terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Um Almodóvar além do cinema


Como é bom ver um diretor de cinema que sabe... Escrever. Não, você não leu errado, não! Adoro o lado autor de cineastas famosos. Sempre que posso procuro os livros de memórias escritos por eles, para tentar entender seus processos criativos, suas escolhas, temores, o que deu certo, o que ficou pelo meio do caminho... Contudo, no caso de O último sonho, livro do diretor espanhol Pedro Almodóvar que li nesses últimos dias, a pegada é outra.

E por que? Porque Almodóvar sempre fugiu da ideia de escrever suas próprias memórias ou mesmo uma autobiografia. Acha por demais egóico da parte dele. Acabou por produzir um breve livro de contos. Entretanto, há neles um fio condutor que os remete à sua carreira cinematográfica. É possível estabelecer conexões entre as narrativas curtas aqui apresentadas e muitos de seus longas mais famosos.

O cineasta se mostra um extraordinário ficcionista, de mão cheia mesmo, construindo cenários e personagens com a sua cara e personalidade. Os fãs de sua obra fílmica certamente vão assinar embaixo ao fim da leitura.

Almodóvar relê o clássico (no caso, as histórias de vampiros), expõe de forma maliciosa a ideia do transexualismo (e de um forma bem mais inteligente do que muita gente que se diz engajada na causa por aí), homenageia Jean Cocteau (um artista ao qual ele próprio, na sua faceta diretor, trabalhou recentemente em um de seus últimos curtas), traz de volta sua Patty Diphusa (personagem antológica e ousada criada por ele nos anos 1980 para o jornal El Mundo), produz um In memoriam para a cantora mexicana Chavela Vargas e ainda dá dicas aos leitores sobre que caminho seguir numa possível carreira nessa área.

Morte e Vida, tempo e catarse se fundem - e também se digladiam - em histórias poderosas e muito bem construídas. E embora o autor tenha dito na introdução do livro que isso (no caso, o ato de escrever literariamente) não seja exatamente a sua praia, acho que ele deveria investir mais no terreno ficcional.

Se até o roteiro de cinema, nos últimos anos, aqui no Brasil, ganhou ares de gênero literário consagrado, seja pelas produções de Quentin Tarantino ou do brasileiro mais badalado no momento, Kleber Mendonça Filho, por que Almodóvar não deveria arriscar mais nessa seara do mercado editorial? Fica a dica, Pedro! Você tem o necessário para ter uma carreira nesse segmento também. Só depende de você.

No mais, pois não quero me estender muito e estragar a surpresa de quem ainda não conhece a obra, fica aqui mais uma excelente dica para 2026. E eu não esperava me deparar com tanta coisa boa em tão pouco tempo (detalhe: ainda estamos em janeiro!).

sábado, 10 de janeiro de 2026

Patriota ou estrangeira?


Se você acha que está cada dia mais difícil ser cidadão do seu próprio país (vide o que vem acontecendo ao redor do mundo nos últimos anos, com invasões e divergências políticas e religiosas), imagine então se você é estrangeiro. Pior que isso: imagine que você nasceu nesse país e ainda assim o restante da sociedade o(a) enxerga como estrangeiro. Esse é exatamente o dilema de Hiraki, protagonista da HQ Bem-vinda de volta, de Paola Yuu Tabata, que eu li nesses últimos dias.

Hiraki é neta de japoneses, mas nasceu no Brasil. E mesmo assim, não está isenta de conviver com a hipocrisia e o preconceito de um país que vem se tornando cada dia mais antipático e agressivo pelos motivos mais frívolos, ainda por cima com quem eles não consideram dignos de viver nessa terra.

A graphic novel nasceu como consequência de um TCC acadêmico escrito por Paola. E entre seus inúmeros temas, vemos questões como pertencimento à pátria, divergências ideológicas, sobrevivência a um mundo cada dia mais polarizado (embora muitos imbecis continuem acreditando que tal conceito sequer exista!), além de relacionamentos amorosos e o dia-a-dia caótico vivendo numa metrópole.

O álbum é quase todo preto-e-branco, excluindo-se Hiraki que é desenhada como amarela, fazendo alusão à sua etnia. Gostei bastante do formato de caderno horizontal, lembrando os cadernos que eu utilizava na época do primeiro grau, sempre um para cada disciplina (português, matemática, ciências físicas e biológicas, etc).

Embora a saga de Hiraki se trate de um grande tour de force, pelo fato dela buscar a qualquer custo, já na idade adulta, o seu lugar num mundo cada vez mais competitivo, essa narrativa não é apresentada para os leitores de forma amarga, derrotista. Pelo contrário. É possível se emocionar e se divertir a cada quadrinho com uma história extremamente inspiradora. Por sinal, nos últimos anos, tenho me deparado com muita coisa nessa linha - meio confessional, meio autobiográfica - no segmento da nona arte.

E principalmente: sobre pessoas e figuras públicas que não se encaixam no sistema, não endossam o status quo vigente, o que é ainda mais interessante. Ou seja: tem um caráter de narrativa não-oficial para o chamado "padrão de mundo" no qual estamos (sobre)vivendo. Não foi à toa a HQ foi indicada ao Troféu HQ Mix no ano passado.

Para quem procura um trabalho quadrinístico fora do óbvio e está cansado de heróis, seres sobrenaturais e sagas míticas, tenho certeza de que vão gostar desse aqui. Minha primeira leitura esse ano no formato e já adianto: o ano promete!

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Chevy "babaca" Chase?


Fiquei lendo nesses últimos dias inúmeros posts e matérias na internet sobre o comediante Chevy Chase, fenômeno do humor principalmente nos anos 80. E imediatamente me dei conta do quanto é triste a decadência de qualquer artista, não importa em que esfera ele atue. O avançar da idade traz não somente limitações corporais (e às vezes até mentais) e cabelos brancos, como também o implacável revisionismo acerca do que aquela pessoa realmente fez ou deixou de fazer.

Chase foi pioneiro da geração que nos legou o extraordinário Saturday Night Live, aquele tipo de programa humorístico do qual se tem a legítima sensação de que apresentou "praticamente todo mundo" que teve alguma relevância na história da comédia norte-americana. Minha melhor lembrança dele atuando, entretanto, sempre será como Clark Griswold, o alucinado pai de família que fará de tudo para levar sua prole ao parque temático Walley World em Férias frustradas (1983). Além disso, ele também fez sucesso com a sitcom Community (2009), que teve 6 temporadas.

Confesso aqui que gostava mais dele em sua versão comedida. Seus longas que mais reassisti na vida, seja em VHS, DVD ou TV a cabo, foram Benji, o cachorro divino (no qual ele dá voz ao clássico cachorro dos anos 1980) e Memórias de um homem invisível (1992) ao lado da também icônica Daryl Hannah, a sereia que se apaixonou por Tom Hanks. E até hoje, sempre que eu me deparo com Os três amigos (1986), no qual ele interpreta - ao lado de Steve Martin e Martin Short - três mariachis, dando sopa na programação eu dou uma nova chance ao filme.

Contudo, sua imagem foi se deteriorando por conta do período de abuso de drogas e temperamento difícil nos sets de filmagem e colegas de trabalho, bem como diretores e produtores, passaram a ter um outro olhar sobre o artista. Um olhar, é bom que se diga, nada agradável. Resultado: ele virou persona non grata em hollywood e quase ninguém quer trabalhar com ele hoje em dia.

No recente documentário I'm Chevy Chase and You're not, dirigido por Marina Zenovich, fica bem claro esse mal-estar em torno de Chevy. Tanto que a palavra asshole (babaca, em inglês) é bastante utilizada por muitos que depuseram no longa. Entretanto, é preciso entender que Chevy Chase fez parte de um momento do humor anterior ao que conhecemos hoje em dia como politicamente correto. Ele era mestre em piadas absurdas e controversas, muitas delas, já naquela época, consideradas não tão engraçadas assim. E esse não é somente um retrato do ator, mas de toda uma geração de comediantes.

Se ele seria cancelado nos dias de hoje, em que se ofendem com o mínimo? Não tenho a menor dúvida. Vivemos num mundo onde piadas estão sendo reinterpretadas para agradar a certos gostos e morais duvidosas. Imagine Mr. Chase num cenário desses! Lógico que iria dar ruim, muito ruim. É o que acontece quando o artista se posiciona contra o sistema, a demanda, o senso comum.

Chego ao fim desse post querendo que ele seja mais uma provocação sobre o atual cenário da cultura pop, do que simplesmente buscar respostas ou soluções (elas simplesmente não existem nesse século XXI contraditório e cada dia mais disforme e brutal, jogando todos contra todos). É preciso, no final das contas, que os novos cinéfilos - ou o que se chama de cinefilia hoje em dia - entendam que estamos criando um campo de batalha inútil e sem retorno, se continuarmos por esse caminho. E não separar artista e obra é apenas um pontapé do que, no futuro, pode vir a se tornar o fim do interesse por cultura, arte, entretenimento e afins. E tudo isso só porque fulano, beltrano ou sicrano não é modelo de conduta ou conservador? Fala sério!

É justamente isso, meus caros leitores, que os ignorantes, os extremistas e os cagadores de regras querem. O tempo todo. Pensem nisso!