domingo, 28 de dezembro de 2025

De musa à indesejada


A notícia de que a atriz francesa Brigitte Bardot faleceu hoje, aos 91 anos, em Saint Tropez, me trouxe à tona uma lembrança lúgubre: a das duas mulheres que ela foi ao longo da vida, a musa e posteriormente a indesejada, em alguns casos até odiada por setores da sociedade mundial. E essa segunda mulher, em muitos aspectos, destruiu parte da lembrança nostálgica de seus filmes e persona ímpar (tanto no cinema francês como mundial).

Simone Beauvoir, símbolo do feminismo, a elogiou, dizendo que ela representava a figura da mulher das próximas gerações, por seu arrebatamento e falta de pudor ao lidar com cenas até então vistas como polêmicas quando interpretadas por artistas do sexo feminino. Assim como Marilyn Monroe em hollywood, Brigitte também foi um artigo de exportação, só que do cinema francês. Era lindíssima, irretocável, todas a invejavam, queriam ser como ela. E isso fica mais do que evidente quando vemos até hoje filmes como O desprezo, de Jean-Luc Godard e também E deus... criou a mulher, de Roger Vadim (para muitos cinéfilos, seus dois longas mais famosos).

Antes dos 40, ela decidiu abandonar as telas, abraçou a causa animal até o fim da vida, morou aqui em Búzios uma temporada, quis se desfazer de sua imagem de starlet criada ao longo da carreira...

O problema: com o avançar dos anos, o moralismo excessivo se apossou dela, e começou a disparar discursos lamentáveis, principalmente contra muçulmanos e também integrantes do movimento LGBT. Foi condenada seis vezes por injúria racial e transformou sua imagem na de uma pessoa incômoda, amarga, que não aceitava os novos tempos. Virou um símbolo mais afeito aos conservadores fúteis e sem noção, que acreditam piamente que qualquer possibilidade de diferença não passa de uma aberração a ser destruída. Uma pena.

Contudo, mesmo tendo se tornado a reacionária que se tornou nos últimos anos de vida, não consigo cancelá-la gratuitamente, como muitos adoram fazer hoje em dia. Dizer que Brigitte não é um nome que se confunde com o da história da sétima arte seria um crime, praticamente uma blasfêmia. Por tudo o que ela representou para a geração cinéfila do seu tempo.

Sim, Brigitte Bardot foi fruto de uma época. Uma época que não existe mais, engolida por uma nova civilização que se diz moderna e revolucionária, mas não passa de covarde e acusadora, muitos deles bem piores do que os discursos que ela proferiu no fim da vida. Mas disso ninguém gosta de comentar, pois atirar pedras em janelas alheias é o esporte preferido do século XXI.

Chego ao fim desse post num misto de sentimentos: a saudade de uma das maiores símbolo sexuais que o cinema já nos apresentou, que se perdeu em meio a discursos aleatórios e que nada contribuíram para a sua imagem. E também a melancolia de perceber que os artistas que fizeram do cinema a grande arte que ela é hoje estão indo embora numa velocidade espantosa, sem peças de reposição minimamente gratificantes. Isso, sim, é terrível. Bem mais terrível do que simplesmente apedrejá-la nas redes sociais.

E quanto à Brigitte: que fique em paz, com Deus, onde quer que ela esteja nesse exato momento. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Arlequina salvou o natal


Nos últimos anos tenho achado o natal e tudo o que versa sobre ele cada vez mais cansativo (além do fato de que nunca mais é a mesma coisa depois que nossos pais faleceram). Fico quase que na expectativa da chegada da meia-noite para terminar mais um dia e ir dormir. Contudo, Lady Gaga esse ano me ofereceu um presente de última hora: o show Harlequin live: one night only, transmitido gratuitamente no youtube.

A personagem que dá título ao show é a mesma que ela interpretou no filme Joker: folie à deux, no qual dividiu tela com o ator Joaquin Phoenix. Logo, trata-se de um projeto musical paralelo ao longa-metragem. E, diga-se de passagem, muito melhor do que o próprio filme.

Com um banda afiadíssima, que se alterna entre o jazz e o rock, Lady Gaga entrega tudo e mais um pouco em pouco mais de quarenta minutos de apresentação frenética.

Há, no setlist, inúmeros clássicos da música americana, como "When the saints" (que eu adorava cantar em casa na época em que estudava inglês no CCAA), "That’s entertainment" (que eu sempre associo aos musicais da Broadway e a era de ouro de hollywood, com Fred Astaire e Gene Kelly), "I got a world on a String" (eternizada pelo amigo Tony Bennett, que aparece em vídeo, como forma de homenagem), "That's life" (que Frank Sinatra tornou eterna no imaginário do povo americano) e "Close to you", além - é claro - de boas novidades, como "Happy mistake".

E olha que ainda teve "Smile", canção definitiva de Charles Chaplin, que cai como uma luva em qualquer bom repertório que se preze, ainda mais se tratando de um repleto de hits clássicos.

Não quero falar mais do que o necessário, pois a apresentação ainda se encontra disponível no canal oficial da cantora no you tube (para quem ainda não teve o prazer de assistir). Logo, fica aqui a minha recomendação: a cantora está radiante e o conceito do show - dividido em 4 atos - como um todo, é sublime. Gaga canta, dança, grita, explode em fúria, apaixona, atiça o público. Não à toa é das artistas mais relevantes do atual cenário pop.

E fica aqui até um breve comentário extra de minha parte: ela deveria investir mais nesse lado da sua carreira. Desde que ela lançou, em 2014, ao lado de Bennett, o álbum Cheek to cheek, eu venho prestando atenção nessa faceta jazz band dela (que é ótima) e que tem chamado mais a minha atenção do que a sua própria carreira comercial. Que ela se arrisque mais em caminhos inusitados como este. Certamente, a parte do público dela do qual faço parte agradecerá.

Agora vão lá no you tube conhecer essa grata surpresa que fez eu ainda acreditar em festas de fim de ano!

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Memórias de uma criatura incrível


"Ele era uma criatura incrível", diz o ator Macaulay Culkin, astro de Esqueceram de mim ao final do documentário John Candy: eu me amo. E ele estava absolutamente certo. John Candy foi um ícone da comédia sem igual, até hoje sem sucessores à altura.

Uma figura bonachona e engraçadíssima, cujo estilo de interpretação marcou os anos 1980 (época de grandes humoristas e filmes que marcaram hollywood). E quando vemos os depoimentos de amigos e atores que contracenaram com ele ao longo da carreira - figuras como Steve Martin, Bill Murray, Tom Hanks e outras feras - é fácil perceber que nós, os espectadores, não fomos os únicos a entender o que ele tinha de tão genial.

O longa - dirigido por Colin Hanks e produzido por Ryan Reynolds - mostra Candy desde a infância, órfão de pai muito cedo, apaixonado por futebol americano (chegou a ser dono de um time da liga canadense), iniciando no grupo de teatro Second City e logo emendando em programas de tv que se tornaram populares com um enorme facilidade. Ele conseguia imprimir sua marca única em tudo o que fazia e seus colegas de elenco percebiam imediatamente seu faro apurado e sua inteligência ímpar. Daí para os longa-metragens norte-americanos foi um pulo.

E quem nunca assistiu, nem sequer um trailer, de Quem vê cara não vê coração, Antes só do que mal acompanhado, Jamaica abaixo de zero, Quem é Harry Crumb? e S.O.S. - Tem um louco solto no espaço, não é cinéfilo de carteirinha e não faz a menor ideia do que está perdendo.

O filme também mostra a luta de Candy contra a depressão e o estigma de permanecer gordo em uma indústria que dita padrões e fabrica formatos sem pensar nas consequências disso para quem vive na pele o dilema. Me arrisco inclusive a dizer que foi um dos melhores trabalhos documentais que assisti nos últimos anos, sem soar piegas ou mesmo ecoando discursos exagerados sobre a fama e o estrelato. Ou seja: o que um bom registro biográfico deve ser.

Estou para assistir John Candy: eu me amo desde seu lançamento no Prime Video, mas somente agora encontrei tempo (do jeito que eu queria) para apreciá-lo do jeito certo. E recomendo, principalmente aos fãs de comédia, saudosos de um humor realmente engraçado e não tão apelativo como o dos dias atuais. Fica a dica. E que os serviços de streaming trilhem mais este caminho, ao invés de perder tempo com blockbusters chatos e franquias vazias e sem carisma algum.  

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O cineasta das relações humanas


2025 está bom de terminar mesmo! Foi muita pedrada pra um ano só.

Primeira notícia que leio na internet hoje me deixa chocado e fico sem acessar mais nada por algum tempo: o cineasta Rob Reiner foi encontrado morto dentro de casa junto com a esposa. Pior: tudo leva a crer que ele tenha sido assassinado pelo próprio filho. Mal digeri direito a partida de Gene Hackman e outra tragédia se abate sobre hollywood envolvendo um grande nome do cinema americano. E justo um cara tão gente boa como Rob!

Rob Reiner não era um diretor de épicos monumentais, filmes caríssimos, de orçamentos estratosféricos... Não era o tipo de artista que se envolveria em projetos como Avatar, longe disso! Mas quando se propunha a dirigir era o retrato do homem que sabia fazer o básico sem rodeios e de forma encantadora (algo que anda em falta na indústria de cinema norte-americano).

Eu gosto de pensar nele como o cineasta das relações humanas. Seus longas estavam repletos de conflitos e embates inebriantes. Fossem eles entre militares, escritores e seus respectivos fãs, relacionamentos amorosos que a priori pareciam ter tudo para dar errado até que algo os colocava lado a lado novamente, etc. Ele sabia dirigir atores como ninguém e era memorável assistir suas produções.

Há muito do que gostar em sua filmografia: Isto é spinal tap (um mockumentary que praticamente inventou esse estilo de produção satírica), Conta comigo, A princesa prometida, Harry e Sally: feitos um para o outro (Billy Cristal e Meg Ryan como o casal mais anti-convencional do mundo), Louca obsessão (como esquecer de Kathy Bates na pele daquela leitora psicopata?), Questão de honra (como esquecer do tête-a-tête entre Tom Cruise e Jack Nicholson no tribunal?), Fantasmas do passado, Dizem por aí (uma quase continuação de A primeira noite de um homem), Antes de partir (para mim, seu último grande filme, com Morgan Freeman e Jack Nicholson se despedindo da vida através de uma lista de "últimos sonhos").

E não somente atrás das câmeras. Reiner também foi um ator pra lá de produtivo e participou de importantes produções como Tiros na Broadway (de Woody Allen) O lobo de Wall Street (de Martin Scorsese), Cine Majestic (de Frank Darabont), Lembranças de Hollywood (de Mike Nichols), Jogue a mamãe do trem (de Danny Devito) e até mesmo na série sessentista do Batman com Adam West e Burt Ward (sim, aquela que era exibida no SBT).

No fim das contas, a imagem que me fica do diretor é o daquele tiozão gente boa cujos filmes volta e meia apareciam nas sessões da tarde na Rede Globo, entremeados por uma ou outra produção mais sofisticada ou ousada (para os seus próprios padrões). Ao pesquisar para escrever este post descubro que ele quase dirigiu Um sonho de liberdade, com Tim Robbins e Morgan Freeman, baseado num romance de Stephen King, um de meus filmes preferidos da vida. Na mesma hora fiquei curioso, dizendo em voz alta: "eu gostaria muito de ter visto essa versão". Infelizmente não foi possível. Como também não serão novos filmes dele. Uma pena.

Rob, fica com Deus! Você era uma voz mais do que autêntica dentro de um mercado cinematográfico que, ao contrário de você, se perdeu na estrada. E a sétima arte vai sentir muito a sua falta. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Que lista execrável!


Toda vez que eu posto aqui no blog sobre literatura e mercado editorial eu preciso lutar contra a minha própria sanidade. E nesse final de 2025 não foi diferente. Após ver a lista dos livros mais vendidos pela Amazon durante esse ano, eu percebo dia a dia o quanto o leitor brasileiro se esmera por ser pobre (intelectualmente falando).


Vamos à lista antes de qualquer outro comentário:

Do dia para a noite, Bobbie Goods

Dias quentes, Bobbie Goods

Café com Deus pai, Junior Rostirola

Verity, Colleen Hoover

A psicologia financeira, Morgan Housel

A metamorfose, Frank Kafka

A hora da estrela, Clarice Lispector

Isso e aquilo, Bobbie Goods

Hábitos Atômicos, James Clear

O homem mais rico da Babilônia, George S. Clason


Mal termino de ler a lista e minha frustração toma conta da sala (estava vendo a relação sentado no sofá, pela tela do meu notebook). Imediatamente salvo meus únicos dois exemplares viáveis: A metamorfose e o irretocável A hora da estrela, da sempre magnífica Clarice. E quando leio a frase Bobbie Goods três vezes, tenho a imediata certeza: estamos fodidos e mal pagos.

Sempre desconfiei do leitor brazuca. Ele, na maioria dos casos, desdenha de nossos grandes autores, não faz a menor questão de conhecer nomes como Machado, Graciliano, Lima Barreto, Nelson Rodrigues, Autran Dourado, Castro Alves, Drummond, isso quando não chama um ou outro literato do passado de "doutrinador", "machista", "pervertido", "imoral", etc etc etc, em nome de uma suposta "moral e bons costumes" que não passam de frustração verborrágica.

Somos uma civilização de enxeridos, fofoqueiros, debruçados em telas de celulares enquanto fazemos caretas e bisbilhotamos a vida dos outros (de preferência, os famosos fúteis do cotidiano pop star). Contudo, vislumbrar ano após ano o desinteresse latente do próprio povo por sua literatura ou por grandes nomes da literatura internacional, é de doer.

Passei minha vida correndo atrás de autores como Umberto Eco, Shakespeare, Alberto Moravia, Dostoiévski, Jorge Luis Borges, Tolstói, Tom Wolfe, Truman Capote e cia. e hoje me deparo com uma geração que se perdeu na idiotice humana produzida por uma internet que só faz jogar uns contra os outros em nome de uma popularidade e uma fama sórdidas. Triste, viu!

Que acordemos o quanto antes (e eu sei que esse é um pedido já velho e repetitivo de uma parcela da sociedade lúcida que não aguenta mais tanta vergonha alheia e más escolhas - parcela da qual sempre fiz parte, desde meus 10 anos, quando descobri o poder por trás dos livros) desse imenso marasmo intelectual e do que se tornou a sociedade nas últimas décadas. É preciso abolir urgentemente essa mentalidade fast food ou Prêt-à-porter do mercado, que transforma tudo em consumo rápido e fácil.

Literatura não é sabão em pó, muito menos um liquidificador ou uma motocicleta, logo não deveria ser tratada como tal por quem deveria transformá-la num artigo transformador (principalmente para as próximas gerações, que mal nasceram ainda e já são parte do problema, já herdam o aspecto deficitário desse cenário). Dito tudo isto - e após ler novamente a execrável lista - oremos. Por dias melhores. E que eles venham, rápido. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

E eu que achava que já tinha acabado!


Saiu nessa última semana a notícia de que a MTV, agora pertencente ao grupo Paramount Skydance, encerrou suas transmissões em vários países, incluindo o Brasil. Gente chorando, falando em "fim de uma era na televisão" e eu pensando cá comigo enquanto lia a matéria num site de notícias da cultura pop: "ué... eu achei que já havia acabado, faz tempo".

Não digo isso em desmerecimento ao canal, de cuja geração fiz parte. Era (ainda lembro como se fosse hoje) inenarrável voltar para casa depois do colégio e assistir àquela emissora que exibia os videoclipes. Através dela conheci grupos como Extreme, R.E.M, INXS e descobri minha paixão por Whitney Houston e Deee-Lite. Quem nunca viu inúmeras vezes os clipes de 'Freedom 90', de George Michael e 'Money for nothing', do Dire Straits, não faz a menor ideia do que perdeu.

Além disso, era mágico assistir aos shows e entrevistas com os artistas do momento, confessando seus gostos e escolhas de carreiras. A MTV era o complemento musical natural de quem ouvia estações como Transamérica, Rádio Cidade, 89FM e Jovem Pan. Contudo, como tudo de bom que já surgiu na história da cultura pop aqui no Brasil, ela também foi pro ralo.

Com o surgimento do You tube acabava a exclusividade da emissora em exibir clipes e divulgar o mercado fonográfico e isso só fez aumentar com o advento de streamings como Spotify e Deezer. Logo, a MTV precisou transformar sua programação. Resultado: infelizmente, ela se tornou uma emissora como qualquer outra, repleta de programas ruins e personagens canastrões.

Os VJs começam a perder espaço para humoristas completamente sem graça e apresentadores sem o menor critério ou formação no que quer que seja. Aderiram ao execrável formato dos realities e entupiram a grade de um tipo de programação que só fez com que a alienação fosse legitimada dia a dia no audiovisual brasileiro.

Quando as transmissões nacionais chegaram ao seu desfecho em 2013 eu já não assistia o canal há pelo menos 5 anos (provavelmente mais, não lembro o período exato em que larguei a mão). E agora, 12 anos depois, um novo baque, o derradeiro. Entretanto, é preciso perguntar: do que sentirão falta os espectadores da MTV? Da original, nostálgica, repleta de boa música, dos Acústicos (ou Unplugged, como chamavam nas gringas) ou das baboseiras regadas a humor ruim, namoro na tv e canastrões posando de moderninhos e cults, que migraram depois para outras emissoras, exportando a canastrice e piorando a qualidade televisiva?

Aposto que ao final desse último parágrafo vai ter muita gente me xingando, com raiva, porque só conhece o lado pobre e chulo da tv nacional. Sorry! Nem todo mundo gosta disso, não importa quanto ibope isso gere!

Em suma: a MTV acabou de novo. E dessa vez parece definitivo. Uma pena, principalmente para quem aprendeu a gostar de música com eles. Afinal de contas, o nome da emissora era Music Television. O que não dava era pra permanecer produzindo tanta babaquice. A lucidez pode até ter perdido a batalha para a idiotice. Já contra o poder capitalista, são outros quinhentos... Que descanse em paz!