Se você acha que está cada dia mais difícil ser cidadão do seu próprio país (vide o que vem acontecendo ao redor do mundo nos últimos anos, com invasões e divergências políticas e religiosas), imagine então se você é estrangeiro. Pior que isso: imagine que você nasceu nesse país e ainda assim o restante da sociedade o(a) enxerga como estrangeiro. Esse é exatamente o dilema de Hiraki, protagonista da HQ Bem-vinda de volta, de Paola Yuu Tabata, que eu li nesses últimos dias.
Hiraki é neta de japoneses, mas nasceu no Brasil. E mesmo assim, não está isenta de conviver com a hipocrisia e o preconceito de um país que vem se tornando cada dia mais antipático e agressivo pelos motivos mais frívolos, ainda por cima com quem eles não consideram dignos de viver nessa terra.
A graphic novel nasceu como consequência de um TCC acadêmico escrito por Paola. E entre seus inúmeros temas, vemos questões como pertencimento à pátria, divergências ideológicas, sobrevivência a um mundo cada dia mais polarizado (embora muitos imbecis continuem acreditando que tal conceito sequer exista!), além de relacionamentos amorosos e o dia-a-dia caótico vivendo numa metrópole.
O álbum é quase todo preto-e-branco, excluindo-se Hiraki que é desenhada como amarela, fazendo alusão à sua etnia. Gostei bastante do formato de caderno horizontal, lembrando os cadernos que eu utilizava na época do primeiro grau, sempre um para cada disciplina (português, matemática, ciências físicas e biológicas, etc).
Embora a saga de Hiraki se trate de um grande tour de force, pelo fato dela buscar a qualquer custo, já na idade adulta, o seu lugar num mundo cada vez mais competitivo, essa narrativa não é apresentada para os leitores de forma amarga, derrotista. Pelo contrário. É possível se emocionar e se divertir a cada quadrinho com uma história extremamente inspiradora. Por sinal, nos últimos anos, tenho me deparado com muita coisa nessa linha - meio confessional, meio autobiográfica - no segmento da nona arte.
E principalmente: sobre pessoas e figuras públicas que não se encaixam no sistema, não endossam o status quo vigente, o que é ainda mais interessante. Ou seja: tem um caráter de narrativa não-oficial para o chamado "padrão de mundo" no qual estamos (sobre)vivendo. Não foi à toa a HQ foi indicada ao Troféu HQ Mix no ano passado.
Para quem procura um trabalho quadrinístico fora do óbvio e está cansado de heróis, seres sobrenaturais e sagas míticas, tenho certeza de que vão gostar desse aqui. Minha primeira leitura esse ano no formato e já adianto: o ano promete!

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