segunda-feira, 6 de julho de 2026

Acabou o sonho... de novo!


Embora não tenha assistido a nenhum jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo pelo SBT, já imagino o eterno Galvão Bueno proferindo a sua clássica frase "Acabou o sonho!" depois da desclassificação do Brasil para a seleção da Noruega ontem, num jogo onde faltou tudo: garra, entrega, tesão, habilidade, coragem, culhões. Resultado: nossa seleção fez sua pior campanha na competição desde 1990, na Itália, quando foi vencida pela Argentina também nas Oitavas-de-final. 

Contudo, o mais triste dessa desclassificação é aquele sentimento de que "já vimos esse filme outras vezes e nenhum sinal de mudança parece à caminho". Já começa, inclusive, a surgir na internet e nas redes sociais uma definição para este grupo que vem representando o Brasil na Copa nos últimos anos: geração tik tok (muito mais interessada em status, engajamentos, publis e fama efêmera, deixando o futebol em segundo plano). 

Infelizmente, definição melhor não há para esses "jogadores"(as aspas são intencionais). O Brasil foi pentacampeão mundial, sim, no passado... Continuar escondendo-se atrás desse rótulo é de uma temeridade - e de um arrogância - sem tamanho. Chega a ser até vil, dependendo do ponto de vista que se olhe. A própria expressão "o país do futebol" tão alardeada nessa época do ano precisa ser revista urgentemente, principalmente pela geração que nunca viu nossa seleção ser campeã de nada. 

A Copa encerra para o Brasil e dá lugar aos especuladores, especialistas, aspones, oportunistas de plantão e outras figuras que são notórias em nosso país na arte de fazer o nome em cima da tragédia alheia, cada um com uma solução na ponta da língua. "Precisamos mudar tudo", "Temos que voltar a jogar como brasileiros", "Não dá mais para copiar o modelo europeu de futebol". O treinador, que neste último ciclo foi estrangeiro (e, em tese, permanecerá até 2030) entrará na linha de tiro dos revoltados (principalmente os técnicos brazucas que estavam à espera do fracasso), bem como a geração fracassada que nada fez nas quatro linhas de 2014 pra cá. 

Pior: no próximo ciclo completaremos 28 anos sem sequer chegar à uma final, quiçá uma conquista. Some-se a isso o vexame secular do 7X1 contra a Alemanha aqui no país e ser eliminado por seleções de segunda prateleira da Europa (Bélgica, Croácia, agora Noruega...) e um fascínio notório pelo glamour e os escândalos envolvendo corrupção entre os dirigentes da CBF e pronto: o caos está definitivamente criado e mantido. 

O que fazer para mudar esse cenário dantesco? Se eles, que são os responsáveis pela gestão do dito esporte mais querido do país não sabem, que dirá eu ,mero blogueiro e colunista que nem considero o futebol minha paixão nacional. 

De concreto mesmo: 1) precisamos zerar o jogo, dar um fim de ciclo a muitos que aí estão e nada fazem além de enriquecer mais e mais e exibir mulheres, carros de luxo e patrimônios vultosos; 2) Haaland, o homem que matou o jogo no 2x1 que nos mandou para casa, entra para a gloriosa galeria de algozes que marcaram a história da seleção brasileira em Copas do Mundo (junto com Ghiggia, Caniggia, Paolo Rossi, Zidane, etc); 3) O país (leia-se: a sociedade) precisa enxergar o esporte com outros olhos, e entender que a competição tomou outro caminho com o passar dos anos e não somos mais a figura mais importante dentro desse universo.

É preciso - para ontem - que passemos a limpo a estrutura vigente, que viremos a página das subcelebridades que se dizem atletas com sua cultura da mediocridade e do ostentacionismo, que paremos de fabricar falsos heróis, salvadores da pátria que nem sequer conhecem o próprio país e, principalmente, "jogadores imaginários", que no final das contas só funcionam como memes e deboches rotineiros em discussões imbeciloides envolvendo gente que nem curte o esporte e a competição tanto assim... Só quer mesmo é engajar em cima do assunto. 

Parece muita coisa - e é. E que comecem o quanto antes, pois já estamos mais do que atrasados no cenário futebolístico. O problema é: será feito, realmente? Mais uma vez (e parece até sina dizer isso): aguardemos. De novo. Estamos sempre aguardando, não é mesmo? É o que nos restou como legado dessa desgraça esportiva. Até 2030. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Não estamos sós (e faz tempo isso)


Na adolescência eu fui um exemplar repleto de curiosidades sobre os mais diversos assuntos: de romances policiais e a era da lei seca à biologia marinha, de sociologia urbana à psicanálise, da beat generation (com um capítulo à parte para O uivo e Junky) às enciclopédias Abril e Larousse (precursoras do Google para qualquer estudante que se prezasse no século passado) e, como bem diria Buzz Lightyear, de Toy Story: "ao infinito e além". 

Contudo, nada nesse período me intrigou tanto quanto ufologia. Eu era um obcecado sobre o tema (independentemente de quem acreditasse - ou não - nos alienígenas quando conversasse comigo). J. J. Benitez era um autor de cabeceira que me acompanhou por um longo tempo, que o digam suas obras Ovnis: S.O.S. à humanidade, 100.000 Km em busca de ovnis e O ovni de Belém. E quando encontrei O caso Roswell numa videolocadora de bairro perto de casa foi um Deus nos acuda... Revi aquele filme por volta de umas dez vezes em pouco mais de uma semana! Tempos depois, inclusive, cheguei a comprar um vhs para mim. 

E a cereja no bolo dessa equação foi Mr. Steven Spielberg com seus eternamente nostálgicos Contatos imediatos do terceiro grau e E.T. Até hoje não me deparei com nenhum outro diretor que conseguisse falar sobre o assunto da mesma forma que ele (ou, pelo menos, com a mesma paixão). E acreditem: eu vi MUITA coisa!

Eis que, 49 anos depois daquela experiência sensorial que mudou a minha vida (e a de Roy Neary, personagem do ator Richard Dreyfuss, também!), Spielberg regressa às origens com O dia D. Entretanto, é preciso avisar aos fãs da minha faixa etária, mais nostálgicos: o tempo passou, Spielberg venceu Oscars, tomou novos caminhos, fez escolhas de carreira completamente diferentes, e me parece injusto da parte do público esperar dele aquele cineasta de 5 décadas atrás. Ele é outro indivíduo agora (e não significa que isso seja ruim). 

O dia D abre seus trabalhos deixando claro se tratar de uma conspiração envolvendo o alto escalão do governo e a necessidade de um grupo de dissidentes dessa organização, cansados de manter o segredo acerca dessa descoberta, mostrar tudo o que foi escondido da população até hoje. Sinais vão sendo mostrados pouco a pouco, abduções vão sendo desmembradas bem como o uso da tecnologia extraterrestre à serviço de uns poucos que acreditam que a verdade só gerará caos em meio à população. 

Mais do que isso: em determinado momento é mencionada a palavra divindade para se referir à tão polêmica descoberta, e isso certamente gerará incômodo num mundo contemporâneo onde dogmas vem querendo ser muito mais do que mero rito de fé. Na verdade, o eterno projeto de poder envolvendo os religiosos deste século talvez seja um problema para muitos "devotos" que irão assistir o filme. É preciso ter mente aberta para acompanhar a proposta aqui; portanto, não há espaço para alienados ou fanáticos.  

No quesito estética, O dia D não deixa nada a dever - agora sim - ao cinema mais nostálgico de Spielberg. Fiquei encantado com a paleta de cores e com a fotografia de Janusz Kaminski, colaborador de longa data do diretor (e também responsável pela luz de Contatos imediatos. Um mestre!). A música de John Williams também está presente, mexendo com meus sentimentos de novo, e o elenco é um caso à parte. Não saberia eleger uma má escolha aqui. Embora tenha ficado preso, quase mesmerizado, às atuações de Emily Blunt e Colin Firth, o restante do grupo também entrega tudo dentro do que lhe foi exigido. 

Ao fim da sessão - e sem querer entregar spoilers, mas sabendo da difícil tarefa que é isso -, o longa nos deixa claro que a vida fora do planeta terra está aqui há mais tempo do que supomos acreditar. E até hoje não sabemos o que fazer com essa informação, seja por ganância ou pela eterna mania de tratar o outro como idiota ou prisioneiro de discursos falaciosos. 

P.S: para quem espera por nostalgia ao extremo (anos 80 na veia), esse não será o seu filme. Já os que (como eu) gostam de olhar para frente e se deparar com novas perspectivas, o longa é sublime. E, claro, mais Spielberg do que nunca.    


domingo, 28 de junho de 2026

Mel Brooks, um século de humor


Hoje Mel Brooks comemora 100 anos de idade (e em plena atividade). Ele está em vias de lançar a continuação de seu clássico da ficção-científica S.O.S - tem um louco à solta no espaço, um clara sátira ao arrasa-quarteirão Star Wars, de George Lucas. E o mais importante dessa data comemorativa: ele sempre entregou ao público o que ele prometeu, nunca ficou em cima do muro no que tange ao teor de suas piadas. 

Melvin James Kaminsky (seu nome de batismo) provavelmente seria cancelado pela geração pão com ovo de hoje em dia - e muito! E quer saber? Quem perde com isso é a própria geração, que coloca defeito em tudo, moraliza qualquer piada. Quem acompanhou sua carreira de perto sabe bem o quão gratificante foi rir de suas piadas, se escangalhar com o seu estilo. Definitivamente ele faz um tipo humor que dificilmente existirá novamente, se levarmos em consideração no que a sociedade está se transformando por puro moralismo ou exibicionismo. 

A primeira vez que vi um de seus longas (em VHS, faz tempo!) foi O jovem Frankenstein, com Gene Wilder na pele do clássico personagem criado por Mary Shelley, e fiquei mais de uma semana relembrando das cenas e rindo sozinho no sofá da sala. Pensei na hora: "preciso encontrar mais coisas dele, o cara é ótimo". E, para minha felicidade, encontrei. 

Acompanhava seu trabalho paralelamente ao de outras duas lendas do humor: Blake Edwards (da série de filmes da Pantera cor-de-rosa, com Peter Sellers) e o papa do trash, John Waters (da parceria insólita com a eterna Divine). eles foram uma trinca que me acompanhou na - hoje saudosa - época das videolocadoras. 

Tornei-me fã de carteirinha, do tipo "eu assisto até pornografia se ele dirigir" depois do clássico Primavera para Hitler. A dupla Max Bialystock e Leopold Bloom me perseguiu adolescência adentro e serviu de porta de entrada para outros personagens também totalmente fora da curva surgidos em sua obra cinematográfica anos depois. Seus A louca! louca história de Robin Hood e A história do mundo - parte I (que os fãs aguardam a continuação até hoje) estão entre os filmes que eu mais reloquei e reassisti naquela época. 

Em A última loucura de Mel Brooks ele brincou com o conceito de filme mudo, levando a piada simples para outro nível. Já em Drácula: morto, mas feliz, ele entregou a tarefa de interpretar o vampiro das trevas de Bram Stoker para o impagável Leslie Nielsen, da consagrada trilogia Corra que a polícia vem aí. Só imaginem a cena! E ainda teve os dois longas da série Banzé (na Rússia e no Oeste). 

Mel Brooks podia transformar um mendigo na figura mais hilária que você já testemunhou na face da terra. Não havia tema do qual ele não debochasse (até a inquisição espanhola virou motivo de sacanagem em um de seus monólogos). Ele podia ser um Van Helsing anárquico ou um Yoda completamente surtado. Em suma: ele é a essência do riso, naquilo que ele tem de mais puro e sem pré-conceitos. 

E vê-lo chegar à um século de existência ainda em vida (como acontece com o também magistral Dick Van Dyke, de Mary Poppins, outra lenda da era de ouro do cinema) me faz pensar que a sétima arte não morreu totalmente, que ainda há motivos para acreditarmos nela, no que ela tem para nos oferecer, mesmo com tanta bobajada sendo produzida e tantos canastrões fazendo sucesso meteórico. 

Desejo à Mel Brooks muito anos mais de vida (por mais que a tarefa pareça impossível), pois é de artistas como ele que a indústria cultural precisa. E acreditem: o cara é gigante. 

sábado, 20 de junho de 2026

O maior filme brasileiro de todos os tempos


A notícia recentemente divulgada de que o filme Central do Brasil, do diretor Walter Salles, foi escolhido como o "melhor filme brasileiro de todos os tempos" (rótulo que é sempre um exagero, seja qual longa tenha sido escolhido para tal), me fez rever a produção cinematográfica, com o intuito de desconstruir minha própria visão sobre ele. E acreditem: minha opinião sobre o filme do Waltinho melhorou ainda mais depois de tantos anos sem revê-lo. 

Central do Brasil tem toda uma história de sucesso dentro e também fora do Brasil, onde foi vencedor do Globo de Ouro, do Urso de Ouro em Berlim, do Bafta, entre outras premiações. E por mais que eu considere grandes obras-primas do cinema brasileiro (como Cidade de Deus, Terra em transe, Os fuzis, São Paulo: sociedade anônima, Bye Bye Brasil, entre outros), acredito que a escolha de Central faz jus ao reconhecimento. 

Acompanhamos a saga de Dora (personagem da extraordinária Fernanda Montenegro) como quem acompanhamos a trajetória do próprio país. A mulher que escreve cartas na Central do Brasil para pessoas analfabetas, que desejam se comunicar com seus parentes distantes, e cuja vida se esbarra com a do jovem Josué que deseja reencontra com o pai nos cafundós do nordeste, após a morte da mãe num acidente de ônibus, diz muito sobre esse nosso país de extremos e inconstâncias. 

E o que há no filme de Walter para despertar tanto fascínio e comoção? Justamente essa capacidade de mostrar o país sem rodeios, favoritismos ou privilégios. Um país cheio de fé, mas também de dificuldades extremas, onde a realidade da grande maioria da população é um grande desafio diário e nada mais do que isso. 

Já conversei com inúmeras pessoas - até de outros estados do país - e é simplesmente incrível a quantidade de pessoas que ainda não entenderam completamente a mensagem do filme. Tem até quem desdenhe de sua capacidade de encantar ou refletir sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos ao fim de cada jornada complexa. E isso é uma pena! Mais do que o cartão postal da carreira do diretor Walter Salles (que com o passar dos anos, nos entregou outras grandes narrativas, como Diários de motocicleta e o recente vencedor do Oscar Ainda estou aqui), Central do Brasil - como os filmes Rio, zona norte e Rio, zona sul, do diretor Nelson Pereira dos Santos - é um grande cartão postal sobre o Brasil de uma época. 

Digo mais: em suas entrelinhas, é quase um estudo sociológico sobre uma sociedade dúbia, fragmentada, que não perde a esperança mesmo em meio às maiores dificuldades e dilemas. E isso é grandioso por si só, daí sua representação como "o melhor filme brasileiro de todos os tempos" (mas as aspas continuam indispensáveis, tamanha a riqueza de nosso cinema e a necessidade de escolhermos um melhor, em detrimento dos demais). 

E o pior: sua escolha - infelizmente - será debatida sob a ótica de bobalhões especialistas da internet e seus eternos revisionismos de quinta categoria, o que é sempre um mau negócio. Já para os verdadeiros fãs da sétima arte, acho muito difícil que condenem a escolha. Central do Brasil, Walter Salles, Fernanda Montenegro e cia, conquistaram esse lugar por mérito próprio e acho justo o título. Mais uma prova de que o nosso cinema é bem mais interessante do que acredita a própria população, que adora desdenhar dele sempre que pode, favorecendo enlatados hollywoodianos. 

Meus parabéns aos envolvidos na escolha. E viva o cinema nacional!       


quinta-feira, 11 de junho de 2026

É tempo de Copa do Mundo


É, minha gente... A copa do mundo de 2026 começou hoje. E, infelizmente, repleta (também) de más notícias por parte de uma das sedes, acreditando que o maior evento esportivo do mundo deva se submeter ou ser marionete daquela dita nação outrora "a mais poderosa do mundo". Mas não quero falar disso e sim do futebol, que é o que realmente interessa durante os meses de junho e julho. México, EUA e Canadá se dividem entre os anfitriões e é visível, logo de cara, nesses primeiros dias, quem realmente parece o mais animado dos três. Eles realizaram essa mesma festa em 1970 e 1986 e mostraram porque suas edições estão entre as mais animadas da história. 

Nossa seleção? Confesso que poderia pular este parágrafo, mas decidi mantê-lo. Nossa geração não é, nem de longe, boa. Fora uma ou duas surpresas aleatórias que podem surpreender, não descarto uma eliminação antes da final. Mas aguardemos. Em 1994 (também nos EUA) eu também não botava fé - e olha que tinha Romário e Bebeto no ataque - e deu no que deu. De certo mesmo é que houve muita polêmica (envolvendo a escalação de um certo atacante que não mostra a que veio a mais de 2 anos, e mesmo assim permanece o queridinho de um grande contingente) e também espetacularização e midiatismo em demasia na escolha de nosso escrete. 

Favoritas desse ano? Eu poderia jogar minhas fichas em França, Espanha, na atual campeã - a Argentina, com Messi -, muita gente falando de Portugal e Cristiano Ronaldo (que eu não vejo com essa força toda!), mas... Depois que Camarões venceu da Argentina no jogo de estreia em 1990 e Senegal calou a torcida francesa em 2002 eu acredito em qualquer coisa fora do óbvio. Embora o óbvio, nessa competição, em 90% dos casos sempre vença. Portanto, não sei o que esperar. Mesmo. 

Tenho uma relação quase doentia com zebras em Copas do mundo. Adoro ver o que vi ano passado com a seleção do Marrocos (e esse ano eles são o nosso jogo de estreia, logo...). E há também aquelas seleções por quem nutro grande simpatia, embora sempre saiba que perto da final elas voltarão para casa. São os casos de Holanda, Croácia, Inglaterra. Enfim... Eu sou um torcedor fora da bolha. Estou sempre na expectativa de que o inusitado aconteça. 

Infelizmente, é preciso também dizer isso, o mundo - pelo que está passando nesse exato momento - não deveria estar promovendo eventos como esse. Não vejo a realidade cotidiana nesse século XXI, repleta de terroristas e extremismos, como aberta à festividades e celebrações de qualquer tipo. E o fato (como já citei no primeiro parágrafo) de uma das sedes ter se tornado um grande problema nesse mundial, por conta de seu presidente déspota e sua eterna mentalidade de se achar insubstituível ou "dono do mundo", contribui ainda mais para esse sentimento de niilismo que se apossou de mim este ano. 

Sim, não estou em clima de Copa nem muito interessado em torcer, mas fiz questão de escrever esse post para deixar claro o quanto essa festa (sim, o show business se apossou dessa competição e faz tempo), ocorrida de quatro em quatro anos, diz muito sobre os "interesses" que povoam a humanidade e os chamados agentes do poder. A diferença em relação às edições anteriores? Não me parece - mesmo! - que há muita empolgação com o torneio esse ano, a começar pelos habitantes dos países sedes (excetuando, é claro, México).

Novos tempos? Descaracterização? O mundo passou a dar valor a outros temas, questões, eventos? O esporte virou reles negócio lucrativo? Eu poderia ficar aqui escrevendo o dia inteiro e não conseguiria chegar à uma conclusão realmente válida. Então, como diria o vilão Jigsaw do filme Jogos Mortais: que comecem os jogos! E que vença quem estiver destinado a vencer. 


sábado, 6 de junho de 2026

Um magnífico ensaio sobre o fim dos tempos


Vejo num canal nerd sobre quadrinhos no youtube a informação de que a graphic novel O cavaleiro das trevas, do trio Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley, completou 40 anos em 2026 e imediatamente viajo no tempo para meus exatos 19 anos (primeira vez que eu li a HQ). Ao mesmo tempo em que o tempo viaja na velocidade da luz - junto com minhas lembranças -, me pego procurando novamente a obra gráfica para ler. E, claro, me surpreender. 

O cavaleiro das trevas é uma obra-prima inquestionável do formato quadrinhos. Merece seu lugar de destaque junto à outras obras seminais como Maus (de Art Spiegelman), Akira (de Katsuhiro Otomo), Avenida Dropsie (de Will Eisner) e tantas outras pérolas da arte sequencial. Só que, mais do que isso, relê-la mais de duas décadas depois, me fez repensar esse trabalho magistral, à luz desse século XXI repleto de déspotas e outros seres degradantes que somos obrigados a aturar. 

Na HQ de Miller e cia, Batman não é mais um mero vigilante ou herói incompreendido. Pelo contrário. Após seu sumiço de Gotham City por uma década, ele se tornou uma figura estranha, soturna, que vê no aumento da criminalidade na cidade o estopim para se encontrar com seu lado dark e justiceiro. O problema: o estado (ou as autoridades, como preferir) agora o veem como um pária. Pior: um problema a ser combatido, assim como os seus arqui-inimigos.

Dick Grayson (o eterno Robin) rompeu relações com ele e o último a vestir o uniforme, Jason Todd, foi morto pelo Coringa. O que abre espaço para uma versão feminina da personagem entrar em ação e formar dupla com o cavaleiro das trevas. Contudo, vilões do passado - Duas Caras, Coringa - estão de volta, remodelados, prontos para novos crimes a serem perpetrados. E, além disso, há uma seita que pretende ocupar o lugar de Batman como força-motriz da cidade. 

Seu companheiro de combate, o Comissário Gordon, está se aposentando e quem assume o seu lugar como chefe é uma mulher que não acredita no papel do herói como combatente da violência. Ela vê nele, isso sim, mais um inimigo a ser destruído - custe o que custar. E o cenário de caos prolifera de forma dantesca, lembrando (e muito!) o atual Estados Unidos, rodeado de ICE e polícia corrupta por todos os lados.

Lembro de quando o diretor Christopher Nolan realizou sua versão da história para os cinemas com Christian Bale e Heath Ledger e hoje, após ler o volume de novo, fica aqui um elogio de minha parte. Ele soube reinventar de forma extremamente eficaz as principais temáticas da HQ, fazendo uma releitura bastante atualizada sobre esse grande "ensaio sobre o fim dos tempos".

As quase 200 páginas da obra mostram um painel inviolável do que se tornou a humanidade nessas últimas décadas, criada pela falta de empatia e eterna ganância do ser humano. O Cavaleiro das trevas é profético em todos os níveis que você puder imaginar e mostra de forma pontual o quanto seu roteirista já vislumbrava a decadência do sistema e a eterna predileção da sociedade pela mentalidade "o homem é o lobo do homem".

Resultado: um trabalho devastador, apocalíptico em n formas possíveis e imagináveis e que mostra o quanto o universo quadrinístico assumiu uma postura errada ao preferir a cultura cinematográfica à nona arte como forma de expressão. Ler O Cavaleiro das trevas novamente me fez pensar no quanto ver essa história no atual cinema estará sujeito à produtores e realizadores moralistas, comprometidos unicamente com o negócio lucrativo e nada mais.

Fica aqui, portanto, a recomendação para quem nunca leu essa joia. Isso aqui é ouro puro (algo raro na indústria cultural contemporânea).   


segunda-feira, 1 de junho de 2026

O mago da inventividade


Terminei o sábado em estado de graça e consciente de que a cultura e a arte são, de fato, libertadoras num patamar impossível de ser explicado. E ninguém na face da terra conseguirá destruir isso. Explico-me. 

Conheci o trabalho do artista plástico paulista Vik Muniz através do documentário de 2010 indicado ao Oscar Lixo extraordinário, dirigido pelo trio Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim, e na mesma hora fiquei encantado. Muito pelo fato de ele utilizar materiais inusitados em meio às suas telas. Ao invés de tintas, o artista usa como matéria-prima muito lixo, açúcar, geleia, macarrão, até mesmo cinzas do incêndio recente do Museu Nacional.

E o mais importante: ver os quadros de Muniz é um gigantesco exercício do olhar. Você tem diferentes leituras ao se aproximar ou se distanciar de uma tela, o que promove um efeito por vezes bi ou tridimensional. 

Dando continuidade a minha paixão (e também curiosidade) sobre o seu trabalho, fui essa semana ao Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade, para ver a exposição Vik Muniz: a olho nu, a maior retrospectiva da sua carreira até hoje. São mais de 220 obras que compõem um vasto cenário sobre a sua trajetória. E quem é fã de história da arte, artes plásticas (como eu) vai, certamente, ficar encantado.

Passeio pelos corredores amarelos e fico perdido em meio a tantas referências. Perco mais de meia hora só na parte dos retratos de celebridades. É, no mínimo, uma afronta um artista desse tamanho ser mais reconhecido no exterior do que no próprio país natal. Vik é tão inventivo, tão cheio de ideias, que me parece um desserviço à cultura não divulgá-lo ou sequer reconhecê-lo. 

Numa mistura de processos, materiais e escalas as mais diversas, o artista constrói uma nova forma de poética, transformando o olhar numa tarefa múltipla e não mais tradicional. Estamos a todo momento revendo suas ideias na tela, pois a cada momento elas parecem reproduzir novos significados. Não se surpreenda se, ao sair da exposição, você desejar vê-la de novo na semana seguinte, pois teve a sensação de ter perdido alguma coisa, algum detalhe. 

Pois a intenção da mostra, entre tantas outras, é exatamente essa: expandir leituras e interpretações. 

trabalhos tridimensionais do início de sua trajetória, séries fotográficas emblemáticas que marcaram sua produção ao longo dos anos e obras recentes, reunidas, acabam por configurar um imenso painel de um mago da inventividade. Acho que essa é a melhor maneira de classificar Vik Muniz (pelo menos, nesse exato momento; resta saber o que ele ainda irá nos entregar nos próximos anos - o que sempre é uma incógnita deliciosa).   

Ao fim, apenas uma certeza: seu trabalho é uma grande obra aberta, propensa a novos - e desafiadores - caminhos, e isso para qualquer fã de arte que se preze, é uma excelente notícia. Vejam! Fica em cartaz até 7 de setembro.