sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A reconstrutora


Parece estranho falar sobre uma escritora que você nunca leu, e é. Contudo, achei curiosíssima - para dizer o mínimo - a escolha da autora canadense Anne Carson como vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2026. E, por incrível que pareça, seu modelo de trabalho diz muito sobre o mundo no qual estamos vivendo: um mundo cada vez mais interessado em desconstruir (ou, preferencialmente, destruir) tudo. 

Mas quem é Anne Carson? (Detalhe irônico: lembro de já ter ouvido esse nome antes quando frequentava as bibliotecas de bairro atrás de livros para empréstimo, mas sem encontrar propriamente uma de suas obras). Anne é nascida em Toronto, especialista em grego, lecionou nas universidades McGill, Michigan e Princeton e é ainda uma tradutora de mão cheia, tanto que já meteu a mão no trabalho de autores como Safo, Eurípedes e Sófocles.

Entretanto, o maior mérito de sua carreira - seja como acadêmica, seja como ficcionista - é o estilo empregado. Guardem esta palavra: estilo.  

E mais outra (que quase eu me esqueço de postar aqui): experimentalismo. É na mistura de formas e linguagens que reside a maior força de sua narrativa. Poesia, prosa, ensaio, tradução, diários pessoais, tratados filosóficos, tudo converge criando uma literatura desafiadora que rompe com qualquer ideia ou definição de clássico. Esqueçam padrões, esqueçam literatura rebuscada, pomposa, elitista. Anne gosta de causar, de confundir, de levar seu leitor para outros parâmetros, digamos, bem mais ousados. 

Entre seus trabalhos mais conhecidos (e há nove deles publicados no Brasil; procurem!), encontram-se o "romance em versos" Autobiografia do Vermelho; Eros, o doce-amargo; A beleza do marido (que lhe valeu o T.S. Eliot Prize; aliás, foi a primeira mulher a conquistá-lo) e O método Albertine. 

Informação curiosa sobre Anne: ela convive com o Mal de Parkinson desde agosto de 2024. Resultado: a condição afetou de forma considerável sua caligrafia e, principalmente, sua rotina de escrita. Acham que ela encerrou as atividades e foi cuidar só da própria vida? Nada. Ela decidiu, isso sim, praticar o boxe, por conta de benefícios motores como agilidade, coordenação motora, força muscular e equilíbrio postural. Tudo para continuar escrevendo.

Ao fim do anúncio da Academia Sueca e a revelação de Anne como a autora desse ano, fico com a impressão mais do que clara de que o Nobel premiou em 2026 uma reconstrutora, não somente da forma de narrar, desapegada de fronteiras e normatismos, como também da própria vida. Ela é uma lutadora por natureza, e só por isso já vale a pena dar uma conferida na obra literária dela. Fica aqui a minha sugestão (e repetindo: olhe que eu nem li nada dela ainda). Adorei.  


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