A presença do cover na indústria fonográfica é muito bem vinda, não tem nada de mais em exaltá-lo. Trata-se de uma nova performance ou regravação de uma música feita por um artista que não é o autor ou o intérprete original da faixa. Já houve, inclusive, casos em que o cover é infinitamente melhor do que a canção original. Lembro de ouvir Whitney Houston cantando "I will always love you" na trilha sonora do filme O guarda-costas e depois conhecer a faixa original, e pensar: "sim, ela não só reinventou... ela salvou a música". Logo, não demonizemos o formato.
Nos últimos dias andaram falando bastante sobre o cover de "Bichos escrotos", hit da banda Titãs, do álbum histórico Cabeça dinossauro (fase áurea da banda). Fui correndo ao you tube e encontrei o clipe rapidamente. Ao fim da audição, uma tremenda decepção, broxante mesmo. Sim, também é preciso dizer: às vezes o cover destrói toda a história de uma música, muito pelo fato dela estar ligada de forma quase mediúnica com um período da história.
Vi algumas pessoas da crítica especializada e, especificamente, um colunista da Rolling Stone, dizendo se tratar mais de um viral, uma forçada de barra, do que propriamente um registro digno de nota. E ele está certo. Não tenho nada contra Anitta, a cantora da versão que tomou a internet (nem sou fã do estilo musical dela, é bom ir logo deixando claro!), mas não me parece que ela seja a pessoa mais adequada para assumir uma responsa dessas.
Sim, é uma responsa.
"Bichos escrotos" é daqueles momentos do rock brasileiro (e também da MPB) em que você sente prazer em ouvir um sonoro esculacho, um gigantesco desabafo. Assim como na canção Que país é esse?, da banda Legião Urbana, aguardamos o momento em que a frase que dá título à música é proferida para dizer "é a porra do Brasil", em Bichos também esperamos ansiosos por aquele momento foda-se, em que podemos colocar toda a nossa revolta para fora.
E por mais que Anitta seja um expoente do funk (embora bem mais Kondzilla do que Furacão 2000 e, sim, há um enorme diferença!), ela não possui a coragem e o "culhão" necessários para vender a verve que a música almeja. "Bichos escrotos" é, praticamente, um hino oficial daquelas pessoas putas, que não aguentam mais os mandos e desmandos de um sistema podre, falho, corrupto, e veem na letra seu último resquício de enfrentamento à ordem social.
E do outro lado dessa equação vemos uma geração - da qual Anitta faz parte - que não está antenada com esse desejo de rebelar-se. Parece mais afeita ao mundo dos negócios, do status, do glamour, tudo o que a música em questão não prega. Pelo contrário. Sei que vou ser detonado de tudo quanto é lado pela imensa legião da fãs da cantora (e eles sabem ser cegos e persistentes o quanto podem!), mas acreditem: a cantora e a canção não deram match, sorry! E às vezes isso também acontece, mais até do que vocês imaginam. Quem sabe no próximo.
Não será a primeira, nem a última vez, que rainha do baile das poderosas e a girl from rio, passará por isso na carreira. E ela já está até calejada nesse sentido. E, sim, eu precisava fazer esse post, pois não dá pra gostar de tudo só porque os outros gostaram. Os bichos, dessa vez, não eram tão escrotos assim...

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