Na adolescência eu fui um exemplar repleto de curiosidades sobre os mais diversos assuntos: de romances policiais e a era da lei seca à biologia marinha, de sociologia urbana à psicanálise, da beat generation (com um capítulo à parte para O uivo e Junky) às enciclopédias Abril e Larousse (precursoras do Google para qualquer estudante que se prezasse no século passado) e, como bem diria Buzz Lightyear, de Toy Story: "ao infinito e além".
Contudo, nada nesse período me intrigou tanto quanto ufologia. Eu era um obcecado sobre o tema (independentemente de quem acreditasse - ou não - nos alienígenas quando conversasse comigo). J. J. Benitez era um autor de cabeceira que me acompanhou por um longo tempo, que o digam suas obras Ovnis: S.O.S. à humanidade, 100.000 Km em busca de ovnis e O ovni de Belém. E quando encontrei O caso Roswell numa videolocadora de bairro perto de casa foi um Deus nos acuda... Revi aquele filme por volta de umas dez vezes em pouco mais de uma semana! Tempos depois, inclusive, cheguei a comprar um vhs para mim.
E a cereja no bolo dessa equação foi Mr. Steven Spielberg com seus eternamente nostálgicos Contatos imediatos do terceiro grau e E.T. Até hoje não me deparei com nenhum outro diretor que conseguisse falar sobre o assunto da mesma forma que ele (ou, pelo menos, com a mesma paixão). E acreditem: eu vi MUITA coisa!
Eis que, 49 anos depois daquela experiência sensorial que mudou a minha vida (e a de Roy Neary, personagem do ator Richard Dreyfuss, também!), Spielberg regressa às origens com O dia D. Entretanto, é preciso avisar aos fãs da minha faixa etária, mais nostálgicos: o tempo passou, Spielberg venceu Oscars, tomou novos caminhos, fez escolhas de carreira completamente diferentes, e me parece injusto da parte do público esperar dele aquele cineasta de 5 décadas atrás. Ele é outro indivíduo agora (e não significa que isso seja ruim).
O dia D abre seus trabalhos deixando claro se tratar de uma conspiração envolvendo o alto escalão do governo e a necessidade de um grupo de dissidentes dessa organização, cansados de manter o segredo acerca dessa descoberta, mostrar tudo o que foi escondido da população até hoje. Sinais vão sendo mostrados pouco a pouco, abduções vão sendo desmembradas bem como o uso da tecnologia extraterrestre à serviço de uns poucos que acreditam que a verdade só gerará caos em meio à população.
Mais do que isso: em determinado momento é mencionada a palavra divindade para se referir à tão polêmica descoberta, e isso certamente gerará incômodo num mundo contemporâneo onde dogmas vem querendo ser muito mais do que mero rito de fé. Na verdade, o eterno projeto de poder envolvendo os religiosos deste século talvez seja um problema para muitos "devotos" que irão assistir o filme. É preciso ter mente aberta para acompanhar a proposta aqui; portanto, não há espaço para alienados ou fanáticos.
No quesito estética, O dia D não deixa nada a dever - agora sim - ao cinema mais nostálgico de Spielberg. Fiquei encantado com a paleta de cores e com a fotografia de Janusz Kaminski, colaborador de longa data do diretor (e também responsável pela luz de Contatos imediatos. Um mestre!). A música de John Williams também está presente, mexendo com meus sentimentos de novo, e o elenco é um caso à parte. Não saberia eleger uma má escolha aqui. Embora tenha ficado preso, quase mesmerizado, às atuações de Emily Blunt e Colin Firth, o restante do grupo também entrega tudo dentro do que lhe foi exigido.
Ao fim da sessão - e sem querer entregar spoilers, mas sabendo da difícil tarefa que é isso -, o longa nos deixa claro que a vida fora do planeta terra está aqui há mais tempo do que supomos acreditar. E até hoje não sabemos o que fazer com essa informação, seja por ganância ou pela eterna mania de tratar o outro como idiota ou prisioneiro de discursos falaciosos.
P.S: para quem espera por nostalgia ao extremo (anos 80 na veia), esse não será o seu filme. Já os que (como eu) gostam de olhar para frente e se deparar com novas perspectivas, o longa é sublime. E, claro, mais Spielberg do que nunca.

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