Que a poesia está em todos os lugares, em todos os sentimentos, nas pequenas (e grandes) coisas do mundo, disso nunca tive a menor dúvida. Não importa o quão tenebrosa seja a realidade atualmente. É possível continuar sonhando em meio às adversidades diárias. O que importa: é continuar tentando, nadando contra a maré, insistindo, não desistindo.
E por que digo isso? Vejo o domingo melancólico que foi hoje, praticamente cinza, sem viço. Parecia completamente estragado. Um dia improdutivo a mais para esse 2026 esquisito até aqui. E então, como num passe de mágica, aparece no comecinho da tarde Paulo Miklos, o ex-titã, músico e compositor estupendo, e me apresenta no youtube ao adorável Coisas da vida. Que eu até poderia resumir como "uma playlist para salvar o meu dia". Porém, seu quinto álbum solo de estúdio, é bem mais do que isso. Ele é necessário, em tempos tão amargos.
É uma alegria tremenda conviver com o Miklos pós-Titãs, disposto a novos caminhos, novos voos, ou mesmo reeditando clássicos. E aqui há covers de canções inesquecíveis.
Ele abre seu disco se mostrando preocupado com o que estamos fazendo com o planeta terra, cita Jonas e baleia da bíblia sagrada, mostra que precisamos acreditar mais em nós mesmos, seres humanos. Enfim: deixa claro que a batalha (ainda) não está perdida. Insatisfeito, não se basta com essa breve mensagem que bem poderia soar aos ouvidos dos execráveis moralistas de plantão como um panfleto autoajuda chato, repetitivo.
E eis que ele enfileira uma trinca de respeito com as ótimas "Quero voltar pra Bahia", "Saudosa Maloca" (de Adoniran Barbosa, que o próprio Miklos já deixou claro em sua carreira ser um notório fã) e "Xibom bombom" (com seu toque de denúncia aos tempos atuais e ao eterno capitalismo selvagem que nos persegue). "Cachorro babucho" é apenas um tira-gosto para o prato principal, que vem em dobro com "Não existe amor em SP" e a eterna hit parade "Evidências" (clássico na voz da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó).
Mas acham que acabou, assim, desse jeito? Ah quem dera! O eterno roqueiro que habita dentro de Paulo não poderia terminar esse álbum de outra forma, que não fosse apresentando uma nova versão para um clássico. O escolhido é "O tempo não para", música síntese de Cazuza, o poeta do rock. Agora sim, posso fechar a tampa e eu a fecho, mas já saudoso, sabendo de antemão que certamente ouvirei o disco novamente nos próximos dias, para que fique fixado em minha mente sua mensagem.
Muito mais do que uma reles playlist para salvar um domingo acinzentado, sem sentido, Coisas da vida me ganhou por mostrar que o simples, mas bem feito, anda em falta na MPB, mais que isso: no mercado fonográfico atual. E ele pode ser bem mais poderoso do que muita bobagem estilosa que anda em voga atualmente. É apenas uma questão de se comprometer. O problema: quem é que se compromete com alguma coisa em meio a essa realidade louca proposta pela contemporaneidade? Pois é... O Paulo fez exatamente isso! e fica aqui o meu muito obrigado a ele.

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