Hoje Mel Brooks comemora 100 anos de idade (e em plena atividade). Ele está em vias de lançar a continuação de seu clássico da ficção-científica S.O.S - tem um louco à solta no espaço, um clara sátira ao arrasa-quarteirão Star Wars, de George Lucas. E o mais importante dessa data comemorativa: ele sempre entregou ao público o que ele prometeu, nunca ficou em cima do muro no que tange ao teor de suas piadas.
Melvin James Kaminsky (seu nome de batismo) provavelmente seria cancelado pela geração pão com ovo de hoje em dia - e muito! E quer saber? Quem perde com isso é a própria geração, que coloca defeito em tudo, moraliza qualquer piada. Quem acompanhou sua carreira de perto sabe bem o quão gratificante foi rir de suas piadas, se escangalhar com o seu estilo. Definitivamente ele faz um tipo humor que dificilmente existirá novamente, se levarmos em consideração no que a sociedade está se transformando por puro moralismo ou exibicionismo.
A primeira vez que vi um de seus longas (em VHS, faz tempo!) foi O jovem Frankenstein, com Gene Wilder na pele do clássico personagem criado por Mary Shelley, e fiquei mais de uma semana relembrando das cenas e rindo sozinho no sofá da sala. Pensei na hora: "preciso encontrar mais coisas dele, o cara é ótimo". E, para minha felicidade, encontrei.
Acompanhava seu trabalho paralelamente ao de outras duas lendas do humor: Blake Edwards (da série de filmes da Pantera cor-de-rosa, com Peter Sellers) e o papa do trash, John Waters (da parceria insólita com a eterna Divine). eles foram uma trinca que me acompanhou na - hoje saudosa - época das videolocadoras.
Tornei-me fã de carteirinha, do tipo "eu assisto até pornografia se ele dirigir" depois do clássico Primavera para Hitler. A dupla Max Bialystock e Leopold Bloom me perseguiu adolescência adentro e serviu de porta de entrada para outros personagens também totalmente fora da curva surgidos em sua obra cinematográfica anos depois. Seus A louca! louca história de Robin Hood e A história do mundo - parte I (que os fãs aguardam a continuação até hoje) estão entre os filmes que eu mais reloquei e reassisti naquela época.
Em A última loucura de Mel Brooks ele brincou com o conceito de filme mudo, levando a piada simples para outro nível. Já em Drácula: morto, mas feliz, ele entregou a tarefa de interpretar o vampiro das trevas de Bram Stoker para o impagável Leslie Nielsen, da consagrada trilogia Corra que a polícia vem aí. Só imaginem a cena! E ainda teve os dois longas da série Banzé (na Rússia e no Oeste).
Mel Brooks podia transformar um mendigo na figura mais hilária que você já testemunhou na face da terra. Não havia tema do qual ele não debochasse (até a inquisição espanhola virou motivo de sacanagem em um de seus monólogos). Ele podia ser um Van Helsing anárquico ou um Yoda completamente surtado. Em suma: ele é a essência do riso, naquilo que ele tem de mais puro e sem pré-conceitos.
E vê-lo chegar à um século de existência ainda em vida (como acontece com o também magistral Dick Van Dyke, de Mary Poppins, outra lenda da era de ouro do cinema) me faz pensar que a sétima arte não morreu totalmente, que ainda há motivos para acreditarmos nela, no que ela tem para nos oferecer, mesmo com tanta bobajada sendo produzida e tantos canastrões fazendo sucesso meteórico.
Desejo à Mel Brooks muito anos mais de vida (por mais que a tarefa pareça impossível), pois é de artistas como ele que a indústria cultural precisa. E acreditem: o cara é gigante.

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