Sim, poderia ser o título de um livro de não-ficção ou romance que eu estou escrevendo, mas... Não, não é sobre isso esse breve post. E sim sobre o que o mundo (e, principalmente, a indústria cultural) estão se tornando, numa velocidade cada dia mais vertiginosa. E também - é bom que se alerte - perigosa.
Vi nos últimos dias uma série de entrevistas e depoimentos de pessoas ligadas ao mercado cultural (sejam atores, produtores, coreógrafos, dramaturgos, etc) comentando sobre a grande mesmice que virou o setor. Mais do que isso: o quanto esse caminho é, não só preocupante, mas catalisador de uma sociedade cada vez mais monótona, enfadonha, repetitiva. Viramos uma civilização de idiotas que replicam comportamentos e posturas engessadas.
Talvez o setor cultural onde melhor vejamos isso seja o mercado fonográfico. O mundo, musicalmente falando, foi de Elton John, Marvin Gaye, Tom Jobim, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Chico Buarque, Led Zeppelin, Beatles, Rolling Stones e cia. à uma geração vazia, sem graça, que não canta ao vivo, não escreve - muitas vezes - suas próprias composições, se esconde atrás de ferramentas como o autotune, com letras cada vez mais curtas e tatibitates, compondo um universo deplorável onde a mesmice e a falta de talento convergem para produzir atentados sonoros.
No cinema (leia-se: hollywood, por ser a meca, mas não somente ela, trata-se de um problema mundial) trocaram figuras como John Ford, Billy Wilder, John Huston, a nova hollywood de Coppola, Scorsese, Spielberg, por... filmes sobre bonecos, tênis de celebridades, jogos de tabuleiro, esfregões, videogames e outros artefatos que em nada combinam com a sétima arte. A geração atual agradece. Já nós, cinéfilos raiz, sofremos para encontrar boas películas e histórias bem contadas. Na vertente nacional do cinema, ainda temos que lidar com o fato de que passamos a nos interessar por personagens criminosos sendo glamourizados para soar "relevantes".
O teatro - a nobre arte, não importa o quanto digam o contrário - perdeu espaço para o stand up comedy e seus humoristas grosseiros, prepotentes e canastrões, com suas piadas de baixo calão, e ainda por cima acreditando terem suas rasas opiniões um papel monumental para a sociedade. Nelson Rodrigues? Plínio Marcos? Gil Vicente? Ariano Suassuna? Acho que nunca mais, gente!
O mercado editorial? Não esperem por novos Shakespeares ou Dostoiévskis ou algo que lembre minimamente um Molière, um Machado de Assis, um Graciliano Ramos... Nem pensar. O que vale na balança do mercado são os Young adults, livros para bobalhões trintões ou quarentões posando de adolescentes, a execrável literatura de autoajuda, exemplares de capa dura ou emborrachada a preços extorsivos e uma cultura mais interessada em estilo (que nada mais é do que propaganda fajuta disfarçada de algo válido ou imponente) do que conteúdo.
Faltou alguma coisa? Os quadrinhos que trocaram as bancas de jornal e o submundo underground pelas megastores caríssimas e inacessíveis para o verdadeiro leitor de quadrinhos, a fotografia que agora é produzida por celulares com seus donos abusando de caretas e poses gratuitas (e pensar que antigamente tínhamos Sebastião Salgado, Cartier-Bresson!) e a transformação do formato game ou RPG em peça de arte. Sim, foi isso mesmo que vocês leram. Sinto muito.
Já vi uma mulher ganhar um prêmio na MTV cantando palavrões. Já li uma autora francesa (procurem: Lolita Pille) que acha sua sexualidade o tema mais importante do mundo contemporâneo. Já vi o mundo do futebol mais preocupado com o que é fashion do que fazer gols ou ganhar títulos. E não bastasse tudo isso, vi a beleza humana e a ética sendo relativizadas em nome de um delírio coletivo ou simples vontade de chocar (e acreditar que isso é show business). Sim, são tempos sombrios esses da chamada algoritmolândia.
Renderia um bom livro? Não tenho a menor dúvida disso. Será uma narrativa tenebrosa, se a projetarmos ainda mais para o futuro? Infelizmente. Irei escrevê-la em algum momento da minha vida? Eis a questão. E não digo isso por falta de coragem e, sim, por receio de contribuir ainda mais para a alienação que nos rodeia. E isso eu não desejo nem para o meu maior inimigo.
E algo, definitivamente, precisa mudar. Para ontem, se possível. Do contrário, não sei não...

Sem comentários:
Enviar um comentário