A guerra, como sempre, nunca acaba
não
nem pensar!
ela se sofistica
se reorganiza
mas acabar, nunca acaba
e não acaba porque os homens
- também os mesmos de sempre -
não abandonam seus objetivos escusos
seus fascínios deturpados
seus ternos bem cortados
sua eterna mania de conquistar
ou de simplesmente não respeitar o outro
que outro?
qualquer outro
porque nessas horas
não importa etnia, status social, sexualidade
se o outro pensa (ou defende)
algo minimamente diferente
precisa ser executado, exterminado, fulminado
mais que isso:
ele não pode sequer constar dos livros de história.
Os mísseis partem
de lá e de cá
atingem casas, prédios
destroem vidas
tudo feito por um reles joystick
idêntico ao do Playstation do seu filho
em meros segundos
bum!
tudo acabou
tudo vira pó
tudo vira cinza
tudo vira passado.
Enquanto isso
enquanto toda essa desgraça midiática acontece
tarifas impõem sanções
destroem reputações de países
crianças engravidam crianças
adultos traficam crianças
jovens são destruídos pelas drogas
desemprego
renda per capita baixíssima
populações consumidas pela indústria farmacêutica
quando mal sobra grana para pagarem seus aluguéis e hipotecas
e idiotas se divertem em resorts e festivais de música
ao som de alguma cançoneta pop ou techno fraudulenta
e dançam
e gritam a plenos pulmões
e achincalham quem não pertence à classe privilegiada
e entopem suas redes sociais
de seus fanatismos frustrados
tudo a troco de... de quê?
do nada existencial
do niilismo já cansativo
desse dia-a-dia cada vez mais monocromático
e sem graça
- e bota sem graça nisso!
Até quando?
- perguntam os devotos, os cristãos, os profetas -
até quando teremos de aturar mais um dia D
mais um conflito bélico
mais um desajuste político
provocado por meninos inseguros brincando de Deus
com seus dedos acusadores contra tudo que lhes pareça errado
enquanto seus próprios erros
são varridos para debaixo do mesmo carpete imundo?
Esqueçam o dia seguinte
e os outros que vierem depois deste
são todos iguais em suas intenções malévolas
o objetivo oficial: a reconstrução do mundo
o real objetivo: a covardia disfarçada de valentia
o mundo anda cheio de bullies e imbecis
passeamos 30 minutos pela internet
e nos deparamos com a legitimação do grotesco
a ignorância ganhou um status nunca antes visto
a guerra passou de televisionada
à fracionada em vídeos verticais no melhor estilo tik tok
com o único intuito de entreter os anormais.
O show business virou sinônimo de morte e alienação
crianças são bombardeadas em colégios
na verdade, são esterelizadas
mas o principal fator de preocupação
de 9 em cada 10 especialistas em catástrofe
comentando no NYT, BBC, CNN, etc
é a quantas anda a Bolsa de Valores
está tudo bem em Wall Street?
então continuemos
o resto...
é narrativa
é fake News.
Vejo pela tela do celular os destroços
os gritos
o desespero
o sentimento de impotência
os semblantes derrotados
de quem já conhece aquela cena
de quem já a viu antes, inúmeras vezes
aquela mesma expressão:
"é, acabou"
e ter de levantar a cabeça
e recomeçar
pela milionésima vez
sem saber se uma nova cena, idêntica,
está programada para daqui a uma ou duas horas
(de repente, menos).
Destruímos o bom senso
destruímos o direito de ir-e-vir
destruímos a possibilidade do diálogo
destruímos o viver coletivamente
destruímos até o prêmio nobel da paz
- que nunca foi essa coisa toda, diga-se de passagem! -
tudo em nome da ingratidão
e do desejo dos mesmos prepotentes de sempre
se acharem os "donos do mundo".
A seguir:
as cenas dos próximos (mesmos) capítulos.

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