A notícia recentemente divulgada de que o filme Central do Brasil, do diretor Walter Salles, foi escolhido como o "melhor filme brasileiro de todos os tempos" (rótulo que é sempre um exagero, seja qual longa tenha sido escolhido para tal), me fez rever a produção cinematográfica, com o intuito de desconstruir minha própria visão sobre ele. E acreditem: minha opinião sobre o filme do Waltinho melhorou ainda mais depois de tantos anos sem revê-lo.
Central do Brasil tem toda uma história de sucesso dentro e também fora do Brasil, onde foi vencedor do Globo de Ouro, do Urso de Ouro em Berlim, do Bafta, entre outras premiações. E por mais que eu considere grandes obras-primas do cinema brasileiro (como Cidade de Deus, Terra em transe, Os fuzis, São Paulo: sociedade anônima, Bye Bye Brasil, entre outros), acredito que a escolha de Central faz jus ao reconhecimento.
Acompanhamos a saga de Dora (personagem da extraordinária Fernanda Montenegro) como quem acompanhamos a trajetória do próprio país. A mulher que escreve cartas na Central do Brasil para pessoas analfabetas, que desejam se comunicar com seus parentes distantes, e cuja vida se esbarra com a do jovem Josué que deseja reencontra com o pai nos cafundós do nordeste, após a morte da mãe num acidente de ônibus, diz muito sobre esse nosso país de extremos e inconstâncias.
E o que há no filme de Walter para despertar tanto fascínio e comoção? Justamente essa capacidade de mostrar o país sem rodeios, favoritismos ou privilégios. Um país cheio de fé, mas também de dificuldades extremas, onde a realidade da grande maioria da população é um grande desafio diário e nada mais do que isso.
Já conversei com inúmeras pessoas - até de outros estados do país - e é simplesmente incrível a quantidade de pessoas que ainda não entenderam completamente a mensagem do filme. Tem até quem desdenhe de sua capacidade de encantar ou refletir sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos ao fim de cada jornada complexa. E isso é uma pena! Mais do que o cartão postal da carreira do diretor Walter Salles (que com o passar dos anos, nos entregou outras grandes narrativas, como Diários de motocicleta e o recente vencedor do Oscar Ainda estou aqui), Central do Brasil - como os filmes Rio, zona norte e Rio, zona sul, do diretor Nelson Pereira dos Santos - é um grande cartão postal sobre o Brasil de uma época.
Digo mais: em suas entrelinhas, é quase um estudo sociológico sobre uma sociedade dúbia, fragmentada, que não perde a esperança mesmo em meio às maiores dificuldades e dilemas. E isso é grandioso por si só, daí sua representação como "o melhor filme brasileiro de todos os tempos" (mas as aspas continuam indispensáveis, tamanha a riqueza de nosso cinema e a necessidade de escolhermos um melhor, em detrimento dos demais).
E o pior: sua escolha - infelizmente - será debatida sob a ótica de bobalhões especialistas da internet e seus eternos revisionismos de quinta categoria, o que é sempre um mau negócio. Já para os verdadeiros fãs da sétima arte, acho muito difícil que condenem a escolha. Central do Brasil, Walter Salles, Fernanda Montenegro e cia, conquistaram esse lugar por mérito próprio e acho justo o título. Mais uma prova de que o nosso cinema é bem mais interessante do que acredita a própria população, que adora desdenhar dele sempre que pode, favorecendo enlatados hollywoodianos.
Meus parabéns aos envolvidos na escolha. E viva o cinema nacional!

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