quarta-feira, 15 de abril de 2026

A maternidade também é um campo de batalha


Se tem uma coisa que eu não entendo, nunca entendi, na humanidade, é essa mania que certos jovens têm de casar, construir família cedo demais, às vezes antes de chegar à maioridade. Abrem mão do próprio ato de viver, de enfrentar os obstáculos diários para acreditar na eterna ilusão do "encontrei a pessoa da minha vida". No final da experiência, o que sobra é aquele sentimento de "meti os pés pelas mãos" ou o famoso "Eu era feliz e não sabia".

Essa semana assisti (atrasado) à Morra, amor, filme da diretora Lynne Ramsay - que já havia chamado a minha atenção de forma impactante com o seu extraordinário Precisamos falar sobre o Kevin - e vivenciei uma interessante desconstrução sobre isso, essa obsessão da nova geração em querer amadurecer cedo em demasia. E o resultado é ainda melhor do que aquilo que eu via nos trailers.

Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) são o estereótipo vivo - seja em que país for - do casal prematuro, que quer antecipar passos importantíssimos antes de sequer viver a própria vida. Casam-se cedo demais e, consequentemente, tem um filho quando na verdade deveriam estar tentando, antes de tudo, entender o que é o mundo. A relação entre o casal parece um atirar-se aleatoriamente de para-quedas rumo a lugar nenhum. Mas com a responsabilidade de criar um filho tudo muda, na verdade, tudo piora. E a consequência disso é o desespero, o delírio, por vezes a psicose.

Jackson, como a grande maioria dos homens, encontra um novo estilo de vida ao perceber que as dificuldades de assumir a paternidade. Esconde-se atrás do trabalho e, claro, amantes. Já Grace precisa lidar com a parte mais difícil do casal: dar conta praticamente sozinha da criação da prole. O resultado? Ela pira, perde completamente a noção de realidade, e nem sua própria família é capaz de lhe apontar um norte, um porto seguro mínimo que seja.

Sim, meus caros leitores! Por mais que eu seja homem e não tenha filhos, nunca deixei de acreditar que a maternidade também é um campo de batalha - e dos mais terríveis. É preciso ter uma cabeça muito boa para ser mãe, ainda mais num mundo cada vez mais complexo e desigual como este no qual vivemos. A frustração e posterior desespero de Grace é totalmente justificável. Ela precisa dar conta das duas partes da relação e ainda por cima aparentar para os demais que tudo vai às mil maravilhas. Tarefa extremamente hercúlea para qualquer ser humano que se preze.

A diretora Lynne Ramsay é excelente ao mostrar em sua cinematografia esse lado perdido, sem chão, da sociedade contemporânea. Seus filmes sempre parecem nos mostrar o quanto o ser humano parece mais fodido do que realmente aparenta diante das convenções sociais. É como se perdêssemos nosso teor de civilidade e nos transformássemos em meros organismos vivos, sintéticos, sem alma. Sim, é triste e niilista ao extremo!

No caso de Grace ainda há o agravante de "mesmo que o meu casamento acabe eu não me liberto da responsabilidade de ser mãe. Eu simplesmente a assumo, dessa vez de forma oficial, sozinha, sem a ajuda do parceiro". E o desfecho dessa descoberta é ainda mais aterrador do que o próprio duelo que vem travando com a maternidade.

Para quem curte assistir longas sobre casamentos em crise ou falidos - como Foi apenas um sonho, Kramer vs. Kramer ou História de um casamento - este aqui é uma grande pedida. Com um ingrediente a mais: trata do que chamam de relacionamento as novas gerações, que tem mania de confundir casamento com diversão ou um mero hobby. E quando a verdade bate à porta não dão conta de lidar com o mais simples dos desafios, que dirá com a rotina angustiante e opressiva.

P.S: Que a atriz Jennifer Lawrence invista em mais projetos na carreira como esse (ela está ótima!) e não em franquias distópicas como Jogos vorazes, que nada mais são do que fábricas de bilheteria que depois que saem de cartaz e ninguém mais lembra.


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