segunda-feira, 30 de maio de 2022

O ator-referência


De novo a cultura e a arte nacional sofrem um terrível revés. E dessa vez - pelo menos para mim - o baque foi devastador.  

Ele era elegância, estilo, voz, postura e nem por isso deixou de fazer o homem do povo, com seus trejeitos e falares, quando o trabalho assim o pediu. Foi padre, governador, travesti, presidiário, escravo, policial, bicheiro de escola de samba, político corrupto... Na verdade, é mais fácil dizer o que ele não foi nas telas. 

De Macunaíma à O beijo da mulher aranha, de Orquídea Selvagem (um drama meio erótico de Zalman King protagonizado por Mickey Rourke e rodado aqui no país) à Rainha Diaba (provavelmente o filme que o definiu para muitos críticos), de Eles não usam black-tie à Carandiru. E isso tudo não explica 10% da carreira dele. 

Falo obviamente do mestre, da lenda Milton Gonçalves, que nos deixou hoje aos 88 anos. Nos últimos tempos ele andava sumido da tv e do cinema, após um AVC que sofreu em 2020. Uma pena. Qualquer pessoa fã da boa dramaturgia admirou Milton. 

Ouví-lo falar inglês era inebriante. Na verdade, a sua voz era um show à parte. Poucos artistas me deixaram a mesma impressão. Milton era o que eu chamo de o ator-referência e com folga. E não somente na atuação, embora tenha destacado esse aspecto da sua carreira. Na tv ele também dirigiu novelas icônicas, como Os irmãos coragem e a lendária Escrava Isaura

E não posso deixar de destacar também outro viés de sua carreira: a luta pelo reconhecimento dos atores negros dentro da classe artística. Para quem leu obras seminais como A negação do Brasil - o negro na telenovela brasileira, de Joel Zito Araújo (que também virou um documentário sublime), Milton foi uma figura fundamental nessa batalha que permanece até os dias de hoje, em tempos de matança e extermínios à etnia negra nas grandes metrópoles. 

Ao lado de figuras como Ruth de Souza, Haroldo Costa, Zózimo Bulbul, Abdias do Nascimento, entre outras feras, lutou com unhas e dentes pelo respeito ao talento dos artistas de cor. E quem acha isso pouca coisa não faz realmente a mínima ideia do que significa ser negro (e artista) num país como o nosso, que em mais de 200 anos nunca discutiu de forma sensata o que foi a escravidão.  

A partida de Milton Gonçalves, depois de tantos bons artistas falecidos recentemente, me faz pensar novamente (e ando cansado disso!) no quanto a classe artística anda empobrecendo ano a ano. A mídia infelizmente passou a evidenciar o que existe de pior em termos de arte por conta da falta de boa renovação. Os atores deram lugar aos reboladores de bunda e imitadores de vozes. E o pior: eles estão se achando. 

Como prêmio de consolação nos sobra seu legado artístico gigantesco. Em seu perfil no IMDb (que eu fui fuçar logo depois que soube da notícia de seu falecimento) constam mais de 170 créditos. Ou seja: um artista versátil, que fez praticamente de tudo um pouco. 

E pensar que ele fora esse ano tema do carnaval da Acadêmicos de Santa Cruz na série Ouro, mas infelizmente não pode desfilar. Triste ironia!

Mestre, fique em paz com uma certeza: sua contribuição para a cultura desta nação jamais será esquecida. E cabe a nós, fãs de longa data, fazermos com que novas gerações a conheçam também, nem que seja na marra. Toda felicidade do mundo, onde quer que você esteja! 


quinta-feira, 26 de maio de 2022

Ainda indomáveis


O cinema americano não se cansa de repetir a velha fórmula de sucesso e enveredar pelo mundo mágico da nostalgia. A eterna premissa de que "se funcionou ontem, pode funcionar hoje também" nunca esteve tão presente na meca do cinema. Entretanto, nem sempre ela é sinônimo de grandes realizações (que o diga, por exemplo, longas como Caçadores de emoção, da diretora Kathryn Bigelow, que em sua nova versão transformou-se num festival de ecobaboseiras e uma fotografia estilosa, tirando todo o mérito da produção original). 

Mas, às vezes, com boas intenções e um diretor que não se empolgue ou tente reinventar a roda, é possível realizar façanhas interessantes. E em meio a tantos remakes desnecessários e tentativas frustradas de trazer o passado de glórias hollywoodianas de volta, Top Gun: Maverick, do diretor Joseph Kosinski, se mostra uma grata surpresa em tempos de projetos grandiosos, mas com roteiros previsíveis ou toscos. 

O protagonista, vivido novamente por Tom Cruise (que começa a mostrar os sinais fisionômicos do passar da idade), ainda continua o mesmo rebelde de sempre e não à toa estacionou em sua carreira militar como Capitão. 36 anos se passaram e ele ainda arranja tempo para não seguir piamente as regras da hierarquia militar. E durante um teste para um caça que se pretende o mais veloz do mundo, ele abusa de seu talento e mete os pés pelas mãos de novo, sendo removido do projeto. 

E para onde mais poderiam enviá-lo? Exatamente. Para a velha escola que o formou como piloto. Só que desta vez ele terá que ser instrutor de um grupo de jovens pilotos cotados para uma missão praticamente impossível (o que, logicamente para os fãs de longa data do autor, remete a seu outro protagonista de renome: o agente Ethan Hunt). Maverick é certamente a pessoa menos indicada para o trabalho, mas seu antigo parceiro, Iceman (Val Kilmer), é o único a colocar a mão no fogo por ele. 

E há ainda uma outra atenuante para tornar a empreitada de Maverick ainda mais complicada: Rooster (Miles Teller), filho de seu antigo parceiro, Goose, é um dos pilotos que serão instruídos por ele, e possui uma rusga de longa data com o amigo do pai. Nem mesmo o ressurgimento da antiga namorada, Penny (Jennifer Connelly) servirá como facilitador ou alívio na hora em que ele estiver no olho do furacão, tentando transformador este grupo de jovens rebeldes - como ele próprio fora, no passado - em uma equipe. 

Quando o projeto de Top Gun: Maverick foi anunciado eu confesso que não colocava a menor fé nele e por uma razão óbvia: porque tudo o que o filme original, dirigido por Tony Scott, tinha de melhor ou não estaria na nova história por uma impossibilidade narrativa (caso de Goose, personagem de Anthony Edwards, que morreu no longa de 1986) ou por conta da idade excessiva do elenco feminino (Meg Ryan e Kelly McGuillis, para quem conhece a fama hedonista de Tom Cruise, dificilmente participariam do novo longa e por uma questão meramente estética). 

Contudo, é preciso reconhecer que queimei a língua e a nova versão tem, sim, seus méritos. O primeiro o de fazer alusão ao longa oitentista sem soar piegas ou forçado. E a cena em que Val Kilmer, que luta contra um câncer de garganta há anos, contracena com Tom, é para mim de uma coragem absurda dos produtores. Tenho certeza que na mão de outra equipe eles certamente teriam sacado ele do elenco também. 

Aliás, entre os novos pilotos, há um novo Iceman, metido até dizer chega, desses caras que "sempre se acham o melhor em tudo" e não admitem concorrência. E dessa vez há pilotos do sexo feminino também. Afinal de contas, são novos tempos e elas vêm provando, nos últimos anos, que se saem bem nas mais diversas carreiras e profissões. 

O melhor legado do filme de Kosinski: eles continuam, sim, indomáveis. E mais: capazes de assumir missões que nenhum homem em seu juízo perfeito aceitaria. As batalhas aéreas me deixaram sem fôlego e Tom Cruise ainda mostra que é o cara quando o assunto é "fazer cenas perigosas sem dublê" (e como eu disse num parágrafo anterior: ele não é mais nenhum menino!). O único exagero? Não sei porque tanto alarde em torno da canção "Hold my hand" (e, sim, eu senti falta de ouvir Berlin cantando Take my breath away). Mas fazer o quê... o fenômeno Lady Gaga ainda persiste na indústria. 

Mas chega de blá blá blá porque vocês precisam ver o filme e tirar suas próprias conclusões. Ao descer dos créditos, apenas uma conclusão concreta veio à minha mente: foi o melhor regresso de um blockbuster do passado que eu assisti na última década. E isso - acreditem! - não é pouca coisa, não.  


quinta-feira, 19 de maio de 2022

O mago grego


Psiu, ei! Você aí! É... Você que pensa que o único papel da trilha sonora num filme de cinema é enfeitar, enbelezar, dar requinte ao que já era bom. Definitivamente você nunca ouviu os melhores compositores da história. Não faz a menor ideia de quem foi Nino Rota ou Ennio Morricone (só para ficar no básico: dois autores fabulosos, responsáveis por muitas das obras-primas do audiovisual). Ou em outras palavras: você não entende é nada, absolutamente nada, de sétima arte. 

Sempre vi a música como o grande alicerce do cinema. Sem ela, os longas, curtas e documentários seriam peças frias, sem significado ou mesmo glamour. Conheço gente que só de ouvir a trilha de um filme diz na lata o nome, o ano de realização, o diretor, quantos Oscars ganhou, etc etc etc. Sim, meus caros leitores! É o poder da música dentro da indústria cinematográfica. 

E hoje fico sabendo, atrasado (o que é imperdoável), que o mundo do cinema perdeu um de seus maiores nomes quando o assunto é trilha sonora. Falo do grego Evángelos Odysséas Papathanassíu. 

Perguntam-me na mesma hora: quem é este indivíduo de nome difícil? E eu já escolhi colocar o nome de batismo dele aqui de propósito. Só pra provocar. Não se enganem! Se vocês, como eu, são fãs mesmo da sétima arte e não somente do que a Marvel e a DC produzem, sabem exatamente de quem estou falando. Afinal de contas, Vangelis é um lenda dentro dessa indústria tão notória e criador de muitas trilhas que falam por si só, independente do diretor e da produção na qual trabalhou. 

Melhor exemplo não conheço para definí-lo como sinônimo de boa música do que a trilha do longa Blade Runner - o caçador de androides, de Ridley Scott (1982). Até hoje, se eu continuo revendo o filme toda vez que ele é reexibido na tv a cabo ou exaltado em algum serviço de streaming, podem ter certeza: é, em primeiro lugar, por causa de sua exuberância musical. E olha que não foi nem aqui que ele foi agraciado com o Oscar. 

Esta honraria coube à também maravilhosa trilha do filme Carruagens de Fogo, de Hugh Hudson (1981), cineasta do qual nunca mais, infelizmente, tive notícias. E é bom que se diga logo, mesmo que me taxem de puxa-saco dele: Vangelis merecia mais prêmios. Sua música sempre mexeu comigo e, em grande medida, foi a alma das produções nas quais trabalhou.

Ouvir seu trabalho era o mesmo que me transportar para um universo paralelo ou uma realidade alternativa. E bastava que aguardássemos mais alguns segundos e provavelmente estaríamos vendo criaturas sobrenaturais nos dando tchau. Sua música não parecia algo desse mundo (e quando digo isso, falo sério!). Quem achar que exagero, procurem por sua discografia em algum Spotify ou Deezer da vida e tirem suas próprias conclusões.  

Assim como Morricone, citado anteriormente, Vangelis tinha a capacidade extraordinária que somente os grandes do seu segmento possuem de se apropriar dos projetos que participou, de tomá-los para si. Tanto que durante o final da década de 1980 e início de 1990 cheguei a me perguntar porque ele não dirigia seus próprios longas. Tenho certeza que seriam um luxo e um deslumbre à parte. Mas ele, no fundo, sabia que se entendia melhor com as partituras e bem fez ele. 

Em seu perfil no IMDb constam mais de 160 créditos na categoria trilha sonora e 81 como compositor (ou seja: uma carreira longeva). Nos últimos anos eu andei me perguntando por ele, que andava sumido. Ele preferiu se dedicar aos documentários e curta-metragens. Seus últimos trabalhos foram os podcasts The Sermon e Beyond the Sermon

Se William Shakespeare foi o nobre bardo, Carmem Miranda a pequena notável e Nelson Rodrigues o anjo pornográfico, certamente o melhor rótulo que cabe à Vangelis é o mago grego. Sua música foi pura mística que embalou os sonhos de uma geração faminta por boas canções. E mesmo tendo partido aos 79 anos de idade fica uma sensação de que ele ainda tinha muito a entregar aos seus fãs mais exaltados. Enfim... Que fique em paz junto com sua genialidade. Ele certamente a mereceu. 

P.S: ao pessoal que vai lá no Spotify e no Deezer dar uma conferida no legado do mestre, se encontrarem a trilha de 1942: a conquista do paraíso, também de Ridley Scott (1992), ouçam na mesma hora. É das coisas mais sublimes que eu já ouvi na vida. E eu jamais me perdoaria se esquecesse de citá-la aqui neste humilde artigo.

domingo, 8 de maio de 2022

Manifesto puro


"Tá foda, tá cada dia mais foda viver nesse país que não tem presente, na verdade nunca teve, mas adora falar sobre o futuro, sobre ser uma potência mundial, sobre ser uma cópia dos EUA ou da Europa embora não se preocupe com o básico para o povo". Eu escrevi isso anos atrás num artigo que fiz sobre literatura e nada mudou. Na verdade, piorou. E muito (é bom que se diga). 

De positivo? Saber que não sou o único a perceber tudo isso, a ficar enojado diante de tudo isso. Há quem também não só veja como transforme essa dor toda em arte. E não qualquer arte. O rapper pernambucano Criolo é desses e não é de hoje que vem chamando a minha atenção. Acompanho sua trajetória desde o álbum Convoque seu buda e digo logo, admirador de longa data que sou: é o melhor rapper do país na atualidade. E canta samba e tudo (procure por Espiral da ilusão e tirem suas próprias conclusões!). 

Com seu novo álbum recém-lançado, Sobre viver, ele desce ainda mais fundo em seu discurso agressivo porém necessário, mete a mão na lama com gosto e aponta sua metralhadora verborrágica para todos os lados. 

Os títulos das canções, antes mesmo de começarmos a ouví-las, já incomodam por osmose: "Diário do Kaos" (e o Kaos com K me remete imediatamente ao extraordinário livro de Jorge Mautner, outra pedrada no ego da sociedade que precisa ser redescoberto pelo povo brasileiro o quanto antes), "Pretos ganhando dinheiro incomoda demais", "Me corte na boca do céu a morte não pede perdão", "Quem planta amor aqui vai morrer", etc etc etc. Mais do que isso: elas refletem um país com imensa vocação para a omissão e o genocídio.

Para os fãs de parcerias, há o sempre magistral Milton Nascimento (para mim, "a voz" desse país que precisa urgentemente de vozes), Liniker, Mc Hariel e Tropkillaz, o que resulta numa mistura interessantíssima de influências. Contudo, o mais importante desse trabalho: Sobre viver é um manifesto puro. Um álbum que não tem pudor ou vergonha de expor as mazelas de um país que não reconhece suas próprias mazelas.

Entre os múltiplos desabafos, frases duras como "O primo é o crime, o crime é cofre", "Todo secundarista é um alvo marcado", "Só o amor pode te afastar do canhão", "Essa guerra não acaba/ e amanhã tudo de novo", "Somos a mágoa dessa estrutura", "O Estado é só uma criança sentada chupando manga", "No Brasil professor apanha, é processado"... A maioria delas, claro, mais destinadas à classe negra, menos abastada, e eternamente massacrada por nossos dirigentes. 

Há de tudo um pouco nas canções de Criolo: Ogum e Iemanjá (orixás andam na moda em tempos de Exu como enredo vitorioso da Acadêmicos de Grande Rio na Marquês de Sapucaí), citação da Bíblia, intolerância, luto, cansaço com a política nacional, a perda de um parente para a Covid, até mesmo a mãe do cantor e compositor, Maria Vilani, deu sua contribuição, pôs sua voz - pôs o seu - na reta. Tudo à serviço de um sonho. Um sonho de mudança. Mudança que nunca vem, mas precisa. Urgentemente. 

Deixo aqui uma dica de fã enjoado, que presta atenção em detalhes que a maioria dos ouvintes não querem prestar: fiquem de olho na percussão ao longo das faixas. É de um deslumbre que não se vê todo dia na MPB. E a MPB - em tempos de artistas de plástico que só sabem rebolar a bunda e cheios de marra que só sabem falar grosso - precisa e muito de elogios. Tem até o mestre Jaques Morelenbaum na faixa "Pequenina", o momento mais intimista e pessoal de todo o álbum. 

Dizer mais o quê? Nada. Vai ouvir e sentir o clima, preguiçoso, que eu não tenho obrigação nenhuma de explicar cada segundo do trabalho e, além do mais, vocês precisam conhecer algo mais além de sofrência, sertanejo universitário e Anitta liderando o spotify mundial. 

Peraí, peraí... Faltou dizer mais uma coisa, sim: a música brasileira precisa de mais registros musicais como esse Sobre viver. O quanto antes. Porque não é só sobre música. É sobre resistência.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Ele só queria fazer a diferença


É curioso continuar falando de Batman, seja como personagem cultural de uma era, seja como fenômeno pop. 

O homem-morcego chegou a oito décadas de existência três anos atrás sem sentir o peso do tempo. Na verdade, pertenço ao grupo dos que acredita que sob certa ótica ele até que rejuvenesceu, se reinventou e foi deixando pelo meio do caminho certos estereótipos incômodos que o acompanhavam (como, por exemplo, aquela velha lenda de que ele e seu parceiro Robin, o menino prodígio, tinham um caso amoroso). 

O problema maior para mim, desde que me entendo como fã do herói, é que quando ele começou a ser adaptado para o audiovisual sempre deixaram de lado aquilo que o personagem tinha de mais atraente: seu caráter detetivesco. Sim, meus caros leitores alienados! Batman é um detetive e dos bons.   

E ao contrário dessa premissa, a tv e o cinema sempre preferiram focar seja no pastiche (que o diga a série televisiva sessentista com o ator Adam West e o dois longas megalomaníacos e afeminados do diretor Joel Schumacher) ou num comportamento soturno e distante do seu alter-ego (e nesse sentido o ator Michael Keaton foi o que melhor incorporou o milionário distante Bruce Wayne, no longa de Tim Burton de 1989). 

Já tivemos a chance de vê-lo rodeado de mulheres lindíssimas - Kim Bassinger, Michelle Pfeiffer, Anne Hathaway, Marion Cotillard, etc -, enfrentando acionistas inescrupulosos dentro de sua própria empresa e, claro, à caça de psicopatas os mais diversos, com direito a um capítulo à parte para o arquiinimigo mais famoso dele, o Coringa. Contudo, o Batman investigador sempre ficou em segundo plano nessas histórias (com espectadores chegando a comentar que o personagem era coadjuvante dos vilões em sua própria franquia). Até agora. 

Batman, de Matt Reeves - baita diretor que revolucionou a franquia Planeta dos macacos - é uma grande (e deslumbrante) surpresa nesse sentido. E desde já adianto: porradeiro do jeito que os fãs da velha hollywood tanto gostam. 

Robert Pattinson veste o manto do homem-morcego e prova por a mais b que entendeu a indústria hollywoodiana como poucos. Entrega um Bruce Wayne atormentado, que não tem nada de milionário e ainda por cima convive com uma crise interna que simplesmente não o abandona de jeito nenhum. Sua única voz da consciência é o mordomo Alfred (Andy Serkis, que merecia mais tempo de tela), que também carrega traumas que não divide com o patrão. 

A Gotham City de Reeves é pura barbárie e não à toa ele traz como referência para seu longa o assassino Zodíaco, que barbarizou os EUA na década de 1970. Seus habitantes transitam no limiar entre "os fins justificam os meios" e o "vale tudo para se salvar". Carmine Falcone (John Turturro), antigo sócio de Thomas Wayne, a mulher-gato (Zoe Kravitz), o pinguim (Colin Farrell, soberbo), o Comissário Gordon (Jeffrey Wright), resquício da ética numa polícia afundada na corrupção e o magistral e psicótico Charada (Paul Dano, sublime) são personalidades disformes num jogo de xadrez mais do que macabro. 

Mais do que isso: Bruce Wayne começa e entender que seu pai não era tão ético quanto ele sempre imaginou e isso também interfere em seu juízo de valor. Contudo, isso é o que filme tem de melhor. Ao contrário de outras versões onde se tentou vender o heroísmo do personagem acima de qualquer outro raciocínio, aqui vemos um Batman que erra, se precipita, titubeia, não avalia todas as possibilidades e por isso recomeça e entende que errar faz parte do jogo. Em suma: o detetive é, acima de tudo, humano (logo, falho). 

Não quero contar nenhuma premissa da história para não estragar a experiência dos outros. Portanto, prefiro dizer que os criadores desse oitentão destemido - Bob Kane e Bill Finger - certamente ficariam orgulhosos ao ver o que Reeves fez com a criatura deles. O Batman de 2022, usando as palavras dele mesmo na película, é um homem que só queria fazer a diferença em meio a tanto caos. Se conseguirá ou não, só o tempo vai dizer. 

Até lá que esperemos a continuação (já anunciada na última CinemaCon, para júbilo dos fãs e nerds de carteirinha)! 


sábado, 23 de abril de 2022

O revolucionário das HQs


Antes mesmo da palavra - e por conseguinte, da cultura - nerd surgirem da maneira como surgiram, eu já era um exemplar raro dentro da fauna adolescente que eu frequentava lá pelos meados dos anos 1980. Quando todos só queriam saber de farra, pegar a chave do carro do pai emprestado, beber e fumar para ver qual o barato que rolava, eu vivia mesmo era nas filas de cinema e teatro (o Tablado foi praticamente uma segunda residência) e aproveitando cada segundo que eu podia lendo. 

E quando digo lendo, falo de absolutamente tudo. Até bula de remédio ganhava espaço nessas horas! 

E dentro dessa minha vertente leitor as histórias em quadrinhos, tirinhas de jornais e os comics de forma geral tiveram uma participação gigantesca. Nunca entendi - vou logo confessando de cara - essa mania que o mercado tinha de chamar os quadrinhos de arte marginal. Só pensa isso que nunca leu. 

E entre Turma da Mônica - que, obviamente, nunca faltou na estante da minha geração -, Recruta zero, os heróis da Marvel e DC e o genial Will Eisner com seu Spirit, eu descobri os "visionários" que criaram a extraordinária Chiclete com Banana, para mim a mais brazuca das publicações nacionais. Luiz Gê, Glauco, Roberto Paiva, Glauco Mattoso. Laerte Coutinho e, claro, o magistral Angeli, inseriram naquele universo tudo o que, até então, não cabia sequer na imaginação dos moralistas. 

Eles realizaram, sim, a grande revolução dos quadrinhos no país, associando humor e escracho à sexo e drogas, mas de uma maneira nada convencional. E a minha geração queria aquilo muito mais do que qualquer sala de aula. 

E eis que para a tristeza e lamento dos fãs Angeli, aos 65, decreta a aposentadoria de sua carreira, por conta de um diagnóstico de Afasia (doença degenerativa que nos últimos meses vêm ganhando destaque após a decisão do ator hollywoodiano Bruce Willis, da franquia Duro de Matar, em também encerrar a carreira pelo mesmo motivo).

Angeli começou a rabiscar cedo, aos 14 anos, para a revista Senhor e para alguns fanzines, e logo a seguir foi contratado pela Folha de São Paulo. Teve seu trabalho publicado na Alemanha, França, Itália, Espanha e Argentina, mas nenhum outro país fora do Brasil recebeu tão bem a sua obra quanto Portugal, que compilou seu trabalho e chegou a produzir uma série animada com seus personagens icônicos. 

E por falar neles, difícil escolher um preferido num painel tão versátil e fora de qualquer padrão. A grande maioria dos leitores certamente tem uma identificação maior com Rê Bordosa, a junkie porralouca (que chegou a ser dublada num longa de animação pela cantora Rita Lee) e os machões de plantão rendem loas à Bob Cuspe, o punk anarquista, mas sua obra não se rendeu exclusivamente a ambos.

Com os adolescentes Luke e Tantra e sua obsessão por perder a virgindade, os velhos hippies Wood & Stock, Os Skrotinhos (e, claro, sua versão feminina), a ninfomaníaca Mara Tara, o guru espiritual Rhalah Rikota, o voyeur e fetichista Ed Campana, o roqueiro - e morador do Leblão - Ritchi Pareide, o paranormal Rampal, o egocêntrico Walter Ego, Los três amigos, Rigapov - o imbecil do apocalipse e Hippo-Glós, o hipocondríaco (que foi inspirado no teatrólogo Cacá Rosset), dentre tantos outros, externou uma plêiade de tipos sociais e humanos os mais diversos. E o mais importante para os leitores: sem o menor pingo de juízo (como era bem a cara dele). 

Além dos quadrinhos e cartuns, ele também foi redator do programa infantil TV Colosso (1993 - 1996) na Rede Globo e desenvolveu quadrinhos animados para a internet e o canal a cabo Cartoon Network. E Nos últimos anos ele acabou ficando mais conhecido pela série Angeli - The Killer, produzida pelo Canal Brasil, do que por seus próprios trabalhos. Mas não se iludam! Isso em nada diminui seu talento gráfico. 

Para conhecer um pouco mais sobre a obra do Angeli, procurem (o quanto antes) nas lojas e sebos:


Cinema

Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll, de Otto Guerra (2006)

Dossiê Rê Bordosa, de César Cabral (2008)

Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini (2010)

Bob Cuspe: Nós Não Gostamos de Gente, de César Cabral (2021)


Quadrinhos (todos da Quadrinhos na Cia.):

Todo Bob Cuspe

Toda Rê Bordosa

O Lixo da História


Só faltou dizer duas coisas: 1) uma pena, mesmo! ele parecia ter ainda tanto a propor e 2) chega ao fim uma era nas HQs nacionais. Quem não concorda comigo, que me prove o contrário!


domingo, 17 de abril de 2022

O exército de um homem só


Quem, como eu, foi testemunha ocular do cinema americano que era feito nos anos 1980 sabe a quantidade de arquétipos e estereótipos que hollywood criou para manter viva a cultura brucutu daqueles tempos. Arqueólogos destemidos, rebeldes sem causa, pugilistas imbatíveis, lutadores das mais variadas artes marciais, etc etc (e haja etc). 

Era bastante comum naquele período a expressão "exército de um homem só" para se referir a esses protagonistas avassaladores que nenhuma força da natureza ou forças armadas era capaz de destruir. E a geração músculos estava repleta de versões as mais variadas dentro deste perfil (Dolph Lundgren, Arnold Schwarzenneger e Bruce Willis, entre tantos outros, que o digam). 

Entretanto, nenhum deles a meu ver conseguiu construir a mesma imagem que Sylvester Stallone carregou por toda a carreira. E muito disso se deve à Rambo: programado para matar, de Ted Kotcheff, que completa quatro décadas de existência agora em 2022. O garanhão italiano - como é bastante conhecido até hoje - já era famoso pelo personagem Rocky Balboa quando deu vida nas telas ao ex-boina verde acometido pelo stress pós-traumático por conta do conflito na guerra do Vietnã, mas foi aqui que ele construiu sua lenda. 

A história de John Rambo não tinha (e ainda não tem) nada de excepcional para os padrões da época: ele regressa à cidade de Hope, em Washington, após o fim da guerra para reencontrar um amigo de farda e acaba descobrindo que todo o seu pelotão morreu após voltar do conflito. Se depara com o xerife linha-dura Teasle (Brian Dennehy), que o vê como um reles vagabundo e perigoso, tudo porque ele porta uma faca e está andando a esmo pela cidade. É espancado, torturado, humilhado, se revolta e foge. 

Porém, dessa perseguição policial é despertado um gatilho para que uma nova guerra aconteça, agora dentro da sua mente. E as consequências desse novo combate são certamente catastróficas. 

A produção do longa por si só já renderia um filme próprio, cheio de lendas urbanas as mais diversas. O projeto, segundo declaração de pessoas que participaram da pré-produção, chegou a ter 26 versões diferentes de roteiro (a obra original é de autoria do escritor David Morrell) até que o próprio Stallone escrevesse a versão final. E o corte inicial, que tinha mais de três horas de duração, foi rechaçado pelo astro, que cogitou a possibilidade de comprar os direitos para destruir a cópia, que acabou sendo reeditada até ficar com os 93 minutos de projeção finais. 

Ted Kotcheff não foi a primeira escolha para dirigir o longa, que quase teve na cadeira de diretor nomes como Mike Nichols (de A primeira noite de um homem), Sydney Pollack (de Entre dois amores) e George Miller (responsável pelo sucesso de bilheteria Mad Max, com Mel Gibson).

Já quando o assunto é elenco a empreitada ficou ainda mais trabalhosa. Vários atores foram cogitados para interpretar John Rambo, dentre eles Clint Eastwood, Robert de Niro, Al Pacino, Kris Kristofferson, Chuck Norris, James Garner, Dustin Hoffman, John Travolta, Ryan O' Neal, Paul Newman e Jeff Bridges. O ator Gene Hackman chegou a fazer teste para interpretar o Xerife Teasle, mas acabou abandonando a produção. Já os atores Kirk Douglas, Rock Hudson e Lee Marvin foram cogitados para interpretar o Coronel Trautman, personagem que acabou sendo vivido pelo ator Richard Crenna. 

E por falar no Coronel Trautman, ele é a voz da consciência de Rambo, o único homem capaz de realmente entender o que se passa em sua mente perturbada e trazê-lo de volta à razão, quando possível. E é nesse momento que ele e Teasle se desentendem, pois têm opiniões discordantes acerca do país, do que consideram patriotismo e do papel da violência na atual sociedade americana.

Considero o monólogo final do soldado, quando ele desabafa sobre o que foi a guerra do Vietnã e o que os Estados Unidos se tornaram depois do conflito, uma das melhores sequências da história do cinema americano e uma prova mais do que irrefutável do talento de Stallone, que sempre foi visto pela crítica como um reles brutamontes. E o legado que o filme deixou para as gerações posteriores está intacto até hoje, tanto que hollywood nunca encontrou um sucessor para o personagem.

O que faltou dizer depois de toda essa singela homenagem de minha parte? Que o cinema de ação feito hoje não chega no calcanhar do que realizaram aqui. Difícil é fazer os atuais cinéfilos ofuscados pelo mundo nonsense da Marvel e da DC entenderem isso!