sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Streets of Minneapolis é a canção dos EUA em 2026?


O mês de janeiro chega ao fim com Bruce Springsteen largando o aço em Donald Trump e companhia. Não é à toa que o cantor e compositor é conhecido como "The Boss" em seu país. Todo meu respeito a ele, cuja carreira acompanho desde os tempos de "Born in the USA" e ele nunca fugiu da raia em momentos como esse.

Os motivos, porém, são mais cruéis agora. A música chama-se "Streets of Minneapolis", canção de protesto denunciando as vítimas da barbárie ocorrida na cidade pelas mãos da terrível ICE, que vem sendo chamada na internet a todo momento de "a Gestapo de Trump". Duas dessas vítimas, Alex Pretti e Renee Good, são citadas literalmente na letra e merecem tal honraria, são símbolos dessa tragédia. 

A canção fala sobre uma batalha cruel, covarde, não simplesmente um conflito bélico ou mais uma guerra como tantas outras. Não, senhor! O que vemos aqui são homens completamente despreparados para lidar com uma situação de confronto abusando de sua autoridade e tirando vidas, como se elas não valessem absolutamente nada (e acreditem: ainda tem gente que defende isso). E tudo com a autorização máxima do presidente da república, um elitista insano brincando de Deus. 

Se em "This is America", do cantor Childish Gambino (aka Donald Glover), já presenciávamos com grande horror a ironia que é viver num país que se vende como uma grande sociedade do espetáculo, enquanto esconde suas práticas escusas e desumanas, o caso se agrava ainda mais aqui por se tratar de uma violência gratuita com aparato oficial. E ai de quem se posicionar contra, pois será deportado ou executado de forma sumária. 

O filme recente de Alex Garland, Guerra Civil (que traz o ator Wagner Moura no elenco), começa a se mostrar cada dia mais real, dessa vez não nas telas, mas nas ruas banhadas de sangue. Bruce fala em pegadas e lágrimas de sangue, mentiras sujas, direitos pisoteados, mas também propõe um levante e convida os cidadãos do país a enfrentar o inimigo de frente. 

Seus versos parecem dizer a todo momento: "desistir não é uma opção, não nesse momento" e parece que o povo começa a ouvir. A resistência se posiciona, os Panteras negras voltaram às ruas, governadores de vários estados já repudiam e desobedecem o atual governo. O que virá a seguir? Aguardemos. E não esqueçam: esse ano tem Copa do Mundo, e os EUA é uma das sedes. Imagine você, turista, viajando para um lugar desses, só para assistir uma partida de futebol. Você irá? 

O que o amanhã promete na terra do Tio Sam? Não sei. Mais não parece que será bonito. Quanto à música... Valeu, Boss! a população precisava de uma sacolejada dessas. E Fora ICE! O quanto antes!


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A língua que falamos (quer dizer: quase)


O título do post é uma provocação, pois quando falamos do povo brasileiro como falante da língua portuguesa - na verdade, de qualquer idioma - a primeira impressão que se tem é de grande ironia (tendo em vista que o próprio povo esnoba a ideia de conhecimento com a mesma facilidade com que arrota status, principalmente os que nem têm). Somos o país das gírias, dos memes, que inventa uma língua fictícia para não precisar falar a própria. Uma pena, eu sei...

Logo, qualquer livro que mostre a formação do nosso idioma e exponha a grande complexidade que é aprendê-lo me interessa - e muito. E nesse sentido Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português, de Caetano Galindo, acerta em cheio. Se eu já era fã do nosso idioma e tudo o que versa sobre o tema, fiquei ainda mais admirador depois da leitura dessa pequena joia. 

Caetano esmiúça as raízes de nossa variante da língua portuguesa, mostrando o quanto ela tem do colonizador, mas principalmente, de referências externas, de imigrantes, de bárbaros (estrangeiros) e, lógico, da África. Ele chega a se utilizar da expressão Pretoguês para nos mostrar o quanto a nossa modalidade de língua portuguesa é mestiça e única, só encontrada aqui.

Mais do que isso: ela, até hoje, não foi completamente entendida ou assimilada por nossos irmãos patrícios ou africanos. O que me fez lembrar de uma antiga colega angolana com quem estudei na faculdade que achava um tanto curioso as escolhas de palavras que fazíamos aqui no Brasil (muitas delas, causando um enorme estranhamento para ela e seus amigos).

O autor se utiliza inclusive de um paralelo com a canção "Língua", do cantor e compositor Caetano Veloso, no intuito de vasculhar os inúmeros sentidos e acepções do nosso idioma, que é múltiplo desde sua origem. 

Já quase no final do livro Galindo nos oferece uma lista de leituras complementares e, dentre elas, vejo O que é preconceito linguístico?, de Marcos Bagno, que marcou minha formação universitária uma década atrás e dialoga de forma frontal com o estudo aqui proposto. Saio, sim, com a sensação de que o título desse texto vem bem a calhar. "Falamos" (desse jeito mesmo, com aspas) o idioma português, pois não procuramos entender o que ele tem de mais rico e complexo.   

Latim em pó deveria ser leitura obrigatória nos colégios. Quem sabe não tivéssemos tanta dificuldade em interpretação de texto como costumamos observar nos resultados do ENEM e dos concursos públicos. Faz-se urgente que o povo brasileiro descubra a sua própria língua, e considero o estudo de Galindo defendido aqui uma boa porta de entrada para quem ainda pretende dar uma chance ao seu próprio idioma. Fica a dica. 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Autran Dourado, 100 anos


Falam muito de Machado de Assis no Brasil quando o assunto é literatura. Falam tanto que até esquecem - na maior parte do tempo - de lembrar de um sem número de autores nacionais fabulosos que também merecem o tempo (e a dedicação) dos leitores, sempre à procura de boas narrativas. E isso é uma pena! Sempre detestei essa mentalidade nacional do "só se pode evidenciar um como gigante das letras". É um erro grotesco.

Somos um país de dimensões continentais e sotaques e estilos de escrita completamente diferentes e isso deve ser conhecido por qualquer leitor que se preze. E toda vez que um autor - que não Machado - é celebrado em algum prêmio literário ou por seu centenário (em vida ou póstumo), eu volto a essa baila e reafirmo sua necessidade de ser lembrado. Dessa vez, é Autran Dourado, que chegou ao seu centenário agora em 2026.

Linguagem simples, estrutura complexa (ou, para os entendidos e intelectuais da crítica especializada, a "carpintaria literária").

Construção meticulosa e racional de narrativas as mais diversas que configuram uma espécie de alma mineira. Solidão, loucura, desejo, condição humana... tudo mesclado de forma realista e lógica, mas sem esquecer de elementos míticos, barrocos, por vezes até sobrenaturais. Se García Márquez teve sua Macondo, Autran se debruçou sobre o interior de Minas Gerais, onde expôs seus conflitos e decadência.

A incomunicabilidade é também um tema presente em suas obras. Que o diga seus personagens atormentados, praticamente surrealistas, tentando falar, sem interlocutor que os entenda... Sim, deve ter sido difícil produzir tal obra, mas acreditem: é produto de um gênio. Assim como Raduan Nassar, Erico  Veríssimo e Guimarães Rosa, outros gênios incontestes.

Há dois livros de sua lavra que nunca saem de minha cabeça e olha que eu já os li faz tempo (lá pelos anos 1990) e ainda não me sobrou tempo livre para revisitá-los: Ópera dos mortos e Os sinos da agonia. Seus contos também são inebriantes, repletos de desejo e violência, e volta e meia nos mostrando um homem acuado diante do mundo.

Não ter mais nada inédito para ler de Autran é quase um crime. Sempre gosto de dizer que ele e Lúcio Cardoso (do belíssimo A Crônica da casa assassinada) foram duas pisadas de bola da Academia Brasileira de Letras - entre tantas outras ao longo de sua história. Se houve autores magníficos que mereciam tais honrarias, eram eles dois. Enfim...

Dedico este breve e nostálgico post a todo grande leitor brasileiro que, como eu, sabe garimpar o melhor dentro de nossas letras e sente falta de dias um pouco melhores no mercado editorial. E me refiro à novas vozes, mais gigantescas, mais poderosas. Não sei porquê, mas tenho achado nossos autores, nos últimos anos, um tanto quanto incompletos. Falta algo ali, eu sei que falta, só não sei explicar exatamente o quê. É um detalhe.

Na dúvida, perguntem aos críticos literários (eles certamente entendem mais do que eu).


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Nostalgia musical plena


A primeira quinzena de janeiro se vai e as homenagens e novidades culturais continuam surgindo mais cedo do que eu imaginava, ainda mais num país onde praticamente tudo só começa em tese depois do carnaval. Descubro que o álbum Invisible touch, da banda Genesis, está comemorando 40 anos de existência em 2026. Amo Genesis com todas as minhas forças e ele teve um papel fundamental na minha adolescência.

Lembrar de Peter Gabriel, Phil Collins e companhia me faz lembrar de uma época que era pura - e plena - nostalgia. E o mais triste: uma época que, infelizmente, não volta mais, graças a uma civilização cada vez mais burra, egoísta e inconveniente (principalmente no que se refere à opinião alheia) que sequer sabe reconhecer o que de melhor surgiu na cultura pop antes deles, imediatistas, virem ao mundo. 

Invisible touch é repleto de momentos memoráveis, únicos, desses que você ouve (e ouve, e ouve novamente) até o antigo vinil quase arranhar depois de tantas repetições nada desnecessárias. É como passear em meio a um mundo mágico, paralelo, quase um shangri-lá - para pegar de empréstimo uma expressão do escritor James Hilton - e se dar conta de que você, ouvinte, está anos-luz do que chamamos hoje de realidade. 

Seja pela faixa título, que chegou a ser - por um bom tempo - o ringtone do meu celular, seja por "In too deep", "Throwing it all away" (meu momento mágico especial do disco) ou "Land of confusion", a banda entrega magia em doses cavalares, algo que o atual cenário da música pop não é capaz de entender, pelo menos na maior parte do tempo. 

Já disse em outras postagens nesse blog uma frase que sempre me acompanha quando escrevo sobre mercado fonográfico: existem músicas e músicas. Existem aquelas que são tão insignificantes do ponto de vista da qualidade, que sobram apenas como fenômeno de vendas e status (e muitas delas atingem seu tão sonhado celebritismo, embora continuem não me dizendo nada). E existem outras que são atemporais, mesmo que definidoras básicas de uma época, de uma forma de pensar. 

Invisible touch, do Genesis, com certeza faz parte desse segundo grupo. E é por demais melancólico ver o estado de saúde no qual o Phil Collins, um de seus membros, se encontra nos últimos anos. Ele era gigante! Ouçam também seus discos solo, suas trilhas sonoras para animações da Disney. Nada disso seria possível não houvesse o Genesis surgido (e virado tudo de ponta a cabeça) antes. 

Faltou dizer algo? Como sempre, faltou mandar os leitores desavisados, não conhecedores do grupo (se é que isso é possível em pleno século XXI) ouvirem essa pequena joia. P.S: procurem no Google a história por trás da canção "The Brazilian". Só a pesquisa já vale a menção a este trabalho aqui nesse breve texto. No mais, Genesis eterno. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Um Almodóvar além do cinema


Como é bom ver um diretor de cinema que sabe... Escrever. Não, você não leu errado, não! Adoro o lado autor de cineastas famosos. Sempre que posso procuro os livros de memórias escritos por eles, para tentar entender seus processos criativos, suas escolhas, temores, o que deu certo, o que ficou pelo meio do caminho... Contudo, no caso de O último sonho, livro do diretor espanhol Pedro Almodóvar que li nesses últimos dias, a pegada é outra.

E por que? Porque Almodóvar sempre fugiu da ideia de escrever suas próprias memórias ou mesmo uma autobiografia. Acha por demais egóico da parte dele. Acabou por produzir um breve livro de contos. Entretanto, há neles um fio condutor que os remete à sua carreira cinematográfica. É possível estabelecer conexões entre as narrativas curtas aqui apresentadas e muitos de seus longas mais famosos.

O cineasta se mostra um extraordinário ficcionista, de mão cheia mesmo, construindo cenários e personagens com a sua cara e personalidade. Os fãs de sua obra fílmica certamente vão assinar embaixo ao fim da leitura.

Almodóvar relê o clássico (no caso, as histórias de vampiros), expõe de forma maliciosa a ideia do transexualismo (e de um forma bem mais inteligente do que muita gente que se diz engajada na causa por aí), homenageia Jean Cocteau (um artista ao qual ele próprio, na sua faceta diretor, trabalhou recentemente em um de seus últimos curtas), traz de volta sua Patty Diphusa (personagem antológica e ousada criada por ele nos anos 1980 para o jornal El Mundo), produz um In memoriam para a cantora mexicana Chavela Vargas e ainda dá dicas aos leitores sobre que caminho seguir numa possível carreira nessa área.

Morte e Vida, tempo e catarse se fundem - e também se digladiam - em histórias poderosas e muito bem construídas. E embora o autor tenha dito na introdução do livro que isso (no caso, o ato de escrever literariamente) não seja exatamente a sua praia, acho que ele deveria investir mais no terreno ficcional.

Se até o roteiro de cinema, nos últimos anos, aqui no Brasil, ganhou ares de gênero literário consagrado, seja pelas produções de Quentin Tarantino ou do brasileiro mais badalado no momento, Kleber Mendonça Filho, por que Almodóvar não deveria arriscar mais nessa seara do mercado editorial? Fica a dica, Pedro! Você tem o necessário para ter uma carreira nesse segmento também. Só depende de você.

No mais, pois não quero me estender muito e estragar a surpresa de quem ainda não conhece a obra, fica aqui mais uma excelente dica para 2026. E eu não esperava me deparar com tanta coisa boa em tão pouco tempo (detalhe: ainda estamos em janeiro!).

sábado, 10 de janeiro de 2026

Patriota ou estrangeira?


Se você acha que está cada dia mais difícil ser cidadão do seu próprio país (vide o que vem acontecendo ao redor do mundo nos últimos anos, com invasões e divergências políticas e religiosas), imagine então se você é estrangeiro. Pior que isso: imagine que você nasceu nesse país e ainda assim o restante da sociedade o(a) enxerga como estrangeiro. Esse é exatamente o dilema de Hiraki, protagonista da HQ Bem-vinda de volta, de Paola Yuu Tabata, que eu li nesses últimos dias.

Hiraki é neta de japoneses, mas nasceu no Brasil. E mesmo assim, não está isenta de conviver com a hipocrisia e o preconceito de um país que vem se tornando cada dia mais antipático e agressivo pelos motivos mais frívolos, ainda por cima com quem eles não consideram dignos de viver nessa terra.

A graphic novel nasceu como consequência de um TCC acadêmico escrito por Paola. E entre seus inúmeros temas, vemos questões como pertencimento à pátria, divergências ideológicas, sobrevivência a um mundo cada dia mais polarizado (embora muitos imbecis continuem acreditando que tal conceito sequer exista!), além de relacionamentos amorosos e o dia-a-dia caótico vivendo numa metrópole.

O álbum é quase todo preto-e-branco, excluindo-se Hiraki que é desenhada como amarela, fazendo alusão à sua etnia. Gostei bastante do formato de caderno horizontal, lembrando os cadernos que eu utilizava na época do primeiro grau, sempre um para cada disciplina (português, matemática, ciências físicas e biológicas, etc).

Embora a saga de Hiraki se trate de um grande tour de force, pelo fato dela buscar a qualquer custo, já na idade adulta, o seu lugar num mundo cada vez mais competitivo, essa narrativa não é apresentada para os leitores de forma amarga, derrotista. Pelo contrário. É possível se emocionar e se divertir a cada quadrinho com uma história extremamente inspiradora. Por sinal, nos últimos anos, tenho me deparado com muita coisa nessa linha - meio confessional, meio autobiográfica - no segmento da nona arte.

E principalmente: sobre pessoas e figuras públicas que não se encaixam no sistema, não endossam o status quo vigente, o que é ainda mais interessante. Ou seja: tem um caráter de narrativa não-oficial para o chamado "padrão de mundo" no qual estamos (sobre)vivendo. Não foi à toa a HQ foi indicada ao Troféu HQ Mix no ano passado.

Para quem procura um trabalho quadrinístico fora do óbvio e está cansado de heróis, seres sobrenaturais e sagas míticas, tenho certeza de que vão gostar desse aqui. Minha primeira leitura esse ano no formato e já adianto: o ano promete!

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Chevy "babaca" Chase?


Fiquei lendo nesses últimos dias inúmeros posts e matérias na internet sobre o comediante Chevy Chase, fenômeno do humor principalmente nos anos 80. E imediatamente me dei conta do quanto é triste a decadência de qualquer artista, não importa em que esfera ele atue. O avançar da idade traz não somente limitações corporais (e às vezes até mentais) e cabelos brancos, como também o implacável revisionismo acerca do que aquela pessoa realmente fez ou deixou de fazer.

Chase foi pioneiro da geração que nos legou o extraordinário Saturday Night Live, aquele tipo de programa humorístico do qual se tem a legítima sensação de que apresentou "praticamente todo mundo" que teve alguma relevância na história da comédia norte-americana. Minha melhor lembrança dele atuando, entretanto, sempre será como Clark Griswold, o alucinado pai de família que fará de tudo para levar sua prole ao parque temático Walley World em Férias frustradas (1983). Além disso, ele também fez sucesso com a sitcom Community (2009), que teve 6 temporadas.

Confesso aqui que gostava mais dele em sua versão comedida. Seus longas que mais reassisti na vida, seja em VHS, DVD ou TV a cabo, foram Benji, o cachorro divino (no qual ele dá voz ao clássico cachorro dos anos 1980) e Memórias de um homem invisível (1992) ao lado da também icônica Daryl Hannah, a sereia que se apaixonou por Tom Hanks. E até hoje, sempre que eu me deparo com Os três amigos (1986), no qual ele interpreta - ao lado de Steve Martin e Martin Short - três mariachis, dando sopa na programação eu dou uma nova chance ao filme.

Contudo, sua imagem foi se deteriorando por conta do período de abuso de drogas e temperamento difícil nos sets de filmagem e colegas de trabalho, bem como diretores e produtores, passaram a ter um outro olhar sobre o artista. Um olhar, é bom que se diga, nada agradável. Resultado: ele virou persona non grata em hollywood e quase ninguém quer trabalhar com ele hoje em dia.

No recente documentário I'm Chevy Chase and You're not, dirigido por Marina Zenovich, fica bem claro esse mal-estar em torno de Chevy. Tanto que a palavra asshole (babaca, em inglês) é bastante utilizada por muitos que depuseram no longa. Entretanto, é preciso entender que Chevy Chase fez parte de um momento do humor anterior ao que conhecemos hoje em dia como politicamente correto. Ele era mestre em piadas absurdas e controversas, muitas delas, já naquela época, consideradas não tão engraçadas assim. E esse não é somente um retrato do ator, mas de toda uma geração de comediantes.

Se ele seria cancelado nos dias de hoje, em que se ofendem com o mínimo? Não tenho a menor dúvida. Vivemos num mundo onde piadas estão sendo reinterpretadas para agradar a certos gostos e morais duvidosas. Imagine Mr. Chase num cenário desses! Lógico que iria dar ruim, muito ruim. É o que acontece quando o artista se posiciona contra o sistema, a demanda, o senso comum.

Chego ao fim desse post querendo que ele seja mais uma provocação sobre o atual cenário da cultura pop, do que simplesmente buscar respostas ou soluções (elas simplesmente não existem nesse século XXI contraditório e cada dia mais disforme e brutal, jogando todos contra todos). É preciso, no final das contas, que os novos cinéfilos - ou o que se chama de cinefilia hoje em dia - entendam que estamos criando um campo de batalha inútil e sem retorno, se continuarmos por esse caminho. E não separar artista e obra é apenas um pontapé do que, no futuro, pode vir a se tornar o fim do interesse por cultura, arte, entretenimento e afins. E tudo isso só porque fulano, beltrano ou sicrano não é modelo de conduta ou conservador? Fala sério!

É justamente isso, meus caros leitores, que os ignorantes, os extremistas e os cagadores de regras querem. O tempo todo. Pensem nisso!