quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A língua que falamos (quer dizer: quase)


O título do post é uma provocação, pois quando falamos do povo brasileiro como falante da língua portuguesa - na verdade, de qualquer idioma - a primeira impressão que se tem é de grande ironia (tendo em vista que o próprio povo esnoba a ideia de conhecimento com a mesma facilidade com que arrota status, principalmente os que nem têm). Somos o país das gírias, dos memes, que inventa uma língua fictícia para não precisar falar a própria. Uma pena, eu sei...

Logo, qualquer livro que mostre a formação do nosso idioma e exponha a grande complexidade que é aprendê-lo me interessa - e muito. E nesse sentido Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português, de Caetano Galindo, acerta em cheio. Se eu já era fã do nosso idioma e tudo o que versa sobre o tema, fiquei ainda mais admirador depois da leitura dessa pequena joia. 

Caetano esmiúça as raízes de nossa variante da língua portuguesa, mostrando o quanto ela tem do colonizador, mas principalmente, de referências externas, de imigrantes, de bárbaros (estrangeiros) e, lógico, da África. Ele chega a se utilizar da expressão Pretoguês para nos mostrar o quanto a nossa modalidade de língua portuguesa é mestiça e única, só encontrada aqui.

Mais do que isso: ela, até hoje, não foi completamente entendida ou assimilada por nossos irmãos patrícios ou africanos. O que me fez lembrar de uma antiga colega angolana com quem estudei na faculdade que achava um tanto curioso as escolhas de palavras que fazíamos aqui no Brasil (muitas delas, causando um enorme estranhamento para ela e seus amigos).

O autor se utiliza inclusive de um paralelo com a canção "Língua", do cantor e compositor Caetano Veloso, no intuito de vasculhar os inúmeros sentidos e acepções do nosso idioma, que é múltiplo desde sua origem. 

Já quase no final do livro Galindo nos oferece uma lista de leituras complementares e, dentre elas, vejo O que é preconceito linguístico?, de Marcos Bagno, que marcou minha formação universitária uma década atrás e dialoga de forma frontal com o estudo aqui proposto. Saio, sim, com a sensação de que o título desse texto vem bem a calhar. "Falamos" (desse jeito mesmo, com aspas) o idioma português, pois não procuramos entender o que ele tem de mais rico e complexo.   

Latim em pó deveria ser leitura obrigatória nos colégios. Quem sabe não tivéssemos tanta dificuldade em interpretação de texto como costumamos observar nos resultados do ENEM e dos concursos públicos. Faz-se urgente que o povo brasileiro descubra a sua própria língua, e considero o estudo de Galindo defendido aqui uma boa porta de entrada para quem ainda pretende dar uma chance ao seu próprio idioma. Fica a dica. 

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