EUA: a terra dos bravos, dos homens livres, do sonho americano, a verdadeira democracia. Assim, pelo menos, eles dizem. Já na prática a história é bem outra, bem mais amarga. Que bom que inúmeros artistas norte-americanos ao longo de sua história nunca se renderam ao discurso vazio da "grande nação" que não sobrevive fora da teoria. Dentre eles, o cineasta Martin Scorsese.
50 anos atrás ele produziu Taxi Driver, um verdadeiro ensaio sobre o caos e o exagero que são, na prática, os Estados Unidos da América. Como tantos outros grandes realizadores do país que fizeram longas seminais ele não ganhou o Oscar (e quem perdeu com isso foi o próprio prêmio), mas entrou para a história mesmo assim. E a história do país - cinematograficamente falando - nunca mais foi a mesma depois desse filme.
Seguimos a trajetória de Travis Bickle (Robert de Niro), um ex-veterano da Guerra do Vietnã que trabalha como motorista de táxi atravessando as ruas imundas de Nova York e testemunhando a degradação da sociedade dia-a-dia. Ele vê o homem como lobo do homem ser transformado numa grande ironia diante de seus olhos e tem vontade de aniquilar com tudo isso. Pessoas o veem como anti-herói de um tempo fúnebre, outros como sobrevivente de uma era. Eu o vejo como o apogeu de uma violência desenfreada que se recusa a desaparecer.
Ao conhecer Betsy (Cybil Shepperd), um mulher de status social completamente diferente do dele, Travis se transforma e começa a se enxergar como uma espécie de messias da nova era, o único capaz de dar fim àquela barbárie. Sua intenção: matar um candidato à presidência da república, pois acredita que tal ato possa ser o estopim de futuras transformações mais do que necessárias para o país. Além disso, ele fica indignado com a maneira como vive a prostituta Iris (Jodie Foster), uma menina de reles 12 anos explorada por seu cafetão, Sport (Harvey Keitel).
E é naquele exato momento de insatisfação total com tudo, o mundo, a população, que ele surta e ultrapassa todos os limites do considerado ético. Nasce ali o revolucionário diante do niilismo do país.
Até hoje fico perplexo quando me lembro que, no ano seguinte do seu lançamento, Taxi Driver perdeu o Oscar de melhor filme para Rocky, de John G. Avildsen. Chego, às vezes, a chamar tal escolha de insana (nada contra Stallone e seu projeto, que é bem produzido, mas... não dá). O longa de Scorsese, escrito pelo mestre Paul Schrader, é dos dramas mais contundentes e definitivos que eu já assisti em toda a minha vida como cinéfilo.
E ainda falando em Oscar: a participação de Taxi Driver no prêmio é um festival de frustrações: teve quatro indicações (filme, ator, atriz coadjuvante e trilha sonora, esta produzida pelo extraordinário Bernard Herrmann, de longa parceria com Hitchcock) e não ganhou nenhuma estatueta, sendo que Scorsese e Schrader sequer foram indicados. Ainda bem que o Festival de Cannes reconheceu a genialidade da produção e lhe concedeu a Palma de Ouro. Mas mesmo assim.... considero um dos maiores esnobes da história dos Academy Awards.
O longa, de certa forma, é um retrato vivo do que era a cidade de Nova York naquele exato momento, pois ela vivia uma gestão sofrível, quase às portas da falência, e equilibrava as contas para sobreviver minimamente. O resultado disso: drogas e criminalidade por todos os cantos. E vejo o segmento em que Travis vai ao cinema pornô como uma grande alegoria para explicar esse abandono social e financeiro. Todos pareciam presos ao ritual da devassidão moral.
Em todas as ocasiões que revi o filme, saí da experiência com a certeza de que o submundo, como eu o entendo, ainda é aqui, neste lugar ao léu, vendido para o resto do mundo como terra da liberdade e das oportunidades (resta saber para quem exatamente).
Quem não conhece essa pequena obra-prima, aconselho a procurá-la o quanto antes, principalmente se levarmos em consideração o atual momento que os EUA vive, uma cópia quase xerográfica do que aqui está (na verdade, até piorada em muitos sentidos). Esse é daqueles filmes de cinema que deveriam figurar na lista obrigatória de qualquer um, seja qual for a sua geração.
Agora vão lá, assistam essa joia e tirem suas próprias conclusões!






