domingo, 28 de dezembro de 2025

De musa à indesejada


A notícia de que a atriz francesa Brigitte Bardot faleceu hoje, aos 91 anos, em Saint Tropez, me trouxe à tona uma lembrança lúgubre: a das duas mulheres que ela foi ao longo da vida, a musa e posteriormente a indesejada, em alguns casos até odiada por setores da sociedade mundial. E essa segunda mulher, em muitos aspectos, destruiu parte da lembrança nostálgica de seus filmes e persona ímpar (tanto no cinema francês como mundial).

Simone Beauvoir, símbolo do feminismo, a elogiou, dizendo que ela representava a figura da mulher das próximas gerações, por seu arrebatamento e falta de pudor ao lidar com cenas até então vistas como polêmicas quando interpretadas por artistas do sexo feminino. Assim como Marilyn Monroe em hollywood, Brigitte também foi um artigo de exportação, só que do cinema francês. Era lindíssima, irretocável, todas a invejavam, queriam ser como ela. E isso fica mais do que evidente quando vemos até hoje filmes como O desprezo, de Jean-Luc Godard e também E deus... criou a mulher, de Roger Vadim (para muitos cinéfilos, seus dois longas mais famosos).

Antes dos 40, ela decidiu abandonar as telas, abraçou a causa animal até o fim da vida, morou aqui em Búzios uma temporada, quis se desfazer de sua imagem de starlet criada ao longo da carreira...

O problema: com o avançar dos anos, o moralismo excessivo se apossou dela, e começou a disparar discursos lamentáveis, principalmente contra muçulmanos e também integrantes do movimento LGBT. Foi condenada seis vezes por injúria racial e transformou sua imagem na de uma pessoa incômoda, amarga, que não aceitava os novos tempos. Virou um símbolo mais afeito aos conservadores fúteis e sem noção, que acreditam piamente que qualquer possibilidade de diferença não passa de uma aberração a ser destruída. Uma pena.

Contudo, mesmo tendo se tornado a reacionária que se tornou nos últimos anos de vida, não consigo cancelá-la gratuitamente, como muitos adoram fazer hoje em dia. Dizer que Brigitte não é um nome que se confunde com o da história da sétima arte seria um crime, praticamente uma blasfêmia. Por tudo o que ela representou para a geração cinéfila do seu tempo.

Sim, Brigitte Bardot foi fruto de uma época. Uma época que não existe mais, engolida por uma nova civilização que se diz moderna e revolucionária, mas não passa de covarde e acusadora, muitos deles bem piores do que os discursos que ela proferiu no fim da vida. Mas disso ninguém gosta de comentar, pois atirar pedras em janelas alheias é o esporte preferido do século XXI.

Chego ao fim desse post num misto de sentimentos: a saudade de uma das maiores símbolo sexuais que o cinema já nos apresentou, que se perdeu em meio a discursos aleatórios e que nada contribuíram para a sua imagem. E também a melancolia de perceber que os artistas que fizeram do cinema a grande arte que ela é hoje estão indo embora numa velocidade espantosa, sem peças de reposição minimamente gratificantes. Isso, sim, é terrível. Bem mais terrível do que simplesmente apedrejá-la nas redes sociais.

E quanto à Brigitte: que fique em paz, com Deus, onde quer que ela esteja nesse exato momento. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Arlequina salvou o natal


Nos últimos anos tenho achado o natal e tudo o que versa sobre ele cada vez mais cansativo (além do fato de que nunca mais é a mesma coisa depois que nossos pais faleceram). Fico quase que na expectativa da chegada da meia-noite para terminar mais um dia e ir dormir. Contudo, Lady Gaga esse ano me ofereceu um presente de última hora: o show Harlequin live: one night only, transmitido gratuitamente no youtube.

A personagem que dá título ao show é a mesma que ela interpretou no filme Joker: folie à deux, no qual dividiu tela com o ator Joaquin Phoenix. Logo, trata-se de um projeto musical paralelo ao longa-metragem. E, diga-se de passagem, muito melhor do que o próprio filme.

Com um banda afiadíssima, que se alterna entre o jazz e o rock, Lady Gaga entrega tudo e mais um pouco em pouco mais de quarenta minutos de apresentação frenética.

Há, no setlist, inúmeros clássicos da música americana, como "When the saints" (que eu adorava cantar em casa na época em que estudava inglês no CCAA), "That’s entertainment" (que eu sempre associo aos musicais da Broadway e a era de ouro de hollywood, com Fred Astaire e Gene Kelly), "I got a world on a String" (eternizada pelo amigo Tony Bennett, que aparece em vídeo, como forma de homenagem), "That's life" (que Frank Sinatra tornou eterna no imaginário do povo americano) e "Close to you", além - é claro - de boas novidades, como "Happy mistake".

E olha que ainda teve "Smile", canção definitiva de Charles Chaplin, que cai como uma luva em qualquer bom repertório que se preze, ainda mais se tratando de um repleto de hits clássicos.

Não quero falar mais do que o necessário, pois a apresentação ainda se encontra disponível no canal oficial da cantora no you tube (para quem ainda não teve o prazer de assistir). Logo, fica aqui a minha recomendação: a cantora está radiante e o conceito do show - dividido em 4 atos - como um todo, é sublime. Gaga canta, dança, grita, explode em fúria, apaixona, atiça o público. Não à toa é das artistas mais relevantes do atual cenário pop.

E fica aqui até um breve comentário extra de minha parte: ela deveria investir mais nesse lado da sua carreira. Desde que ela lançou, em 2014, ao lado de Bennett, o álbum Cheek to cheek, eu venho prestando atenção nessa faceta jazz band dela (que é ótima) e que tem chamado mais a minha atenção do que a sua própria carreira comercial. Que ela se arrisque mais em caminhos inusitados como este. Certamente, a parte do público dela do qual faço parte agradecerá.

Agora vão lá no you tube conhecer essa grata surpresa que fez eu ainda acreditar em festas de fim de ano!

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Memórias de uma criatura incrível


"Ele era uma criatura incrível", diz o ator Macaulay Culkin, astro de Esqueceram de mim ao final do documentário John Candy: eu me amo. E ele estava absolutamente certo. John Candy foi um ícone da comédia sem igual, até hoje sem sucessores à altura.

Uma figura bonachona e engraçadíssima, cujo estilo de interpretação marcou os anos 1980 (época de grandes humoristas e filmes que marcaram hollywood). E quando vemos os depoimentos de amigos e atores que contracenaram com ele ao longo da carreira - figuras como Steve Martin, Bill Murray, Tom Hanks e outras feras - é fácil perceber que nós, os espectadores, não fomos os únicos a entender o que ele tinha de tão genial.

O longa - dirigido por Colin Hanks e produzido por Ryan Reynolds - mostra Candy desde a infância, órfão de pai muito cedo, apaixonado por futebol americano (chegou a ser dono de um time da liga canadense), iniciando no grupo de teatro Second City e logo emendando em programas de tv que se tornaram populares com um enorme facilidade. Ele conseguia imprimir sua marca única em tudo o que fazia e seus colegas de elenco percebiam imediatamente seu faro apurado e sua inteligência ímpar. Daí para os longa-metragens norte-americanos foi um pulo.

E quem nunca assistiu, nem sequer um trailer, de Quem vê cara não vê coração, Antes só do que mal acompanhado, Jamaica abaixo de zero, Quem é Harry Crumb? e S.O.S. - Tem um louco solto no espaço, não é cinéfilo de carteirinha e não faz a menor ideia do que está perdendo.

O filme também mostra a luta de Candy contra a depressão e o estigma de permanecer gordo em uma indústria que dita padrões e fabrica formatos sem pensar nas consequências disso para quem vive na pele o dilema. Me arrisco inclusive a dizer que foi um dos melhores trabalhos documentais que assisti nos últimos anos, sem soar piegas ou mesmo ecoando discursos exagerados sobre a fama e o estrelato. Ou seja: o que um bom registro biográfico deve ser.

Estou para assistir John Candy: eu me amo desde seu lançamento no Prime Video, mas somente agora encontrei tempo (do jeito que eu queria) para apreciá-lo do jeito certo. E recomendo, principalmente aos fãs de comédia, saudosos de um humor realmente engraçado e não tão apelativo como o dos dias atuais. Fica a dica. E que os serviços de streaming trilhem mais este caminho, ao invés de perder tempo com blockbusters chatos e franquias vazias e sem carisma algum.  

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O cineasta das relações humanas


2025 está bom de terminar mesmo! Foi muita pedrada pra um ano só.

Primeira notícia que leio na internet hoje me deixa chocado e fico sem acessar mais nada por algum tempo: o cineasta Rob Reiner foi encontrado morto dentro de casa junto com a esposa. Pior: tudo leva a crer que ele tenha sido assassinado pelo próprio filho. Mal digeri direito a partida de Gene Hackman e outra tragédia se abate sobre hollywood envolvendo um grande nome do cinema americano. E justo um cara tão gente boa como Rob!

Rob Reiner não era um diretor de épicos monumentais, filmes caríssimos, de orçamentos estratosféricos... Não era o tipo de artista que se envolveria em projetos como Avatar, longe disso! Mas quando se propunha a dirigir era o retrato do homem que sabia fazer o básico sem rodeios e de forma encantadora (algo que anda em falta na indústria de cinema norte-americano).

Eu gosto de pensar nele como o cineasta das relações humanas. Seus longas estavam repletos de conflitos e embates inebriantes. Fossem eles entre militares, escritores e seus respectivos fãs, relacionamentos amorosos que a priori pareciam ter tudo para dar errado até que algo os colocava lado a lado novamente, etc. Ele sabia dirigir atores como ninguém e era memorável assistir suas produções.

Há muito do que gostar em sua filmografia: Isto é spinal tap (um mockumentary que praticamente inventou esse estilo de produção satírica), Conta comigo, A princesa prometida, Harry e Sally: feitos um para o outro (Billy Cristal e Meg Ryan como o casal mais anti-convencional do mundo), Louca obsessão (como esquecer de Kathy Bates na pele daquela leitora psicopata?), Questão de honra (como esquecer do tête-a-tête entre Tom Cruise e Jack Nicholson no tribunal?), Fantasmas do passado, Dizem por aí (uma quase continuação de A primeira noite de um homem), Antes de partir (para mim, seu último grande filme, com Morgan Freeman e Jack Nicholson se despedindo da vida através de uma lista de "últimos sonhos").

E não somente atrás das câmeras. Reiner também foi um ator pra lá de produtivo e participou de importantes produções como Tiros na Broadway (de Woody Allen) O lobo de Wall Street (de Martin Scorsese), Cine Majestic (de Frank Darabont), Lembranças de Hollywood (de Mike Nichols), Jogue a mamãe do trem (de Danny Devito) e até mesmo na série sessentista do Batman com Adam West e Burt Ward (sim, aquela que era exibida no SBT).

No fim das contas, a imagem que me fica do diretor é o daquele tiozão gente boa cujos filmes volta e meia apareciam nas sessões da tarde na Rede Globo, entremeados por uma ou outra produção mais sofisticada ou ousada (para os seus próprios padrões). Ao pesquisar para escrever este post descubro que ele quase dirigiu Um sonho de liberdade, com Tim Robbins e Morgan Freeman, baseado num romance de Stephen King, um de meus filmes preferidos da vida. Na mesma hora fiquei curioso, dizendo em voz alta: "eu gostaria muito de ter visto essa versão". Infelizmente não foi possível. Como também não serão novos filmes dele. Uma pena.

Rob, fica com Deus! Você era uma voz mais do que autêntica dentro de um mercado cinematográfico que, ao contrário de você, se perdeu na estrada. E a sétima arte vai sentir muito a sua falta. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Que lista execrável!


Toda vez que eu posto aqui no blog sobre literatura e mercado editorial eu preciso lutar contra a minha própria sanidade. E nesse final de 2025 não foi diferente. Após ver a lista dos livros mais vendidos pela Amazon durante esse ano, eu percebo dia a dia o quanto o leitor brasileiro se esmera por ser pobre (intelectualmente falando).


Vamos à lista antes de qualquer outro comentário:

Do dia para a noite, Bobbie Goods

Dias quentes, Bobbie Goods

Café com Deus pai, Junior Rostirola

Verity, Colleen Hoover

A psicologia financeira, Morgan Housel

A metamorfose, Frank Kafka

A hora da estrela, Clarice Lispector

Isso e aquilo, Bobbie Goods

Hábitos Atômicos, James Clear

O homem mais rico da Babilônia, George S. Clason


Mal termino de ler a lista e minha frustração toma conta da sala (estava vendo a relação sentado no sofá, pela tela do meu notebook). Imediatamente salvo meus únicos dois exemplares viáveis: A metamorfose e o irretocável A hora da estrela, da sempre magnífica Clarice. E quando leio a frase Bobbie Goods três vezes, tenho a imediata certeza: estamos fodidos e mal pagos.

Sempre desconfiei do leitor brazuca. Ele, na maioria dos casos, desdenha de nossos grandes autores, não faz a menor questão de conhecer nomes como Machado, Graciliano, Lima Barreto, Nelson Rodrigues, Autran Dourado, Castro Alves, Drummond, isso quando não chama um ou outro literato do passado de "doutrinador", "machista", "pervertido", "imoral", etc etc etc, em nome de uma suposta "moral e bons costumes" que não passam de frustração verborrágica.

Somos uma civilização de enxeridos, fofoqueiros, debruçados em telas de celulares enquanto fazemos caretas e bisbilhotamos a vida dos outros (de preferência, os famosos fúteis do cotidiano pop star). Contudo, vislumbrar ano após ano o desinteresse latente do próprio povo por sua literatura ou por grandes nomes da literatura internacional, é de doer.

Passei minha vida correndo atrás de autores como Umberto Eco, Shakespeare, Alberto Moravia, Dostoiévski, Jorge Luis Borges, Tolstói, Tom Wolfe, Truman Capote e cia. e hoje me deparo com uma geração que se perdeu na idiotice humana produzida por uma internet que só faz jogar uns contra os outros em nome de uma popularidade e uma fama sórdidas. Triste, viu!

Que acordemos o quanto antes (e eu sei que esse é um pedido já velho e repetitivo de uma parcela da sociedade lúcida que não aguenta mais tanta vergonha alheia e más escolhas - parcela da qual sempre fiz parte, desde meus 10 anos, quando descobri o poder por trás dos livros) desse imenso marasmo intelectual e do que se tornou a sociedade nas últimas décadas. É preciso abolir urgentemente essa mentalidade fast food ou Prêt-à-porter do mercado, que transforma tudo em consumo rápido e fácil.

Literatura não é sabão em pó, muito menos um liquidificador ou uma motocicleta, logo não deveria ser tratada como tal por quem deveria transformá-la num artigo transformador (principalmente para as próximas gerações, que mal nasceram ainda e já são parte do problema, já herdam o aspecto deficitário desse cenário). Dito tudo isto - e após ler novamente a execrável lista - oremos. Por dias melhores. E que eles venham, rápido. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

E eu que achava que já tinha acabado!


Saiu nessa última semana a notícia de que a MTV, agora pertencente ao grupo Paramount Skydance, encerrou suas transmissões em vários países, incluindo o Brasil. Gente chorando, falando em "fim de uma era na televisão" e eu pensando cá comigo enquanto lia a matéria num site de notícias da cultura pop: "ué... eu achei que já havia acabado, faz tempo".

Não digo isso em desmerecimento ao canal, de cuja geração fiz parte. Era (ainda lembro como se fosse hoje) inenarrável voltar para casa depois do colégio e assistir àquela emissora que exibia os videoclipes. Através dela conheci grupos como Extreme, R.E.M, INXS e descobri minha paixão por Whitney Houston e Deee-Lite. Quem nunca viu inúmeras vezes os clipes de 'Freedom 90', de George Michael e 'Money for nothing', do Dire Straits, não faz a menor ideia do que perdeu.

Além disso, era mágico assistir aos shows e entrevistas com os artistas do momento, confessando seus gostos e escolhas de carreiras. A MTV era o complemento musical natural de quem ouvia estações como Transamérica, Rádio Cidade, 89FM e Jovem Pan. Contudo, como tudo de bom que já surgiu na história da cultura pop aqui no Brasil, ela também foi pro ralo.

Com o surgimento do You tube acabava a exclusividade da emissora em exibir clipes e divulgar o mercado fonográfico e isso só fez aumentar com o advento de streamings como Spotify e Deezer. Logo, a MTV precisou transformar sua programação. Resultado: infelizmente, ela se tornou uma emissora como qualquer outra, repleta de programas ruins e personagens canastrões.

Os VJs começam a perder espaço para humoristas completamente sem graça e apresentadores sem o menor critério ou formação no que quer que seja. Aderiram ao execrável formato dos realities e entupiram a grade de um tipo de programação que só fez com que a alienação fosse legitimada dia a dia no audiovisual brasileiro.

Quando as transmissões nacionais chegaram ao seu desfecho em 2013 eu já não assistia o canal há pelo menos 5 anos (provavelmente mais, não lembro o período exato em que larguei a mão). E agora, 12 anos depois, um novo baque, o derradeiro. Entretanto, é preciso perguntar: do que sentirão falta os espectadores da MTV? Da original, nostálgica, repleta de boa música, dos Acústicos (ou Unplugged, como chamavam nas gringas) ou das baboseiras regadas a humor ruim, namoro na tv e canastrões posando de moderninhos e cults, que migraram depois para outras emissoras, exportando a canastrice e piorando a qualidade televisiva?

Aposto que ao final desse último parágrafo vai ter muita gente me xingando, com raiva, porque só conhece o lado pobre e chulo da tv nacional. Sorry! Nem todo mundo gosta disso, não importa quanto ibope isso gere!

Em suma: a MTV acabou de novo. E dessa vez parece definitivo. Uma pena, principalmente para quem aprendeu a gostar de música com eles. Afinal de contas, o nome da emissora era Music Television. O que não dava era pra permanecer produzindo tanta babaquice. A lucidez pode até ter perdido a batalha para a idiotice. Já contra o poder capitalista, são outros quinhentos... Que descanse em paz!

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Encarando o leão de frente


Eita: interjeição; usada para expressar surpresa, espanto, admiração ou susto. E Lenine, em seu novo álbum (e filme no youtube) professa todas essas vertentes. Não tem muito tempo o cantor e compositor pernambucano considerou abandonar o ofício. Mas não conseguiu. A música, quer que ele queira ou não, está dentro dele. Guia seus passos, suas intenções, seu modus operandi.

E nessa nova empreitada musical aguarde por muita emoção. Homenagens à esposa, ao neto. Parcerias luxuosas com Lula Queiroga, Lenine, o próprio filho, João Cavalcanti. Participações especiais de Maria Bethânia, Maria Gadú. E, claro, uma sonoridade única que só ele foi capaz de produzir nos últimos anos de MPB.

Seu megafone verbal está inspirado: deixa claro que não tem tempo a perder com vacilões e faladores de baboseira. E contrasta isso com a presença do folclore brasileiro e a mais fina arte tupiniquim.

Das 11 faixas, as que mais me ganharam foi "Boi xambá" e "Deita e dorme", mas no geral é um trabalho pra lá de intimista.

Digo mais: acompanho Lenine desde os tempos de Na pressão e Falange Canibal, e poucas vezes vi Lenine tão pessoal, tão direto, tão disposto a ir pro combate, descontente que está com a atual civilização. Contudo, também vejo aqui muito de "mantenho minha esperança ativa", "quero continuar tentando, lutando, enfrentando, encarando o leão de frente, ao preço que for".

E isso é legítimo, válido, da primeira à última faixa. Ouçam. De preferência, mais de uma vez. Apreendam suas palavras, sintam a melodia. Em meio a tantos falsos cantores, na verdade mímicos de quinta categoria, é tão bom ver alguém que sabe o que diz, sem freios e com qualidade. Logo, aproveitem. Ao máximo. A música também serve pra isso. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Dois centenários


Recebo a notícia através de fóruns e sites sobre cinema dos centenários dos atores Richard Burton (1925-1984) e Rock Hudson (1925-1985), ícones da chamada "Era de ouro do cinema hollywoodiano". E, claro, eu não poderia desperdiçar a chance de falar sobre a carreira de ambos.

A lembrança de Burton me toca mais fundo, pois ele era um dos atores favoritos do meu pai, que volta e meia me dizia, quando sentávamos em frente ao VHS ou ao DVD para assistir alguma coisa: "foi o artista mais elegante que hollywood já produziu". Achava que fosse um exagero de fã da parte dele, mas quando comecei a assistir aos seus filmes entendi perfeitamente o que ele queria dizer.

Richard Burton possuía um requinte que anda em falta no cinema americano. Interpretasse ele Shakespeare ou um mero soldado, e ainda assim ficaríamos mesmerizados com seu olhar, sua astúcia, sua verve interpretativa. Participou de clássicos eternos da sétima arte como 1984, Cleópatra, Os selvagens cães de guerra, Quem tem medo de Virginia Woolf?, A megera domada, O manto sagrado (que eu cansei de rever na época em que a Rede Globo passava coisas boas de madrugada), Zulu e também de um dos meus filmes preferidos desde que eu me entendo como cinéfilo: Equus.

Seus dois casamentos com a atriz Elizabeth Taylor renderam muitas histórias em hollywood e ele também faz parte da galeria de artistas geniais que nunca ganharam um Oscar (e depois querem que eu acredite no juízo de valor dessa Academia!). Mais do que isso: junto com o ator Peter O'Toole - o eterno Lawrence da Arábia - ele é líder em indicações à estatueta, o que torna o esquecimento ainda mais vergonhoso.

Já Rock Hudson eu conheço menos a obra e mais as polêmicas que o envolveram. Homossexual não assumido, ele manteve por quase toda a sua carreira o mistério por trás de sua vida sexual, até sua morte, vítima da AIDS (numa época em que a doença era chamada por muitos de "peste gay", gerando muitas discussões em meio à opinião pública). O casamento com Phyllis Gates - que muitos acreditavam ser apenas por interesse comercial - também foi alvo de muitas especulações.

Conheço mais a fama de Hudson do que sua própria carreira. Até o presente momento, de seus projetos, só assisti Tobruk, Adeus às armas e Missão no Ártico (também conhecido como Estação Polar Zebra) e reconheço que estou em déficit com a filmografia do artista.

Relembrar desses dois ícones do cinema americano me fez lembrar (mais um vez) do quanto, nos últimos anos, temos falado mais dos grandes artistas que partiram do que de uma nova geração realmente relevante para a indústria cinematográfica, e isso é por demais preocupante. Que os deuses do cinema nos tragam novos ares. Nós, cinéfilos raiz, merecemos!

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Operístico? Jura?


De onde vêm essa geração de artistas que se dão tamanha importância ao ponto de se acharem essenciais, não somente para a cultura pop, mas também para a sociedade contemporânea? Não bastasse a metidice de cantoras como Britney Spears (a eterna garota playback) e Avril Lavigne, reboladoras de bundas (vulgo divas) e o "artista negro fascinado pelo nazismo que teve show barrado em SP" (não, é isso mesmo que vocês leram!), agora aparece Rosalía em seu novo álbum, Lux, quase se apresentando como messias da nova era.

Primeiro de tudo: quem chamou Rosalía de "grande voz" precisa urgentemente ouvir Whitney Houston e Tina Turner no auge de suas carreiras. O sarrafo vocal diminuiu - e muito! - na última década, ao ponto de chamarmos de excelência artistas que sequer têm compromisso com cantar ao vivo quando o lugar exige. Sim, eu sei... É triste.

Em "Sexo, violencia y llantas", primeira faixa de Lux, Rosalía já entra de sola desagradando religiosos de plantão com a frase "Quem me dera viver entre as duas coisas: primeiro amarei o mundo e depois amarei Deus". E pela tiração de sarro com os devotos fanáticos, até aí problema nenhum. Contudo, o conjunto da obra ao longo das canções acaba por construir uma espécie de rito da soberba que, certamente, incomodará aqueles que já tem implicância com esse tipo de pessoa esnobe que acha que é estrela, mesmo quando não é realmente.

"Não sou uma santa, mas sou abençoada" (em "Relíquia"); "Eu sei que fui feita para divinizar" (em "Divinize"); "O prazer anestesia minha dor, a dor anestesia meu prazer, Eu sou o nada, eu sou a luz do mundo" (em "Porcelana"); "Meu Cristo chora diamante" (em "Mio Cristo Piange Diamanti"), além de toda a dor do mundo cantada - quase confessada - em "Berghain". No fim, o que ouvimos é um festival de ostentações que poderiam perfeitamente ser substituídas por músicas melhores, sem tanta polêmica gratuita (que, infelizmente, é a cara dessa nova geração musical). E tudo isso disfarçado de clima operístico, só para parecer sofisticado.

E Rosalía ainda arranja tempo para chamar Deus de stalker, confecciona a "rumba do perdão" e passeia em meio a noivas robôs e o dito mundo novo. Quanto exagero!

Sei que serei escalpelado pela base doentia de fãs da cantora, mas... não dá. Venho de um outro tempo. Um tempo em que mudávamos as estações de rádio (o que é rádio hoje em dia mesmo?) e nos deparávamos com artistas como Sinéad O'Connor, Annie Lennox, Barbra Streisand, Nina Simone e Celine Dion, entre outras feras. Logo, fica quase impossível chamar qualquer coisa de genial. Aliás, tenho uma teoria de que a palavra genialidade perdeu o seu sentido no século XXI, mais afeito à identitarismos vazios e discursos midiáticos que em nada acrescentam à realidade nua e crua.

Termino de ouvir o álbum, pensando: "o que virá a seguir?", "será que já ultrapassamos todas as expectativas da falta de bom senso?". Infelizmente, levando-se em consideração o que se tornou o show business, às vezes parece que o pior ainda nem apareceu de fato. E isso é assustador. Logo, oremos por dias musicais melhores.  

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Por que tamanho ódio e desprezo por elas?


O assédio. A cultura do estupro. O feminicídio. A misoginia. O eterno discurso do "saiba o seu lugar". Ser mulher, desde que eu comecei a entender como funciona a cabeça da humanidade, nunca foi uma tarefa fácil. Na verdade, eu invejo - e muito - as pessoas do sexo feminino. Fui criado numa família onde a maior parte das pessoas eram mulheres e com elas entendi o quão complexo (e desastroso) pode ser o universo masculino, principalmente quando eles assim o desejam. E acreditem: muitas vezes eles desejam apenas isso.

A graphic novel Desconstruindo Una me colocou em contato diretamente com esse universo sujo de uma forma extremamente autêntica e, por vezes, feroz. Mais do que isso: me fez repensar meu papel como homem nessa sociedade contemporânea cada dia mais machista e covarde. Na verdade, Una (protagonista e também nome artístico da quadrinista que dá cara à obra) é, muitas vezes, apenas um fio condutor para entendermos uma realidade ainda mais dura do que a própria dificuldade dela em lidar com seus revezes e também com a interpretação do restante da sociedade.

Em meio a uma série de assassinatos envolvendo prostitutas em Yorkshire cometidos por um assassino conhecido como Jack, o estripador, Una foi abusada e descartada por um desses muitos homens - que existem em qualquer lugar do mundo - afeitos à agressão e, principalmente, à diminuição das vítimas. Embora ela tenha sido violada, é ela também que sofre o juízo de valor amargo de vizinhos, colegas de classe e moradores da cidade onde mora. É chamada de vadia por onde passa e ai dela se pretender se levantar contra essa cultura do ódio e do desprezo.

Paralelamente à sua saga particular, a autora retrata, através de informações jornalísticas e históricas, casos famosos de mulheres que também sofreram na pele o mesmo tipo de violência, bem como ativistas que entraram para a história por se levantar contra isso. O resultado é um interessante misto de ensaio e drama existencial no formato nona arte.

Senti no álbum, à parte a questão da violência sexual, uma pegada muito parecida com a que tive quando li o extraordinário Persépolis, da escritora iraniana Marjane Satrapi (que também possui uma adaptação para os cinemas no formato animação). Ambas - Persépolis e Una - têm uma personalidade muita parecida, libertária, e jamais imaginaram que seriam vítimas da cultura opressiva dentro do próprio país. Recomendo aos leitores que conheçam e leiam as duas obras seguidamente, se tiverem essa oportunidade.

Ao fim da leitura, a sensação que me ficou é a de que vivemos numa civilização onde a falta de limites e o desrespeito gratuito ao próximo está na ordem do dia (pior: veio para ficar, de forma definitiva). E pensar que encontrei Una perdido por meros 10 reais numa mesa de promoções e saldos de um sebo no Largo do Machado e ele bugou a minha mente, explorando inúmeras dúvidas subconscientes em mim!

P.S: ou seja: nem sempre os grandes achados da cultura pop estão em megastores conceituadas e lojas que vivem de cobrar preços extorsivos enquanto afugentam os amantes dos livros e quadrinhos para idolatrar uma gente que vive de videogame, super-heróis inúteis e jogos de RPG.

domingo, 9 de novembro de 2025

Brumário de incertezas


2025: falam de "censura", de "ditadura", da "falta de liberdade de expressão" (o que, na maioria das pessoas que falam, nada mais é do que "direito de esculachar o próximo a hora que quiser e não ser responsabilizado por isso"), falam até de "fim dos tempos". Só não conhecem mesmo a história do Brasil. Não querem nem ouvir falar. Ler pra quê, perda de tempo isso. Cultura? Conhecimento? Não serve pra nada essa joça.

Termino de assistir O Agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, o filme mais aguardado do ano (pelo menos, para mim), dois prêmios no Festival de Cannes (Melhor diretor e ator, para Wagner Moura) e representante do Brasil à uma vaga no Oscar de melhor filme internacional do ano que vem. E mal os créditos começam a subir na tela, percebo de cara o quanto o Brasil é uma doença crônica, cujos sintomas só se acentuam, ganham novas dimensões com o passar do tempo.

1977: acompanhamos a jornada de Marcelo (Wagner Moura, fantástico!), um pesquisador concursado que precisa se esconder longe de sua cidade, pois perdeu o seu cargo e passou a ser perseguido por bater de frente com conflitos de interesse promovidos por uma parcela da classe empresarial que só consegue se enxergar como dona de tudo - e de todos - nesse país que adora passar pano para endinheirados e capitalistas tendenciosos. Pior do que isso: viu sua esposa sucumbir na mão dessas pessoas.

Ele encontra abrigo no prédio administrado por Dona Sebastiana (Tânia Maria, a maior revelação de todo o elenco). Ali, encontra outros "refugiados" e perseguidos pelo sistema, à espera de um passaporte que os tire do país. O maior sonho de Marcelo é ir embora do Brasil com seu filho, principalmente depois que descobre que sua cabeça está a prêmio. E o relógio que move seus pensamentos, corre à velocidade da luz.

Começa a trabalhar numa repartição onde é responsável pelo setor de arquivologia, que o coloca em contato com o pior da rotina policial daqueles tempos, e vê os desmandos e abusos de uma classe desaforada que adora acumular privilégios e se dizer de grande importância para a realidade nacional. Seu objetivo (melhor dizer: sonho) é muito claro. O problema mesmo é executá-lo. E aqueles que a priori poderiam ajudá-lo a conquistar tal desejo, parecem tão presos - ou mais - ao sistema do que ele.

O resultado? Terrível, não tenham a menor dúvida.

Kleber mescla folclore e cinzas numa narrativa poderosa de quase três horas, mas que em nenhum momento me cansou. Alia carnaval, a lenda urbana da perna cabeluda (que, segundo o mito pernambucano, matava pessoas à noite, nas ruas), referências cinematográficas, imagens de arquivo e um sentimento de niilismo atroz, que persegue o espectador a cada frame como uma faca na jugular.

Usei no título do post a expressão Brumário, que remete ao segundo mês do calendário revolucionário francês, que ia aproximadamente de 22 de outubro a 20 de novembro, mas no seu sentido original, que é o de neblina ou nevoeiro. Era exatamente esse o clima da época, repleto de tensões e informações ocultadas da população. Tudo, obviamente, repleto de incertezas incômodas e que ainda geram desgaste e incompreensão até os dias de hoje.

Muitos criticaram na internet o final escolhido pelo diretor. O chamaram de "frustrante", "decepcionante", "broxante"... Achei-o, na verdade, extremamente coerente com o período reconstituído (aliás, no quesito reconstituição, o longa é uma joia rara - e como é bom ver alguém que sabe trabalhar com a ideia de passado de forma tão lúcida). Muita coisa foi destruída, desmentida, estraçalhada, após o fim do regime cívico-militar. Logo, querer ver todo o desfecho esmiuçado, mastigado, com início, meio e fim nos seus devidos lugares, naqueles tempos, era uma tarefa quase impossível.

Na verdade, o que Kleber Mendonça entrega aos seus espectadores é o mesmo que os militares da época entregaram aos familiares de quem morreu no período: praticamente um ponto de interrogação, um "se vira" para decifrar essa maracutaia toda. E nisso ele foi impecável. Se O Agente secreto chegará ao Oscar ou não, não faço ideia (e ainda é muito cedo para sabermos). Mas que o longa definitivamente merece o seu lugar ao sol, ah merece! E muito! Agora vão lá vocês assistir e tirem suas próprias conclusões.

domingo, 2 de novembro de 2025

O mundo das artes plásticas agora é isso?


Vejo a escultura América, do "artista" Maurizio Cattelan - aquele que, não tem muito tempo, fez sucesso no mundo das artes com uma banana presa numa parede com uma fita isolante - e penso comigo: "acabou mesmo! isso que chamam de artes plásticas virou piada de vez no século XXI". A nova façanha de Maurizio é uma vaso sanitário coberto de ouro 18 quilates, que será leiloado a 10 milhões de dólares.

Volto no tempo e me pergunto o que os grandes nomes da arte (Van Gogh, Monet, Leonardo Da Vinci, Picasso, etc) diriam a respeito disso. Provavelmente? Acho que tentariam uma outra carreira, tamanho o despautério do cenário atual.

Ver América fez eu me lembrar de Vik Muniz reposicionando todo tipo de lixo dentro de uma aterro sanitário de forma a criar composições que ele pudesse fotografar de cima (para saber mais a respeito, procurem o documentário Lixo Extraordinário, de Lucy Walker); de Banksy e suas intervenções urbanas, repletas de questionamentos e denúncias ao mundo contemporâneo; e também do tubarão em conserva criado pelo rei das polêmicas, Damien Hirst. Anexem a tudo isso os manifestantes que andaram jogando sopa em quadros dentro de grandes museus ao redor do mundo, e o caos está completo.

Não sei ao certo onde foi parar a grandeza de trabalhos síntese das artes visuais como Guernica (de Picasso), Mona Lisa (de Da Vinci), O grito (de Edvard Munch), O beijo (de Gustav Klimt), mas uma coisa é certa: a nova geração - e eu confesso que sinto até medo quando ouço essa expressão atualmente - não quer saber de nada disso. O negócio deles é capitalizar em cima do nonsense, do vulgar, do ridículo.

É como os desfiles de moda da Balenciaga com modelos atravessando a passarela no meio da lama e sacos de papel de pão sendo vendidos como bolsas de grife caríssimas para mongoloides que não perdem a chance de estar por dentro da moda, pois o que verdadeiramente importa é: ser fashion.

E em tempos de inteligência artificial sendo treinada (leia-se: roubando ideias de criadores do passado) para produzir aberrações estéticas e plágios em alta definição, eu tenho até medo das cenas dos próximos capítulos. Se foram capazes de inventar até uma atriz digital (digitem Tilly Norwood no Google e deem enter), imaginem o que AINDA vem por aí. Será esse o começo da idade das trevas cultural? Torço para que não.

Enquanto curadores e marchands se digladiam ferozmente pelas invencionices nefandas da pós-modernidade, acompanho tudo de longe pela internet e me assombro com a incapacidade do ser humano em voltar a ser algo produtivo (e normal) novamente. Agora chega! Deixa eu ir ali ver um filme ou ler um livro, que eu ganho mais...

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

O artista que merecia seus dias de glória


Eu me pergunto: quantos artistas extraordinários - muitos deles infinitamente melhores do que grande parte da atual geração apresentada pelo mercado fonográfico - você já ouviu (e ouviu de novo e de novo) e a indústria da música não deu a mínima ou já sacaneou (financeiramente falando) até o extremo, simplesmente porque podia ser dar a esse luxo? Muitos, não? Foi pensando exatamente nisso que eu terminei de assistir ao documentário Procurando Sugar Man, do diretor Malik Bendjelloul, vencedor do Oscar da categoria em 2013, em êxtase completo a absoluto.

Procurando Sugar Man nos traz a inebriante e necessária história do cantor Stephen 'Sugar' Segerman (ou, mais popularmente: Sixto Rodriguez), que poderia - se o mundo das gravadoras não fosse tão preconceituoso e cínico - um segundo Bob Dylan. E acreditem: qualidade em suas composições ele tinha para tal.

Atrelado à uma lenda urbana que dizia ter ele se suicidado no palco, durante um show, na frente do público, o cineasta decide seguir os passos do cantor, montando a conta gotas um grande painel sobre sua vida e obra. Encontra pelo caminho inúmeros amigos, admiradores e conhecedores de seu trabalho. Descobre o grande fenômeno que ele se tornou na África do Sul em tempos de Apartheid, virando símbolo de uma era.

E quando acreditava ter feito um trabalho mais do que fenomenal ao reunir esses dados até então dispersos, o encontra vivo, num quase exílio, após constituir família.

Esqueçam as cinebiografias musicais tradicionais, a maioria delas mais interessada em bajular apenas os méritos dos artistas e desdenhando de seus momentos negros ao longo da carreira. Em Procurando Sugar Man, vemos um excelente modelo do homem que foi do céu ao inferno, e nem por isso foi esquecido pelo seu público. Muito pelo contrário: uma imensidão deles procura por seus álbuns, "Cold fact" e "Coming from reality" (ambos tornados cults) em lojas de raridades e, claro, na internet.

Em tempos de narrativas pasteurizadas e gente que se diz cineasta perdendo tempo com filme de boneco, de mochila, de jogo de tabuleiro, entre outras "façanhas incompreensíveis", é um alento (mais que isso: uma honra) me deparar com o longa de Malik Bendjelloul. E o melhor de tudo: na íntegra, no youtube - sim, sempre ele, salvando o dia dos verdadeiros cinéfilos.

Quem ainda não se permitiu assistir a essa pérola, conheçam! Se teve um artista que merecia - e muito! - seus dias de glória, era ele. Entra fácil na minha lista de "melhores coisas que eu vi esse ano"(mesmo que atrasado mais de uma década).

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Rever é a nova onda dos cinemas


O que A hora da estrela, Paris,Texas, Incêndios, Psicose, O bebê de Rosemary, The Rocky horror picture show, Se7en - os sete crimes capitais, Batman, Mulholland Drive: a cidade dos sonhos, Saneamento básico - o filme e A noviça rebelde têm em comum? Eles foram - ou serão, nos próximos meses - relançados nas salas de cinema. Um fenômeno que tem se tornado cada vez mais recorrente no mercado cinematográfico e que diz muito sobre o circuito exibidor e as atuais escolhas de estúdios e produtores.

Hollywood, a meca do cinema (quer dizer: até tempos atrás era isso e ponto. Já hoje em dia...). Passou por períodos memoráveis como a era do western; o fenômeno Star Wars, que evidenciou a importância e a fatia de mercado para os blockbusters; o período áureo fomentado por diretores como John Ford, Billy Wilder, John Huston, Sam Peckinpah, Sergio Leone...; e recentemente a ascensão dos chamados "filmes de super-herói" da Marvel e da DC.

Contudo, nos últimos anos, é inegável a crise de criatividade no cinema americano, aprisionado entre remakes, spinoffs, reboots, tributos e reinvenções as mais diversas. A palavra originalidade parece ter perdido meio que o seu sentido de umas duas décadas para cá. E o resultado dessa escolha é: produções caras que flopam; longas que prometem o mundo, mas não entregam o básico; personagens esgotados pelo próprio tempo (e pela mudança dos atores que os interpretam) gerando um loop interminável de mesmices e reformatações.

E diante de cenário tão dantesco, os exibidores veem no quesito nostalgia uma arma forte na hora de gerar bilheteria. Rever virou, sim, a nova onda dos cinemas, principalmente para aquele público cansado de franquias e narrativas óbvias que não fogem do senso comum e do festival de efeitos especiais que, em muitos aspectos, vêm estragando a grandeza por trás da experiência cinematográfica.

Um ponto importante a ser destacado: se você não pertence á algum tribo ou nicho nerd ou geek, ou não idolatra o chamado fandom, se torna um espectador ainda mais interessado nesses relançamentos, pois eles representam uma época da sétima arte em que eles se sentiam representados (diferentemente da relação deles com o cinema atual).

Eu mesmo, que fui ver a nova cópia 4K de Paris,Texas, obra inconteste do diretor Wim Wenders, saí da sessão em êxtase e também relembrando da ocasião em que vi o longa pela primeira vez. Um mar de memórias as mais loucas tomou conta de mim e me fez pensar no quanto o cinema americano vem perdendo no conceito de longevidade nos últimos anos. Os filmes, acreditem!, nunca foram tão imediatistas e voltados para o próprio umbigo de uma geração avessa ao debate quanto agora.

E isso, mais do que triste, é lamentável. Em todos os sentidos cinéfilos possíveis.

Que a nova onda continue mostrando sua força e, mais do que isso, avise aos produtores de plantão (mais interessados em box office rápido e astronômico do que realmente construir uma boa história) que ela veio para ficar, assim como a tão polêmica e temida inteligência artificial, cuja única certeza que promete ao mundo cinéfilo é que irá desempregar muita gente. Logo, torçamos juntos por dias melhores e que os ares nostálgicos apontem novos caminhos. O quanto antes.

sábado, 11 de outubro de 2025

Diane


Mal chego em casa e ligo o notebook, me deparo com a triste notícia da morte da atriz Diane Keaton, aos 79 anos. Mais uma para a lista de obituários e que, dificilmente, encontrará uma sucessora à altura nessa hollywood cada vez mais cheia de teens, invenções pop sem sentido e canastrões. Uma pena!

Num perfil do X (que eu continuo chamando de twitter, não importa quanto tempo passe) um cinéfilo tão apaixonado pela atriz quanto eu se refere à Diane como "o rosto da mulher moderna". E ele está coberto de razão. Sei que a maioria dos cinéfilos vai sempre se lembrar dela pela Annie Hall de Noivo neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen ou então pela Kay Adams, esposa de Michael Corleone em O poderoso chefão, mas eu nunca consigo dissociá-la da Theresa Dunn de À procura de Mr. Goodbar, de Richard Brooks.

E por quê? Porque ali, Keaton não só interpretou uma mulher à frente do seu próprio tempo como nos entregou o modelo feminino no qual acredito e que via em minha mãe e minhas tias (na verdade, na forma como elas me criaram). Sem se rebaixar à ninguém, entendendo o seu espaço dentro da instituição familiar, mas mesmo assim buscando não trair a si mesma, à sua própria essência. Quem não conhece o longa, assistam. Vocês não sabem o que estão perdendo!

Ela também foi, à sua maneira, uma musa das comédias. Mas diferentemente de outras atrizes associadas ao gênero - como Julia Roberts e Meg Ryan - não se submetia unicamente ao final feliz ou ao casal romântico. Sabia debochar de si mesma quando necessário, bem como subverter todos os valores da sétima arte. E foi justamente isso que fez dela uma figura tão grandiosa e querida perante os colegas de cena.

Impossível vê-la, mesmo em seus papéis menores e menos impactantes, e não se sentir inebriado por sua presença cênica. Não conheci uma pessoa dentro da indústria cinematográfica norte-americana que falasse mal dela. E a nova geração via nela um modelo a ser seguido, à risca se possível.

Assisti Reds, o polêmico (e também lendário) filme de Warren Beatty, muito por causa da parceria de ambos. Fossem outros artistas, provavelmente eu não teria dado o mesmo ibope - e certamente teria perdido um baita filme, praticamente o Cidadão Kane da década de 1970. Diane Keaton, no final das contas, foi a mãe, a avó, a tia, a melhor amiga, a vizinha engraçada, que todos queríamos ter em algum momento de nossas vidas.

Alguém para nos dar conselhos e palpites. Ela era ótima nisso. Não. Ela era ótima em muitas coisas (e não somente atuar). E vai fazer uma puta falta no cinema americano dos próximos anos (quer dizer: se os produtores vazios, viciados em blockbusters inúteis e a inteligência artificial não destruírem com tudo de uma vez por todas). Fica com Deus, moça! Você era demais. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Tilly Norwood?


Fiquei ruminando a informação - e, claro, as imagens - por um tempo, antes de esboçar uma opinião a respeito do tema. Muita gente dizendo que é o princípio do fim de hollywood, artistas do Sindicato dos Atores (o famigerado SAG-Aftra), principalmente o próprio presidente da instituição, chamando a criação de uma "irresponsabilidade", além de blogueiros, twitteiros e outros comentaristas dando um pitaco aqui e ali sobre a polêmica.

Do que é que eu estou falando mesmo? De Tilly Norwood, a primeira atriz digital, criada via inteligência artificial. Criação da empresa Xicoia (e representada pela Particle6), ela começa a aparecer em campanhas publicitárias e a ganhar terreno, almejando, num futuro não tão distante, conquistar trabalhos em longas-metragens "atuando". O problema: ela é um produto que só existiu por ter sido treinada com material produzido por atores de verdade, e o pior: sem sequer pedirem autorização para isso.

E a consequência do nascimento dessa nova "estrela" é que, muito provavelmente, numa próxima greve articulada pelo setor esse assunto irá render muita discussão. Se já não bastassem os terríveis algoritmos com suas tramas óbvias e a história dos castings escolherem artistas para projetos apenas pela quantidade de seguidores que eles possuem na internet, agora aparece um substituto virtual para a classe artística, que já é boicotada e marginalizada de todos os lados.

Impossível ver Tilly - que me lembrou à primeira vista, fisionomicamente, a atriz Lilly Collins (da série Emily em Paris) no começo da carreira - e não se lembrar imediatamente do filme S1m0ne, de Andrew Niccol, no qual o diretor Viktor Taransky (Al Pacino) substitui a atriz protagonista do seu filme por uma mulher digital que faz um arrebatador sucesso, até que o público começa a exigir a presença dela em eventos públicos e pré-estreias.

Dizer que S1m0ne não abriu o caminho para o surgimento de Tilly é, no mínimo, estar completamente fora da realidade. Mas, brincadeiras à parte, a realidade é ainda mais negra e nebulosa do que a ficção, principalmente se pararmos para pensar no que o mercado de trabalho (independente de qual seja) vem se tornando.

Mas acredito, sinceramente, que hollywood também é, em grande parte, culpada por essa criação. Nos últimos anos, a meca do cinema vem enchendo suas produções cinematográficas de artistas de gosto e talento duvidoso, além de ex-strippers, lutadores de Wrestling, top models recém saídas do Victoria's Secret, além de figuras famosas do mercado pornô. Logo, pensaram alguns produtores, se a classe está em crise por que não radicalizar de vez e fazer uma versão não-humana dos artistas?

O que esperar nas cenas dos próximos capítulos dessa guerra cultural sem limites? Não faço a menor ideia. Mas que não será nada bonito - como tudo que envolve cifras milionárias no capitalismo - ah, não tenham a menor dúvida!

Até lá, aguardemos (ansiosos ou não). 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

É isso que faz uma showgirl?


Antes de qualquer outra coisa que eu vá escrever nesse post, é preciso avisar aos leitores desavisados (se é que eles ainda continuam visitando este blog): eu não sou fã de divas, it girls, starlets e outras musas. Na verdade, as acho o retrato vivo do mais do mesmo que impera na cultura pop nas últimas décadas. Dito isto, por que eu escreveria sobre The life of a showgirl, mais novo álbum de carreira da cantora Taylor Swift?

Simples: por que a curiosidade mórbida é a coisa mais feroz que existe na sociedade contemporânea (e eu, infelizmente, faço parte dela).

Taylor é a menina de ouro norte-americana dos últimos tempos e isso, na boa, não quer dizer muito. A música made in USA anda chata, repetitiva e conduzida, em muitos aspectos, por reboladoras de bundas e mestres do playback. Imagine então essa cantora falando de si, como se a sua existência fosse realmente a coisa mais importante do planeta terra? Pois é... Tem tudo para dar errado e, na maior parte do álbum, é exatamente o que acontece.

The life of a showgirl é a cara - e a alma - de uma artista que vive exclusivamente, em tempo integral, para a própria fama. E, de vez em quando, gosta de enganar o público, dizendo que preferia uma vida simples, casar, ter filhos, sossegar. Eu sei... Vou fingir que acredito, quem sabe consigo mais leitores para esse mísero espaço.

E, em suas 12 faixas, ela solta sua metralhadora verbal para todos os lados: se compara à Rapunzel, presa numa torre; cita negativamente hollywood através da figura da atriz Elizabeth Taylor; chama sentir falta de amores do passado de "um péssimo hábito"; alfineta, reclamando da indústria cultural, dizendo que “Eles querem te ver subir, mas não querem que você reine”; confessa que estava mentindo quando dizia que não acreditava em casamentos; compara os haters de internet aos punk rockers; relembra que já foi chamada de "barbie entediante"; esmiúça sua lista de desejos e seus inúmeros cancelamentos; entre outras declarações dúbias.

Para que não me acusem de ter detestado tudo o que ouvi, vale uma conferida rápida em "Wood", "Honey" e na faixa que dá título ao disco, onde divide o microfone com Sabrina Carpenter (outro expoente mais do que óbvio dessa cultura "eu quero é ser famosa, o resto que se dane!). No mais, acreditem: o álbum não passa de um grande circo onde as obviedades chulas desse século são protagonistas de carreira. É triste, eu sei, mas os fãs amam e aguardam ansiosos pela próxima turnê da diva.

Só não me peçam para explicar o porquê, exatamente. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Os EUA estão em colapso (e não é de hoje)


Nunca acreditei no discurso de Império, pois ele sempre esconde falcatruas monumentais. Nunca se sabe ao certo o que existe de real no discurso do imperialista, fodão, todo-poderoso. A única "certeza" (digamos assim) é: existem os que babam o ovo do sistema e existem aqueles que confrontam o sistema. E dependendo do tipo de interpretação que você tenha, esse segundo grupo pode ser chamado tanto de revolucionário quanto de terrorista. Cabe a você, interlocutor, escolher a definição que melhor lhe agrade.

No caso particular de Bob (Leonardo DiCaprio) e Perfidia (Teyana Taylor), os catalisadores principais da trama de Uma batalha após a outra, obra-prima contemporânea do diretor Paul Thomas Anderson, a escolha foi o grupo revolucionário Friend 75 que, cansado do tratamento dado às minorias e imigrantes ilegais, decidem tocar fogo no país, da forma que for possível. E mesmo que a priori essa história se passe durante o governo Reagan, ela tem raízes muito mais profundas e incômodas.

Como toda dupla "criminosa" (vocês já entenderam o significado das aspas a essa altura, não é mesmo?) que se preze, faz-se necessário um adversário ou algoz. E ele está presente na figura do obstinado e contraditório Coronel Steven Lockjaw (Sean Penn, fantástico!), que também nutre um desejo quase doentio por Perfidia. Após a prisão dela - que vai parar no programa de proteção de testemunhas, depois de trair seu próprio grupo - e sucessivo desaparecimento, o roteiro se volta para Bob e a "filha" do casal, Willa (Chase Infiniti, uma grata surpresa!) que, 16 anos depois, se vê novamente como alvo do Coronel, bem como um segmento político dentro do país que acredita piamente na supremacia racial.

O resultado? Uma hecatombe em forma de filme político com altas doses de adrenalina.

Há muito do que gostar em Uma batalha após a outra. A começar pela trilha sonora, misto de apaixonante e incômoda, de Jonny Greenwood, uma das melhores - senão a melhor - dele. Os planos sequências magistrais de PTA estão, logicamente, presentes de novo. O elenco extremamente bem escalado e pontual quando precisa se fazer presente. E se, por um lado, é extremamente difícil adaptar o romance Vineland, de Thomas Pynchon, para as telas (e todas as obras literárias escritas por ele são!), por outro é sublime ver o diretor procurando soluções impactantes que funcionem, não como lacunas, mas como outros pontos de vista, outras perspectivas possíveis.

O filme de Anderson surge num momento extremamente propício para debates, em plena era Trump parte II, dessa vez ainda mais cruel do que o mandato anterior. E ele deixa claro o quanto os EUA (ou a tão sonhada América, como eles gostam de se referir ao país) estão em colapso - e não é de hoje. Longe disso! Trata-se da terra que inventa oportunidades e sonhos, mas não necessariamente as cumpre do jeito que você acreditou. E o legado disso é desespero, niilismo e convulsão social pra dar e vender.

Tenho lido em alguns sites e fóruns sobre premiações (leia-se: o contraditório Oscar) que o filme de PTA é um dos favoritos à melhor filme. Na boa... Será que o eterno moralismo conivente de sempre vai permitir? Adoraria acreditar que sim. Contudo...