terça-feira, 4 de agosto de 2026

O mundo é uma pista de dança


Quase esqueço de comentar Confessions II, novo álbum da Madonna que vem despertando o interesse do público no último mês. Andei lendo, ouvindo e vendo tanta coisa (boa e também descartável) que deixei o time disso aqui passar. Mas quer saber? Melhor assim. Fujo das opiniões tanto dos detratores da diva pop quanto dos elogios vazios dos fanáticos admiradores sem critério. Acreditem: o ideal hoje, do jeito que o mundo está, é ficar no meio-termo. Sobre tudo. 

Confessions II é a melhor coisa que a material girl produziu nos últimos anos - e com folga. Não deve nada ao álbum original, lançado em 2005 e que já trazia uma Madonna bastante à vontade, despudorada como só ela. Aqui, em alguns momentos, achei as letras até mais diretas, incisivas, sobre os temas que a cantora tanto gosta de martelar (e incomodar) os incautos por natureza. 

Madonna correlaciona o mundo com uma pista de dança, chegando a chamá-la até de um ritual (como fica expresso na canção "One step away"). Ela diz, sem rodeios e firulas, estar aberta a uma nova persona, livre, repaginada. Portanto, esqueçam sua versão antiga. O que a diva deseja mesmo é recomeçar do zero, antenada com este novo mundo que vai se mutilando dia a dia, ano a ano, nos forçando por vezes a tomar atitudes radicais. 

Consciência é uma palavra que povoa muito seu novo trabalho. E mais: ela não quer saber da opinião que as outras pessoas têm sobre ela e mais do que certa ela está. A humanidade anda por demais cretina para que nós a levemos a sério. Ela deseja o seu amor e não suas críticas (e canta isso em alta voz, ao lado de Sabrina Carpenter na ótima "Bring your love").

Há um momento metralhadora anti-sistema no álbum, quando ela acusa os falsos modelos de ética da sociedade, pessoas que só sabem mentir e desejar o pior ao outro. E é nesse momento que a pista de dança é fundamental, para exorcizar esse pensamento. Somente nela, vivenciamos o território da liberdade (trata-se de "Danceteria", que é praticamente a Vogue desse novo álbum).

Entre os mantras propostos por Madonna nesse novo disco estão premissas como "viva de olhos abertos", "encontre a luz para a sua vida", "fuja da escuridão cotidiana". E o principal: o papel do amor nessa equação pra lá de louca e exuberante. Ela diz em "Bizarre" - no qual menciona o casamento com o ator Sean Penn - que "o amor é a coisa mais estranha do mundo". Já em "Love without words", convida o ouvinte a ouvir o amor que vem de dentro, que paremos de aprender com o que vem de fora. E em "Love sensation" explicita o amor como uma droga da qual não consegue se libertar.

Ao fim, ela enaltece que não estava perdida esses anos todos, e sim apenas despedaçada por aqueles que tentaram colocá-la no chão, submissa (mas não conseguiram). E na música que encerra essa experiência quase psicodélica, "L.E.S girl", ela constrói uma crônica sobre uma garota independente que vive intensamente, um dia de cada vez. Tudo que ela vem mostrando ao mundo desde os anos 1980. E ela conseguiu de novo!

Ouçam. Quantas vezes forem necessárias. Saber que ela ainda está entre nós é um alento em meio a tanta mesmice, tanta mediocridade musical. Logo, não pode ser desperdiçado. De jeito nenhum. 


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