terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Chevy "babaca" Chase?


Fiquei lendo nesses últimos dias inúmeros posts e matérias na internet sobre o comediante Chevy Chase, fenômeno do humor principalmente nos anos 80. E imediatamente me dei conta do quanto é triste a decadência de qualquer artista, não importa em que esfera ele atue. O avançar da idade traz não somente limitações corporais (e às vezes até mentais) e cabelos brancos, como também o implacável revisionismo acerca do que aquela pessoa realmente fez ou deixou de fazer.

Chase foi pioneiro da geração que nos legou o extraordinário Saturday Night Live, aquele tipo de programa humorístico do qual se tem a legítima sensação de que apresentou "praticamente todo mundo" que teve alguma relevância na história da comédia norte-americana. Minha melhor lembrança dele atuando, entretanto, sempre será como Clark Griswold, o alucinado pai de família que fará de tudo para levar sua prole ao parque temático Walley World em Férias frustradas (1983). Além disso, ele também fez sucesso com a sitcom Community (2009), que teve 6 temporadas.

Confesso aqui que gostava mais dele em sua versão comedida. Seus longas que mais reassisti na vida, seja em VHS, DVD ou TV a cabo, foram Benji, o cachorro divino (no qual ele dá voz ao clássico cachorro dos anos 1980) e Memórias de um homem invisível (1992) ao lado da também icônica Daryl Hannah, a sereia que se apaixonou por Tom Hanks. E até hoje, sempre que eu me deparo com Os três amigos (1986), no qual ele interpreta - ao lado de Steve Martin e Martin Short - três mariachis, dando sopa na programação eu dou uma nova chance ao filme.

Contudo, sua imagem foi se deteriorando por conta do período de abuso de drogas e temperamento difícil nos sets de filmagem e colegas de trabalho, bem como diretores e produtores, passaram a ter um outro olhar sobre o artista. Um olhar, é bom que se diga, nada agradável. Resultado: ele virou persona non grata em hollywood e quase ninguém quer trabalhar com ele hoje em dia.

No recente documentário I'm Chevy Chase and You're not, dirigido por Marina Zenovich, fica bem claro esse mal-estar em torno de Chevy. Tanto que a palavra asshole (babaca, em inglês) é bastante utilizada por muitos que depuseram no longa. Entretanto, é preciso entender que Chevy Chase fez parte de um momento do humor anterior ao que conhecemos hoje em dia como politicamente correto. Ele era mestre em piadas absurdas e controversas, muitas delas, já naquela época, consideradas não tão engraçadas assim. E esse não é somente um retrato do ator, mas de toda uma geração de comediantes.

Se ele seria cancelado nos dias de hoje, em que se ofendem com o mínimo? Não tenho a menor dúvida. Vivemos num mundo onde piadas estão sendo reinterpretadas para agradar a certos gostos e morais duvidosas. Imagine Mr. Chase num cenário desses! Lógico que iria dar ruim, muito ruim. É o que acontece quando o artista se posiciona contra o sistema, a demanda, o senso comum.

Chego ao fim desse post querendo que ele seja mais uma provocação sobre o atual cenário da cultura pop, do que simplesmente buscar respostas ou soluções (elas simplesmente não existem nesse século XXI contraditório e cada dia mais disforme e brutal, jogando todos contra todos). É preciso, no final das contas, que os novos cinéfilos - ou o que se chama de cinefilia hoje em dia - entendam que estamos criando um campo de batalha inútil e sem retorno, se continuarmos por esse caminho. E não separar artista e obra é apenas um pontapé do que, no futuro, pode vir a se tornar o fim do interesse por cultura, arte, entretenimento e afins. E tudo isso só porque fulano, beltrano ou sicrano não é modelo de conduta ou conservador? Fala sério!

É justamente isso, meus caros leitores, que os ignorantes, os extremistas e os cagadores de regras querem. O tempo todo. Pensem nisso!

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