Algumas atrizes sacramentaram o conceito de musa no cinema mundial. Assim foi Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Claudia Cardinale, Elizabeth Taylor, Judy Garland, Sônia Braga, Diane Keaton e tantas outras. Eu poderia incluir Helena Ignez nessa lista (com folga), mas cá entre nós: isso não explicaria, sequer arranharia, a superfície do que ela é. E como é bom ver isso tudo muito bem representado na Ocupação Helena Ignez, que ocorre no Itaú Cultural, em SP, até 18 de outubro.
Eu me tornei fã de Helena por acidente (acidente, não; e sim porque, lá atrás, ela foi parceira de dois dos maiores nomes da história do nosso cinema: Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. E isso, por si só, era para mim um puta cartão de visitas). Ao vê-la como Sonia Silk em Copacabana Mon Amour, eu tive uma certeza: estava diante de uma artista incomum, e nenhum rótulo conseguiria defini-la. De jeito nenhum.
Helena trabalhou em 77 longas (obras seminais como Assalto ao trem pagador, O padre e a moça, O bandido da luz vermelha, A mulher de todos, Sem essa, aranha, Nem tudo é verdade, O signo do caos, etc), dirigiu outros 11 (dentre os quais, recomendo com força A miss e o dinossauro, Luz nas trevas: a volta do bandido da luz vermelha e A moça do calendário) e interagiu no teatro, na política, na sexualidade, na espiritualidade, na vida como um todo. E, ainda assim, parece quase impossível dar-lhe uma definição derradeira. Ela é múltipla no melhor sentido da palavra.
Vejo essa senhora como um estupendo exemplo do que deveria ser todo artista. Como bem diria Raul Seixas: uma metamorfose ambulante. Sem papas na língua, ácida, sabendo de antemão o que quer - e principalmente: o que não quer -, ela construiu uma carreira sólida e cheia de nuances. Junto com Sganzerla e Bressane foi além e nos entregou a Belair, sinônimo de radicalismo e autoralidade cinematográfica numa época em que simplesmente emitir uma reles opinião já era o maior pecado. Helena causou (e muito). Graças a Deus!
A exposição no Itaú cultural reúne fotografias, documentos, trechos de filmes e materiais inéditos que revelam a atuação de Helena diante e atrás das câmeras, além de uma publicação virtual e um site cheio de conteúdo, para dar e vender. Quem quiser saber mais, muito mais, acesse: https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/helena-ignez/.
Seu sobrenome? Com certeza, deveria ser liberdade. Criativa, de pensamento, de viver sem freios. Eu poderia passar o resto do dia, da semana, do mês, do ano, aqui, escrevendo, falando exclusivamente sobre ela, e ainda assim faltaria muita coisa para dizer. Ela era a mulher de todos, e de ninguém. Parte indecifrável; parte mágica, ímpar, única. Grande Helena. Fantástica Ignez. Longa vida a você, antimusa!
E quanto a vocês, que leram esse mísero post que tenta homenageá-la, pelo amor de Deus, vão conhecer a Ocupação. Aquilo ali é a história do audiovisual brasileiro, que merece ser exaltado, lembrado, relembrado. Não importa o quanto queiram difamá-lo. Não desperdicem essa chance. Talvez vocês não tenham outra.

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