Entre 1883 e 1885 o filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu sua obra máxima, Assim falou Zaratustra, onde nos apresenta um profeta que desce das montanhas para encarar e rediscutir o mundo como nós o conhecemos. Ele era totalmente avesso ao sistema tradicional e acreditava que os seres humanos são uma forma transicional entre macacos. Na verdade, certo estava ele, se levarmos em consideração no que a sociedade se transformou na virada para o século XXI.
Contudo, de tempos em tempos, assim como Zaratustra, outros homens também se decidiram a levantar contra um sistema arbitrário de ideias, contra uma mentalidade cafona de enxergar o mundo a partir de etnias, territórios e, principalmente, poder aquisitivo. Ontem, durante o intervalo do Super Bowl, da NFL, o mais americano dos esportes norte-americanos (o país misógino e racista por excelência), foi a vez de Benito Antonio Martinez Ocasio, ou simplesmente Bad Bunny, como se popularizou na indústria fonográfica nos últimos anos, falar o que pensa.
Ele, porto riquenho de nascença, cansou de Donald Trump e seu governo facínora e perverso, e defensor dos imigrantes e latinos que vivem na terra do tio sam, fez de sua apresentação no intervalo de uma das maiores competições dos EUA, um ato político muito mais autêntico do que o de muita gente que se diz agente político. E o principal: sem levantar a voz, sem agredir, sem xingar seu adversário.
Vamos da floresta e seus cultivadores às tradições da América Latina, com toda sua verve, seu delírio, suas cores, sua dança potente, seu jeito de olhar, de pensar, de simplesmente ser. Benito convida Ricky Martin - provavelmente o nome mais bem sucedido de Porto Rico na história da música - e Lady Gaga (que canta sua "Die with a smile" em tom de salsa) para a festa.
Pedro Pascal, Jessica Alba, Cardi B também estão lá, vislumbrando de tudo e dançando ao ritmo latino. Benito se veste em tons de Zara, uma marca famosa e elitizada (na verdade: uma provocação, como tantas), sobe no teto de uma casa, que desaba e depois age como os agentes da ICE, com a mesma truculência, metendo o pé na porta, afrontando seus moradores. Ele também entrega seu Grammy recém ganho à um menino que parece fisionomicamente com uma das crianças deportadas pelo governo Trump.
Não satisfeito com tudo isso, ele sobe em postes telefônicos, convida os demais países a um manifesto e quando diz "God bless America" corrige aquilo que os americanos não querem que seja corrigido: a América não se resume a um país, trata-se de um continente, vasto, rico, múltiplo em suas inúmeras culturas. Ele vem acompanhado das bandeiras de todos os países membros do continente, incluindo a nossa, traz sua bola, desfere um touchdown, avisa aos detratores: "seguimos aqui". Ou seja: não iremos a lugar nenhum. E tudo isso dito em espanhol, na língua natal do cantor, para repúdio ainda maior dos americanos moralistas.
E pensar que o protagonista da festa deveria ter sido o embate entre Patriots e Seahawks (que teve o segundo como vencedor). Na boa... Para muita gente foi o que menos importou na noite de ontem.
Como Zaratustra, Benito (ou Bunny, fica a seu critério como chamá-lo) decide peitar uma ideia enfadonha de mundo, baseada em classes sociais e objetivos escusos. Ele avisa aos latinos que não é hora de se acovardar e sim bater de frente com os ditos "donos do mundo". Se o Império Romano, que durou 5 séculos e destruiu tantas civilizações caiu por terra, não é o país do chamado "sonho americano" que atingirá o zênite da imortalidade.
Termino a apresentação - são meros 13 minutos, mas de um impacto colossal - realizado, feliz de pertencer a este continente, de ser latino também, e de não querer mais ditadores e fascistas impondo suas regras nefastas. Valeu, Benito! Você fez do meu domingo um dia melhor.

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