segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Viva Tarsila!


Adoramos falar dos pintores - e artistas em geral - estrangeiros que expõem e vêm à nossa terra; exultamos; nos tornamos os maiores baba-ovos dessa cultura internacional (e não à toa somos classificados com o famoso "complexo de vira-latas"). Entretanto, quando um artista nosso é tema de um grande evento ou exposição no exterior, não damos a mínima. Isso quando não questionamos a validade de sua obra. Que tristeza!

A partir da próxima quarta (09), contra tudo e contra todos, o Museu de Luxemburgo, na França, exibirá uma gigantesca retrospectiva da carreira de Tarsila do Amaral. E como é extraordinário poder ler uma notícia dessas! Serão 150 obras, dentre elas 49 quadros, que ficarão expostos até 2 de fevereiro, para deleite dos franceses (e turistas) amantes da boa arte. 

Infelizmente, Tarsila ainda não é - a meu ver, pelo menos - reconhecida como deveria. E olha que se trata de uma das principais responsáveis pelo fenômeno que foi a Semana de Arte Moderna de 1922 (detalhe: ele não se encontrava no país, pois estava na Europa, trabalhando e aprendendo - muito! - enquanto Oswald de Andrade assumiu o papel de grande embaixador dessa revolução).

Os primeiros quadros de Tarsila mostram uma influência do impressionismo, mas nem por isso ela deixou de experimentar tendências como o cubismo - que tem Picasso como seu maior representante - e o fauvismo. Mas é preciso deixar claro aos iniciados que ela sempre avisou aos críticos de sua arte que mesmo sua passagem por Paris na década de 1920 foi uma forma de refletir sobre seu país de origem. 

Ou seja: ilude-se quem acredita na falácia de que Tarsila sempre foi uma estrangeirizada. Pelo contrário. Um tema muito caro em sua obra sempre foi o indigenismo e ela sempre fez questão de retratar as mais diferentes etnias em seu trabalho. 

Outro ponto muito degradante de quem diminui sua obra é a mania de rotulá-la apenas como "aquela moça que pintou o Abaporu e Os operários". Típico comentário de quem não entende absolutamente nada de história da arte. Tarsila era eclética, provocadora, à frente do seu tempo e antenada com os manifestos e vanguardas que vinham ganhando força no período. Logo, resumi-la a um ou dois trabalhos impactantes é, com certeza, desmerecê-la (o que não é nada justo).

Que a exposição francesa não só traga uma nova luz e um novo interesse sobre o seu trabalho, como também abra portas para se redescobrir outros grandes artistas clássicos brasileiros. Com certeza as artes visuais brazucas merecem - e muito - esse reconhecimento. 


quinta-feira, 3 de outubro de 2024

A voz da tv brasileira


"Boa noite". Quantas pessoas responderam a ele enquanto assistiam o Jornal Nacional pela tv? Era praticamente um ato involuntário, como responder a um vizinho ou parente no meio da rua. E por 26 anos Cid Moreira repetiu o mesmo gesto, respondido por milhares de espectadores (segundo estatísticas, foram mais de 8 mil vezes). 

Hoje Cid nos deixou e com sua partida perdemos a voz da tv brasileira. E que voz! 

Tem quem o conheça como o âncora do telejornal mais famoso do país, tem quem se lembre dos salmos católicos que ele gravou e tem também quem prefira se lembrar dos memes criados acerca dele (como, por exemplo, o da famosa entrevista que ele fez com o ilusionista Mr. M, na qual, em determinado momento, lhe perguntou: "você é espada?").

Contudo, piadas à parte, Cid Moreira foi um grande fenômeno da tv e do telejornalismo brasileiro. E acho difícil aparecer alguém que o supere. Até a história de que ele apresentou uma edição do jornal de bermuda - que muitos tratam como uma lenda urbana - passa despercebida diante do seu legado midiático. 

Eu sempre tive fascínio por grandes vozes. Meus ídolos, quando moleque, eram os locutores de futebol. Ficava horas ouvindo José Carlos Araújo, Luiz Penido, Osmar Santos, Januário de Oliveira, Sílvio Luiz... Hoje entendo o motivo dessa adoração: sempre tive voz de taquara rachada e ouvir esses gênios era uma forma de estar perto da grandiosidade. 

E nesse quesito Cid sempre liderou meu top 10. Meu sonho (não realizado) era ter uma voz como a dele. E agora, mestre, como é que eu fico sem poder ouví-lo de novo, daqui pra frente? Entre seus feitos mais lendários não podemos também esquecer da citação no famigerado Guinness Book, o Livro dos Recordes, como o profissional que ficou mais tempo à frente de um telejornal. Honraria para poucos! 

Cid, que você fique em paz onde quer que esteja, pois sua história aqui neste plano certamente foi incomparável. E a imprensa fica cada dia mais pálida com a partida dos melhores. Como você.


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Capote, um centenário


As pessoas que eu conheço que dizem já ter lido pelo menos uma vez o escritor Truman Capote volta e meia repetem a mesma frase: "ele é um autor difícil". E eu sempre respondo essa frase com outra: "ele teve uma infância difícil; logo, não espere de pessoas assim uma obra de amenidades, gentilezas, comédias românticas, pois elas são o oposto disso". 

Melhor exemplo não há para começar a falar desse senhor que nos legou o new journalism (ou como preferimos falar aqui no Brasil: o jornalismo literário).

Lembro de quando terminei de ler seu romance mais famoso, o extraordinário À sangue frio, que a crítica classificou na época como "romance de não ficção", sobre o assassinato da família Cluster. A obra consumiu Capote psicologicamente com a mesma intensidade com que o catapultou à fama. 

Os especialistas e entendidos sobre sua vida e obra costumavam acentuar o fato de que Truman se equilibrava entre duas personalidades: a do homem tímido, delicado, quase antissocial e o implacável, ferino, sem papas na língua, e por isso mesmo apto a escrutinar as cicatrizes e os vexames da América. Eu acredito sinceramente que essa ambiguidade foi o grande charme do autor. Ele sabia transitar entre todos os mundos possíveis e com uma naturalidade assustadora. 

Com Música para camaleões muitos acreditavam que ele se encontrava superado, que nunca mais atingiria o mesmo brilho, e no entanto nos entregou um tsunami literário da maior grandeza, mesclando anônimos e celebridades e deixando de lado - para o próprio bem do fazer literário - o anonimato e a imparcialidade.

Já a partir de Bonequinha de luxo (que ganhou adaptação aos cinemas pelas mãos do diretor Blake Edwards e com Audrey Hepburn na pele da garota de programa Holly Golightly) ele nos ensinou que a elegância não é simplesmente uma fórmula pronta, cheia de bons sentimentos e sorrisos. 

Phillip Seymour Hoffman, que o interpretou em Capote, de Bennett Miller (e faturou um Oscar de melhor ator pelo trabalho), soube captar como ninguém suas nuances, sua voz afetada e seu jeito peculiar de viver. E toda vez que eu revejo o longa, penso: "uma pena não termos mais esse moço entre nós, produzindo, desafiando os limites da escrita". 

A chegada do seu centenário no dia de hoje minimiza em parte nossa melancolia por não podermos mais ler nada novo dele. E também me faz pensar no quanto a atual geração está lendo os autores errados e sequer se dá conta disso. Ah, Truman! Se você soubesse a falta que está fazendo nesse século XXI que cada dia mais parece um grande elo perdido!

Tem certeza que não dá pra você voltar, não? Pergunta aí em cima, vai! 


sábado, 28 de setembro de 2024

Brigitte Bardot, 90


Mal comemoramos as nove décadas da musa italiana Sophia Loren e outra musa - esta francesa - também completa a mesma idade. Falo logicamente de Brigitte Bardot, para muitos críticos e amantes da sétima arte mundial a "mulher mais bonita do mundo" (mas me perdoem desde já por não corroborar essa parte, tendo em vista minha eterna paixão por Elizabeth Taylor).

Parece louco pensar que a maior musa do cinema francês trocou as telas de cinema pela causa animal, mas foi exatamente isso o que ela fez (e já tem tempo isso, é bom que se diga!). Eu confesso que tenho uma lembrança de Bardot mais como sex symbol do que como grande atriz. Na verdade, a achava bastante mediana...

O que, claro, não a impediu de estar em projetos que marcaram época tanto na França como no resto do mundo. Prova disso são os longas E Deus... Criou a mulher, de Roger Vadim e O desprezo, de Jean-Luc Godard, duas obras-primas únicas. 

Entretanto, lembramos mais de Brigitte por sua beleza inegável e seu sex appeal devastador do que por suas atuações fortes e poderosas (algo que, provavelmente, encontraremos com mais facilidade dentro da filmografia de atrizes como Bette Davis, Shirley MacLaine ou Katherine Hepburn). 

Mas tudo bem. Assim como apreciamos artistas que entregaram seu melhor nos palcos e nas telas (vide, por exemplo, a antológica Maggie Smith, que faleceu ontem), também nos apaixonamos pelo poder que somente as beldades são capazes de proporcionar. E nesse sentido Brigitte Bardot foi a Marilyn Monroe europeia, ou seja, veio ao mundo para ditar padrões, por vezes, inalcançáveis. 

E não podemos esquecer da ligação pessoal da atriz com o Brasil. Ela morou, no começo dos anos 1960, na pequena cidade do litoral do Rio de Janeiro chamada Armação dos Búzios, então distrito de Cabo Frio. Há inclusive estátua dela na cidade. O que é mais um motivo para que os brasileiros cinéfilos tenham todo um carinho particular pela musa. 

Que ela continue exercendo seu papel - agora não mais como movie star e sim como ativista - e chegue ao centenário. O cinema certamente agradecerá, caso isso aconteça! 


sexta-feira, 27 de setembro de 2024

O programa que definiu o humor nos EUA


Dizendo de forma bem rápida e rasteira: é mais fácil dizer quem não participou do programa do que elencar (sem esquecer alguém) quem lá esteve. Refiro-me ao Saturday Night Live que chegou a sua temporada de número 50, um feito mítico em se tratando de televisão. 

Eu não sou um especialista no programa, muito menos um espectador fanático, mas sempre que sobra um tempo assisto quadros e, de vez em quando, episódios inteiros (sempre no youtube); logo atesto: é fácil entender o fenômeno que se tornou o formato. 

É possível encontrar de tudo no Saturday night live: da ironia fina ao escracho direto. Seja debochando dos debates eleitorais (o último, satirizando o embate entre Donald Trump e Joe Biden, com Jim Carrey e Alec Baldwin na pele dos presidenciáveis, me deixou quase sem ar) ou tirando sarro dos heróis da marvel, ninguém escapa ao radar dos produtores. 

O programa ficou marcado por tornar conhecida toda uma geração de humoristas: Eddie Murphy, Adam Sandler, Richard Pryor, Tina Fey, Chris Farley, Chris Rock, Rob Schneider, Ben Stiller, Bill Murray... E não somente do humor. Praticamente toda a indústria fonográfica norte-americana e hollywood deu as caras por lá. 

Mês que vem será lançado o longa Saturday night, de Jason Reitman, sobre as horas que antecederam a estreia do primeiro programa, e eu desde já estou ansioso para vê-lo (espero que o circuito exibidor aqui no RJ não o boicote ou o coloque em raras salas em locais de difícil acesso). Será possível aos leigos ter uma pequena dimensão da loucura - e da revolução - promovida por seus criadores. 

Atualmente o programa vive uma crise interna por conta do elenco (considerado muito fraco pelos críticos) e dos índices baixos de audiência. Será esta a última temporada e, consequentemente, o fim de uma era? Espero que não. O humor não merece um baque desses.    

No geral, o que fica é o sentimento de estarmos diante de uma façanha que, talvez, nunca mais se repita na tv (seja nos EUA ou no resto do mundo). Em tempos de programas e séries que mal conseguem renovação para uma segunda temporada, permanecer no ar por cinco décadas? Haja fôlego! E também muita coragem e ousadia. 

Que eles mantenham a chama acesa pelo tempo que for. 


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Friends: 6 amigos, 30 anos


Às vezes me assombro com o tempo que certos filmes, peças, livros, programas, etc, têm. Mais do que isso: a certeza de estar envelhecendo mais rápido do que gostaria numa era em que tudo parece se processar à velocidade da luz. 

E me parece que, nos últimos anos, a quantidade de datas comemorativas vem crescendo exponencialmente em importância... Ou será que sou só eu que estou vendo demais? 

Nessa semana o seriado Friends, criado por David Crane e Marta Kauffman, completou 30 anos e eu tomei um susto. Sério? Já tem tudo isso? E olha que eu nem fui um espectador assíduo do programa (embora tenha acompanhado a trajetória deles sempre que pude). Mas é preciso admitir: trata-se de um legado da cultura pop norte-americana. 

Acompanhamos a amizade de Rachel (Jennifer Aniston), Monica (Courteney Cox), Phoebe (Lisa Kudrow), Joey (Matt LeBlanc), Chandler (Matthew Perry) e Ross (David Schwimmer) como se eles fossem da nossa própria turma. No apartamento, no café, discutindo a relação, fazendo festas, tudo e mais um pouco, rimos, choramos, nos frustramos, torcemos por seus dilemas e alegrias. E, no final das contas, é disso que tratam os grandes sucessos da tv americana (pelo menos, na maioria dos casos).

Não vou citar meus episódios favoritos, pois não tenho bagagem fanática para isso, mas posso dizer que da parte que eu assisti, entendo - e curto - toda a exaltação à série por parte do público cativo. Só não concordei com o episódio reunion feito recentemente (e que contou até com a presença da cantora Lady Gaga entre os convidados), pois me pareceu caça-níqueis barato que nem essa mania atual de trazer de volta bandas de rock do passado. Essa parte eu pulo com folga. 

Infelizmente, Matthew Perry nos deixou de forma mezzo melancólica mezzo catastrófica (há notícias escabrosas ainda saindo na imprensa sobre as causas de sua morte, o que é muito triste e que mostra também o quanto holywood e a indústria de entretenimento dos EUA não é nenhum oásis ou mero parque de diversões). Ele certamente ficaria contente com todo esse reconhecimento ao trabalho. 

Ao fim desse breve post posso dizer que não consigo imaginar outra sitcom americana gerando, nos próximos anos, tanta repercussão quanto a do sexteto. Até o conceito de comédia hoje é outro, mais ácido, seco, por vezes desnecessariamente engajado. Vivemos tempos de projetos como Emily in Paris, Stranger Things, Only murders in the building... Será que se começassem hoje, teriam feito o mesmo sucesso? Quem sabe. 

Só espero que não caiam na loucura de rebootar a série, mania insossa dos últimos anos. Certas histórias - acredito eu - é preferível deixá-las onde elas estão. Ou o charme da coisa se perde.    


sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Sophia Loren, 90


Fiquei confuso hoje, enquanto escrevia sobre cinema italiano para um projeto literário, se a eterna musa Sophia Loren ainda estava viva ou não e me deparo com uma matéria de jornal mencionando seus 90 anos de vida (e que vida!). Que chegue aos cem.

Loren é, para mim, a maior figura viva do cinema europeu, independente de se ela está trabalhando ainda ou não. Simplesmente não consigo imaginar o cinema produzido na Europa (e não somente a Itália) sem lembrar de sua persona e interpretações que entraram para a história da sétima arte. 

Embora seja vista por muitos como sexy symbol, ela foi das poucas artistas de sua geração que me ganhou como atriz logo de cara (digo isso porque costumo ser reticente com mulheres bonitas sendo chamadas de "grandes atrizes"). E sua carreira, ao contrário do que pensam muitos críticos e entendidos por aí, não se limita à parceria com o amigo Marcello Mastroianni. Longe disso...

Os girassóis da Rússia (meu favorito com ela); A condessa de Hong Kong (sim, ela foi dirigida por Charles Chaplin); El cid; Casamento à italiana; Ontem, hoje e amanhãA queda do império romano; Boccaccio '70; A garota do gângster; até mesmo sua rápida - e poderosa - aparição no musical Nine (uma "remake" do Oito e meio, de Fellini)... ela sempre foi um acontecimento. 

Em seu último longa, Rosa e Momo - uma vida à sua frente (de 2020), ela ainda é capaz de mostrar parte desse brilho nunca replicado por nenhuma outra no cinema. E me fez pensar no quanto nós, cinéfilos, andamos por demais carentes de grandes artistas, principalmente numa época em que poucos trabalham de fato para o público adulto e só querem saber de bilheterias e continuações.   

Em outras palavras: me fez bem lembrar de Sophia, de torcer para ela ainda permanecer viva. A sétima arte mundial agradece - e muito!