Como é bom ver um diretor de cinema que sabe... Escrever. Não, você não leu errado, não! Adoro o lado autor de cineastas famosos. Sempre que posso procuro os livros de memórias escritos por eles, para tentar entender seus processos criativos, suas escolhas, temores, o que deu certo, o que ficou pelo meio do caminho... Contudo, no caso de O último sonho, livro do diretor espanhol Pedro Almodóvar que li nesses últimos dias, a pegada é outra.
E por que? Porque Almodóvar sempre fugiu da ideia de escrever suas próprias memórias ou mesmo uma autobiografia. Acha por demais egóico da parte dele. Acabou por produzir um breve livro de contos. Entretanto, há neles um fio condutor que os remete à sua carreira cinematográfica. É possível estabelecer conexões entre as narrativas curtas aqui apresentadas e muitos de seus longas mais famosos.
O cineasta se mostra um extraordinário ficcionista, de mão cheia mesmo, construindo cenários e personagens com a sua cara e personalidade. Os fãs de sua obra fílmica certamente vão assinar embaixo ao fim da leitura.
Almodóvar relê o clássico (no caso, as histórias de vampiros), expõe de forma maliciosa a ideia do transexualismo (e de um forma bem mais inteligente do que muita gente que se diz engajada na causa por aí), homenageia Jean Cocteau (um artista ao qual ele próprio, na sua faceta diretor, trabalhou recentemente em um de seus últimos curtas), traz de volta sua Patty Diphusa (personagem antológica e ousada criada por ele nos anos 1980 para o jornal El Mundo), produz um In memoriam para a cantora mexicana Chavela Vargas e ainda dá dicas aos leitores sobre que caminho seguir numa possível carreira nessa área.
Morte e Vida, tempo e catarse se fundem - e também se digladiam - em histórias poderosas e muito bem construídas. E embora o autor tenha dito na introdução do livro que isso (no caso, o ato de escrever literariamente) não seja exatamente a sua praia, acho que ele deveria investir mais no terreno ficcional.
Se até o roteiro de cinema, nos últimos anos, aqui no Brasil, ganhou ares de gênero literário consagrado, seja pelas produções de Quentin Tarantino ou do brasileiro mais badalado no momento, Kleber Mendonça Filho, por que Almodóvar não deveria arriscar mais nessa seara do mercado editorial? Fica a dica, Pedro! Você tem o necessário para ter uma carreira nesse segmento também. Só depende de você.
No mais, pois não quero me estender muito e estragar a surpresa de quem ainda não conhece a obra, fica aqui mais uma excelente dica para 2026. E eu não esperava me deparar com tanta coisa boa em tão pouco tempo (detalhe: ainda estamos em janeiro!).


