sábado, 23 de abril de 2022

O revolucionário das HQs


Antes mesmo da palavra - e por conseguinte, da cultura - nerd surgirem da maneira como surgiram, eu já era um exemplar raro dentro da fauna adolescente que eu frequentava lá pelos meados dos anos 1980. Quando todos só queriam saber de farra, pegar a chave do carro do pai emprestado, beber e fumar para ver qual o barato que rolava, eu vivia mesmo era nas filas de cinema e teatro (o Tablado foi praticamente uma segunda residência) e aproveitando cada segundo que eu podia lendo. 

E quando digo lendo, falo de absolutamente tudo. Até bula de remédio ganhava espaço nessas horas! 

E dentro dessa minha vertente leitor as histórias em quadrinhos, tirinhas de jornais e os comics de forma geral tiveram uma participação gigantesca. Nunca entendi - vou logo confessando de cara - essa mania que o mercado tinha de chamar os quadrinhos de arte marginal. Só pensa isso que nunca leu. 

E entre Turma da Mônica - que, obviamente, nunca faltou na estante da minha geração -, Recruta zero, os heróis da Marvel e DC e o genial Will Eisner com seu Spirit, eu descobri os "visionários" que criaram a extraordinária Chiclete com Banana, para mim a mais brazuca das publicações nacionais. Luiz Gê, Glauco, Roberto Paiva, Glauco Mattoso. Laerte Coutinho e, claro, o magistral Angeli, inseriram naquele universo tudo o que, até então, não cabia sequer na imaginação dos moralistas. 

Eles realizaram, sim, a grande revolução dos quadrinhos no país, associando humor e escracho à sexo e drogas, mas de uma maneira nada convencional. E a minha geração queria aquilo muito mais do que qualquer sala de aula. 

E eis que para a tristeza e lamento dos fãs Angeli, aos 65, decreta a aposentadoria de sua carreira, por conta de um diagnóstico de Afasia (doença degenerativa que nos últimos meses vêm ganhando destaque após a decisão do ator hollywoodiano Bruce Willis, da franquia Duro de Matar, em também encerrar a carreira pelo mesmo motivo).

Angeli começou a rabiscar cedo, aos 14 anos, para a revista Senhor e para alguns fanzines, e logo a seguir foi contratado pela Folha de São Paulo. Teve seu trabalho publicado na Alemanha, França, Itália, Espanha e Argentina, mas nenhum outro país fora do Brasil recebeu tão bem a sua obra quanto Portugal, que compilou seu trabalho e chegou a produzir uma série animada com seus personagens icônicos. 

E por falar neles, difícil escolher um preferido num painel tão versátil e fora de qualquer padrão. A grande maioria dos leitores certamente tem uma identificação maior com Rê Bordosa, a junkie porralouca (que chegou a ser dublada num longa de animação pela cantora Rita Lee) e os machões de plantão rendem loas à Bob Cuspe, o punk anarquista, mas sua obra não se rendeu exclusivamente a ambos.

Com os adolescentes Luke e Tantra e sua obsessão por perder a virgindade, os velhos hippies Wood & Stock, Os Skrotinhos (e, claro, sua versão feminina), a ninfomaníaca Mara Tara, o guru espiritual Rhalah Rikota, o voyeur e fetichista Ed Campana, o roqueiro - e morador do Leblão - Ritchi Pareide, o paranormal Rampal, o egocêntrico Walter Ego, Los três amigos, Rigapov - o imbecil do apocalipse e Hippo-Glós, o hipocondríaco (que foi inspirado no teatrólogo Cacá Rosset), dentre tantos outros, externou uma plêiade de tipos sociais e humanos os mais diversos. E o mais importante para os leitores: sem o menor pingo de juízo (como era bem a cara dele). 

Além dos quadrinhos e cartuns, ele também foi redator do programa infantil TV Colosso (1993 - 1996) na Rede Globo e desenvolveu quadrinhos animados para a internet e o canal a cabo Cartoon Network. E Nos últimos anos ele acabou ficando mais conhecido pela série Angeli - The Killer, produzida pelo Canal Brasil, do que por seus próprios trabalhos. Mas não se iludam! Isso em nada diminui seu talento gráfico. 

Para conhecer um pouco mais sobre a obra do Angeli, procurem (o quanto antes) nas lojas e sebos:


Cinema

Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll, de Otto Guerra (2006)

Dossiê Rê Bordosa, de César Cabral (2008)

Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini (2010)

Bob Cuspe: Nós Não Gostamos de Gente, de César Cabral (2021)


Quadrinhos (todos da Quadrinhos na Cia.):

Todo Bob Cuspe

Toda Rê Bordosa

O Lixo da História


Só faltou dizer duas coisas: 1) uma pena, mesmo! ele parecia ter ainda tanto a propor e 2) chega ao fim uma era nas HQs nacionais. Quem não concorda comigo, que me prove o contrário!


domingo, 17 de abril de 2022

O exército de um homem só


Quem, como eu, foi testemunha ocular do cinema americano que era feito nos anos 1980 sabe a quantidade de arquétipos e estereótipos que hollywood criou para manter viva a cultura brucutu daqueles tempos. Arqueólogos destemidos, rebeldes sem causa, pugilistas imbatíveis, lutadores das mais variadas artes marciais, etc etc (e haja etc). 

Era bastante comum naquele período a expressão "exército de um homem só" para se referir a esses protagonistas avassaladores que nenhuma força da natureza ou forças armadas era capaz de destruir. E a geração músculos estava repleta de versões as mais variadas dentro deste perfil (Dolph Lundgren, Arnold Schwarzenneger e Bruce Willis, entre tantos outros, que o digam). 

Entretanto, nenhum deles a meu ver conseguiu construir a mesma imagem que Sylvester Stallone carregou por toda a carreira. E muito disso se deve à Rambo: programado para matar, de Ted Kotcheff, que completa quatro décadas de existência agora em 2022. O garanhão italiano - como é bastante conhecido até hoje - já era famoso pelo personagem Rocky Balboa quando deu vida nas telas ao ex-boina verde acometido pelo stress pós-traumático por conta do conflito na guerra do Vietnã, mas foi aqui que ele construiu sua lenda. 

A história de John Rambo não tinha (e ainda não tem) nada de excepcional para os padrões da época: ele regressa à cidade de Hope, em Washington, após o fim da guerra para reencontrar um amigo de farda e acaba descobrindo que todo o seu pelotão morreu após voltar do conflito. Se depara com o xerife linha-dura Teasle (Brian Dennehy), que o vê como um reles vagabundo e perigoso, tudo porque ele porta uma faca e está andando a esmo pela cidade. É espancado, torturado, humilhado, se revolta e foge. 

Porém, dessa perseguição policial é despertado um gatilho para que uma nova guerra aconteça, agora dentro da sua mente. E as consequências desse novo combate são certamente catastróficas. 

A produção do longa por si só já renderia um filme próprio, cheio de lendas urbanas as mais diversas. O projeto, segundo declaração de pessoas que participaram da pré-produção, chegou a ter 26 versões diferentes de roteiro (a obra original é de autoria do escritor David Morrell) até que o próprio Stallone escrevesse a versão final. E o corte inicial, que tinha mais de três horas de duração, foi rechaçado pelo astro, que cogitou a possibilidade de comprar os direitos para destruir a cópia, que acabou sendo reeditada até ficar com os 93 minutos de projeção finais. 

Ted Kotcheff não foi a primeira escolha para dirigir o longa, que quase teve na cadeira de diretor nomes como Mike Nichols (de A primeira noite de um homem), Sydney Pollack (de Entre dois amores) e George Miller (responsável pelo sucesso de bilheteria Mad Max, com Mel Gibson).

Já quando o assunto é elenco a empreitada ficou ainda mais trabalhosa. Vários atores foram cogitados para interpretar John Rambo, dentre eles Clint Eastwood, Robert de Niro, Al Pacino, Kris Kristofferson, Chuck Norris, James Garner, Dustin Hoffman, John Travolta, Ryan O' Neal, Paul Newman e Jeff Bridges. O ator Gene Hackman chegou a fazer teste para interpretar o Xerife Teasle, mas acabou abandonando a produção. Já os atores Kirk Douglas, Rock Hudson e Lee Marvin foram cogitados para interpretar o Coronel Trautman, personagem que acabou sendo vivido pelo ator Richard Crenna. 

E por falar no Coronel Trautman, ele é a voz da consciência de Rambo, o único homem capaz de realmente entender o que se passa em sua mente perturbada e trazê-lo de volta à razão, quando possível. E é nesse momento que ele e Teasle se desentendem, pois têm opiniões discordantes acerca do país, do que consideram patriotismo e do papel da violência na atual sociedade americana.

Considero o monólogo final do soldado, quando ele desabafa sobre o que foi a guerra do Vietnã e o que os Estados Unidos se tornaram depois do conflito, uma das melhores sequências da história do cinema americano e uma prova mais do que irrefutável do talento de Stallone, que sempre foi visto pela crítica como um reles brutamontes. E o legado que o filme deixou para as gerações posteriores está intacto até hoje, tanto que hollywood nunca encontrou um sucessor para o personagem.

O que faltou dizer depois de toda essa singela homenagem de minha parte? Que o cinema de ação feito hoje não chega no calcanhar do que realizaram aqui. Difícil é fazer os atuais cinéfilos ofuscados pelo mundo nonsense da Marvel e da DC entenderem isso!


terça-feira, 29 de março de 2022

Às vezes dava pra comprar um disco pela capa, sim


Toda vez que converso sobre música - seja ela brasileira ou internacional - ouço uma frase recorrente dita por metidos a entendedores da MPB e clássicos: "nunca compre um disco pela capa, pois você certamente irá se decepcionar - e muito!". E durante anos eu me peguei pensando na veracidade dessa frase. Mas hoje tudo mudou e por causa de um artista sensacional que me provou por a mais b que, às vezes, a capa diz tanto ou mais do que o conteúdo de um álbum musical. 

Provavelmente a geração que sucedeu o apogeu do vinil (ou LP, como o chamávamos mais corriqueiramente no passado) nunca entenderá a importância de uma capa de disco. Mas acreditem: em muitos casos ela era capaz de falar por si própria. Queríamos entender o que ela dizia antes mesmo de ouvir as faixas do disco. Pergunte a qualquer fã de rock sobre o disco da banana do Velvet Underground e ele concordará comigo na mesma hora.

Eu nunca desenhei - e essa sempre foi uma das minhas maiores frustrações na vida -, mas aprendi a admirar desde cedo quem se comunica com as imagens. E Elifas Andreato, um dos maiores capistas da história da música popular brasileira, que nos deixou hoje por sequelas de um enfarte aos 76 anos, sabia fazer isso como poucos. Tem quem diga até que foi o melhor no seu ofício. É provável que sim. 

O artista que morou em cortiço, trabalhou numa fábrica de caixas de fósforo, em agência de publicidade, foi caricaturista, muralista, entre tantas outras peripécias inventivas, sabia dar ao músico - fosse ele/a quem fosse - a cara que ele/a entendia ser a necessária para vender o seu trabalho de forma mais íntegra, e por que não dizer?, mais legítima. E um dado importante: nas palavras dele, nunca trocou seu trabalho por dinheiro. 

Não à toa criou mais de 700 capas. De Caetano Veloso à Noel Rosa; de Tim Maia à Adoniran Barbosa; de Carmen Miranda à Pixinguinha; de Elis Regina à Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, o rapper Criolo e tantos outros. Em suas capas, vi um mundo de ideias, cores, talentos, até mesmo críticas sociais (quando necessário, é claro!). 

Minha capa preferida de sua lavra é, sem dúvida, Ópera do malandro, obra de Chico Buarque, composta como trilha sonora para o espetáculo teatral homônimo, lançada em 1979, mas um antigo vizinho meu, dos tempos de zona da leopoldina, adorava lembrar de Nervos de aço, álbum de Paulinho da Viola - para quem, por sinal, Elifas realizou sua primeira capa no início da carreira - em 1973. E nunca consegui esquecer das caricaturas dos artistas, feitas para a coleção História da Música Popular Brasileira, da Editora Abril. Minha mãe comprou vários exemplares dessa coletânea em CD e sempre que eu os pegava nas mãos me perguntava como ele conseguia fazer aquilo soar tão simples, tão fácil. 

Assim como ZIraldo, Maurício de Sousa, Henfil e outros mestres da pena, Elifas também foi um gênio dentro do seu ofício. Pena que o mercado fonográfico, com o passar dos anos, tenha se tornado um lugar tão mesquinho e fútil, mais interessado em cifras do que em verdadeiros talentos musicais.   

O garoto que saiu de Rolândia, interior do Paraná, para tentar a vida profissional, entendeu que aquele espaço, a capa do disco, que para muitos parecia tão inútil e descartável, por vezes sem sentido, era o seu trono particular. Ali poderia criar o que quisesse, do jeito que quisesse, e nem por isso acobertaria a genialidade da obra. Ele próprio defendia a ideia de que uma extraordinária capa não salvava um disco ruim do ostracismo. 

Contudo, muitas vezes me fez descobrir entre as gôndolas de lojas de discos hoje extintas como Modern Sound e Gabriela, que uma grande capa desperta sim a curiosidade dos fãs mais enjoados. Mais do que isso: ela é um pontapé mais do que necessário para querermos saber mais e mais sobre aquele trabalho, sobre aquelas músicas. Quem nunca comprou um disco só por causa de uma imagem psicodélica ou esquisita ou fora do comum na capa e descobriu em casa que o disco nem era essa coisa toda, que atire a primeira pedra!

Pois: pessoas como Elifas fizeram isso - e muito mais - com uma grandeza e um talento assustador. E por isso ele fará tanta falta no cenário musical dos próximos anos. Fique em paz, mestre! Pessoas como você são cada dia mais raras no nosso país.  


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Um livro muito além dos próprios leitores


Tem pessoas que preferem acreditar que um livro é apenas um livro, que se trata apenas de papel, que não muda o mundo ou mesmo a humanidade (já estudei, inclusive, com um rapaz que defendia isso com uma naturalidade absurda). Cá entre nós: para mim isso é papo de gente presunçosa e babaca que não gosta de ler. Mais: acha literatura uma grande perda de tempo. Que bom seria se essas pessoas pensassem o mesmo dos campeonatos de futebol milionários, cheios de atletas esnobes que não estão nem aí para o resto da civilização, ou da política partidária. Talvez o mundo hoje fosse outro...

Enquanto isso não acontece, é preciso deixar claro aos fãs do mercado editorial: há livros, sim, que são mais do que meros livros. Qualquer pessoa que já tenha lido, pelo menos uma vez na vida, Dom Quixote, Os miseráveis, A Odisseia, On the Road, Crime e Castigo, só para ficar no meu básico indispensável, sabe do que eu estou falando e com folga. E em alguns casos, como certa ocasião disse o crítico Antônio Candido, eles têm o poder de mudar o mundo mesmo sem ser lidos. E nesse caso me refiro particularmente à Ulisses, obra seminal do autor irlandês James Joyce, que completa 100 anos em 2022 (quer dizer: alguns estudiosos irão dizer que há discrepâncias a cerca deste centenário, mas oficialmente é isso!).

Ulisses nos apresenta Leopold Bloom, o Homero do século XXI (referência direta do personagem), numa rotina que à priori parece bem simples: ele sai de casa, realiza pequenas tarefas e ao fim do dia, retorna para o seu lar, acompanhado do parceiro Stephen Dedalus. O dia em questão é 16 de junho de 1904. Mas não se enganem, caros leitores! A obra em si, sua simplicidade, é - isso sim - um grande desafio que povoa a cabeça de milhões de leitores ao redor do mundo há um século. E não à toa muitos não conseguiram terminá-lo até hoje. 

Escrito durante um período de sete anos (1914-1921) e tendo alguns trechos publicados num jornal literário como se fosse uma espécie de folhetim - uma prática bastante comum da época -, o romance de Joyce segue dividindo opiniões e encantando os amantes da boa (e complexa) literatura. Já foi chamado de genial, revolucionário, ímpar, mas também de embuste, charlatanice, incógnita, perda de tempo, esnobe e difícil em demasia. Virginia Woolf se recusou a publicá-lo em sua editora e ainda o classificou como nada menos do que uma catástrofe literária. Parece louco pensado hoje, um século depois, e é. Em suma: num artigo que li no Estadão ao pesquisar para escrever este texto encontrei a melhor definição para Ulisses. Ele continua sendo o romance mais paparicado, temido e mistificado da literatura. 

E em tempos de fake news na internet isso só aumenta. O contingente de pessoas que compram o livro para tê-lo apenas como enfeite em suas prateleiras é absurdo. Entretanto, ele é mais do que a mera leitura em si e o fato de ser uma narrativa difícil, cheia de armadilhas, acaba meio que contribuindo para que aqueles que nunca a leram ou não passaram da introdução sejam perdoados. Até esses, os não-leitores, foram afetados pelo espírito da época criado por Joyce. E a prova disso é que muitos intelectuais que estudam sua obra dividem a literatura mundial em A.U e D.U (em outras palavras: antes e depois de Ulisses).

Entre os admiradores da obra figuras notáveis como T. S. Eliot, W. B. Yeats, Ernest Hemingway, Vladimir Nabokov e Ezra Pound, este último o maior padrinho e principal responsável pela viabilização da livro. Já entre seus detratores, que odiaram o livro ou o acharam desnecessário, constam também grandes nomes como George Bernard Shaw, E. M. Forster, Paul Claudel. E em meio a tantas divergências, uma certeza: trata-se de um trabalho que suscitou, suscita e ainda suscitará os debates mais diversos (e esse é, sem sombra de dúvidas, o seu maior legado para a história da literatura mundial). E quem diria que um romance que foi acusado de fazer a literatura entrar em colapso chegaria tão longe!

Entre as façanhas oferecidas por Joyce com o romance estão a maneira como revolucionou a forma do romance moderno; o uso do fluxo de consciência nos personagens (não uma invenção sua, mas certamente ele o personalizou com estilo); a escrita de longos parágrafos sem pontuação; a concentração da história em um único dia (algo não muito comum naquele período); o estabelecimento, de uma vez por todas, da liberdade de se escrever, publicar e ler qualquer coisa que se queira e o uso de palavras consideradas chulas, até então ausentes da grande literatura, como “foder”, “gozar” e até mesmo a grafia no texto da genitália feminina. O que, logicamente, rendeu muita censura e perseguição ao autor. 

Considerado obsceno pelas autoridades antes mesmo de ser publicado, teve pessoas ligadas à obra processadas e alguns chegaram a ir para a cadeia por vender exemplares do romance (que foi até mesmo contrabandeado num esquema parecido com o das bebidas alcoólicas nos anos de lei seca). E não bastasse tudo isso, incontáveis exemplares foram apreendidos e incinerados, numa alusão ao clássico Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que muitos leitores sonsos preferem acreditar que "essas coisas não acontecem na vida real". Eu, que até então pensava que o processo envolvendo o poema O Uivo, de Allen Ginsberg, taxado de ser pornográfico, era monstruoso em demasia, aqui tive a certeza de que já aconteceu coisa muito pior envolvendo autores. E Joyce é mais uma dessas vítimas que não cansam de surgir de tempos em tempos. 

Pelo outro lado positivo, o do legado, das conquistas, duas certezas: a quantidade de autores cujas ideias jamais teriam existido sem a influência desse irlandês tão controverso. Jose Saramago, J. M. Coetzee, Roberto Bolaño, Samuel Beckett, Thomas Pynchon, Jorge Luis Borges... Todos. cada um à sua maneira, existiram influenciados por Joyce e sua magnífica obra. E Ulisses é, da maneira mais rasteira que consigo enxergá-lo - pois creio que ele merecia uma alcunha melhor do que essa, mas me faltam palavras para descrevê-lo com exatidão (como disse em parágrafo anterior: é uma narrativa difícil) - um livro além dos próprios leitores. Mas tem gente que não entende isso e prefere enxergá-lo como uma reles verborragia sem sentido. 

E antes que me perguntem o que faltou escrever, eu não posso deixar de mencionar o Bloomsday, realizado todo ano na Irlanda, em 16 de junho, para homenagear o protagonista Leopold Bloom. Uma festa que reúne anualmente milhões de leitores do livro e já virou parte do calendário cultural do país. Sim, você que não conhece ou nunca leu Ulisses, não leu errado, não! O romance virou um feriado. Para vocês verem a força dessa narrativa que atravessou um século mexendo com a cabeça das pessoas.

E agora? Vai continuar chamando o romance de esnobe, difícil, presunçoso, mesmo depois de ter lido tudo isso? Daqui pra frente você está por sua conta e risco, então. Só não venha me dizer depois que eu não te falei do livro, tá bom?


domingo, 20 de fevereiro de 2022

Não se pode dar um preço ao amor


Nada é mais doloroso e implacável na vida de qualquer ser humano do que a culpa e o ressentimento. Passamos a vida acreditando que nossas escolhas são as melhores possíveis tendo em vista o horizonte que vislumbramos, mas não estamos isentos de amar de forma equivocada, de culpar o outro injustamente ou mesmo de fracassar em nossas intenções. E nem sempre conseguimos consertar nossos erros (e não somente isso: há quem prefira a terrível zona de conforto de frases hipócritas como "eu faria tudo de novo"). 

Esta semana, como faço de tempos em tempos, andei procurando um longa-metragem que abordasse os relacionamentos amorosos de uma forma não tão padronizada. Não queria uma reles love story ou uma comédia romântica e sim uma história que desconstruísse a ideia imaginária que temos do amor idealizado, algo que sempre me irritou, por exemplo, em hollywood e seus romances açucarados em demasia. E eis que me deparo com Veneza, novo longa do diretor Miguel Falabella, e uma grata surpresa cinematográfica desse início de 2021 (que, confesso, deveria ter assistido no ano passado). 

Baseado na peça de Jorge Accame, Veneza se passa dentro de um prostíbulo cuja dona, Gringa (Carmen Maura, em uma interpretação irretocável), não consegue esquecer o homem que amou e dispensou de forma amarga para continuar no mundo da prostituição. Ela passa os dias em tormento, lembrando do que viveram e de uma promessa: que um dia iria à Veneza para reencontrar Giacomo (Magno Bandarz) e pedir perdão pelo que fez. Suas funcionárias não aguentam mais o desespero da pobre mulher, mas a mais compadecida de todas é Rita (Dira Paes), que ao lado de Tonho (Eduardo Moscovis), uma versão rústica do "homem da casa", promete levá-la ao país, nem que seja a última coisa que ela faça. 

Contudo, o que eles ganham no estabelecimento mal dá para pagar as contas. E mais do que isso: como acreditar realmente, num lugar como aquele, onde o amor é comercializado da maneira mais gratuita possível, que a história da Gringa possa ser crível? Para muitas deles, este tipo de sentimento é simplesmente inverossímil ou ilusório. Elas foram doutrinadas a acreditar que, na vida, tudo não passa de um grande negócio. 

Mas após irem a uma apresentação teatral dentro de um circo mambembe, Tonho descobre uma maneira de levarem a Gringa à Veneza sem precisarem sair do país e, nesse momento, a película ganha contornos de ilusão, chegando a me fazer pensar em alguns momentos nos filmes do cineasta italiano Federico Fellini e em Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues (cuja caravana Rolidei, muito mais do que uma mera trupe circense, era um grande receptáculo das catarses humanas). E nesse sentido Falabella realiza seu melhor e mais maduro filme como diretor de cinema. 

Há uma frase dita por um dos membros do circo no início da sessão que pautou meu pensamento durante toda a narrativa: "não se pode dar um preço ao amor". E esse é exatamente o mote que define a angústia da Gringa. Ela culpou seu amado por tê-la transformado numa mercadoria barata, mas demorou demais a perceber que também se vendeu para atender a seus próprios interesses. E quando se deu conta era tarde demais para corrigir a situação, pois a vida passou por ela como um rolo compressor (e a vida, assim como amor, não são ciências exatas, que definimos a nosso bel prazer). 

Veneza é, de forma interessantíssima, um grande experimento sobre o lúdico e o onírico que volta e meia perseguem a humanidade, embora muitos prefiram a certeza imposta pela caretice cotidiana e a velha mania do "se arriscar não é seguro e a vida é por demais implacável com quem a desobedece". E o resultado disso são pessoas amargas, infelizes ou desesperadas (como é o caso da nossa protagonista), tentando reconstruir os cacos que se quebraram, acreditando na possibilidade de uma redenção. 

No segmento final, enquanto embarcamos juntos no sonho e na imaginação da Gringa, que acredita piamente ter tido a chance de consertar seus erros, me peguei pensando na minha própria vida e se eu teria também uma segunda chance para resolver uma história mal resolvida do passado. E nesse momento me dei conta de que o filme de Falabella atingira o seu objetivo.

Para quem se acostumou a ver o ator, dramaturgo, diretor e apresentador do Vídeo Show criando seus personagens cômicos em produções como Sai de baixo, Toma lá dá cá e Polaróides urbanas - seu primeiro longa para a sétima arte - achei este novo trabalho de um requinte e de uma ousadia raras vezes vista no cinema nacional, que muitas vezes adora perder tempo com produções meia-boca e de gosto duvidoso. Em suma: ele acertou em cheio contando uma história simples, sem arroubos ou grandezas. E nosso audiovisual anda precisando de mais opções como esta!

Tempos atrás, o vi dando uma entrevista, não me recordo exatamente em que canal de tv ou programa, em que ele dizia ter a pretensão de transpor algumas de suas próprias peças para o cinema, dentre elas Império (que eu adoro). Espero ansiosamente que ele cumpra a promessa, pois me deparei com um artista seguro, que sabe o que quer e conhece bem o seu próprio trabalho. E é de pessoas assim que se faz uma grande arte. 

P.S: pouquíssimas vezes eu vi um elenco feminino tão bem escalado quanto aqui. Carmen Maura (eterna musa Almodovariana), Dira Paes, Carol Castro, Daniele Winits, Maria Eduarda de Carvalho, Maria Paquim, Georgina Barbarossa, Camila Vives... O cast é um colírio para os olhos, tanto pela beleza quanto pelo talento. E só mesmo quem for muito louco - ou gostar demais de perder tempo com as bobagens audiovisuais do Leandro Hassum e da Ingrid Guimarães - vai perder a chance de ver essa produção que é uma bola fora da curva dentro do nosso cinema. E este que vos escreve adora bolas fora da curva.   


sábado, 19 de fevereiro de 2022

Somos corpos e sonhos


Os ociosos que me desculpem, mas vivemos numa civilização onde o corpo (ou a desconstrução dele) é tudo. Passeie brevemente pelo bairro onde você mora e irá se deparar com duas instituições que ditam a pauta da sociedade cada vez com mais força: as igrejas e as academias. E no segundo caso, o crescimento das chamadas academias fitness - onde seus frequentadores são expostos a uma rotina de exercícios praticamente surreal, às vezes inumana - fez com que surgisse um tipo de ser humano quase robótico, até mesmo no falar. 

E por que estou falando disso nesse arremedo de crítica cinematográfica? Porque esta semana enfim consegui assistir Titane, filme da diretora Julia Ducournau, vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, e me peguei pensando exatamente no quanto queremos transformar nossas vidas com a mesma vitalidade com que deformamos nossos corpos. 

No longa francês, acompanhamos a saga da jovem Alexia (a extraordinária Agathe Rouselle) desde pequena, após sofrer um acidente de carro que fez com que ela precisasse realizar uma cirurgia e colocar uma placa de titânio na cabeça. Contudo, ao invés dela nutrir medo ou pânico pelo automóvel que mudou completamente a sua vida, ela meio que desenvolve uma relação mórbida com ele, de adoração irrestrita. 

Os anos passam e ela começa a trabalhar se apresentando como dançarina exótica em feiras automotivas. Como se trata de uma mulher lindíssima, começa a atrair a atenção dos piores tipos de homens possíveis e quando é atacada por um desses exemplares que não se cansam de existir desde que o mundo é mundo (ou seja: os homens que não conseguem ouvir a palavra não do sexo oposto), ela reage e o mata. Mais do que isso: aquilo dispara um gatilho dentro dela e meio que se torna uma reação habitual de sua parte. Ela transforma a violência em parte da sua vida. 

Porém, após um de seus crimes inexplicáveis ter sido desmascarado e ela, reconhecida por um retrato falado, Alexia precisa assumir uma outra identidade para sumir por uns tempos e escolhe para isso a foto do filho desaparecido de Vincent (o também ótimo Vincent Lindon), chefe do corpo de bombeiros, um homem viciado em adrenalina e testosterona. 

Contudo, há um outro problema ainda mais perturbador que a acompanhará durante todo o tempo em que estiver escondida na casa de Vincent: ela - acreditem! é isso mesmo que vocês irão ler - teve relações sexuais com um carro e ainda por cima engravidou dele. Parece absurdo e é. Digo mais: vejo em Titane uma grande sátira à nossa devoção doentia ao capitalismo, que nos faz muitas vezes tomar decisões completamente nonsense (e, ainda assim, as relativizamos, como se elas fossem as mais naturais do mundo).

Agora esse rapaz, que não é um rapaz, precisa se fazer presente (na verdade, resistir é a palavra) num universo extremamente misógino, que vê na maioria das vezes a figura feminina apenas sob a ótica do prazer efêmero, e ainda por cima tendo que conviver e entender um pai cheio de remorsos e que deixa claro a todo momento que falhou na forma como criou o filho e pretende corrigir isso da maneira que puder. Então? Será que ela conseguirá escapar disso um dia e voltar à sua vida normal?

Esqueçam a franquia Velozes e Furiosos e seus carros tunados, pois aqui o carro em questão é meramente coadjuvante (ou, no máximo, catalisador do grande tour de force que viraria a vida de Alexia). A transformação corporal dela, enfaixando os seios, quebrando o nariz, escondendo da forma que for possível a gravidez, é impressionante e me lembrou em alguns momentos os longas do diretor David Cronenberg. 

Sim, pois em A mosca, Crash: estranhos prazeres e Existenz também vemos o que os protagonistas são capazes de fazer com seus próprios corpos quando precisam se autoafirmar, sobreviver ou mesmo buscar um novo caminho rumo ao futuro.

E ao final da projeção, ficou-me apenas uma certeza: a de que eu assisti a um dos longa-metragens mais loucos e insanos - e ainda assim extremamente bem produzido e filmado - que eu assisti na última década. Contudo, é preciso avisar com antecedência: Titane é gosto adquirido e não se destina a todos os públicos. Muito provavelmente os fãs da zona de conforto produzida pelas franquias, remakes e spin offs terão uma enorme dificuldade em comprar essa narrativa. 

Mas que quando você entende o que está em jogo e a representação que ela faz do mundo contemporâneo no qual estamos inseridos de maneira quase indigesta, ela dá um show à parte, ah meus caros leitores, não tenham a menor dúvida: até a ficção e o delírio presentes aqui têm a sua razão de ser. E nós não passamos, no final das contas, de corpos e sonhos. Mas adoramos fingir para os outros que somos bem mais do que isso! 


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

O comentarista incomodado


Já cansaram de me perguntar "por que é que você gosta tanto de ler esse cara? Ele vive de provocar os outros, de incomodar!". E eu sempre respondia: "e esse é o maior trunfo dele. Jornalista que não incomoda é como funcionário público que vai na repartição só pra bater ponto. E desses eu quero distância". Estou falando logicamente do cineasta, cronista e jornalista Arnaldo Jabor, que faleceu hoje aos 81 anos, por complicações de um AVC. Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês desde dezembro do ano passado. 

Jabor era um camaleão e se orgulhava disso. Dessas figuras anárquicas que você, leitor ou espectador, fica no aguardo toda vez que ele vai realizar um comentário sobre o que quer que seja. Política, costumes, sexualidade, preconceito, cultura pop, não havia tema ao qual ele não discorresse com categoria e, claro, provocação. 

Porém, antes dele apresentar - junto com Paulo Francis e Joelmir Beting - uma das colunas mais aguardadas da televisão brasileira e escrever muitos dos textos mais ardilosos (e sensacionais) da imprensa nacional no Estadão, na Folha de São Paulo e, posteriormente, em O Globo, ele foi um cineasta de mão cheia. Fez parte da segunda fase do cinema novo, com seus longas cheios de alfinetadas à moral social e à hipocrisia retumbante que nunca abandona o país. 

Um detalhe curioso: há um aspecto na carreira cinematográfica de Jabor que me fez lembrar do cineasta Woody Allen. Ele também foi um grande diretor de atrizes e muitas delas saíram premiadas de seus longas. Que o digam Darlene Glória em Toda nudez será castigada (1973) e Camila Amado em O casamento (1975) - vencedoras do Kikito de melhor atriz no Festival de Gramado - e Fernanda Torres em Eu sei que vou te amar (1986), primeira atriz brasileira a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. A produção com Darlene ainda venceria o Urso de Prata no Festival de Berlim.   

Em sua obra audiovisual, onde realizou sete longas, dois curtas e dois documentários, víamos uma admiração (na verdade, uma devoção) clara ao dramaturgo Nelson Rodrigues, bem como inúmeras ironias e questionamentos ao país e à sociedade, com suas famílias retrógradas, afundadas até a cabeça num moralismo babaca e sem sentido. E isso era o que a sua narrativa tinha de melhor: Jabor, até o fim da vida, não fez média com ninguém porque isso simplesmente não lhe interessava. 

Gosto particularmente de dois filmes dele, não necessariamente os mais famosos: Opinião pública (1967), em que mostra a dificuldade do povo brasileiro em enxergar e administrar a sua própria realidade e Eu te amo (1981) em que, através de um casal que marcou um encontro aleatório dentro de um apartamento, ele expõe as aflições e o niilismo de uma geração que acreditou num sonho político que não se concretizou.

Com o desastroso governo Collor e o fechamento da Embrafilme em 1990, Jabor se afastou das telas e passou a escrever crônicas para jornais e também a fazer comentários políticos em programas de TV (Fantástico, Jornal Nacional, etc) e rádio (CBN), mostrando uma outra faceta ainda mais ácida como comunicador. Foi nesse momento que ele ganhou de minha parte o apelido de o comentarista incomodado, pois eu sempre tinha a sensação de que ele iria falar algo que, volta e meia, irritaria alguém. Mas seu discurso nunca era vazio ou persecutório. Ele era, em suma, uma metralhadora verborrágica no melhor sentido da palavra. 

Dos oito livros de crônicas que publicou, dois se tornam best-sellers: Amor é prosa, sexo é poesia (2004) e Pornopolítica (2006), que eu devorei em poucas horas, tamanho o meu fascínio por seu raciocínio ligeiro e brilhante. Contudo, recomendo aos leitores mais enjoados que gostam de fugir do que é consagrado, que procurem pelo seu primeiro livro, Os canibais estão na sala de jantar. Aqui, ele já mostrava o grande reacionário que se tornaria com o passar dos anos. O germe de suas provocações está presente neste volume de forma ainda incipiente, mas genial.

24 anos depois de seu (até então) último longa, em 2010 Jabor dirige A supremacia felicidade. E com ele regressa ao Brasil de ontem para nos dizer que a sociedade continua cafona e enfadonha. E precisa urgentemente mudar. É visível seu sarcasmo ao relatar a condição da mulher, para ele ainda vivendo numa bolha, sempre em segundo plano em relação à figura masculina (e este era um tema que incomodava - e muito! - o diretor). O filme acabou por se tornar um fetiche meu recorrente, pois sempre que ele é reprisado no Canal Brasil eu o vejo novamente. Um despedida soberba que é a cara dessa figura eternamente intrusiva e debochada. 

Por mais que eu saiba que seus filmes e livros estão por aí e podem ser reassistidos e relidos quantas vezes eu quiser, um fato é certo: a imprensa e o cinema nacional perderam uma de suas maiores e mais diletantes vozes. Não será mais a mesma coisa ficar por dentro do que acontece no país sem a coluna - escrita ou falada - do Jabor. E em meio a tanta gente estúpida, que só fala besteira, exalta o nazismo, vive aprisionada às fake news e à desinformação, a vida teve que nos tirar justamente quem sabia o que dizer e quando era a hora. Uma pena. 

Jabor, você não tem ideia da falta que vai fazer na vida de milhares de leitores brasileiros. Vou ser um eterno devedor da sua elegância narrativa e da sua inteligência mordaz. Fica com Deus, mestre!