quase mediúnica com um período da história. 

Vi algumas pessoas da crítica especializada e, especificamente, um colunista da Rolling Stone, dizendo se tratar mais de um viral, uma forçada de barra, do que propriamente um registro digno de nota. E ele está certo. Não tenho nada contra Anitta, a cantora da versão que tomou a internet (nem sou fã do estilo musical dela, é bom ir logo deixando claro!), mas não me parece que ela seja a pessoa mais adequada para assumir uma responsa dessas. 

Sim, é uma responsa. 

"Bichos escrotos" é daqueles momentos do rock brasileiro (e também da MPB) em que você sente prazer em ouvir um sonoro esculacho, um gigantesco desabafo. Assim como na canção Que país é esse?, da banda Legião Urbana, aguardamos o momento em que a frase que dá título à música é proferida para dizer "é a porra do Brasil", em Bichos também esperamos ansiosos por aquele momento foda-se, em que podemos colocar toda a nossa revolta para fora. 

E por mais que Anitta seja um expoente do funk (embora bem mais Kondzilla do que Furacão 2000 e, sim, há um enorme diferença!), ela não possui a coragem e o "culhão" necessários para vender a verve que a música almeja. "Bichos escrotos" é, praticamente, um hino oficial daquelas pessoas putas, que não aguentam mais os mandos e desmandos de um sistema podre, falho, corrupto, e veem na letra seu último resquício de enfrentamento à ordem social. 

E do outro lado dessa equação vemos uma geração - da qual Anitta faz parte - que não está antenada com esse desejo de rebelar-se. Parece mais afeita ao mundo dos negócios, do status, do glamour, tudo o que a música em questão não prega. Pelo contrário. Sei que vou ser detonado de tudo quanto é lado pela imensa legião da fãs da cantora (e eles sabem ser cegos e persistentes o quanto podem!), mas acreditem: a cantora e a canção não deram match, sorry! E às vezes isso também acontece, mais até do que vocês imaginam. Quem sabe no próximo. 

Não será a primeira, nem a última vez, que rainha do baile das poderosas e a girl from rio, passará por isso na carreira. E ela já está até calejada nesse sentido. E, sim, eu precisava fazer esse post, pois não dá pra gostar de tudo só porque os outros gostaram. Os bichos, dessa vez, não eram tão escrotos assim... 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Mulher de todos e de ninguém


Algumas atrizes sacramentaram o conceito de musa no cinema mundial. Assim foi Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Claudia Cardinale, Elizabeth Taylor, Judy Garland, Sônia Braga, Diane Keaton e tantas outras. Eu poderia incluir Helena Ignez nessa lista (com folga), mas cá entre nós: isso não explicaria, sequer arranharia, a superfície do que ela é. E como é bom ver isso tudo muito bem representado na Ocupação Helena Ignez, que ocorre no Itaú Cultural, em SP, até 18 de outubro.

Eu me tornei fã de Helena por acidente (acidente, não; e sim porque, lá atrás, ela foi parceira de dois dos maiores nomes da história do nosso cinema: Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. E isso, por si só, era para mim um puta cartão de visitas). Ao vê-la como Sonia Silk em Copacabana Mon Amour, eu tive uma certeza: estava diante de uma artista incomum, e nenhum rótulo conseguiria defini-la. De jeito nenhum. 

Helena trabalhou em 77 longas (obras seminais como Assalto ao trem pagador, O padre e a moça, O bandido da luz vermelha, A mulher de todos, Sem essa, aranha, Nem tudo é verdade, O signo do caos, etc), dirigiu outros 11 (dentre os quais, recomendo com força A miss e o dinossauro, Luz nas trevas: a volta do bandido da luz vermelha e A moça do calendário) e interagiu no teatro, na política, na sexualidade, na espiritualidade, na vida como um todo. E, ainda assim, parece quase impossível dar-lhe uma definição derradeira. Ela é múltipla no melhor sentido da palavra. 

Vejo essa senhora como um estupendo exemplo do que deveria ser todo artista. Como bem diria Raul Seixas: uma metamorfose ambulante. Sem papas na língua, ácida, sabendo de antemão o que quer - e principalmente: o que não quer -, ela construiu uma carreira sólida e cheia de nuances. Junto com Sganzerla e Bressane foi além e nos entregou a Belair, sinônimo de radicalismo e autoralidade cinematográfica numa época em que simplesmente emitir uma reles opinião já era o maior pecado. Helena causou (e muito). Graças a Deus!

A exposição no Itaú cultural reúne fotografias, documentos, trechos de filmes e materiais inéditos que revelam a atuação de Helena diante e atrás das câmeras, além de uma publicação virtual e um site cheio de conteúdo, para dar e vender. Quem quiser saber mais, muito mais, acesse: https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/helena-ignez/.

Seu sobrenome? Com certeza, deveria ser liberdade. Criativa, de pensamento, de viver sem freios. Eu poderia passar o resto do dia, da semana, do mês, do ano, aqui, escrevendo, falando exclusivamente sobre ela, e ainda assim faltaria muita coisa para dizer. Ela era a mulher de todos, e de ninguém. Parte indecifrável; parte mágica, ímpar, única. Grande Helena. Fantástica Ignez. Longa vida a você, antimusa!

E quanto a vocês, que leram esse mísero post que tenta homenageá-la, pelo amor de Deus, vão conhecer a Ocupação. Aquilo ali é a história do audiovisual brasileiro, que merece ser exaltado, lembrado, relembrado. Não importa o quanto queiram difamá-lo. Não desperdicem essa chance. Talvez vocês não tenham outra.