segunda-feira, 27 de maio de 2019

Nem tudo é o que parece


É difícil precisar o que é real neste mundo contemporâneo. E em se tratando de um país como o Brasil, que nunca teve uma boa relação com a palavra verdade, preferindo ficções e mentiras sinceras, este conceito torna-se ainda mais abstrato, vago. Contudo, provocador que sempre fui (e não acredito num mundo à base de fantasias) continuo procurando a realidade por todos os lugares onde ando, mesmo que em meio a uma sociedade que prefira viver de olhos fechados ao que realmente acontece ao seu redor. 

Dito isto, foi com enorme prazer que adentrei o Centro Cultural Banco do Brasil neste último final de semana para ver a exposição 50 anos de realismo - do fotorrealismo à realidade virtual

O grande mérito da mostra, a meu ver, foi o de mostrar nuances disso que chamamos corriqueiramente de realidade ao longo dos séculos. Afinal de contas, a sociedade não foi sempre baseada em reality shows e inteligências artificiais. Houve um tempo - acreditem os mais jovens, se quiserem! - em que precisávamos enxergar o mundo com nossos próprios olhos. E não haviam showrunners, algoritmos de produção ou neurociência pautando a agenda e os costumes da sociedade civil (como hoje em dia). 

E o resultado desta equação que envolve desde o passado glorioso  permeado por pinturas clássicas (e nesse sentido, ver a tela magistral de Goya que virou capa do álbum Viva la vida do grupo Coldplay foi uma grata surpresa) até fotos modernas inebriantes de grandes metrópoles, foi enriquecedor em todos os sentidos. Sejam eles imagéticos ou sociais.

Cabe aqui, de minha parte, um elogio em especial para as esculturas exibidas (honestamente, a melhor parte do acervo). O menino que atira pedras nos espectadores, a mulher desnuda, o garoto com a capa de super-herói são mostrados de forma tão viva que, por um momento, pensei tratarem-se de pessoas reais fazendo vitrine viva. E certamente esta foi a intenção de seus artistas.

E ao pensar na palavra viva percebo o quanto o real está presente na exposição em pequenos detalhes: nas pontas de lápis, no quebrar das ondas na praia, no sorriso da modelo, no cume da montanha, no close nas frutas, etc...

O problema, entretanto, é que as novas gerações (leiam-se: os adolescentes nerds) não conseguem entender, por mais que tentem, quando tentam, a grandeza naquilo que à primeira vista parece simples. Eles precisam, ao contrário deste que vos escreve este artigo, de imagens grandiosas, sensacionais, retocadas por photoshop ou pelos efeitos especiais de hollywood. Não à toa a franquia dos Vingadores, criada pela Marvel Comics, tornou-se a religião dessa gente, empobrecendo o que havia de mágico na sétima arte, hoje relegada à bilheterias astronômicas e continuações óbvias. 

Entre outras palavras: não há espaço na atual "realidade" do mundo (e as aspas aqui são propositais) para qualquer outra coisa que não represente ou emule o extraordinário. Ser comum ficou enfadonho, daí a necessidade do fantástico, do sobrenatural em nossas vidas (quer dizer: na vida dessas pessoas "acima da média"). Prova viva disso foi o meu desinteresse em usar os óculos 3D para vislumbrar o que essa gente chama de futuro. 

Se o futuro é isso, cá entre nós, morrerei nostálgico. 

Que 50 anos de realismo sirva de legado às próximas gerações. Que elas sejam mais sábias e mentes abertas do que a atual humanidade vigente, que carece dia a dia de valores, de ética, de respeito ao próximo, ao que passou e deixou ramificações em nossa sociedade. 

Entender o real não é uma questão de querer transformá-lo ou corrigi-lo e sim de compreendê-lo em suas mínimas diferenças à medida que os séculos passam e a humanidade se desconstrói. "E não temos a obrigação", parece-me dizer a todo momento a mostra, "de repaginar o ontem ou o hoje segundo nossos próprios interesses". 

Resta agora fazer os seres humanos deste século XXI que acabou de começar entenderem isso! 


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Em nome da moral e dos bons costumes


Nunca me casei e honestamente, a esta altura da vida, não me vejo neste "personagem". Contudo, vejo na desconstrução da relação um importante tema a ser debatido por dramaturgos, cineastas, ficcionistas, mesmo artistas plásticos. Há algo no casamento que o torna - palavras minhas, sintam-se livres para discordar! - uma grande faca de dois gumes. "Há de se ter paciência, meu filho", dizia minha mãe sempre, "muita paciência!". E é dessa, por vezes, falta de paciência na hora de administrar dissabores entre o casal, que nascem grandes embates e reviravoltas. 

Esta semana deparei-me com a enriquecedora surpresa de ver a peça Moléstia, primeiro texto do jovem e promissor dramaturgo Herton Gustavo Gratto, em cartaz aqui perto de casa. E o melhor: entrada franca. Corri para a bilheteria com a certeza de que já havia chegado tarde demais, mas acabei privilegiado com um assento. "Os deuses do teatro sorriram para mim", pensei comigo feliz. Sorriram mesmo. 

Moléstia é a primeira grande encenação teatral com a qual me deparo neste ano e é fácil entender o porquê: ela não se esconde atrás de subterfúgios babacas e estereótipos manjados (coisa que o nosso teatro tem feito muito nos últimos anos!). Pelo contrário... Ela vai direto num ponto que está mais do que visível na atual e polarizada sociedade: nunca tivemos tanta dificuldade para conviver entre nós mesmos, digo, a espécie humana. 

O texto de Herton conta a história do casal Mabel (Camila Moreira) e Breno (Felipe Dutra) que vive aquele momento do relacionamento em que a palavra casal não passa de um conceito abstrato, vagando em meio a sucessivas e desgastantes discussões que não levam nem um nem outro a lugar algum. Ele é um bon vivant notório, enquanto ela é filha de um influente político e só pensa de fato no nome da família tradicional e no quanto ela pode sair manchada ao sinal de qualquer mínima tragédia; Para complicar ainda mais o cenário, ambos têm um filho, Thiago, autista, que requer cuidados especiais a todo momento. 

A chegada do amigo Cadu (Ciro Sales), ex-namorada de Mabel e colega de infância de Breno, aumenta ainda mais a tensão sexual entre ambos. Há uma série de vazios existenciais óbvios correndo entre as conversas corriqueiras, mesmo as mais banais. E este quase triângulo amoroso ainda por cima esconde uma outra obscura realidade: Cadu muda de cidade por conta de um crime ao qual foi supostamente condenado e deseja recomeçar a sua vida. Vê na ajuda do casal de amigos uma chance de deixar o passado para trás. Contudo...

Com a notícia de que o filho foi abusado sexualmente na escola onde estuda e ainda por cima pelo amigo de infância (para quem arranjaram o emprego) uma avalanche de sentimentos, ódios e desavenças reprimidas nos últimos anos vêm à tona. Breno acredita que tudo não passou de uma vingança de Cadu por não ter ficado ele com Mabel. Já a madre superiora do colégio (Deborah Figueiredo), quando fica sabendo do histórico passado do professor exerce o papel do estado totalitário, opressor, que deve condenar o culpado antes mesmo de julgá-lo. E o principal: lacunas que sempre foram mantidas ocultas na vida do casal e dos três amigos como um todo são desmascaradas. 

Há um elemento interessante que compõe cena com o elenco. Refiro-me a utilização de câmeras, que são manuseadas por todos os atores do elenco, e suas imagens mostradas num telão no palco. É essa câmera, que passeia de mão em mão, que escrutina os olhares e comportamentos dos personagens, invade privacidades, intima os medrosos a assumirem a culpa, exige verdades de parte a parte de forma contínua e incômoda. Em alguns momentos da montagem minha mente se pegou pensando no cinema de Ingmar Bergman, sempre intrusivo. Ele certamente teria adorado a peça. 

E as luzes, que dão o tom de mudança do tempo presente para o tempo passado, também proporcionam ao espectador um sentimento legítimo de claustrofobia necessário para entender as intenções maquiavélicas de cada personagem. Sim, maquiavélicas. Há muito o que se esconder naquele clima insalubre, evasivo.  

O diretor, Marcéu Pierrotti, vê no espetáculo - e eu concordo com ele - um grande "jogo de acusações", onde todos podem ser culpados, mesmo que por omissão. Lembrei-me da época em que, ainda adolescente, devorava os romances de Agatha Christie um depois do outro, tentando descobrir quem assassinara a, b ou c. O clima presente aqui era o mesmo. 

Ao final da encenação, o elenco chama o público para uma conversa franca e convida para o debate a psicóloga Sandra Levy, e alguns espectadores vão às lágrimas, abrem o jogo sobre o seu próprio passado, refletem sobre as escolhas de vida que os trouxeram até aquele exato momento de suas vidas. Eis o grande barato que somente o teatro é capaz de proporcionar: a catarse. Só pelo bate-papo já valeu a minha quinta-feira. 

Chego em casa pleno, em êxtase, mas ao mesmo tempo preocupado com os dias que virão neste país mais do que confuso e cheio de ódio dos dias de hoje. Nunca se xingou tanto em nome da família ou de Deus. E perdemos a noção do que é realmente ético em nome de aparências e efemeridades. Moléstia, mais do que simples teatro ou ficção, é a sociedade rugindo, em frenética ebulição. Aquilo que chamávamos outrora de humanidade agora não passam de animais de combate lutando por migalhas de afeto. E isso tudo é não só muito triste, mas também covarde, extremo. 

E não acredito que construiremos nada à base de extremismos. Mesmo que disfarçado de moral e de bons costumes. 

sábado, 11 de maio de 2019

Veneramos monstros


Volta e meia eu me pergunto se os artistas musicais de quem eu gosto são realmente flor que se cheire, se são aquilo que vendem para o público. E em muitos casos me desaponto com a resposta ou fico aterrorizado. E vocês, meus caros leitores, que acompanham meus devaneios e desabafos narrativos. fazem isso também? Pois deveriam. Urgentemente.

Vivemos uma era difícil em termos musicais. A todo momento são ofertadas ao público fraudes musicais aterradoras, artistas que não merecem sequer o rótulo de artistas, pois o que realizam é difícil de catalogar como arte. E mais assustador ainda: são aplaudidos, ovacionados por isso. Eu sei que vai ter muita gente que ficará puta com este parágrafo, mas não dá para fingir. Pioramos - e muito! - neste segmento. Aliás, em muitos outros também. 

Mês passado me deparei com um filme que me deixou ainda mais estarrecido sobre o tema. Tanto que levei este tempo para expôr minhas impressões sobre o projeto. Trata-se de Vox lux: o preço da fama, de Brady Corbet. E só para constar um fato curioso: desde Precisamos falar sobre o Kevin, de Lynne Ramsay, não me deparava com algo tão macabro (e profundamente verdadeiro) sobre a sociedade contemporânea. 

Vox lux conta a história de Celeste que, ainda adolescente, sobreviveu a um atentado no colégio onde estudava (observação: ela namorava o responsável pela tragédia). Durante o funeral em homenagem às vítimas, incentivada pela irmã mais velha que achava sua voz bonita, canta uma música inspiradora, repleta de fé e esperança por um futuro melhor. Pronto. Estava criado o terreno para que a inescrupulosa indústria fonográfica transformasse a jovem num ícone pop. 

A artista que Celeste (vivida em duas fases pela jovem Raffy Cassidy e pela ótima Natalie Portman) se torna não difere em nada de invenções musicais na linha de uma Britney Spears, Rihanna, Sia e outras "divas". Ela não é a compositora de suas próprias canções, não canta ao vivo, e fomenta - e enriquece - ao seu redor uma entourage de abutres, capitaneados por seu empresário arrogante e impulsivo (vivido pelo ator Jude Law). E importante que se diga: exibe a arrogância e o desdém típicos de quem costuma fazer sucesso sem realmente ter mérito algum. 

A trama ganha uma retomada insólita quando, após gravar um novo videoclipe, quatro jovens usando a mesma máscara que ela utilizara no vídeo, fazem uma chacina numa praia, tirando a vida de milhares de pessoas, e Celeste é indagada sobre sua responsabilidade na tragédia e os limites de fazer uma arte vazia, voltada ao lucro e ao hedonismo. 

É nesse momento que meu cérebro me transporta da tela do cinema para o mundo real e me pego refletindo acerca dessa nova geração musical vigente. Lembro-me de ter visto tempos atrás uma entrevista com o escritor Paulo Coelho em que ele defendia a questão do gosto musical como uma "escolha que variava de geração para geração". Muitos, dizia ele, não veriam nada nos Beatles nos dias de hoje pelo simples fato de que não viveram o auge da beatlemania. Portanto, se sentiriam deslocados ao falar sobre a banda ou mesmo idolatrá-la. Faz sentido até certo ponto. 

É bem verdade que não posso exigir das novas gerações a mesma percepção que eu tenho até hoje sobre a banda Queen ou Renato Russo. Não seria sequer justo. Entretanto, acredito que essa adolescência atual precisa rever seus conceitos. Principalmente o papel dos seus ídolos dentro do mundo em que estamos (sobre)vivendo dia a dia. 

É visível a cultura blasé e afrontosa reinante no mundo pop de hoje. E em alguns aspectos até criminosa. Fico pensando com meus botões toda vez que assisto um clipe de artistas como 50 cent, Kanye West, Justin Bieber, Tupac Shakur, entre outros, que tipo de gente dá status de celebridade a esse povo arrogante, às vezes oriundo de um cenário marginal, que nada acrescenta ao planeta terra bem como aos seus respectivos países. 

Fico possesso quando penso nisso.

A billboard, é triste afirmar isto, está repleta de Celestes. Pessoas vazias que chegaram ao sucesso por um caminho, digamos, tendencioso. E nós, fãs acéfalos, estamos venerando monstros ideológicos da pior espécie. E orgulhosos de nossas criações. Dizer "até quando?" já não responde mais a esta questão incômoda. É preciso acordar, antes que sejamos engolidos por nossas próprias más escolhas. 

P.S: o único revés neste artigo e que, infelizmente, produções como Vox lux não são exibidas num circuito maior. Elas ficam fadadas à pequenos nichos, públicos segmentados. E isso é proposital, pois o importante é alienar as massas com filmes de super-heróis e franquias babacas. Isso também precisa mudar! Nem sempre o espectador quer só pão e circo.

sábado, 4 de maio de 2019

A madrinha do samba


Roberto Cabrini, jornalista responsável por dar em primeira mão o anúncio do falecimento do piloto de fórmula 1 Ayrton Senna há 25 anos, estava certo: tem certas notícias que não gostaríamos de dar. De jeito nenhum. Porém, como às vezes não tem outro jeito...

Pois bem: na última semana o mundo do samba perdeu Beth Carvalho. E mesmo aqueles que não são amantes do gênero sentiram o golpe. Beth foi uma mulher como poucas na história da MPB e, cá entre nós, não me recordo de tê-la visto na boca da mídia por más notícias e escândalos (coisa muito natural nos dias de hoje, que preferem promover artistas de plásticos, posturas arrogantes e produtos baratos para atender a um mercado efêmero!). 

Beth era conhecida como a madrinha do samba e seus afilhados, assim como ela, tornaram-se também notórios com o passar do tempo. Que o digam Zeca Pagodinho (o mais famoso deles), Diogo Nogueira (filho de, para mim, um dos maiores nomes que o mundo do samba já teve: o eterno João Nogueira), Dudu Nobre, dentre tantos outros. E mesmo quem não foi amadrinhado pela eterna musa do samba, reconhecem publicamente sua admiração e referência em suas carreiras. 

Alguns dividem a importância de Beth entre ela e Dona Ivone Lara, outro pilar fundamental do samba e da música brasileira em geral. Ambas eram geniais no que faziam e não cabe a este mísero autor de esquina escolher uma dentre as duas como "a melhor" (as aspas aqui já falam por si só). Sempre considero certos debates insignificantes, quando não melodramáticos em excesso. 

Ver na televisão o funeral da cantora ao som de fãs e amigos extasiados cantando seus maiores sucessos me fez lembrar de uma história pessoal: minha irmã, quando realizou a formatura de graduação, escolheu como música tema para sua entrada no palco a canção "Coisinha do pai", uma homenagem à nosso pai então recém-falecido, que vivia chamando-a assim. Ao vê-la cruzar o corredor, o rosto coberto de lágrimas, para receber seu diploma, imaginei o mundo de Beth Carvalho, mais do que isso, a cantora embaixo da tamarineira do Cacique de Ramos numa descontraída roda de samba. Ela certamente teria adorado a homenagem (bem como meu pai). 

Porém, Beth não foi só a coisinha do pai. Não, ela também fez andanças por todos os bairros, avisou que camarão que dorme a onda leva, foi festejar até o raiar do dia, subiu 1800 colinas (mais até), viu caírem as folhas secas, cantou a tristeza e muito mais. E tudo isso muito bem acompanhada pelos bambas com quem compartilhou uma era de ouro (Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz e Sombrinha, Leci Brandão, etc etc etc e haja etc).

Suas paixões primordiais: a Estação primeira de mangueira - com quem algumas vezes se desentendeu, mas faz parte: amor é assim mesmo! - e o Clube de Regatas Botafogo. Por sinal, seu funeral foi lá, na sede da estrela solitária. Seu modus operandi para viver: alegria, muita alegria. 

Numa recente entrevista para o apresentador Pedro Bial, Zeca Pagodinho contou-lhe da visita que fez à madrinha e da grande festa que realizaram no quarto onde estava internada. Beth era isso. Não tinha tristeza, mesmo quando a barra pesava. 

Quando trabalhava no cinema dentro do Shopping Fashion Mall, em São Conrado, volta e meia ela aparecia nos corredores acompanhada da filha (isso bem antes dos problemas recorrentes que teve na coluna na última década). Sempre sorrindo e dando autógrafos. E gostava de entrar nas últimas sessões, disfarçada, para não chamar a atenção, não atrapalhar o filme. 

Em contraste a isso, foi uma enorme tristeza ver essa mulher guerreira fazendo seu show deitada num sofá. Por mais sobrevivente à dor que ela fosse, por maior que fosse o seu desejo de dar prosseguimento à carreira (e isso por si só é louvável), era inevitável pensar que o fim estaria próximo. Eu disse fim? Não. A passagem. Não existe fim para mulheres como Beth Carvalho. 

Certamente a esta hora Beth canta no outro plano existencial. Deve estar ganhando aplausos até de São Pedro. Vai com Deus, diva! 

Porque aqui embaixo você matou a pau. 

domingo, 28 de abril de 2019

O riso torto



Este texto poderia, nas mãos de um profissional inescrupuloso do ramo de comédia, se transformar numa grande distorção, acusando este mísero autor de difamar a classe. Longe disso. Longe de mim difamar uma classe que apresentou ao mundo tantos gênios (e eu fui espectador assíduo de vários deles). No entanto, o fato crônico que muitos desta distinta classe não querem debater é: pioramos como realizadores de humor. 

A recente condenação na justiça do humorista e apresentador do The Noite, no SBT, Danilo Gentili, me fez pensar nos rumos que a classe humorística vêm tomando nos últimos anos. Em outras palavras: se o ex-vj da MTV, PC Siqueira, já dizia lá atrás que "está foda ser brasileiro", imagine então para quem vive do riso e, principalmente, quem confunde humor com baixaria e/ou escrotidão. 

Estamos atolados até o pescoço, como nação, numa realidade fúnebre. Vivemos tempos amargos - já disse isso em outros artigos - em que o roto fala mal do esfarrapado e se orgulha de exibir o que não é. Mais do que isso: passamos a idolatrar o ridículo e a difamação como arte nobre. E o resultado desta equação é que nunca antes na história deste país o humor esteve tão a serviço do que existe de mais sórdido e nojento. E não me refiro única e exclusivamente ao território nacional, não!

Faço parte de uma geração (já sei, já sei... vocês dirão que "esse papo de geração não tá com nada", mas vou falar mesmo assim) que se orgulha de ter visto Jô Soares em Viva o gordo e O planeta dos homens, Chico Anísio em Chico City, Agildo Ribeiro em Cabaré do Barata - com sua sátira política aos presidenciáveis -, que ligava a tv dia de semana para assistir os filmes do Jerry Lewis na Sessão da tarde, que assobiou a trilha sonora de Henry Mancini para a franquia de filmes da Pantera cor-de-rosa, parceria do ator Peter Sellers e do diretor Blake Edwards e que quase quebrou o sofá de casa vendo as maluquices de Mel Brooks em O jovem Frankenstein e Drácula: morto, mas feliz, com o extraordinário Leslie Nielsen. Ah! E quase me esqueci dos eternos integrantes do grupo Monty Python...

E após olhar para um passado tão glorioso quanto este, é com vergonha que vejo o mundo da comédia assimilar verdades mórbidas, cafajestes notórios que se escondem atrás de piadas sexistas e misóginas e realidades cruéis (quando não fantasiosas ao extremo).

Os talk-shows, antes palco de homens sábios e inteligentes, entregou-se de vez a piadistas sem noção que não reconhecem a diferença entre maldade e homenagem aos outros. É o tal "humor a qualquer preço", como gosto de chamar. O problema é que comédia não é tão gratuita assim. Pergunte a quem faz o gênero de verdade e corrija-me se eu estiver enganado. 

Comédia não se limita a risos e gargalhadas e sempre a considerei um dos melhores atos políticos já criados pela humanidade. Ela não se presta unicamente a elogiar ou plagiar pessoas públicas e instituições. E muitas vezes mostra um outro lado dessas figuras e corporações que você, espectador, jamais imaginou que estivesse ali, presente ou simplesmente não quis dar a mínima. 

"A comédia é a guerra nas entrelinhas". Li isso anos atrás num livro (que, infelizmente, não me recordo do título), e nunca me esqueci da frase. Robin Williams - outro gênio do humor - sempre falou em enfrentamento, em não deixar a peteca cair, não importa o quanto estejam acusando ou difamando você. E Jim Carrey, que de uns tempos para cá andou se revendo como artista do gênero, me provou com folgas que não existem regras ou parâmetros que contenham o discurso. 

Em suma: ninguém pauta a agenda dos comediantes (não importa o quanto tentem). Contudo, isso não é motivo para tanta vulgaridade e descalabro no setor. Até que ponto podemos chamar de engraçado um apresentador de talk show que ouve às gargalhadas seu entrevistado explicando como realizou uma orgia dentro de sua casa? E o quadro da peça Nós na fita, que foi sucesso nos teatros do subúrbio à zona sul, em que a dupla de "humoristas" celebra uma multiplicidade de palavrões, delimitando o uso perfeito para cada um deles? Isso é de morrer de rir? Tenho minhas dúvidas. 

Acho que a verdade aqui presente é que nos entregamos a uma indústria do grotesco, do falar mal de nossos semelhantes. O humor virou um discurso exibicionista com o claro intuito de colocar o outro no seu devido lugar (como se eles, perpetradores desse discurso, fossem seres humanos muito melhores, idôneos, acima de qualquer suspeito). Sinto muito, mas não compro esta falácia. 

E quando me apresentarem uma versão real do gênero, por favor me avisem aqui. Porque de desgosto eu já ando cheio nesses últimos anos...

sábado, 20 de abril de 2019

O filme proibido


Que bom seria se o ser humano deixasse seu semelhante em paz com suas convicções políticas, econômicas e religiosas! Infelizmente, às vezes tenho a triste percepção de que a humanidade só existe para desmitificar o mundo e, no final das contas, acaba por se transformar ela mesma numa eterna mitologia sem sentido. 

Profundo, não é mesmo? A sétima arte de vez em quando me deixa assim, reflexivo. 

Pois bem: esta semana enfim consegui assistir o tão famigerado Boy erased - uma verdade anulada, do ator e diretor Joel Edgerton, que foi boicotado em nossos cinemas por "ofender" a determinados segmentos religiosos que apoiam o atual governo federal vigente. Digo de antemão: uma infeliz decisão, pois o longa reflete - e muito! - uma triste realidade que anda em voga no Brasil e no mundo afora. 

Boy erased conta a história do jovem Jared Eamons (Lucas Hedges) que descobre, no auge da adolescência, seu interesse por homens. O problema é que ele é filho de um pastor evangélico de visão não somente conservadora, como por vezes extremista (aliás, um interessante trabalho de interpretação do ator Russell Crowe) e ele acredita piamente que seu filho sofre, isso sim, de uma perversão e ela pode ser curada, eliminada de sua personalidade. 

Resultado: ele decide inscrever o filho numa terapia de conversão e é justamente nesse momento que começa o grande martírio do rapaz. Não bastassem os olhares tortos da população e dos colegas de faculdade na rua ele ainda tem de enfrentar o discurso intolerante e repressivo do "orientador" do programa, um homem - diga-se de passagem - sem a menor formação profissional necessária para conduzir tal tratamento.. 

O filme de Edgerton - que vêm se provando bom diretor, com longas como O presente -, mais do que traçar uma linha tênue entre certo e errado (vi alguns sites de cinema rotulando o filme de maniqueísta e, honestamente, não sei se concordo com esta interpretação!), mostra o quanto pioramos como sociedade. 

Vivemos uma era de extremismos, pautada por um discurso religioso ferrenho, que acredita que a solução para todos os problemas da face da terra está exclusivamente na crença em Jesus Cristo, e não nos demos conta do quanto estamos perdendo no quesito diversidade. Ter uma opinião própria, decidir sua própria opção sexual ou mesmo escolher sua própria formação cultural viraram quase motivo de guerra, gerando bunkers ideológicos prontos para serem atacados a qualquer momento por qualquer um que se acredite acima do bem e do mal simplesmente por conhecer os preceitos da Bíblia. 

Mesmo o momento-chave, em que pai e filho põem as cartas na mesa e tentam uma prestação de contas entre eles, é ocultado - ou bloqueado - por uma espécie de muro existencial (muito parecido com o muro, esse sim físico, que o presidente Donald Trump quer impôr aos mexicanos de qualquer jeito). É difícil para este pai velha guarda, que tornou suas escolhas no passado uma blindagem para lidar com os problemas da atual sociedade, confusa, perdida, tentando encontrar o seu próprio caminho, entender o próprio filho. Pior: parece tarefa impossível para ele, como cristão, permitir que sua prole faça suas próprias escolhas. 

Ao final da película a sensação que fica no espectador - pelo menos, foi a que tive - é a de um gosto amargo, de um livro incompleto, em que você deseja ler o desfecho, mas ele não pode ser escrito, por imposição de pessoas que querem regrar o mundo, recontar a história, excluir os diferentes, evitar o futuro porque ele (visão dos conservadores) denigre o passado glorioso, porém manipulado em seus fatos e acontecimentos. 

Fica aqui, da minha parte, um recado para os segmentos religiosos que boicotaram o filme:  vocês deram não somente um tiro no próprio pé, como incentivaram uma geração de cinéfilos e curiosos a, isso, sim, correr atrás do filme nos serviços de streaming, google, etc... Digo isso, porque se existe algo de que o brasileiro médio não gosta é de polêmicas e proibições. Fizeram o mesmo com Je vous salue Marie, de Godard e O último tango em Paris, de Bertolucci no passado e eles se tornaram cults. 

Ou seja: moral da história - quer ser visto? Basta dizer "não pode", "não acrescentará nada à sua vida". 

domingo, 14 de abril de 2019

Um quadro, uma guerra


Já prevejo alguns dos meus leitores mais assíduos me chamando de louco. Quer saber: que chamem. Sim, eu decidi dedicar um artigo exclusivamente à uma pintura. Mais do que isso: uma verdadeira obra-prima da história da arte. E se quiserem me rotular de excêntrico por causa disso, fiquem à vontade! 

Refiro-me à Guernica, obra seminal do pintor Pablo Picasso, pertencente à sua fase mais obscura (fase essa que coincide não somente com o início da Guerra Civil Espanhola e a II Guerra Mundial, como também com o falecimento da mãe do pintor em 1939). Portanto, um período soturno para ele como criador. 

Guernica, mais do que um mero mural, trata-se de um ato político. É uma tela inspirada no bombardeamento da cidade que dá nome à obra, localizada na Espanha, em 26 de abril de 1937 por aviões alemães da Legião Condor que praticamente destruíram toda a região. Seu resultado final, como pintura, é uma severa crítica a devastação provocada pelo nazismo, neste caso apoiado pelo então ditador Franco. 

A primeira vez que fiquei sabendo da existência do quadro de Picasso eu era bem novo, coisa de 10, 11 anos, e confesso: foi meu primeiro momento de perplexidade diante de um objeto artístico. Digo mais: foi quando eu tive a certeza de que minha vida precisava estar relacionada à arte de alguma maneira. Depois deste primeiro vislumbre corri atrás de livros sobre o pintor em bibliotecas públicas e livrarias. Começava ali meu contato com os livros. Resultado: não parei mais e acabei por me tornar este nerd fanático por conhecimento.  

Muitos analistas e críticos de arte não vêem Guernica como uma exaltação à violência e sim como um símbolo de paz, um libelo anti-guerra (e eu concordo com eles em gênero, número e grau). É bem verdade que a tela é dura, forte, em alguns momentos difícil de manter os olhos fixos, tamanho o rigor e a brutalidade de suas imagens, mas trata-se de um choque de realidade mais do que necessário (principalmente neste século XXI repleto de fake news, racismo e misoginia em que vivemos). 

Toda pintada em preto-e-branco, diferentemente de suas fases azul e rosa, intensifica ainda mais a sensação de drama, de niilismo por trás das escolhas visuais. Não se trata simplesmente de "um objeto para se pendurar na parede de sua casa, com o intuito de enfeitar o ambiente, e sim uma arma de ataque e defesa contra o inimigo", como gostava de salientar muitas vezes o próprio artista. 

Todavia, o mais interessante neste espetáculo visual é a capacidade de analisarmos sua composição estética. Em outras palavras: Guernica está repleto de pequenas mensagens e significados. Basta que o espectador tenha bons olhos para percebê-lo. Vamos aos exemplos.

Há um claro ataque à cultura espanhola (e percebe-se isso na presença exuberante e destacada de dois animais na tela: o cavalo e a touro). Com o passar dos anos cheguei a fazer uma correlação forte entre a tela e o livro O verão perigoso, de Ernest Hemingway, um apaixonado por touradas. E alguns elemenros possuem escrituras internas (como se fossem páginas de um jornal). Isso, reforçam alguns críticos, refere-se à maneira como o pintor ficou sabendo da notícia do bombardeio na época: através da imprensa, já que morava em Paris na ocasião. 

As múltiplas imagens de sofrimento - o soldado morto no chão; uma mãe que chora a morte do filho nos seus braços; uma mulher em desespero enquanto sua casa é destruída, em chamas; uma mulher com a perna ferida, que tenta fugir do caos; uma outra mulher com um lampião na mão - são arquétipos do horror causado aos seres humanos, e uma prova viva do quanto a vida humana não valia absolutamente nada para aqueles que perpetraram toda aquela barbárie. 

Isso sem contar a imagem da espada quebrada (alusão à derrota do povo diante do totalitarismo) e, claro, os edifícios pegando fogo (ou seja: não somente a destruição da cidade de Guernica, mas de toda a Espanha durante o período da Guerra Civil). 

Ao final de tamanha exuberância e dor em forma de artes plásticas, vêm à minha mente duas informações imprescindíveis: a primeira, a de que dificilmente outra obra na história da arte mundial conseguirá me passar tamanho volume de informações, não importa o quanto tente; e segundo, eu espero que um dia consiga ver Guernica com meus próprios olhos. Seja eu indo até onde ela está, seja ela dando as caras no Brasil. 

Talvez muitos digam: "acho que é mais fácil você melhorar de vida e ir à Europa vê-la do que ela dar as caras no país". Contudo, eu dizia o mesmo de Abaporu, tela de Tarsila do Amaral definidora do movimento modernista, e consegui vê-la no Museu do Amanhã sem pagar um centavo por isso. Logo, ainda não é tarde para sonhar. 

Enquanto isso... Que o sonho e a grandiosidade por Picasso e sua obra extraordinária permaneçam em minha mente!