domingo, 27 de setembro de 2026

Ard al-shier


Quase três anos se passaram, os conflitos na Faixa de Gaza pioraram, Israel continua mostrando sua vertente cada dia mais cruel, e eu aqui, pensando sobre o futuro do mundo. Que tristeza! Mas dizer isso somente não basta. Uma mudança se faz mais do que necessária. Ela é vital para que levemos o estado do mundo para outro lugar, livre de déspotas, canalhas, ditadores e facínoras.

Fiquei pensando nisso ao fim da leitura de Gaza, terra da poesia, coletânea de poemas organizada por Muhammad Taysir que reúne 17 jovens talentos nascidos na Palestina e preocupados, não somente com suas próprias vidas, mas com o que vem a seguir nesse século XXI cada vez mais destruído pela ganância e o esnobismo. Vemos Gaza sendo retratada aqui como um lugar onde "não se pode confiar no que se vê a maior parte do tempo", como bem diz Amal Abuqamar. Há todo tipo de denúncia na obra, desde interrogações as mais incômodas, perguntas sem resposta num fluxo absurdo e constante, e a certeza de que essas pessoas estão diante do legado da derrota.

Adham Alaqqad, outro poeta desta antologia, deseja que seu país se torne "um lugar onde o povo espera a chegada do novo mundo e, com ele, uma vida melhor". Porém, esse parece um sonho tão distante, que a população já não vê mais sentido em sonhá-lo. Já Fatima Ahmad, questiona: "Que valor tem a palavra... se tudo aqui está debaixo dos sapatos do Algoz?", se referindo a Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. É possível sentir a dor escapando de dentro desses relatos, ora fúnebres, ora confissões de um fim que parece cocriado pelo caos. No poema "O menino de maio", é dito que "Todo olho palestino é uma boca de fuzil (...) toda dor é uma guilhotina".

Gaza é uma terra onde "Você não me vê - vê só o que eu quero", diz Rawan Hussain. Ou seja, um país de cegos fabricados e obedientes, onde quem se levanta merece o seu extermínio. E tem gente aqui no Brasil, escondido em sua zona de conforto televisiva, chamando isso de "mera crise humanitária". "Não posso dizer que sou infeliz ou que sou feliz (...) deixei de tentar entender o que sinto", confessa amargurado Muhammad Chaqfa). A perda de identidade é uma forma de dominação cultural nessa região onde negligenciar o próximo é um modus operandi.

Já Ahmad Assuq quer ser mais esperançoso, dentro do possível, e diz: "Fazendo planos para depois que a guerra acabar". Resta saber qual será o fim de tudo isso, se haverá de fato um final (a questão da Palestina já corrói o mundo há quase sete décadas, num misto de ódio e degeneração). Ilina Ahmad, ao contrário, é mais seca, negativa: "O que nos resta dizer exceto que a salvação é uma mentira?". E Duha Alkahlut complementa sua desesperança, dizendo: "A guerra termina e começa outra (...) Não chega ao fim, porque não sai de nós".

Ao fim do livro, o melhor conceito que resume a obra - que é dilacerante, mas também de uma beleza profunda - é que "A guerra é o quê? É o que tenta ser a eternidade e o seu êxtase". Em suma: por conviverem em meio a conflitos, execuções e explosões, perderam a noção da realidade, não conhecem uma rotina diferente disso. Não conhecem os dias pacíficos, a calma, a esperança, pois isso lhes foi tirado desde cedo. "Tudo está morto e vivo, tudo ausente e presente, todas as coisas brincam de esconde-esconde comigo", abre o jogo Wissam Attavil.

Leiam! Se permitam conhecer esse tudo-ou-nada em formato literário. Das experiências de leitura mais fortes e inebriantes que eu tive em 2026. P.S: o título desse post é a expressão "terra da poesia" em árabe. Achei que cairia bem junto ao tema proposto.


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