O Cinema Odeon completou 100 em 2026. Não, é serio! Parece louco pensar que um lugar que eu frequentei tão repleto de boas lembranças e momentos marcantes já tem todo esse tempo de vida. Mas, ao mesmo tempo, é triste pensar no que ele se tornou: um lugar de resistência dentro do circuito exibidor brasileiro cada dia mais voltado aos cinemas de shopping centers e à sombra dos serviços de streaming. Sim, o Odeon merecia um posicionamento melhor em seu centenário.
Mas não é disso que se trata este post e sim relembrar do grande "templo cinematográfico" que ele é. Vejo numa matéria na internet comentando o centenário da sala o autor do texto se referindo ao local como "o Maracanã dos cinemas". Sim, é muito por aí. Mais do que uma mera sala de exibição, o Odeon é um fenômeno cultural por si só. Por ali passou o melhor da sétima arte ao redor do mundo.
Assim como foi possível assistir clássicos de Godard, Fellini, Antonioni, Glauber, Billy Wilder, Nelson Pereira dos Santos e tantas outras feras, o Odeon também foi lugar de controvérsias e sessões pautadas por polêmicas ou desafetos. Caso, por exemplo, de A serbian film, do diretor Srdjan Spasojevic (eu estava lá no dia). Acusado de incitar pedofilia, o longa quase foi boicotado, envolvendo na polêmica inclusive figuras políticas. Lembro da exata reação de alguns espectadores na sessão, meio enojados com o que viam na tela. Acho até que foram no dia para tentar impedir a projeção.
Outro diretor, que é a cara do controverso, cuja cinematografia marcou presença no cinema foi Lars Von Trier. Tanto O anticristo quanto A casa que Jack construiu, dois longas cheios de incômodos e amarguras (um deles, durante um Festival na Europa, viu seus espectadores se retirarem da sala durante a sessão) fizeram a alegria dos fãs do cinema sem barreiras, mais afeitos à liberdade de expressão.
É preciso também destacar como marco do cinema Odeon suas inúmeras mostras e programações especiais que fizeram história com o passar dos anos. O Festival do Rio, o Anima Mundi (mais famoso festival de animação da cidade do Rio de Janeiro), o Festival Varilux de cinema francês e as nostálgicas sessões da Maratona Odeon (evento que virava noite adentro, com o DJ André Luís entretendo a galera entre as sessões, e com filmes que podiam variar entre os clássicos do terror até filmes recém indicados ao Oscar. Quem frequentou não esquece!).
Assim como o (hoje extinto) Cine Paissandu, o cinema Odeon é uma instituição cinematográfica que marcou época na história da cidade maravilhosa. Acho quase impossível que algum cinéfilo raiz deixe de citar ambos ao se referir à sétima arte, quando questionado sobre o que é cinema aqui no Rio de Janeiro.
Se por um lado é triste percebermos que a sala hoje não tem mais a mesma projeção de outros tempos (fora em eventos específicos e sessões especiais), por outro é de uma extrema coragem e grandeza acompanharmos a luta do espaço para permanecer de pé em tempos de digital e serviços que fazem de tudo para que os espectadores permaneçam dentro de casa. Um adendo, entretanto, se faz necessário: é bem verdade também que os preços praticados muitas vezes não ajudam, contribuindo para a evasão com a qual o circuito exibidor tem de lidar nos últimos anos.
Amores e desafios à parte, considero extremamente simbólico o centenário do cinema. Outras casas tão antigas quanto ele, como o Roxy, por exemplo, não resistiram e tiveram que se transformar num outro tipo de negócio para não fechar as portas de vez. O Caso Odeon é a prova viva de que ainda é possível manter o tradicional mesmo em tempos de tecnologia e delivery dominando o mercado. Que ele continue persistindo!

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