quarta-feira, 22 de julho de 2026

O eterno Barretão


Leio a matéria no G1 e na mesma hora fico triste. É... O Barretão partiu. O quê? Você se diz cinéfilo de carteirinha e não sabe quem é o Barretão? Putz! Tá mal então... Luiz Carlos Barreto - que nos deixou órfãos de bom cinema aos 98 anos - é, nada mais nada menos, do que o produtor de cinema mais famoso do Brasil. Digo mais: sua história se confunde com a do audiovisual brasileiro, mais ainda: com a da cultura popular do nosso país. Através dos filmes que produziu ele nos contou histórias que perfazem um grande mosaico do que é a nossa sociedade. 

Antes disso, contudo, não se pode esquecer do fato de que ele também foi um fotógrafo de mão cheia (da revista O cruzeiro, onde fotografou de estrelas de hollywood ao ditador Fidel Castro), de olhar apurado, atento às mazelas dessa nação e do mundo. E isso em muito contribuiu para a carreira que ele viria a consolidar depois. Descobriu o cinema aos 12 anos, quando viu Orson Welles no Ceará filmando Jangadeiros para um documentário, durante o governo Vargas. Costumava dizer sempre que "O cinema é uma coisa útil, e não uma coisa fútil", frase que virou sua marca registrada (e deveria ser melhor interpretada por parte da geração que faz cinema hoje em dia). 

Falar de sua carreira daria uma grande tese de doutorado ou livro de referência, tantos foram os sucessos de bilheteria e crítica no qual esteve envolvido. Começou de cara com dois filmes emblemáticos: Garrincha - alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade e Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos. E se somente por esses dois medalhões você acha que ele não precisaria apresentar mais nada, é porque não conhece o restante do trabalho dele. 

A hora e a vez de Augusto Matraga, A grande cidade, O padre e a moça, Terra em Transe, Capitu, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, Como era gostoso o meu francês, Dona flor e seus dois maridos (por muitos anos, a maior bilheteria da história do cinema nacional), A dama do lotação, Bye Bye Brasil, O beijo no asfalto, Menino do rio, Memórias do cárcere, Ele, o boto, Luzia homem, O quatrilho e O que é isso, companheiro? (ambos indicados ao Oscar de melhor filme internacional), Bossa nova, A paixão de Jacobina, O caminho das nuvens... Ufa! Ele era uma lenda. 

Lembro de quando assisti um documentário sobre a vida dele, exibido no Canal Brasil não faz muito tempo. Tive a certeza de estar diante de um homem do seu tempo (e também à frente do seu próprio tempo). 

Barreto viveu a glória do cinema novo, bem como os anos do governo Collor (que extinguiu a Embrafilme). Conviveu de perto com a ditadura e toda a repressão, mas também teve a honra de ver o renascimento da sétima arte brasileira com a retomada, iniciada com Carlota Joaquina: princesa do Brasil, de Carla Camurati. Chorou, sorriu, venceu, perdeu, insistiu, tentou de novo, reiniciou tantas vezes e não abandonou a luta. Por isso seu nome estará sempre nos anais da nossa cinematografia. 

E, infelizmente, é mais um capítulo da série "não deixou um sucessor à altura" na história da cultura popular brasileira. Vai fazer falta - e muito! -, principalmente no momento atual que o nosso cinema vive, reconhecido no exterior com premiações inéditas, e precisando de um legado. Vai em paz, Mestre! Certamente tem alguma coisa magistral pra você produzir lá em cima...


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