quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Deus Ex Humanitas?


A grande questão que rege o mundo, desde que ele existe, é: Deus existe ou não passa de uma grande ficção inventada pelo desespero humano para nos anestesiar ou simplesmente manter a esperança viva? E o simples fato de eu largar essa provocação assim, desse jeito, já é o suficiente para que muitos reacionários e fanáticos já fiquem putos, e queiram destruir a minha vida (ou, no mínimo, a minha reputação). Mesmo assim, vale - e muito! - a reflexão, principalmente em tempos tão mórbidos e extremistas quanto o atual.

Essa semana eu tive a ajuda de mais um projeto (no caso, uma graphic novel) para complementar essa discussão tão bem vinda, porém cada vez mais difícil em termos de abordagem lúcida, sem cegueiras ou messianismos. Trata-se de Deus em pessoa, do ilustrador e roteirista Marc-Antoine Mathieu.

E olha, gente, que porrada na cara dos conservadores tendenciosos, que acreditam unicamente em sua própria versão sobre a criação do mundo! Deus - sim, ele, o onipresente, o criador do céu e da terra - entra na fila do censo e ao ser abordado, apresenta-se, levando uma multidão de pessoas às gargalhadas. "Será este senhor mais um picareta tentando se passar por homem sagrado?", pensam eles. Contudo, há um outro grupo mais interessado em transformar aquele homem numa ideia bem sucedida de negócio.

E é nesse momento que a história de Mathieu ganha uma amplitude ainda mais cruel, porém necessária para futuros debates sobre o começo do mundo: Deus participará do processo. No caso, um grande julgamento (que, em muitos momentos, lembrará o que vemos a cada dois anos em campanhas políticas as mais diversas). E todos, sem exceção, cometerão o mesmo erro ao abordá-lo. Qual seria? A eterna mania da humanidade em querer definir Deus, torná-lo um conceito explicável para o mundo como um todo.

Há uma parte da HQ que remete aos documentários sensacionalistas que vêm ganhando força no cinema contemporâneo nos últimos anos. Apelam para os mais diversos tipos de especialistas e intelectuais, cujo único interesse é o de diminuir ou relativizar a importância de Deus, segundo, lógico, suas próprias convicções. De outro lado, há uma equipe que assessora o criador nesse julgamento, enquanto cria todo um aparato mercadológico para vendê-lo como rei do marketing.

Deus conversa com um psicanalista, desnuda um dos juízes que o acusam de charlatão expondo uma lembrança da infância dele, é indagado por uma inteligência artificial, é questionado por segmentos os mais diversos, e mesmo assim não perde seus seguidores fanáticos e cativos (e acreditem: é preciso olhar estes últimos com certo medo, pois o futuro - a projetarmos o que vem acontecendo no mundo nos últimos anos - promete grandes revoltas e uma mudança de status tenebrosa).

Em outras palavras: há quem queira ser Deus. E há quem queira desmenti-lo ou transformá-lo num reles show business, com direito a parque de diversões com o nome dele e tudo. No fim das contas, fica a dúvida: Deus ex humanitas? (ou, em termos mais leigos: Deus veio da humanidade ou possui uma natureza humana?). Confesso aos leitores deste blog que terminei a leitura num misto de apreensão - quase com os cabelos em pé - e ainda mais curioso com o tema proposto. Pretendo, inclusive, fuçar na obra de Marc-Antonie, para saber se ele enveredou ainda mais por esse território nebuloso, porém fantástico.

No mais, fica a dica de leitura para quem está sempre a procura de bons trabalhos na nona arte, e que fuja do segmento super-heróis (pois, como já disse anteriormente, neste mesmo blog: o mundo das histórias em quadrinhos não se resume exclusivamente à Marvel e a DC, embora muito nerdola chato pense o contrário). Procurem! É das melhores reflexões sobre a religiosidade e o estado do mundo que eu li nos últimos tempos.


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