Na ultima semana não vi, nem li, muito menos ouvi nada que merecesse de fato a minha atenção, que dirá minha modesta opinião crítica. Em muitos aspectos, março acabou se tornando o oposto do que foram os dois primeiros meses do ano. Em suma: uma monotonia. Até que leio em alguns sites e perfis em redes sociais que a escola de samba Paraíso do Tuiuti escolheu o seu enredo para 2027. E ele será sobre a extraordinária Tia Ciata.
Empolguei-me na hora (além de lembrar da escola municipal que recebeu o nome dela, lá na Avenida Presidente Vargas, bem pertinho do Sambódromo).
Tia Ciata - ou mais especificamente Hilária Batista de Almeida (1854-1924)- foi uma mãe de santo e quituteira de mão cheia, que marcou época na cidade do Rio de Janeiro, além de ter um papel essencial na criação e difusão do samba no estado da Guanabara.
Hilária nasceu no Recôncavo Baiano e se mudou para a cidade do Rio de Janeiro em 1876, aos 22 anos. Moradora da Cidade Nova - reduto de negros e negras alforriadas, além de imigrantes de diversas localidades -, exatamente na Rua Visconde de Itaúna, localizada na Praça Onze (a então Pequena África), ela abriu espaço para o que veio a ser o "berço do samba".
Em sua residência ela reuniu os primeiros grandes nomes do gênero musical para que cantassem e tocassem livremente, num momento do país em que o ritmo era proibido por lei, visto como ocupação de marginais e delinquentes.
Ela fazia e vendia doces no tabuleiro nas ruas do Rio de Janeiro, sendo uma das primeiras baianas paramentadas com saias e turbantes a realizar tal comércio (ou seja: aquela imagem clássica que vemos das alas das baianas nas agremiações do samba tiveram ela como referência direta!)
Por sua casa passaram artistas de grande importância como Heitor dos Prazeres, Donga, Pixinguinha, João da Baiana, entre outros. Há, inclusive, fortes indícios de que foi em sua casa que "Pelo Telefone" - canção de Donga e Mário de Almeida (1916) -, o primeiro samba gravado, foi criado. Atualmente, é preciso dizer que tudo isso é questionado e investigado por historiadores, incluindo nesse debate se "Pelo telefone" foi realmente o primeiro samba da história.
Mas, em se tratando de Tia Ciata, deixemos de lado discussões e polêmicas. O verdadeiramente importante é reconhecermos ela como a grande matriarca do samba que foi (mais do que isso: pioneira). Pois assim como Dona Ivone Lara ela também merece todos os holofotes possíveis e imagináveis. Não fosse sua visão de mundo, talvez o samba - como gênero - não fosse o que é.
P.S: que grande escolha da Paraíso do Tuiuti... valerá a minha torcida ano que vem!

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