sábado, 24 de janeiro de 2026

Autran Dourado, 100 anos


Falam muito de Machado de Assis no Brasil quando o assunto é literatura. Falam tanto que até esquecem - na maior parte do tempo - de lembrar de um sem número de autores nacionais fabulosos que também merecem o tempo (e a dedicação) dos leitores, sempre à procura de boas narrativas. E isso é uma pena! Sempre detestei essa mentalidade nacional do "só se pode evidenciar um como gigante das letras". É um erro grotesco.

Somos um país de dimensões continentais e sotaques e estilos de escrita completamente diferentes e isso deve ser conhecido por qualquer leitor que se preze. E toda vez que um autor - que não Machado - é celebrado em algum prêmio literário ou por seu centenário (em vida ou póstumo), eu volto a essa baila e reafirmo sua necessidade de ser lembrado. Dessa vez, é Autran Dourado, que chegou ao seu centenário agora em 2026.

Linguagem simples, estrutura complexa (ou, para os entendidos e intelectuais da crítica especializada, a "carpintaria literária").

Construção meticulosa e racional de narrativas as mais diversas que configuram uma espécie de alma mineira. Solidão, loucura, desejo, condição humana... tudo mesclado de forma realista e lógica, mas sem esquecer de elementos míticos, barrocos, por vezes até sobrenaturais. Se García Márquez teve sua Macondo, Autran se debruçou sobre o interior de Minas Gerais, onde expôs seus conflitos e decadência.

A incomunicabilidade é também um tema presente em suas obras. Que o diga seus personagens atormentados, praticamente surrealistas, tentando falar, sem interlocutor que os entenda... Sim, deve ter sido difícil produzir tal obra, mas acreditem: é produto de um gênio. Assim como Raduan Nassar, Erico  Veríssimo e Guimarães Rosa, outros gênios incontestes.

Há dois livros de sua lavra que nunca saem de minha cabeça e olha que eu já os li faz tempo (lá pelos anos 1990) e ainda não me sobrou tempo livre para revisitá-los: Ópera dos mortos e Os sinos da agonia. Seus contos também são inebriantes, repletos de desejo e violência, e volta e meia nos mostrando um homem acuado diante do mundo.

Não ter mais nada inédito para ler de Autran é quase um crime. Sempre gosto de dizer que ele e Lúcio Cardoso (do belíssimo A Crônica da casa assassinada) foram duas pisadas de bola da Academia Brasileira de Letras - entre tantas outras ao longo de sua história. Se houve autores magníficos que mereciam tais honrarias, eram eles dois. Enfim...

Dedico este breve e nostálgico post a todo grande leitor brasileiro que, como eu, sabe garimpar o melhor dentro de nossas letras e sente falta de dias um pouco melhores no mercado editorial. E me refiro à novas vozes, mais gigantescas, mais poderosas. Não sei porquê, mas tenho achado nossos autores, nos últimos anos, um tanto quanto incompletos. Falta algo ali, eu sei que falta, só não sei explicar exatamente o quê. É um detalhe.

Na dúvida, perguntem aos críticos literários (eles certamente entendem mais do que eu).


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