domingo, 8 de novembro de 2026

A voz que definiu o século XXI


A notícia de que o extraordinário álbum Back to black, da cantora Amy Winehouse, completa 20 anos em 2026 me fascina ao mesmo tempo em que me assombra. Como assim? Não fazia ideia de que já tinha esse tempo todo. Prova de que a música, principalmente aquela produzida de forma brilhante, é atemporal, atravessa gerações com a mesma facilidade com que alterna acordes. E isso é a melhor parte de se produzir qualquer coisa no meio artístico.

Amy Winehouse foi genial, mas também complexa. Mulher talentosa, porém sem freios, indomada. Fez o que quis, do jeito que quis, não se submeteu a ninguém e encantou seu público de forma ímpar. Não fosse assim, dificilmente teria emplacado do jeito que emplacou. E o fato de ter ido embora aos 27 (e agora fazer parte daquele clube do qual não gostamos de lembrar nem um pouco, junto com Hendrix, Joplin, Cobain, Morrison...) fica somente como um detalhe.

Não consigo imaginar outra artista que possa representar o que eu considero A voz que definiu o século XXI. Ninguém chegou nem perto do que ela fez entre as artistas que por aqui apareceram nesse último quarto de século. E Back to black é a epítome disso.

A começar pelos títulos das faixas: "Tears dry on their own" (as lágrimas secam sozinhas), "You know I'm no good (Você sabe que eu não presto), "Rehab" (reabilitação para drogados), "Love is a losing game" (o amor é um jogo perdido), "Some unholy war" (uma guerra profana)... Elas diretamente - ou indiretamente, dependendo do seu nível de atenção e comprometimento - o preparam para um mundo vivido por uma mulher derrotista, ou quem sabe apenas sobrevivente de um mundo em chamas (como, aliás, bem parece o século XXI até agora).

Entretanto, quando começamos a ouvir a sonoridade das faixas entremeadas com a voz de Amy, tudo se dissipa e um ar fresco, típico dos altamente talentosos invade a sala e você então entende de uma vez por todas que está diante de um cantora única. Eu sempre gosto de falar (e sou sempre detonado na internet por isso) que vejo Amy Winehouse como a Edith Piaf desse novo século - e não me arrependo. De jeito nenhum.

O que ela foi capaz de fazer com a sua voz, ainda por cima acompanhada por uma banda sublime que em nada deve às grandes jazz bands, e reinventando estilos, ecos, sussurros... Tem que ser muito maluco ou incompetente para denegrir o que está acontecendo aqui, gente! E não é à toa que o álbum entrou para a lista dos mais vendidos na história da indústria fonográfica. Ele merece toda a pompa que arrecadou nas últimas duas décadas.

Faixa a faixa, Amy briga, grita, diz que ninguém mandará na vida e nas escolhas dela, mostra insatisfação com o que o mundo se tornou nos últimos anos, fala de seus relacionamentos amorosos desastrosos e tóxicos, confessa a dificuldade que é viver nas trevas a maior parte do tempo, esmiúça o próprio vício no qual está metida até o pescoço, e muito mais. Back to Black é quase um diário íntimo desses que vemos nas prateleiras de best-sellers das livrarias. Só que uma versão mais dark, profunda.

Nota extra: quem puder ouvir também a versão Deluxe Edition do disco, dê uma conferida com mais calma em "Valerie" e "Monkey man" (que volta e meia eu ouço de novo e de novo no you tube, só para não perder o costume ou matar a saudade). Chegaram até aqui? Ótimo. É sinal de que vocês também tem bom gosto musical e reconhecem o poder dessa mulher que, infelizmente, nos deixou cedo demais. Como costuma acontecer de tempos em tempos com os grandes (não só da música, e sim das artes em geral). Amy vive! Ainda!

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