O Collins English Dictionary acertou em cheio na escolha da palavra do ano de 2026. Trata-se de mogging (que, segundo fontes na internet, descreve a ação de ofuscar, eclipsar ou demonstrar superioridade sobre outra pessoa). Nunca a sociedade se pareceu tanto com isso como nas últimas décadas. O desejo de aparentar, perante os outros, uma imagem de "eu sou o melhor", "eu sou indestrutível", "ninguém será capaz de chegar aos meus pés", "todos os outros estão abaixo de mim" está evidente nas ruas, nas redes sociais, nos programas de tv, etc. Hoje em dia todo mundo parece se esconder atrás de um discurso vitorioso, mas que não necessariamente condiz com a realidade.
A expressão nasceu dentro de um contexto relacionado à aparência física - deriva de AMOG (que em português quer dizer "macho alfa do grupo", um termo muito utilizado no fisiculturismo) -, mas com o passar dos anos foi ganhando apelo até mesmo em situações cotidianas. Desde ser o melhor jogador de videogame do mundo até se vender como o melhor empreendedor da história, quase todos querem ter uma história de status para exibir nas plataformas, embora, muitas vezes, elas não passem de um mero disfarce ou esconderijo para hipócritas e gente de má índole querendo criar espaço ou narrativa para diminuir os outros.
E antes que me condenem ou detonem pelo post aqui publicado, prestem atenção, por exemplo, no mundo do futebol, principalmente a categoria "ex-jogadores". Um bando de ególatras aposentados que passam o resto da vida fútil e milionária fazendo listas sobre quem foi melhor do que quem (e ninguém nunca é melhor do que eles, pois o juízo de valor usado na comparação da maioria dos jogadores é sempre deturpado, com o intuito de alavancá-los à categoria máxima).
As redes sociais já são, por si só, um grande ensaio sobre o ego humano. Logo, por que não acreditar que o mogging está ali presente, em tempo integral, ditando as normas do que deve ser a conduta humana? Exibir-se, contar vantagem aos demais, criar um personagem superior aos que estão no seu entorno, destruir a concorrência, viraram características imprescindíveis da humanidade nesse novo século que ainda tem muita lenha para queimar.
E o melhor exemplo disso é a grande nação (essa mesmo, cujo ególatra-mor, que chegou a se vender como rei ao longo do seu segundo mandato, sofreu uma derrota acachapante nas Mid-terms agora há pouco) que não perde a chance de se vender como "a maior", "a melhor", "a mais querida", "a mais popular" sempre que tem a chance. E também não deixando de lado a eterna mania de diminuir o resto do mundo, tratando-o como mero serviçal dos seus interesses.
Costumo criticar as palavras do ano escolhidas pelos dicionários norte-americanos, mas dessa vez confesso: parece que eles começaram realmente a entender o que virou o mundo contemporâneo, o quanto estamos perdidos num mar de idolatria (e, principalmente, egolatria) sem tamanho. Fico me perguntando o que sobrará de nós, seres humanos, a continuarmos por esse caminho. O abismo nunca pareceu tão próximo como nesses últimos tempos, e ainda assim a sociedade prefere continuar fabricando personagens inúteis que nada acrescentam ao futuro da humanidade e só promovem discórdia e rivalidade infinitas.
Aguardo, preocupado, o próximo delírio mundial produzido pelo homem.

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