Eu considero lixeiro um das profissões mais complicadas do mundo. Imagine recolher todos os resíduos, toda a imundície produzida por uma sociedade cada dia mais imediatista e consumista e ainda ouvir desaforos na rua. É triste. Mais do que isso: um trabalho para corajosos. Eu sei que muita gente diz que só pega esse tipo de serviço que não tem melhores oportunidades trabalhistas, mas na boa... Com tanta gente trabalhando em casa, fazendo seu próprio horário, não, não dá.
Contudo, é preciso também entender a história por trás do lixo e como deixamos que as coisas chegassem a essa ponto. E foi exatamente com isso que me deparei enquanto lia a graphic novel Eu, lixeiro, do quadrinista Derf Backderf (da também ótima - e também postada aqui nesse blog - Meu amigo Dahmer).
Backderf nos apresenta ao cotidiano de uma das profissões mais difíceis e subvalorizadas dos Estados Unidos e acompanhamos a rotina frenética e repleta de desafios de um grupo de lixeiros, porém com mais frequência a da dupla J.B (alter-ego do autor) e Mike. E desde já adianto: ao fim da leitura, vocês ficarão perplexos não só com a quantidade de informação produzida como também com o cenário autodestrutivo que essa realidade apresenta.
J.B, Mike e seus colegas de trabalho encaram o duro dia-a-dia de quem recolhe a sujeira do país. E bota sujeira nisso! De mudanças abandonadas pelo meio do caminho por conta de ordens de despejo até garrafas de urina jogadas por motoristas no meio do trânsito, camisinhas usadas, eletrônicos descartados sem o menor critério, moradores insuportáveis que ainda querem dar lição de moral e um idoso carrancudo responsável pelo recolhimento de cães por parte da carrocinha, o que vislumbramos é o retrato do verdadeiro EUA, que adora se vender como "a grande nação".
Paralelamente a isso, o autor ainda oferece uma parte documental onde registra informações e estatísticas acerca da forma como o lixo é recolhido, reciclado e principalmente, como ele já era um problema social desde priscas eras. Detalhe importante: atentem para a questão dos aterros sanitários que vêm diminuindo com o passar dos anos, podendo levar a novos problemas futuros.
Talvez a nova geração de leitores não tenha paciência para lidar com essa segunda parte da obra (refiro-me a parte de pesquisa sobre o tema "lixo"). Entretanto, achei que ela agregou um valor ainda mais importante ao conteúdo produzido na parte ficcional, tirando a narrativa do âmbito da mera ficção. Chegou a me lembrar, em alguns momentos, a mescla de quadrinhos com jornalismo do Joe Sacco, outro grande mestre contemporâneo da nona arte.
O maior legado da HQ, com certeza, é o sentimento de preocupação sobre como lidaremos com esse problema num futuro próximo, tendo em vista que a própria sociedade não demonstra sinais de que se tornará menos consumista daqui pra frente. Pelo contrário. Nunca imaginei que fosse dizer isso aqui, num post, mas... Sim, lixo também pode ser cultura, se soubermos contextualizá-lo de forma contundente e com embasamento. E isso Eu, lixeiro, faz com maestria.
Para quem procura uma opção menos óbvia (leia-se: menos heroica ou sobrenatural) no formato quadrinhos, eis uma excelente opção. E o trabalho de Derf Backderf é magnífico e chama cada vez mais a minha atenção à medida que vou lendo mais coisas dele. Procurem! Aposto que vão devorar tudo numa sentada. Foi o que eu fiz, e nem senti o tempo passar.

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