quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O rei do futebol


É incrivelmente difícil falar de uma lenda. Primeiramente, porque elas mesmas não estão isentas de falhar, cometer deslizes, fazer más escolhas, serem humanos imperfeitos. E depois porque, por mais que falemos delas, sempre fica aquela sensação cretina de que esquecemos de mencionar alguma coisa, tamanha a grandiosidade dele ou dela. 

Hoje perdemos nossa maior lenda do esporte, que vinha lutando nos últimos anos contra seu adversário mais duro. Nenhum outro oponente, nos campos por onde passou mundo afora, o tirou de uma competição de maneira tão dolorosa. Uma pena! Mas chegou o dia em que Pelé, o eterno rei do futebol, nos deixou aos 82 anos. E por mais que tenha sido uma vida ilustre, ainda queríamos mais, quiçá a imortalidade (tendo em vista o que ele produziu dentro e fora dos estádios).

O menino Dico, filho de Dondinho - que também jogou futebol -, que brincava em Bauru nos campinhos de barro e prometeu ao pai ganhar uma Copa para ele quando o viu chorando após a derrota do Brasil na final do mundial de 1950 para o Uruguai, tem uma história de vida tão gigantesca que nunca caberá neste mísero artigo. E ainda assim vou tentar com todas as minhas forças. 

Chega ao Santos e logo percebem que ele tinha algo incomum, que nunca seria igual aos demais (e realmente não era). Com seu jeito quieto, mas liso com a bola nos pés, faz a história numa época em que o futebol não era anos-luz o marketing e a publicidade dos dias de hoje. Honestamente... Graças a Deus! Eram tempos de craques, de bola rodando e nada de cabelos descoloridos e chuteiras douradas.

Ganhou mais de trinta títulos, alguns deles imprescindíveis como o tricampeonato mundial com a seleção (1958-1962-1970) e o bi pelo mundial de Clubes com o Santos (1962-1963) contra Benfica e Milan, respectivamente. E quando muitos na imprensa pensavam "agora ele para", surpreendeu a todos encerrando sua carreira no Cosmos, clube de Nova York, numa tentativa de levar o futebol profissional aos EUA. 

Dentro das quatro linhas é fácil exaltar Pelé. Mesmo eu, que não o vi jogar, apenas acompanhei suas imagens pelo Canal 100 e outros arquivos esportivos, fico deslumbrado com seu talento e capacidade física. Não à toa foi chamado de "O atleta do século" pela mídia da época. 

Contudo, é preciso também destacar um marca que notabilizou o craque: os gols que ele não fez e ainda assim foram comemorados com o mesmo impacto. Num deles, Gordon Banks (goleiro da Inglaterra) impediu com aquela que é considerada, por muitos, a maior defesa de todas as Copas. No outro, o goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz leva um extraordinário drible da vaca que para tristeza, mas também delírio de quem estava no estádio, passa rente a trave. Meu pai, antes de falecer, jurou a vida toda que a bola tocava no calcanhar do zagueiro. Vejam o lance no youtube e tirem suas próprias conclusões! 

Outro acontecimento lendário foi o milésimo gol, contra o Vasco. Revejam-no também e reparem na raiva do goleiro Andrada, que quase toca na bola. Ele ficou marcado até o fim da vida pelo feito. 

Fora dos campos e competições, Pelé virou ícone pop e sinônimo de Brasil no mundo. Tornou-se serigrafia do artista plástico Andy Warhol (que disse que, no caso do jogador, a fama duraria 15 séculos e não 15 minutos), frequentou a notória danceteria Studio 54, participou de inúmeros longas cinematográficos (de filme dos Trapalhões até o mais cult Fuga para a vitória, de John Huston, ao lado dos astros Sylvester Stallone e Michael Caine), virou personagem de história em quadrinhos de Maurício de Sousa, foi até Ministro dos esportes do governo FHC. 

E mesmo com tudo isso e todas as outras milhões de histórias que vocês terão que descobrir sozinhos senão este texto ficará imenso, continuou sendo a cara de um esporte que em mais de cinco décadas só fez se sofisticar, engrandecer e aumentar ainda mais sua legião de fãs.

O que importa de fato para este que vos escreve é deixar claro que hoje, 29 de dezembro de 2022, o Brasil e o mundo não perderam somente Edson Arantes do Nascimento e sim o maior atleta, a maior figura esportiva da história da humanidade do último século. E o futebol, seu ofício por natureza, nunca mais será o mesmo depois de hoje. Podem até surgir outras feras nos gramados, mas o que esse homem fez - de forma absurda, quase irreal para muitos - não se repetirá. Não mesmo. 

Dito isto, só me resta desejar toda a paz e felicidade do mundo para ele, e que agora encontre outros campos lá em cima para mostrar sua genialidade. Aposto que não vai faltar torcida. Fica com Deus, camisa 10!      

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O clipe-manifesto


Existem artistas que entretém, outros que não passam de caça-níqueis ávidos por mais grana e status e os que entram para a história com todo o mérito de seus respectivos trabalhos (esses são os meus preferidos). Contudo, há uma quarta categoria dentro dessa classe que também chama - e muito! - a minha atenção. Refiro-me aos provocadores, aqueles que não se contentam unicamente com o seu ofício (seja escrever, atuar, cantar, etc) e vão além, enfrentam o mundo e suas constantes tomadas de decisão infelizes. 

Roger Waters, membro da antiga banda Pink Floyd, é desses. Morrisey, ex-vocalista do The Smiths, também. Entretanto, ninguém enfrentou seu país natal e o mundo de uma forma geral com tanta empáfia e cabeça erguida nos últimos anos quanto as moças da banda russa feminista Pussy Riot. Elas já protestaram, 10 anos atrás, contra uma lei discriminatória russa contra os gays do seu país e quase foram excomungadas por conta disso. Já tiveram três de suas integrantes presas e submetidas a trabalhos forçados, levando a população mundial à uma comoção internacional sem precedentes. E isso só para ficar no básico e largamente difundido pela mídia. 

Acham que elas desistiram? Nada. Só serviu para elas acentuarem ainda mais seus ataques anti-governamentais. Prova disso é o seu mais recente clipe, Mama, don’t watch tv

São pouco menos de quatro minutos de pura ousadia, polêmica e dedo na cara, questionando não somente a recente guerra entre Rússia e Ucrânia (que, tudo leva a crer, não tem data para acabar) como também o presidente, que é chamado abertamente pelas moças de "terrorista". Mais: elas pedem que Putin seja processado por seus crimes de guerra. 

Há um clima de repúdio e exasperação na canção que em alguns momentos me lembrou as letras, também diretas e anárquicas, do grupo de armênios do System of a down. Elas não medem as palavras e sentam a pua em governantes, militares e quem mais estiver envolvido nessa guerra doentia. De amoroso mesmo, apenas o apoio à rival Ucrânia, diariamente massacrada no conflito. 

Entre cenas de apresentações da banda em shows lotados e regados à posicionamentos políticos radicais e imagens de um país destruído pela guerra insana, com direito à soldados covardes quebrando câmeras para ocultar provas e funerais improvisados em meio a destroços, as moças desfiam o rol de horrores e lamentações que já se tornou marca registrada do grupo. Só que dessa vez com um acidez acentuada.

O refrão da música (“Mãe, não há nazistas aqui. Não assista TV”) faz alusão a um depoimento de um soldado russo capturado que, em uma conversa telefônica com a mãe, disse isso num ato de desespero. Mas a narrativa caótica proposta por elas não se limita a essa frase. As meninas desconstroem todo o conceito de guerra como o conhecemos e, em alguns momentos, chegam a ironizar certas práticas oficiais e as intenções escusas por trás delas. 

E como se não bastasse todo o horror e o sarcasmo embutido naquelas palavras, ao fim do vídeo - que não demora muito, creio, será provavelmente retirado do you tube - uma das integrantes, encapuzada, mija num quadro de Putin em pleno show, para uma plateia de fãs ensandecidos. Sim, a narrativa chega a tal extremo. Mas como disse em parágrafo anterior: elas são provocadoras (por natureza) e isso precisa fazer parte do contexto também. 

Como resultado final (seja musical ou ideológico) Mama, don’t watch tv é o clipe-manifesto de 2022. E que curioso que tenha vindo à toa quase no final do ano! Certamente é intencional da parte delas, que querem que fiquemos com essa última lembrança de um ano marcado por decisões macabras, mas buscando uma virada de página urgente. E que venham elas logo, por favor. 

Afinal de contas, o mundo não aguenta mais figuras como Putin e outros extremistas no poder que veem a sociedade e o mundo apenas pela ótica da guerra e do terror. É preciso dar um basta nisso e a banda entende que só endurecendo o discurso teremos uma chance. Resta saber o que 2023 nos trará de novo. 


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

O plano definitivo para combater o crime


2022 chegando ao fim e eu quase me esqueço de falar sobre Robocop - o policial do futuro, de Paul Verhoeven - que completa 35 anos de existência esse ano - e da grande revolução que ele provocou na minha vida. 

É preciso, porém, dizer antes: na época em que as videolocadoras eram o suprassumo em termos de ficar antenado com o que acontecia na sétima arte, o meu gênero preferido nas prateleiras era o policial. Eu não podia ver dando sopa um exemplar de Dirty Harry ou Desejo de matar e corria imediatamente para casa para assistir. E se ainda por cima fosse um longa noir, como o antológico Relíquia macabra, de John Huston (inspirado no romance de Dashiell Hammett), aí é que eu enlouquecia de vez.

Imagina então se deparar, aos 11 anos, com um misto de narrativa policial com ficção científica e robótica? Lógico que eu nem li a sinopse. E os dizeres na capa do VHS eram bastante sugestivos: "parte homem, parte máquina, todo policial". Resultado: revi o filme, na época, umas três vezes, fora as inúmeras reexibições na famigerada Sessão da tarde da Rede Globo.

Na trama, acompanhamos o policial novato Alex Murphy (Peter Weller) acompanhado de sua parceira, Annie Lewis (Nancy Allen) em sua primeira missão investigativa, que acaba mal. Alex é estraçalhado pela gangue liderada por Clarence Boddicker (Kurtwood Smith) e vai à óbito. Entretanto, a OCP - empresa privada que controla a polícia numa Detroit governada pelo caos e pela violência - tem, na figura de um de seus executivos, Bob Morton (Miguel Ferrer), que almeja a direção do orgão, outros planos.

Cansado de colocar as vidas de milhares de policiais em risco todos os dias, ele decide criar um agente meio homem, meio máquina, que combata o crime. E para isso ele precisará do cérebro de um policial morto em combate (no caso, Alex). Embora seu projeto seja visto com ressalvas por muitos executivos da organização, ele mesmo assim consegue pô-lo em prática.

O problema: as memórias pessoais do agente Murphy, o passado, a família, começam a vir à tona e interferem em todo o processo. Mais do que isso: Murphy deseja se vingar daqueles que destruíram a sua vida, transformando-se numa espécie de vingador cibernético. 

Cheio de sátiras ao mundo real, campanhas publicitárias criadas para explicitar o quanto é difícil viver naquela cidade e com um hype e um estilo que, sinceramente, não cabem nessa crítica de tão elevados que são, Robocop é desses fenômenos de audiência que hollywood, no passado, produzia com bem mais frequência (e talento) do que no cinema atual.

O "robô" que é vendido para a população de Detroit como a solução definitiva contra a violência urbana percebe que, além de ter uma vida toda controlada pelo sistema (entre outras deliberações impostas pela hierarquia de comando ele nunca deve se voltar contra um executivo da OCP, seja em que circunstância ele se encontre), há situações nas ruas - o verdadeiro campo de batalha - muito mais complexas do que apenas seguir o livro de regras imposto a ele. 

E é nesse momento que ele precisará se livrar de todo esse aparato, que nada mais é do que um limitador de suas funções, para conseguir realmente realizar o seu trabalho - o clássico "proteger e servir".

Primeira produção hollywoodiana do diretor Paul Verhoeven, que já mostrara ser bom diretor com os longas Louca paixão e Conquista sangrenta (ambas parcerias com o ator Rutger Hauer), Robocop não só fez um retumbante sucesso nos cinemas como também gerou duas continuações (nenhuma delas, contudo, teve sua participação no projeto), uma série de tv de pouca repercussão e um remake desnecessário dirigido pelo cineasta brazuca José Padilha, o mesmo dos arrebatadores Tropa de Elite I e II. 

Porém, seu maior legado foi certamente ter popularizado de vez a figura do androide nos cinemas. Peter Weller e Nancy Allen podem até não ter dado uma interessante continuidade às suas carreiras (e olha que eles mereciam, hein!), mas ainda assim vejo o longa como um grande catalisador de um tipo de cinema que, até então, hollywood tinha medo de investir. Precisaram trazer um diretor da Holanda, então meio desconhecido, e arriscar. 

E no caso dele, Verhoeven, deu mais certo do que a própria franquia que construíram. Procurem no IMDb a carreira do diretor e me corrijam se eu estiver enganado. 

O que mais faltou dizer? Que se você ainda não assistiu esse clássico da ficção-científica oitentista, você sempre entenderá o pioneirismo de O exterminador do futuro, de James Cameron (1984) de forma isolada. E bons cinéfilos que se prezem não se bastam com isso. Não mesmo. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

O melhor filme da história?


Listas são problemáticas. Digo mais: elas são a ruína quando o assunto é o debate sobre a sétima arte. Por quê? Porque elas não definem - nem de longe! - o que é o fazer cinematográfico. No máximo explicam o gosto particular de um indivíduo, o que ele considera como cinema. E como todo espectador que se preze é fruto de uma época, acho extremamente natural que ele não considere certos clássicos do cinema como os "seus clássicos".

E é preciso salientar aqui: acho muito difícil que a atual geração que frequenta os cinemas hoje em dia - uma geração baseada no que produtoras como a Disney e Netflix, só para ficar em duas das maiores (ou mais visíveis) - venha a considerar gigantes da sétima arte como Federico Fellini, Ingmar Bergman, John Ford, Akira Kurosawa, Roberto Rossellini e tantas outras feras em suas listas pessoais. Eles, a tal nova geração, buscam uma outra relação com o cinema, mais voltada para a bilheteria, a perpetuação das mesmas ideias (na forma de remakes, spin-offs, sequels, etc), a grandiosidade dos efeitos especiais, os orçamentos milionários...

E qualquer outro debate, em tempos de Rotten Tomates e Metacritic influenciando quem vive à sombra dos mesmos temas, torna-se menor ou desnecessário.

Dito isto, a nova lista dos melhores filmes da história do cinema produzida pela revista Sight and Sound - publicação que sempre polemiza e incomoda com suas escolhas a cada nova década - ganha um novo contorno de discórdia. Mas cabe aqui um aparte importante: fosse quem fosse o número 1 da referida lista o debate seria o mesmo (e preconceituoso), que dirá a insatisfação de determinados grupos cinéfilos que vivem de resmungar e falar mal de tudo. 

O número 1 do famoso top 100 da revista nesse ano de 2022 - após, nos últimos anos, testemunharmos o legado de Cidadão Kane, de Orson Welles e a liderança na última edição de Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock - é Jeanne Dielman, de Chantal Akerman (1975). E bastou que um filme dirigido por uma mulher encabeçasse a lista para que os revoltados de plantão rugissem, com as mesmas diversas - e despudoradas - reações. 


"É a mania de enaltecer esse feminismo de butique vigente hoje em dia";

"Maldito cinema experimental! Está acabando com a sétima arte";

"Essa gente maluca de revista só quer mesmo é aparecer, não entende nada de cinema";

"O cinema morreu de uma vez por todas!"

E etc etc etc... e outros milhões de desnecessários etcs.


Na prática, entretanto, o que temos é - pelo menos, para mim - uma grande provocação por trás dessa escolha.

Jeanne Dielman é um longa-metragem de 3 horas e 20 minutos (tudo que os imediatistas mais detestam!) que se debruça sobre a história de um dona de casa, viúva, que vive com o filho adolescente, e paga suas contas mensais levando homens para o seu apartamento, onde exerce a profissão de garota de programa. É... Já vejo os conservadores babacas de sempre gritando: "enalteceram uma puta! era só o que faltava!".

Mais do que isso, o filme de Chantal Akerman - que é uma sublime artista e eu recomendo aos leitores deste texto que procurem por sua filmografia - é um consistente ensaio sobre a rotina sufocante do dia-a-dia. E é nesse exato momento que reside a grande bronca dos detratores da lista.

Como fazer com que um grupo gigantesco de alienados cinéfilos, que resumem o cinema à IMAX, CGI, 3D, cenas de ação intermináveis, o culto aos blockbusters que não passam de caça-níqueis, heróis musculosos e personagens canastrões que emulam um estilo de vida vazio, entendam que a sétima arte é mais do que isso? Não foi à toa que citei num parágrafo anterior a palavra provocação. 

A decisão da Sight and Sound ao colocar Jeanne Dielman no topo da lista provoca os amantes do cinema - sejam lá quem eles forem - a sair da sua zona de conforto, da sua bolha existencial baseada em maniqueísmos fajutos e discursos vagos. E eu, claro, gosto muito dessa tentativa heroica por parte da publicação. Redescobrir-se como espectador é, para mim, uma grande missão. E assim deveria ser para os outros (embora muitos prefiram idolatrar o comodismo).

Ao fim dessa rápida explanação (que se promete também polêmica quando eu postá-la em minhas redes sociais, repletas de fãs enjoados que adoram uma reclamação e um mimimi), digo: continuo detestando a ideia de listas dos melhores do que quer que seja. Elas limitam o debate e isso é sempre muito ruim. Contudo, é preciso elogiar esse caso específico, pois os cinéfilos e adoradores da sétima arte precisam urgentemente sair de suas trincheiras culturais. Do contrário, o cinema não evoluirá nunca. Pior: morrerá no espaço-tempo. 

E o que eu menos desejo quando penso em sétima arte é a permanência do banal, do óbvio, travestido de espetáculo barato. Tudo, menos isso!  


terça-feira, 29 de novembro de 2022

O abismo que nunca chega


Certos livros perturbam (às vezes até demais). Já outros, atendem de cara nossas mais loucas expectativas. Entretanto, há um terceiro tipo que me agrada ainda mais: aqueles que unem essas duas vertentes, ou seja, atendem minhas expectativas justamente porque perturbam. São tão realistas em suas intenções que me fazem repensar e/ou desconstruir minhas próprias ideias ou o próprio mundo que me rodeia. 

Favelost, do escritor, músico, agitador cultural e poeta Fausto Fawcett, que eu enfim consegui ler depois de perseguí-lo em vários sebos sem sucesso por quase dois anos, faz parte - com folga - desta terceira categoria. E não há momento melhor para lê-lo do que no Brasil de hoje, cheio de fanáticos e ignorantes tolhendo a liberdade alheia e distorcendo qualquer tipo de debate ou discussão. 

O livro de Fausto, outrora vocalista da saudosa banda Os robôs efêmeros que tanta saudade deixou lá pelos idos de 1980 tocando "Kátia Flávia - Godiva de Irajá", está anos-luz do que possa ser classificado como um romance tradicional. Na verdade, cabe melhor na ideia de uma grande crônica do absurdo, que é o que virou o país e o mundo nos últimos anos. 

Acompanhamos habitantes mezzo perturbados mezzo irônicos como Jupiter Allighieri e a Eminência Paula nos introduzindo no convívio com essa sociedade louca, por demais catastrófica, imediatista e que não abre mão do menor dos privilégios, pois somente assim eles se considerarão "sobreviventes da nova era". 

Favelost é cheio de ecos à grandes obras literárias (o que não significa que elas tenham sido as referências do autor para construir seu trabalho) como O uivo, de Allen Ginsberg e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Bebe na mesma fonte de águas turvas e nada insípidas, muito menos incolores ou inodoras. E mesmo assim destila seu veneno e sua acidez muito bem construída desde o primeiro parágrafo. 

Fawcett costuma dizer em suas raras entrevistas que sua literatura nada tem a ver com o gênero ficção-científica, pois ele se limita a retratar a realidade. No entanto, é visível o flerte com essa linguagem. Eu poderia (até com certa folga) situar sua narrativa no ano de 3105, por exemplo. Quem sabe até colocá-lo lado a lado com Deckard, protagonista do clássico sci-fi Blade Runner - o caçador de androides. Mas, infelizmente, o que ele narra é atualíssimo, vil, por vezes grotesco de tão desumano, e mesmo assim por demais necessário para que consigamos entender que mundo é esse no qual estamos atolados até o pescoço. 

A frase que pontua toda a angústia do cidadão que escreve sobre o absurdo cotidiano ao qual sobrevivemos é "o Brasil é o abismo que nunca chega". E nisso, ele, Fawcett, está corretíssimo. 

Para aqueles mais acostumados a love stories açucaradas e livros de auto-ajuda, Favelost será leitura árdua e temo até em dizer: muitos vão chamar - obra e escritor - de condenados (expressão que anda em voga na boca dos falsos moralistas). Contudo, se você como eu ainda admira quem tem culhões e sabe colocar suas ideias no papel, não deixe de ler. 

Da ideologia da falsa felicidade construída à base de consumo banal e desenfreado à amores eletrônicos e fúteis que não passam de um dia, quiçá uma semana, o "romance" de Fawcett nos entrega uma reles molécula da realidade líquida e disforme que Zygmunt Bauman tão bem esmiuçou em seus formidáveis livros. E não satisfeito vai mais além e debocha. De tudo e de todos. 

Melhor parar por aqui, pois não quero estragar todo o elán do livro que promete muitas tiradas e reflexões interessantíssimas, tanto sobre os seres humanos quanto as corporações desse século XXI cada dia mais Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Certo? Então... Agora é com vocês. Tomem coragem, pelo menos uma vez na vida, e entrem nesse inevitável campo de batalha. Até porque o mundo não vai deixar você fugir desse jeito. Não mesmo. 


terça-feira, 22 de novembro de 2022

O tremendão


Antigamente quando eu me excedia

ou fazia alguma coisa errada

naturalmente minha mãe dizia

"Ele é uma criança, não entende nada"

por dentro eu ria satisfeito e mudo

Eu era um homem e entendia tudo...


É, Erasmo, não foi só você não, meu caro! Eu passei por isso também e foram várias vezes (até porque minha mãe, que Deus a tenha lá em cima em bom lugar, jogava duro a maior parte do tempo).

A canção "Sou uma criança, não entendo nada", que integra o box Mesmo que seja eu com os discos do cantor Erasmo Carlos gravados nas décadas de 1970 e 1980, espelhou de forma nítida a minha infância e puberdade, bem como acentuou a minha relação de admiração por um cantor e compositor que, injustamente, sempre foi visto - pela crítica e por quem nada entende de música - como a sombra do rei Roberto Carlos. Em uma palavra: ignorância. 

E eis que hoje, 22 de novembro, dia do músico (que ironia!), ligo o celular e me deparo com a notícia de que Erasmo, o eterno tremendão, nos deixou aos 81 anos de pura sabedoria, após ter sido internado de novo. Logo ele, que no dia de finados, ao ser liberado pelo hospital, fez piada, dizendo: "não me quiseram". A MPB, assim como chorou recentemente com Gal Costa, verte lágrimas profundas novamente, pois perdeu um dos seus gênios mais incompreendidos. 

O menino que nasceu em 1941 em plena Tijuca efervescente de rebeldia, que virou do avesso a Rua do Matoso junto com Tim Maia e Jorge Ben em suas múltiplas travessas de roqueiro em formação, que fundou tanto The Sputniks (1957) como The Snakes (1958), que trabalhou ainda novo na Rádio Nacional com Carlinhos Imperial e viu na música o único caminho possível para se chegar em algum lugar, aprontou tudo e tirou todas de letra. 

Com Roberto Carlos, Wanderléa e companhia ilimitada agitou as jovens tardes de domingo e apresentou ao mundo a Jovem Guarda (que os puristas, é claro, nada entenderam e ainda debocharam). Na verdade, a crítica nunca o entendeu de fato e quis rotulá-lo. Impossível. Ele sempre foi mais irrequieto do que ela. 

Os sucessos, pergunte a qualquer fã, eles conhecem de cor: "É preciso saber viver", "É proibido fumar", "As curvas da estrada de Santos", "Emoções", "Detalhes", "Jesus Cristo", "Além do horizonte", "Se você pensa", "Nossa senhora", etc etc etc... Contudo, eu gosto de exaltar o fato de que certas canções sempre tiveram mais a cara dele do que da dupla. Falo de músicas como "Todos estão surdos", "Sentado à beira do caminho", "Minha fama de mau" e o clássico eterno "Festa de arromba". Isso, sem contar, seus hits solo como o inoxidável "Pega na mentira", "Mulher (sexo frágil)" e "Mais um na multidão" (em parceria com Marisa Monte).

São mais de 600 composições que não saem da boca do povo e por lá permanecerão pela eternidade. Agora mesmo, enquanto escrevo este arremedo de artigo-homenagem, uma vizinha aqui do lado ouve "cavalgada". E, provavelmente, chora. É, Erasmo...

Entre os que colecionam e amam seus álbuns dois são sempre citados com paixão: Carlos, Erasmo (1971) - cheguei a ouvir pessoas falando dele doentiamente - e Erasmo Carlos convida (1980), em que dividiu o microfone com outras estrelas do naipe de Maria Bethânia, Nara Leão, Gilberto Gil, Rita Lee, Caetano Veloso e, claro, o amigo do fé, o irmão camarada, dentre outros. 

O gigante gentil, outro apelido com que foi agraciado pelos amigos, teve marca de roupa e também se aventurou pelo cinema. Assistam, assim que possível, Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa (1968), Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora (1971) - ambos do diretor Roberto Farias - bem como Os Machões (1972), de Reginaldo Faria. Há também uma participação dele, nostálgica, em Paraíso Perdido (2018), de Monique Gardenberg. Erasmo era múltiplo, debochado e arisco. E isso era o que mais os fãs gostavam nele! 

São poucos os artistas que passaram por inúmeros desafios e sobreviveram, deram a volta por cima. Erasmo é desses. Foi vaiado no Rock in Rio 1985 (por uma geração que, certamente, não entendeu - e não entende até hoje - o que ele cantou), fez ode à maconha em "De noite na cama" e foi mal compreendido, enfrentou um tumor no fígado, perdeu um filho e a primeira esposa, Narinha, foi desacreditado pelas gravadoras num certo momento, pois não entendiam o seu estilo, a sua marca pessoal, e ainda assim... continuou grande.

Na última entrevista que vi com ele, num videocast, disse sua última frase antológica: "hoje em dia o tosco é enaltecido", referindo-se à pobreza musical dos dias de hoje. Soberbo e sucinto! Como foi em toda a sua vida e carreira. Mestre, onde quer que você esteja neste exato momento, fica em paz, com Deus, e com a certeza de que sua obra é - e sempre será - maiúscula. Se tem algo de que eu me ressinto na vida é de não ter feito parte da sua geração. E muito obrigado, por tudo.  

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Saramago, 100 anos


O escritor e poeta português Gonçalo M. Tavares - autor de Short Movies e Jerusalém - disse em um dos seus textos que "a melhor maneira de respeitar um autor é fazer alguma coisa com o que ele escreveu". E eu sempre tentei fazer exatamente isso com Machado de Assis, nosso maior autor. É muito fácil chamá-lo de gênio, mas sempre o tornamos inacessível para grande parte do público leitor brasileiro (e eu sempre tentei apresentá-lo aos mais jovens da forma mais palatável possível). 

Contudo, é preciso também deixar claro aqui. A mesma frase - ou aforismo - cai como uma luva para explicar o mestre José Samarago, que hoje comemora com toda justiça o seu centenário. E mais: não acredito que conseguimos até hoje dimensionar a grandeza deste homem, único vencedor do Prêmio Nobel de literatura em língua portuguesa (em 1998).

Saramago, o garoto nascido na província do Ribatejo, filho de trabalhadores rurais, que se formou como serralheiro mecânico pois a família não tinha como pagar sua universidade, mesmo depois de publicar em 1947 o seu primeiro livro, Terra do pecado, não fazia ideia da reviravolta que sua vida tomaria anos mais tarde. Inclusive, reza a lenda, que sua trajetória começou a tomar um novo rumo quando foi demitido do jornal onde trabalhava, o Diário de Lisboa, durante a Revolução dos cravos. 

Sua obra literária é carregada de um realismo profundo; repleta de elementos sociais e políticos, bem como uma crítica religiosa e anticlerical ferrenha (o que o levou, muitos vezes, a ser excomungado pela crítica literária). Mestre na arte da paródia - fruto da intertextualidade que seus livros mantêm com autores clássicos como Camões, Fernando Pessoa, Antônio Vieira e Almeida Garrett -, também dialogava com fragmentos do chamado realismo mágico, tornando seu trabalho uma alegoria fascinante.

Outra marca forte em seu trabalho era a maneira bastante particular com que tratava a linguagem em seus textos. Nada de aspas, travessões, dois pontos, ponto e vírgula... Apenas vírgulas pontuais. E um detalhe: sempre lutou junto às editoras para que seus livros viessem escritos no português de Portugal e não na variante brasileira. Sim, corajoso o moço! E bem fez ele, pois lutou até o fim por sua língua e nação. 

Dentre os livros que publicou nenhum obteve mais atenção da mídia do que o polêmico O evangelho segundo Jesus Cristo (que chegou a ganhar uma montagem teatral aqui no Brasil). Nele, mostrou um Jesus mais humano, menos divino, repleto de defeitos morais e apaixonado por Maria Madalena, o que levou os religiosos mais extremos à fúria. Já O ensaio sobre a cegueira (que ganhou, em 2008, adaptação para o cinema do diretor Fernando Meirelles) é certamente seu exemplar mais famoso, aqui e no mundo. E tem motivos de folga.

Perdi as contas de quantas vezes reli a história da sociedade que acorda completamente cega após a passagem da chamada "treva branca" e vê o mundo entrar num completo caos. Recomendo. Leiam o livro e, se possível, vejam o filme, que também é brilhante.

Outras obras publicadas que, a meu ver, também merecem o tempo do leitor desta humilde homenagem são: Memorial do Convento (um clássico que eu li ainda no ensino médio), A jangada de pedra (que também ganhou versão na tela grande, pelas mãos do diretor George Sluizer em 2002), a magistral série de diários Cadernos de Lanzarote (publicados entre 1994 e 1998, e que expõem o autor a nu), O homem duplicado (também adaptado em 2014, por Denis Villeneuve) e os mais recentes, mas não menos interessantes, As intermitências da morte, A viagem do elefante e Caim.

Entretanto, procurem a fundo e encontrarão também contos, poemas e até uma peça teatral criada por ele. Saramago era eclético e metódico em tudo o que fazia. E não à toa dizia que "a leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar em um lugar" e "eu suponho que tenho todos os direitos do mundo de escrever sobre tudo aquilo que eu entender". Ele tornou seu trabalho parte dessa nova realidade. 

Em 18 de junho de 2010 nos deixou, mas sua Fundação por aí continua, agora administrada pela esposa, Pilar del Rio. E não somente ela, mas um legado impressionante e uma cultura ímpar (o que me faz pensar a todo momento qual a pinimba que o Nobel tem com o nosso idioma. Já tivemos tantos autores formidáveis. É recalque, isso? Só pode!)

Faltou mencionar algo? Claro que sim. Um autor dessa grandeza... Sempre falta. Mas eu que não sou louco de falar demais e acabar entregando o que não devo. Melhor encerrar com o meu mais profundo obrigado. Por tudo.