quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O surreal Tim Curry


Por que nos lembramos de certos artistas só de mencionar o sobrenome, enquanto outros precisamos pesquisar no google por mais informações? Digo isso, pois toda vez que lia o nome do ator Tim Curry - que faleceu hoje, aos 80 anos - e não via a sua imagem junto da matéria eu precisava fuçar em algum site de busca para ligar o nome à pessoa. E acreditem: acho isso uma sacanagem, porque ele era um puta artista. Marcou minha adolescência como poucos. 

Acho praticamente impossível dissociá-lo da imagem que ele próprio construiu com o Dr. Frank-N-Furter, personagem síntese do antológico musical The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman. Mais do que isso: ele era a "alma" do filme, que foi dos Midnight movies à peça cult para milhões de cinéfilos enlouquecidos. 

Outro trabalho marcante do ator, com certeza, foi o Pennywise da minissérie It: a obra-prima do medo, de Tommy Lee Wallace, feita para a HBO. Eu, que sempre fui fã de palhaços descontruídos como serial killers e psicopatas, nunca mais encontrei nada que chegasse sequer perto dessa versão aqui.

Contudo, se iludem aqueles que acreditam que a sua carreira se resumiu apenas a esses dois grandes papéis. Tim Curry, como disse em parágrafo anterior, marcou profundamente minha juventude, bem como de toda a minha geração (leia-se: a galera que vivia entrando e saindo das videolocadoras de bairro, um fenômeno que vem sendo trazido de volta, aos poucos, por uma legião de nostálgicos cada dia mais irritados com os serviços de streaming, o fim da mídia física e outras escolhas terríveis de mercado quando o assunto é distribuição e home vídeo). 

Se você hoje está próximo dos 50 (como eu), certamente se deparou com Curry em produções como Annie (de John Huston), A lenda (de Ridley Scott), A caçada ao outubro vermelho (de John McTiernan, do clássico de ação Duro de matar), Minha filha quer casar (de John Landis), Esqueceram de mim 2: perdido em Nova York (de Chris Columbus), Máquina quase mortífera (de Gene Quintano), Os 3 mosqueteiros (de Stephen Herek), O sombra (de Russell Mulcahy, uma adaptação em quadrinhos precursora de muita coisa feita pela DC anos depois) e Congo (de Frank Marshall). 

Já no departamento dublagem (e também narrações), eu poderia passar o resto da vida aqui e sequer arranharia a estrutura de tudo o que ele fez em termos de voz: de Batman à Eek, o gato; de A família dinossauro à Alladin; de A pequena sereia à Sonic; de Tom e Jerry aos Muppets; de O máskara à Carmen San Diego; de Scooby-doo à Johnny Bravo...

O garoto inglês que se formou em Teatro e Inglês na Universidade de Birmingham e estreou nos palcos numa versão londrina do musical Hair teve mais de 200 créditos ao longo da carreira (procurem no IMDb por mais detalhes, fanáticos de plantão!) e certamente deixará - muitas - saudades. Deixo aqui minhas condolências à amigos e familiares. Ele era foda (vou mais além: era surreal, na forma como conduziu sua vida e carreira). E seu olhar cínico, debochado, cheio de sarcasmo quando a câmera focava nele, nunca se apagará de minha mente. Vai com Deus e descanse em paz, mestre!


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