quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Janis, 80


Mal ligo o computador e a primeira informação que vejo no twitter é a de que a cantora Janis Joplin, se viva, estaria comemorando 80 anos de idade. Infelizmente ela nos deixou muito cedo (aos 27 anos, vítima de uma overdose de heroína) e os fãs até hoje choram copiosamente. 

E tudo porque Janis, mesmo para aqueles que não curtiam o seu estilo musical ou maneira de cantar, era a voz por excelência. Tem inclusive quem diga que ela "cantava com a alma", por isso levou a música - e o rock - a um outro patamar. Em outras palavras: ela ajudou a construir a ideia do gênero como revolucionário, à frente do seu próprio tempo. 

Porém, é preciso perguntar aos desavisados: você já ouviu Janis Joplin, nem que seja apenas uma mísera vez? Mas ouviu mesmo, sentindo cada palavra escandida em seu corpo e em seu coração? Caso ainda não tenha tido a  honra, não sabe o que está perdendo. Não mesmo. 

É difícil classificar uma voz como a dela. Rebeldia que chama? Não, isso simplesmente não explica o que foi Janis. Quando assisti o filme A rosa, de Mark Rydell (1979), no qual a atriz Bette Midler interpreta Janis numa atuação indicada ao Oscar, entendi imediatamente - embora tenha gostado muito do longa - que, fosse quem fosse a atriz intérprete, não emularia 10% do que ela representou. 

Ouçam, quando tiverem tempo, em algum you tube ou streaming da vida, canções como "Me and Bobby McGee", "Summertime", "Piece of my heart", "Cry baby", "Down on me" (isso para ficar no básico, pois o repertório dela era ímpar) e, se possível, ouçam de novo e de novo. 

Entendam aquela voz, tentem fazer com que ela faça parte do seu mundo particular. Janis, assim como Elis Regina aqui no Brasil, foi das poucas que conseguiu fazer isso ao longo da carreira. Fez de seu canto uma terapia pessoal para muitos, uma experiência de vida. Ouvir Janis cantar era mais, muito mais, do que mero entretenimento. Queríamos, no fundo, conseguir fazer o mesmo (mesmo sabendo que era impossível).

Após sua morte, trágica, ela meio que virou uma lenda urbana em tempo integral. São muitas as histórias sobre ela, verídicas ou não. Alguns afirmam que em seu testamento ela reservara a quantia de 2,5 milhões de dólares para que dessem uma festa após sua morte. Outros dizem que ela abominava maconha, LSD e alucinógenos em geral, pois essas substâncias a faziam pensar demais (e ela queria era esquecer tudo). Outro 'caso famoso' foi seu relacionamento com o roqueiro brazuca Serguei. Foi eleita - acreditem! - o homem mais feio da universidade onde estudou e colegas do campus ainda alegavam que ela traficava maconha com extrema perícia.

Sim, a menina que se encantou com Bessie Smith (dizia que era sua maior influência) e que defendeu o blues até a morte, mesmo contra os roqueiros mais ferrenhos, era do balacobaco. E era justamente essa capacidade de se reinventar, ousar, virar o mundo de ponta cabeça, que virou sua marca registrada com o passar das décadas. Em suma: ela virou sinônimo de tudo o que era mais improvável. 

Infelizmente, Joplin não deixou uma herdeira à sua altura. Houve um momento que eu cheguei a acreditar que a cantora Amy Winehouse (também morta aos 27 anos, que ironia!) pudesse ser essa pessoa... Mas não. Eram vozes extraordinárias, mas cada uma em seu elemento único. Seria um crime compará-las. 

Sobrou, para a felicidade dos fãs da boa música (em tempos de ridículo sonoro e artistas que não passam de reboladores de bundas e imitadores vazios), o legado discográfico. Então repito, aos que conhecem a cantora ou não: ouçam Janis Joplin. Mas ouçam agora, nesse exato momento. Aproveitem esse dia para descobrir aquela que, para muitos, é a maior roqueira que o mundo já viu. Afinal de contas, são 53 anos que ela partiu. E ela continua de uma relevância assustadora na cultura pop. 

E agora que já dei a dica, corre e liga o player. De preferência, no volume mais alto. Aposto que vocês vão me agradecer depois.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Sem papas na língua


Em tempos de fanáticos religiosos e surtados, terraplanistas sem noção e a doença da "volta do comunismo pela milionésima vez" regressando nas mentes (e vozes) de uma geração perdida, estúpida e ignorante, nunca o humor foi tão necessário para lidar com as desavenças e covardias oficiais. E quando me refiro ao humor estou falando de sua vertente mais ácida e direta, que não dá margem a inocência ou interpretações dúbias. Em outras palavras: falo do rir sem rodeios ou desculpas, deixando o outro lado do debate sem graça ou sem chão. 

Dito isto, é preciso salientar que hoje, 11 de janeiro de 2023, um dos pais desse humor cara-a-cara, se vivo, estaria comemorando seu centenário. E sua obra nunca foi tão atual como neste momento em que passamos por tantas fraudes, mentiras e exageros em nome de uma suposta fé. Seu nome: Sérgio Marcus Rangel Porto (ou simplesmente Sérgio Porto, mas que a história cultural desse país acabou preferindo chamar de Stanislaw Ponte Preta). 

É tarefa mais do que árdua para os marinheiros de primeira viagem explicar o que Sérgio fez ao longo da vida. Mais fácil dizer o que ele não fez - e por pura falta de tempo mesmo, pois sua jornada aqui na terra foi uma correria só. Funcionário do Banco do Brasil, jornalista, compositor, radialista, teatrólogo, cronista, ficcionista em geral, etc etc etc (e eu vou parar, porque no quesito etc ele teve muitos). E isso tudo antes de completar míseros 45 anos, quando faleceu vítima de um infarto.

Duas pautas o acompanharam por toda a sua carreira: a diversidade cultural e a desigualdade social do Brasil. E ninguém, segundo alguns críticos e pesquisadores literários, bateu tanto na ditadura militar quanto ele. E fez isso não com expressões de baixo calão ou luvas de boxeador, mas com a mais fina ironia e sarcasmo que lhe eram peculiares. Debochado notório e farrista contumaz, encantou leitores em todo o território nacional com seu jeito despachado e maluco (tem quem chame de irreverente) de ser.

Dentre seus 14 livros publicados - quatro assinados como Sérgio Porto e onze com o pseudônimo que o consagrou -, o que mais se notabilizou com certeza foi FEBEAPÁ (ou Festival de besteira que assola o país, no qual satirizava o jornalismo feito no período). Ah, Stanislaw! E está assolando até hoje. Acho até que piorou de uns anos pra cá, meu caro! Você não faz a menor ideia do quanto...

Junto com o também escritor, cronista e compositor Antônio Maria (outra lenda da época) criou o que ficou conhecido na imprensa carioca como o "cronista da noite". É também de sua autoria o até hoje nostálgico "As queridinhas do Lalau", um concurso de beleza disputado entre as vedetes mais famosas da época e que teve entre suas concorrentes mulheres lindíssimas como Maria Pompeo, Irma Alvarez, Rose Rondelli, Anilza Leoni e tantas outras. 

Outro grande legado cultural deixado por Sérgio, este para a música popular brasileira, foi a redescoberta do cantor e compositor mangueirense Cartola, que andava completamente sumido da mídia lá pelos meados dos anos 1950, tanto que para sobreviver trabalhava como lavador de carros e como vigia num edifício residencial em Ipanema. Sérgio, que escreveu artigos sobre o sambista para jornais de grande circulação, o ajudou a retomar a carreira e regressar aos palcos. 

As cariocas, livro de contos que em 2010 ganhou versão televisiva na Rede Globo numa série em 10 episódios produzida por Euclydes Marinho, trouxe à baila todo o talento e expertise do autor para tratar da psique feminina. Com relatos de mulheres dos mais distintos bairros, de Grajaú à Madureira, ele criou uma sublime cartografia sobre as mulheres e mostrou por a mais b que, de sexo frágil, elas não têm é nada. 

Contudo, ainda mais importante do que ler e entender as suas obras, é compreender a personalidade de Sérgio. O cronista Paulo Mendes Campos dizia que sua maior característica era "o trânsito livre entre as manifestações da vida". Sérgio não era homem de se calar diante das adversidades, muito menos fazer coro com o óbvio cotidiano ou com a maioria viciada em mesmice. Traçou seu próprio caminho a ferro e fogo, enfrentou quem e o que quis, pagou o preço alto numa época conturbada e cheia de falsos moralismos e ainda assim fez de seu pseudônimo uma marca registrada, assim como Pelé (que faleceu recentemente). 

O que sobrou dele nesse século XXI mais perdido do que cego em tiroteio? A necessidade absurda de que precisamos, hoje mais do que nunca, de expoentes como ele, que saibam flertar com a ousadia quando preciso. Figuras sem papas na língua que enfrentem as intempéries da vida de peito aberto, não importa o desafio que elas tragam. O Brasil de hoje - acreditem! - nunca precisou tanto de alguém como ele e nem sequer se dá conta disso. 

Stanislaw, mestre, volta! Volta, pelo amor de Deus! Precisamos tanto da sua cara de pau. 


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Poucos sobreviverão ao ódio


Eu tenho um sentimento dúbio sobre a culinária e a alta gastronomia de uma forma geral: ao mesmo tempo que sou extremamente curioso sobre quem cozinha e como (vejo zilhões de programas e concursos sobre o tema, embora eu mesmo não cozinhe absolutamente nada), em alguns momentos acho este universo um tanto caótico e divisivo. 

Explico-me: vejo esta realidade proposta pelos chefs de couisine mundo afora completamente fora do mundo real. Eles parecem ter criado um mundo paralelo onde somente os eleitos, a elite cruel e devastadora, pode (e deve) fazer parte. Resultado: uma nefanda alegoria sobre a burguesia atroz que nunca soube viver além do próprio umbigo e da própria pose.

Imagine, então, este cenário transformado num horror psicológico de primeira grandeza? Foi exatamente isso que o diretor Mark Mylod fez em O Menu, das melhores coisas que a sétima arte produziu em 2022, mas que eu infelizmente só consegui assistir agora. Mas quer saber? Fico satisfeito de saber que comecei 2023 com o pé direito, pois o longa é um deleite. 

Premissa simples na abertura da trama: grupo de privilegiados (no geral, eles não passam disso!) viajam para uma ilha isolada, onde aproveitarão uma experiência gastronômica que se promete única. Quando chegam ao local, que é cheio de regras e costumes próprios que não podem ser alterados sob nenhuma hipótese, se deparam com o excêntrico Chef Slowik (Ralph Fiennes, excepcional), que se considera um artífice, um gênio da comida. 

Acompanhado de seus assistentes, apresenta a seus convidados um menu criado com rigor e apuro. E entre um prato e outro conta uma narrativa que tem o intuito de transformar a refeição numa experiência não somente gustativa, como também sensorial. Até que uma série de situações macabras ditam o tom do que será aquela noite inusitada. 

Um informação importante: um dos convidados do jantar não comparece e no lugar dele, uma substituta, Margot (Anya Taylor-Joy), intriga o chefe. Mais do que isso: deixa-o desconcertado. É como se a presença dela tirasse o brilho ou a importância de tudo o que ele criou previamente para aquela noite em particular. E ambos, Slowik e Margot, travarão um duelo à parte durante todo o jantar. 

Entre a insatisfação do chefe com certos convidados que, na visão dele, o traíram ou nunca reconheceram o seu talento e punições bem como tentativas de fuga por parte daqueles que não esperavam que a noite chegasse a tanto, o experimento chega ao seu ápice quando violência e paladar começam a assumir quase que formas análogas. Sim, eu sei... Parece louca a correlação, mas foi exatamente o que eu senti durante toda a projeção do filme. 

Há uma clara distinção entre O Menu e outras produções cinematográficas que trazem a culinária como o cerne ou parte da história (por exemplo, Chef; Pegando fogo; Sem reservas; Comer, rezar, amar, dentre outras): o de Mylod não esconde sua raiva através de ironias, discursos arrogantes e blasés, muito menos disputas entre chefes de cozinha e donos de restaurantes pelo protagonismo do espaço. 

Aqui tudo é intenso, da reles interrupção para ir ao banheiro até a ostentação de quem acha que é mais do que os outros só porque é famoso. Tudo, absolutamente, tudo - mesmo um talher que caia ao chão - é motivo para que a raiva seja ativada e o dono da cozinha se transforme em Michael Douglas no filme Um dia de fúria. Não há razões para subterfúgios. Aquelas pessoas devem pagar com a vida, pois jamais seriam capazes de entender o talento do chefe e ele assim o decidiu. 

O Menu poderia ser gore se o diretor quisesse, mas ele preferiu uma elegância assassina. Há método nos silêncios que antecedem toda a vilania em jogo. E a única que parece a priori entender esse jogo diabólico é Margot. Talvez porque tanto ela quanto o chefe não pertençam de fato àquele mundo, vieram de fora, não nasceram em berço de ouro. Logo, se reconhecem pelo olhar. E, mesmo assim, enfrentam-se como algozes de faro ímpar. 

Ao fim o que sobra ao espectador é apenas uma certeza: por vivermos em castas e não numa sociedade coerente, ética ou lúcida, sobrevivemos ao ódio alheio com todas as nossas forças. Contudo, essa nunca será um batalha fácil ou mesmo ganha. E para chegar ao dia seguinte, a semana seguinte, ao mês seguinte e por aí em diante, é preciso fingir, dissimular, erguer os punhos e lutar com unhas e dentes. E principalmente: entender que nem todos conseguirão sobreviver. Apenas o que subverterem as regras ou trapacearem.

E aos demais, os que não conseguirem, tudo não passará de um "estar no lugar errado, na hora errada". Sinto muito.  


quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O rei do futebol


É incrivelmente difícil falar de uma lenda. Primeiramente, porque elas mesmas não estão isentas de falhar, cometer deslizes, fazer más escolhas, serem humanos imperfeitos. E depois porque, por mais que falemos delas, sempre fica aquela sensação cretina de que esquecemos de mencionar alguma coisa, tamanha a grandiosidade dele ou dela. 

Hoje perdemos nossa maior lenda do esporte, que vinha lutando nos últimos anos contra seu adversário mais duro. Nenhum outro oponente, nos campos por onde passou mundo afora, o tirou de uma competição de maneira tão dolorosa. Uma pena! Mas chegou o dia em que Pelé, o eterno rei do futebol, nos deixou aos 82 anos. E por mais que tenha sido uma vida ilustre, ainda queríamos mais, quiçá a imortalidade (tendo em vista o que ele produziu dentro e fora dos estádios).

O menino Dico, filho de Dondinho - que também jogou futebol -, que brincava em Bauru nos campinhos de barro e prometeu ao pai ganhar uma Copa para ele quando o viu chorando após a derrota do Brasil na final do mundial de 1950 para o Uruguai, tem uma história de vida tão gigantesca que nunca caberá neste mísero artigo. E ainda assim vou tentar com todas as minhas forças. 

Chega ao Santos e logo percebem que ele tinha algo incomum, que nunca seria igual aos demais (e realmente não era). Com seu jeito quieto, mas liso com a bola nos pés, faz a história numa época em que o futebol não era anos-luz o marketing e a publicidade dos dias de hoje. Honestamente... Graças a Deus! Eram tempos de craques, de bola rodando e nada de cabelos descoloridos e chuteiras douradas.

Ganhou mais de trinta títulos, alguns deles imprescindíveis como o tricampeonato mundial com a seleção (1958-1962-1970) e o bi pelo mundial de Clubes com o Santos (1962-1963) contra Benfica e Milan, respectivamente. E quando muitos na imprensa pensavam "agora ele para", surpreendeu a todos encerrando sua carreira no Cosmos, clube de Nova York, numa tentativa de levar o futebol profissional aos EUA. 

Dentro das quatro linhas é fácil exaltar Pelé. Mesmo eu, que não o vi jogar, apenas acompanhei suas imagens pelo Canal 100 e outros arquivos esportivos, fico deslumbrado com seu talento e capacidade física. Não à toa foi chamado de "O atleta do século" pela mídia da época. 

Contudo, é preciso também destacar um marca que notabilizou o craque: os gols que ele não fez e ainda assim foram comemorados com o mesmo impacto. Num deles, Gordon Banks (goleiro da Inglaterra) impediu com aquela que é considerada, por muitos, a maior defesa de todas as Copas. No outro, o goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz leva um extraordinário drible da vaca que para tristeza, mas também delírio de quem estava no estádio, passa rente a trave. Meu pai, antes de falecer, jurou a vida toda que a bola tocava no calcanhar do zagueiro. Vejam o lance no youtube e tirem suas próprias conclusões! 

Outro acontecimento lendário foi o milésimo gol, contra o Vasco. Revejam-no também e reparem na raiva do goleiro Andrada, que quase toca na bola. Ele ficou marcado até o fim da vida pelo feito. 

Fora dos campos e competições, Pelé virou ícone pop e sinônimo de Brasil no mundo. Tornou-se serigrafia do artista plástico Andy Warhol (que disse que, no caso do jogador, a fama duraria 15 séculos e não 15 minutos), frequentou a notória danceteria Studio 54, participou de inúmeros longas cinematográficos (de filme dos Trapalhões até o mais cult Fuga para a vitória, de John Huston, ao lado dos astros Sylvester Stallone e Michael Caine), virou personagem de história em quadrinhos de Maurício de Sousa, foi até Ministro dos esportes do governo FHC. 

E mesmo com tudo isso e todas as outras milhões de histórias que vocês terão que descobrir sozinhos senão este texto ficará imenso, continuou sendo a cara de um esporte que em mais de cinco décadas só fez se sofisticar, engrandecer e aumentar ainda mais sua legião de fãs.

O que importa de fato para este que vos escreve é deixar claro que hoje, 29 de dezembro de 2022, o Brasil e o mundo não perderam somente Edson Arantes do Nascimento e sim o maior atleta, a maior figura esportiva da história da humanidade do último século. E o futebol, seu ofício por natureza, nunca mais será o mesmo depois de hoje. Podem até surgir outras feras nos gramados, mas o que esse homem fez - de forma absurda, quase irreal para muitos - não se repetirá. Não mesmo. 

Dito isto, só me resta desejar toda a paz e felicidade do mundo para ele, e que agora encontre outros campos lá em cima para mostrar sua genialidade. Aposto que não vai faltar torcida. Fica com Deus, camisa 10!      

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O clipe-manifesto


Existem artistas que entretém, outros que não passam de caça-níqueis ávidos por mais grana e status e os que entram para a história com todo o mérito de seus respectivos trabalhos (esses são os meus preferidos). Contudo, há uma quarta categoria dentro dessa classe que também chama - e muito! - a minha atenção. Refiro-me aos provocadores, aqueles que não se contentam unicamente com o seu ofício (seja escrever, atuar, cantar, etc) e vão além, enfrentam o mundo e suas constantes tomadas de decisão infelizes. 

Roger Waters, membro da antiga banda Pink Floyd, é desses. Morrisey, ex-vocalista do The Smiths, também. Entretanto, ninguém enfrentou seu país natal e o mundo de uma forma geral com tanta empáfia e cabeça erguida nos últimos anos quanto as moças da banda russa feminista Pussy Riot. Elas já protestaram, 10 anos atrás, contra uma lei discriminatória russa contra os gays do seu país e quase foram excomungadas por conta disso. Já tiveram três de suas integrantes presas e submetidas a trabalhos forçados, levando a população mundial à uma comoção internacional sem precedentes. E isso só para ficar no básico e largamente difundido pela mídia. 

Acham que elas desistiram? Nada. Só serviu para elas acentuarem ainda mais seus ataques anti-governamentais. Prova disso é o seu mais recente clipe, Mama, don’t watch tv

São pouco menos de quatro minutos de pura ousadia, polêmica e dedo na cara, questionando não somente a recente guerra entre Rússia e Ucrânia (que, tudo leva a crer, não tem data para acabar) como também o presidente, que é chamado abertamente pelas moças de "terrorista". Mais: elas pedem que Putin seja processado por seus crimes de guerra. 

Há um clima de repúdio e exasperação na canção que em alguns momentos me lembrou as letras, também diretas e anárquicas, do grupo de armênios do System of a down. Elas não medem as palavras e sentam a pua em governantes, militares e quem mais estiver envolvido nessa guerra doentia. De amoroso mesmo, apenas o apoio à rival Ucrânia, diariamente massacrada no conflito. 

Entre cenas de apresentações da banda em shows lotados e regados à posicionamentos políticos radicais e imagens de um país destruído pela guerra insana, com direito à soldados covardes quebrando câmeras para ocultar provas e funerais improvisados em meio a destroços, as moças desfiam o rol de horrores e lamentações que já se tornou marca registrada do grupo. Só que dessa vez com um acidez acentuada.

O refrão da música (“Mãe, não há nazistas aqui. Não assista TV”) faz alusão a um depoimento de um soldado russo capturado que, em uma conversa telefônica com a mãe, disse isso num ato de desespero. Mas a narrativa caótica proposta por elas não se limita a essa frase. As meninas desconstroem todo o conceito de guerra como o conhecemos e, em alguns momentos, chegam a ironizar certas práticas oficiais e as intenções escusas por trás delas. 

E como se não bastasse todo o horror e o sarcasmo embutido naquelas palavras, ao fim do vídeo - que não demora muito, creio, será provavelmente retirado do you tube - uma das integrantes, encapuzada, mija num quadro de Putin em pleno show, para uma plateia de fãs ensandecidos. Sim, a narrativa chega a tal extremo. Mas como disse em parágrafo anterior: elas são provocadoras (por natureza) e isso precisa fazer parte do contexto também. 

Como resultado final (seja musical ou ideológico) Mama, don’t watch tv é o clipe-manifesto de 2022. E que curioso que tenha vindo à toa quase no final do ano! Certamente é intencional da parte delas, que querem que fiquemos com essa última lembrança de um ano marcado por decisões macabras, mas buscando uma virada de página urgente. E que venham elas logo, por favor. 

Afinal de contas, o mundo não aguenta mais figuras como Putin e outros extremistas no poder que veem a sociedade e o mundo apenas pela ótica da guerra e do terror. É preciso dar um basta nisso e a banda entende que só endurecendo o discurso teremos uma chance. Resta saber o que 2023 nos trará de novo. 


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

O plano definitivo para combater o crime


2022 chegando ao fim e eu quase me esqueço de falar sobre Robocop - o policial do futuro, de Paul Verhoeven - que completa 35 anos de existência esse ano - e da grande revolução que ele provocou na minha vida. 

É preciso, porém, dizer antes: na época em que as videolocadoras eram o suprassumo em termos de ficar antenado com o que acontecia na sétima arte, o meu gênero preferido nas prateleiras era o policial. Eu não podia ver dando sopa um exemplar de Dirty Harry ou Desejo de matar e corria imediatamente para casa para assistir. E se ainda por cima fosse um longa noir, como o antológico Relíquia macabra, de John Huston (inspirado no romance de Dashiell Hammett), aí é que eu enlouquecia de vez.

Imagina então se deparar, aos 11 anos, com um misto de narrativa policial com ficção científica e robótica? Lógico que eu nem li a sinopse. E os dizeres na capa do VHS eram bastante sugestivos: "parte homem, parte máquina, todo policial". Resultado: revi o filme, na época, umas três vezes, fora as inúmeras reexibições na famigerada Sessão da tarde da Rede Globo.

Na trama, acompanhamos o policial novato Alex Murphy (Peter Weller) acompanhado de sua parceira, Annie Lewis (Nancy Allen) em sua primeira missão investigativa, que acaba mal. Alex é estraçalhado pela gangue liderada por Clarence Boddicker (Kurtwood Smith) e vai à óbito. Entretanto, a OCP - empresa privada que controla a polícia numa Detroit governada pelo caos e pela violência - tem, na figura de um de seus executivos, Bob Morton (Miguel Ferrer), que almeja a direção do orgão, outros planos.

Cansado de colocar as vidas de milhares de policiais em risco todos os dias, ele decide criar um agente meio homem, meio máquina, que combata o crime. E para isso ele precisará do cérebro de um policial morto em combate (no caso, Alex). Embora seu projeto seja visto com ressalvas por muitos executivos da organização, ele mesmo assim consegue pô-lo em prática.

O problema: as memórias pessoais do agente Murphy, o passado, a família, começam a vir à tona e interferem em todo o processo. Mais do que isso: Murphy deseja se vingar daqueles que destruíram a sua vida, transformando-se numa espécie de vingador cibernético. 

Cheio de sátiras ao mundo real, campanhas publicitárias criadas para explicitar o quanto é difícil viver naquela cidade e com um hype e um estilo que, sinceramente, não cabem nessa crítica de tão elevados que são, Robocop é desses fenômenos de audiência que hollywood, no passado, produzia com bem mais frequência (e talento) do que no cinema atual.

O "robô" que é vendido para a população de Detroit como a solução definitiva contra a violência urbana percebe que, além de ter uma vida toda controlada pelo sistema (entre outras deliberações impostas pela hierarquia de comando ele nunca deve se voltar contra um executivo da OCP, seja em que circunstância ele se encontre), há situações nas ruas - o verdadeiro campo de batalha - muito mais complexas do que apenas seguir o livro de regras imposto a ele. 

E é nesse momento que ele precisará se livrar de todo esse aparato, que nada mais é do que um limitador de suas funções, para conseguir realmente realizar o seu trabalho - o clássico "proteger e servir".

Primeira produção hollywoodiana do diretor Paul Verhoeven, que já mostrara ser bom diretor com os longas Louca paixão e Conquista sangrenta (ambas parcerias com o ator Rutger Hauer), Robocop não só fez um retumbante sucesso nos cinemas como também gerou duas continuações (nenhuma delas, contudo, teve sua participação no projeto), uma série de tv de pouca repercussão e um remake desnecessário dirigido pelo cineasta brazuca José Padilha, o mesmo dos arrebatadores Tropa de Elite I e II. 

Porém, seu maior legado foi certamente ter popularizado de vez a figura do androide nos cinemas. Peter Weller e Nancy Allen podem até não ter dado uma interessante continuidade às suas carreiras (e olha que eles mereciam, hein!), mas ainda assim vejo o longa como um grande catalisador de um tipo de cinema que, até então, hollywood tinha medo de investir. Precisaram trazer um diretor da Holanda, então meio desconhecido, e arriscar. 

E no caso dele, Verhoeven, deu mais certo do que a própria franquia que construíram. Procurem no IMDb a carreira do diretor e me corrijam se eu estiver enganado. 

O que mais faltou dizer? Que se você ainda não assistiu esse clássico da ficção-científica oitentista, você sempre entenderá o pioneirismo de O exterminador do futuro, de James Cameron (1984) de forma isolada. E bons cinéfilos que se prezem não se bastam com isso. Não mesmo. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

O melhor filme da história?


Listas são problemáticas. Digo mais: elas são a ruína quando o assunto é o debate sobre a sétima arte. Por quê? Porque elas não definem - nem de longe! - o que é o fazer cinematográfico. No máximo explicam o gosto particular de um indivíduo, o que ele considera como cinema. E como todo espectador que se preze é fruto de uma época, acho extremamente natural que ele não considere certos clássicos do cinema como os "seus clássicos".

E é preciso salientar aqui: acho muito difícil que a atual geração que frequenta os cinemas hoje em dia - uma geração baseada no que produtoras como a Disney e Netflix, só para ficar em duas das maiores (ou mais visíveis) - venha a considerar gigantes da sétima arte como Federico Fellini, Ingmar Bergman, John Ford, Akira Kurosawa, Roberto Rossellini e tantas outras feras em suas listas pessoais. Eles, a tal nova geração, buscam uma outra relação com o cinema, mais voltada para a bilheteria, a perpetuação das mesmas ideias (na forma de remakes, spin-offs, sequels, etc), a grandiosidade dos efeitos especiais, os orçamentos milionários...

E qualquer outro debate, em tempos de Rotten Tomates e Metacritic influenciando quem vive à sombra dos mesmos temas, torna-se menor ou desnecessário.

Dito isto, a nova lista dos melhores filmes da história do cinema produzida pela revista Sight and Sound - publicação que sempre polemiza e incomoda com suas escolhas a cada nova década - ganha um novo contorno de discórdia. Mas cabe aqui um aparte importante: fosse quem fosse o número 1 da referida lista o debate seria o mesmo (e preconceituoso), que dirá a insatisfação de determinados grupos cinéfilos que vivem de resmungar e falar mal de tudo. 

O número 1 do famoso top 100 da revista nesse ano de 2022 - após, nos últimos anos, testemunharmos o legado de Cidadão Kane, de Orson Welles e a liderança na última edição de Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock - é Jeanne Dielman, de Chantal Akerman (1975). E bastou que um filme dirigido por uma mulher encabeçasse a lista para que os revoltados de plantão rugissem, com as mesmas diversas - e despudoradas - reações. 


"É a mania de enaltecer esse feminismo de butique vigente hoje em dia";

"Maldito cinema experimental! Está acabando com a sétima arte";

"Essa gente maluca de revista só quer mesmo é aparecer, não entende nada de cinema";

"O cinema morreu de uma vez por todas!"

E etc etc etc... e outros milhões de desnecessários etcs.


Na prática, entretanto, o que temos é - pelo menos, para mim - uma grande provocação por trás dessa escolha.

Jeanne Dielman é um longa-metragem de 3 horas e 20 minutos (tudo que os imediatistas mais detestam!) que se debruça sobre a história de um dona de casa, viúva, que vive com o filho adolescente, e paga suas contas mensais levando homens para o seu apartamento, onde exerce a profissão de garota de programa. É... Já vejo os conservadores babacas de sempre gritando: "enalteceram uma puta! era só o que faltava!".

Mais do que isso, o filme de Chantal Akerman - que é uma sublime artista e eu recomendo aos leitores deste texto que procurem por sua filmografia - é um consistente ensaio sobre a rotina sufocante do dia-a-dia. E é nesse exato momento que reside a grande bronca dos detratores da lista.

Como fazer com que um grupo gigantesco de alienados cinéfilos, que resumem o cinema à IMAX, CGI, 3D, cenas de ação intermináveis, o culto aos blockbusters que não passam de caça-níqueis, heróis musculosos e personagens canastrões que emulam um estilo de vida vazio, entendam que a sétima arte é mais do que isso? Não foi à toa que citei num parágrafo anterior a palavra provocação. 

A decisão da Sight and Sound ao colocar Jeanne Dielman no topo da lista provoca os amantes do cinema - sejam lá quem eles forem - a sair da sua zona de conforto, da sua bolha existencial baseada em maniqueísmos fajutos e discursos vagos. E eu, claro, gosto muito dessa tentativa heroica por parte da publicação. Redescobrir-se como espectador é, para mim, uma grande missão. E assim deveria ser para os outros (embora muitos prefiram idolatrar o comodismo).

Ao fim dessa rápida explanação (que se promete também polêmica quando eu postá-la em minhas redes sociais, repletas de fãs enjoados que adoram uma reclamação e um mimimi), digo: continuo detestando a ideia de listas dos melhores do que quer que seja. Elas limitam o debate e isso é sempre muito ruim. Contudo, é preciso elogiar esse caso específico, pois os cinéfilos e adoradores da sétima arte precisam urgentemente sair de suas trincheiras culturais. Do contrário, o cinema não evoluirá nunca. Pior: morrerá no espaço-tempo. 

E o que eu menos desejo quando penso em sétima arte é a permanência do banal, do óbvio, travestido de espetáculo barato. Tudo, menos isso!